A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Visão Fugaz

Às vezes acordo disparado entre o sufoco e o vil vazio
E dou por mim arrependido por não te ter dito a verdade
Do olhar, a sombra quebrada na esquina, quilha de navio
A mesma luz que ilumina também é capaz da escuridade…

Assim tipo bala de canhão humano feito um arco e até rio
Ponte entre margens por desenhar na topografia da idade
Sulco na pele a rasgar o desalinho das velas e seu pavio
De brilhar aceso na escuridão das ruas e vielas da cidade.

Negrito
Instante que sucumbe ante o flash da memória que resiste
E abriga todos os quereres que calados nos dissemos sós
Sem mais ninguém a quem nos socorrermos além de nós;

Que a vida e a solidão nada têm em si que seja tão triste
Como esse risco de abrir os olhos perante o silêncio atroz
E
ver que ver é só momento e o instante que não persiste!

sexta-feira, janeiro 28, 2011


Sob a Alegria Retornemos Ancestrais

1.

Espraiam-se alongadamente inquietos no meu chamamento
Enquanto cresce a distância de teu discreto e silente sentido,
Nas esquinas pródigas acendem-se à luz do amor desmedido
Em labaredas de silêncio amplificado nesse puro sentimento
Que é a ternura dos verbos entre os seus substantivos acesos,
Os teus olhos medindo dúvidas e esgares inflamados possessos
Da alegria, no à-parte da voz que diz seu próprio contentamento…

E di-lo calando na indecisa sombra a conjugação perfeita da cor
Das tuas vestes pelo creme da acinzentada espuma da areia fina
Ao grão ímpar dessa clepsidra que escorre a espera do botão à flor,
Que a vida lança seus ramos, enleia suas teias na orla que ilumina
A seda esguia da tecida intenção de colher frutos nos lábios fiéis
Em que o sonho cresce a realidade se implanta contra os ouropéis:
Eis a tua grandeza de mulher naquela silhueta de crescida menina!


2.

Digamos sempre o ponto sobre o ponto do grão preciso na reta linha
Que a costura nos sobra nas formas exemplares como quem respira,
Pois entre os arcos frios e gélidos das arcadas ímpias ainda se aninha
A lúcida serenidade dum sentir que se diz em gestos da luz que aspira
A ser apenas luz do verbo no som da sílaba viva e fugaz e tão decidida
Que os seus raios são só os vinte e um braços abertos na roda da vida.

Esta que gira em torno do eixo da voz a dizer caminho no cimo do outeiro
Onde o azinho da cortiça virgem algema de verde seu grito de liberdade
Que espelha em cada folha de húmida tez o luar do rosto neste Janeiro
Que sendo primeiro é também o mês da tutela dos deuses pela divindade…

Ante a nobreza felina que dilacera a mentira, a maledicência e a vil inveja
Como quem quebra aquele vaso insano e furado sem préstimo para nada
Com que carcomida palavra se aduba no preconceito e sobre nós despeja
Sua peçonha nojenta, apenas seremos voo e reflexo de sua seta dourada!


3.


Assim erguidos girando numa dança onde mil véus balanceiam só ilusão
Mostram e escondem os rostos subtis na miúda máscara sob a nívea tez
Que o mel lava pela íris em frincha de um felino em salto de caça, siamês
E gémeo deste querer recatado represo e plural de dois num só coração…

E que voando como dardo nas sigilosas alturas se vê como apenas tu o vês
De tuas palavras o meu ser, teus olhos a minha luz, de teu não o meu não
De teu sim o meu sim, teu prazer o meu sentir, teu bem-estar minha intenção
Sem mágoa nem arrependimento, é essa a glória de sempre na primeira vez.

Que onde a alegria do instante perdura mais que o suporta a vulgar eternidade
E o tempo rompe as fronteiras do sequestro entre os mostruários da redondez
É que nasce a flor que roda e rodopia edificando o brilho da mais pura claridade

Da mais pura ousadia, aquela que estende veios ao sangue na doce languidez
Transpirando na conspirada entrega dos deuses à sua Deusa única verdade
Posta sobre os altos montes a brilhar iluminando em seu carinho a humanidade!

domingo, janeiro 02, 2011


Flores de Chocolate…

1.

Ainda guardo, na gaveta superior, a fita dourada
Que vinha a jungir com laço a condizer, a caixa
Da prenda, que pelo Natal me deste, ao sol-pôr
Junto com a Aliança Velha de nossa endecha,
Igual àquela que fora cálice a cálice celebrada…

Tenho para mim que hei de usá-la por marcador
De leituras, nos ensaios e livros de cota baixa
Que é onde o chocolate da ternura se precisa
Que só da filosofia e ética ninguém terá queixa
Quando a lógica fria, aguda e sisuda, está incisa
Daquele soletrar adocicado pelo morno sabor.

É porém possível, que num qualquer outro dia
Eu venha a reconhecer esse aroma numa flor




2.

Gota a gota a plena água da doçura breve deleita
O palato que no céu a língua toca em melaço escuro,
Todavia mais que ao mar dessa calda negra desfeita
Meu ser navega em busca do colo em porto seguro...

Ouvem-se farrapos de nuvens no azul que espreita
E seu branco é de lã sem mágoa, níveo de tão puro,
Como se ditos na voz dos avós que na alma eleita
Seus ninhos constroem de loureiro, azevinho e ouro.

São acenares de fica mais um pouco, se puderes, ‘tá
Não demores nunca as ausências além de um instante
Que o breve é longo pra quem te espera do ainda ao já;

E mais que a nobreza da flor flutue na maré constante
De ir e voltar, balançando no vaivém dum manto grená
É a esperar-te que estou e fico, onde quer esteja e… vá!

segunda-feira, novembro 15, 2010

Febril Brecha na Alma


Escuta esta ausência que fere
Meu grito escrito no cuneiforme desolado
Magoado lamento de quem te prefere
Mais que ao ter, ser que quer
Ser se este for estar – do teu lado.

Esta febre que rasga e inquieta
Subtrai, aprisiona, pisa, dói, manieta
Incendeia e crepita noutra pepita da Lua-Meia,
Que muito além do que é comum e vulgar
Anda hoje a crescer de nuvem em nuvem
Assim, como quem no luar toda se enleia
Na teia solta e rebelde do teu cabelo cor de aveia
Madura, espiga na brisa de margem a margem
Ondulante até na areia dos dias apenas restar
Essa espuma de estrelas a sorrir e a brilhar
Ante o suspiro esvaído da fria aragem
Da distância, abismo brunido da minha ânsia...

Porque a dor polida pela saudade sentida
Tanto pode no doer como qualquer adaga afiada,
Que a vida no gume de uma corda estendida
Esticada, sobre o abismo do ser é a única medida
De aferir a brecha na alma partida – ao ser quebrada!

terça-feira, outubro 26, 2010

Cordão de Luz e Memória


Por essa linha fora, nesse registo
Em que o olhar se demora
Existo, na nesga celeste que o horizonte,
Qual fita azul que ao azul do céu fita
Distante, no longe da longínqua fonte
De quem sob a fronte se debita
Data infinita já desde o imediato agora
Até à Lua Cheia da humana História?

Eis, portanto, quem nasceu feminina nas dezenas
E mulher nas unidades, a que entanto
Se somados seus ícones na clave das serenas
Estrelas de oito pétalas ao octívago manto
Casulo arquitectado do perfeito eremita, poeta, santo
Capaz de nada como de muito, do pouco como do tanto,
O rubro rubi que ao aceso das almas amenas
Acalenta e aninha a palha dourada da luz crua
O cabelo de Verão das espigas maduras nas searas pequenas
Ao Outono da noite como um grito da Lua...

Oito deitado na dezena do ano, do segundo milénio
O génio do olhar que se alonga secreto até ao infinito
Mais que um remo que ruma é tão-só o silêncio do grito
Que calado se agiganta a arder na garganta
E rebenta na lava que lava e casa com a liberdade
Ao repetido anseio do esteio outonal da eternidade,
Num breve instante cujo ponto de vista
É mais distante quanto adentro alcança – e avista!

Selo de Arina que a brilhar destina ver
Da janela do ser a plenitude na profundidade,
Inventa o silêncio que conflui dizendo o saber
Esperar, aqui, Foz Inequívoca da Luz Incisa Paz na Alma
Fulgente à Íris Lavada no Ínclito Pleito da Aurora calma
A edificar brasão e flor se aninha na lídima cavidade
Do cálice onde estremece o néctar da vida feita seiva terna
Que o desejo é apenas outra realidade que se faz eterna.

Por essa linha imaginada, plana e plena
Em que os factos dependurados a secar
Buscam sua foz na voz serena
Almofada cósmica dos sonhos, como alfazema
Amadurecendo sob o amanhecido Luar.

Dia 26.10.2010, às 06:20 horas


(Ilustração: fotos de/e quadros de Filipa Brasão Antunes)

sexta-feira, outubro 08, 2010

Soneto da Gratidão


Com cinco dedos que o Noddy ergue ao céu e saúda
No celeste azul da pasta que ontem gentil me deste
Onde guardo as mais queridas canetas de escriba
A quem a escrita superiormente arrebata que ajuda
Neste presente em que o futuro é só mistério agreste
Estremeções do mole coração que assim vai arriba,
Eu te saúdo também, néctar de ambrosia silvestre
Alimento dos deuses que de tanto quererem bem
Imaginam, até que em imaginados seu ser se ateste;
Muito inspiram este mestre, que não ensina ninguém...

Excepto aquilo que ele próprio por si e de si aprende
Deambulando de flor em flor, cujo pólen aspira
Que à dor e morte apenas o amor vence ou defende
Do veneno e preconceito e medo em que ela o atira!



quinta-feira, outubro 07, 2010

Bandeira Natural Sob os Flashs de (M)Arina

Da lama da alma clamo na alameda dos álamos
A alquimia do olhar aceso à chama que ilumina
Enlevada calma enleia-me quando aludes a lidos
Acordes que acordam laivos de sonho na alegria
Ver-te aqui, entre as flores deste jardim escondido
Algures, lá onde as casas encontram suas portas
Mil, pelo menos, esculpidas como nichos de luz
Socalcos de cores no botaréu da escurecida noite
Amolecida, branda, breve liana de balancé o verbo
Oscila redondo e dito na ditada amálgama do ser
Diluído alento esse de esperar nas frinchas sólidas
Arejadas frestas da solidão onde o pequeno anuro
Desafia o sol sobre a rubra polpa da pétala veludo
Felpudo de ver, imaginar e não profanar ao toque
Como acaso feito símbolo que cresta iludida mente
A alivia do seu intrínseco desterro visceral emotivo
Que motiva quanto prende, e liberta quem entende.


Eis aí o secreto deleite do verde ser sobre a rubra capa

Que onde a esperança alcança o grito nasce outro mapa!
(Fotos: Zélia)

quarta-feira, setembro 29, 2010

Das Picadas das Silvas

Tal como há espinhos que dão flor
Também há silvas com frutos de igual cor,
Sim, como aliás em todas as histórias
A emergir dos nublosos enredos do passional...
Mas isso, é o mesmo que gostar de amoras:
Umas vezes, como-as assim, frugal;
Porém, outras vezes choro-as
– Ou deito-as fora.

Pois se do corpo são, lúdica é a pertença
Da alma que em vão se acenda,
Então, que o amor faça da vulgar indiferença
Outra, que não mais outra pura e remota lenda!

sexta-feira, setembro 10, 2010

a redistribuição da ordem e conhecimento


Era uma vez um escriba escolhido por Inanna no seu coração sagrado
Escolhido na pátria de Gilgamesh por Shara no seu coração sagrado
Escolhido no jardim de Arina por Shara e Inanna e seus corações sagrados
Escriba a que foi confiada a missão de relatar toda a verdade só verdade
Que é o tempo primeiro de todos os tempos e logo seu tempo original
Aquele tempo em que as horas eram só aprendizas das mestras de Shara
E iniciadas e oficiais do Templo de Inanna como do seu coração sagrado.


Se no banquete em honra de Enki Inanna lhe usurpou poderes divinos
Os sete sábios de Eridu viram ser essa a vontade de Arina e a seguiram
Igualmente Enlil guardião do fogo, o ferreiro sem igual de Sippur veio
Uruk tem agora como Bad-tibira a sua forja e centro da ordem do mundo
Eis que os sábios que transmitiram o saber a toda a humanidade imploram
E a três será concedida residência nos Templos de Shara por seis meses
Seis meses passará cada qual em cada um dos seis Templos de Shara
E outro mesmo sucederá com tantos três por cada dos Templos de Inanna
Que igualmente seis desde Uruk a Mari a comprido do reino de Gilgamesh
Mas o sétimo é Enlil ficará sempre no Templo de Arina no zigurate de Uruk
Até que esta o requeira na pira para lhe alimentar o fogo e há-de sarar todos
Há-de sarar conforme os preceitos de Inanna como segundo os de Shara
Porque sendo o sétimo sábio dele é a chave da porta vida e abrirá ou fechará
Enquanto obedecer à ordem do mundo e mais não é do que vontade d'Arina
Cujo mandato foi distribuído por Shara e Inanna sendo essas vontades Suas
Inanna que é a grosa da Lei das Doze Tábuas e logo a multiplica de si para si
E Shara que é a grosa da Lei mas apenas a divide de si pra todas e pra todos
Que só assim cada um será igualmente parte divina e comungar com Arina
Arina é fogo e é afecto e calor de Inanna que é Amor nos cálices de Shara.

Uruk a cidade das deusas e residência das rainhas protegidas e fiéis de Arina
Reino de doze distritos e trinta e seis ensi e cento e quarenta e quatro domínios
Mas de um só en a quem todos e todas veneram e respeitam por Gilgamesh ser
E pagam tributo todos os campos e todas as parcelas pela lei dos doze avos
Conforme o desejam dignitários e dignatárias donos dos campos de lavoura
Conforme o desejam os homens livres e escravos dos campos de subsistência
E assim o quer e acata o chefe de boi e todos os escribas do reino de Uruk.

Assim o querem e acatam os escribas na Eduba entre o Templo alto de Inanna Entre Templo alto de Inanna e o Templo baixo de Shara é a casa das tabuinhas
É Eduba a casa das tabuinhas e escola dos escribas pensativos e jubilosos
Assim o querem Ummia pai da escola e professor especialista sábio desta casa
Especialista em mitos e epopeias, hinos e lamentações, fábulas e provérbios
Director de todos os irmãos grandes ou professores assistentes e vigilantes
De todos os vigilantes e encarregados do chicote e encarregados da presença
De todos os filhos da escola seus pupilos e aprendizes diligentes e esmerados
Que hão-de ser os guardadores das memórias e contadores dos bens de Uruk
Súbditos fiéis dos templos das deusas e rainhas e vassalos de Gilgamesh
Senhor de Uruk e escolhido por Inanna e por Shara e seus corações sagrados.

segunda-feira, agosto 30, 2010

discurso da Mestra de Inanna na Assembleia Maior do templo


Se gasta em Tebas com a morte seis vezes mais do que à vida faz falta
As viúvas e órfãos de Uruk são superiormente valiosos aos fenecidos
Não há de Uruk a Acad, de Shubat-enlil a Kalá nenhuma alma defunta
Nenhum ser vivente ou das profundezas que renda culto A Deus Arina
Nenhum pode esquecer que a Luz é Amor e por isso Inanna A acolhe
Que a fecundidade honra e por tanto enche o cálice donde brota a seiva
E essa será de ora em diante a palavra de Shara que há-de apagar Isis
Porque onde Tebas faz gerar a morte Uruk elegeu o seu nascer celeste
Assim as Sharazades que são mestras e oficiais de Shara hão-de fazer
Porque estas foram as vozes e os cantos de Inanna que soube escutar
Que A Luz é cor que nos segreda a voz de Arina pelo sofito do templo
Recebe o Sol que fecunda o crescente alagado das almas devotas à flor.

Se os pequenos dilúvios de Abril e Maio fertilizam os vales do crescente
Se em Abril o Eufrates faz gemer seus sucos sobre as terras das margens
Se em Maio o Tigre rebenta seus limites e os alaga de Ninive ao Kerkha
É porque A deusa-lua Shara permite embeber-se d'A Luz de Arina a sábia
O primeiro seis do cosmos e da vida que é o conhecimento da deusa-mãe
E Inanna o segundo seis sua filha que lhe é devota e cuja sabedoria copia
Como de Shara sua neta e terceiro seis e na soma resulta A Deus Infinita
Porque dezoito é a dúzia mais a sua metade que é perfeição de si mesma
Como a grosa é a multiplicação de si por si e símbolo de A Deus na vida
A vida que tem quatro partes visíveis que comungam o cálice de Shara
Como também tem quatro partes invisíveis e escondem A deus nas trevas
Que o oculto é o culto onde se tece e entretece o destino das almas de Uruk
Incluindo a de Gilgamesh a quem devemos honrarias, fortuna, vassalagem.

E A Luz do conhecimento é Aquela que reflecte Arina e Esta é apenas Vida.

E eis que assim respondeu Mestra de Inanna ao pedido de Mestra de Shara
Mestra de Shara agradeceu e reverenciou com as mãos juntas sobre o peito
E as seis Mestras dos Templos de Arina anuíram em coro por Namasté dito
E as seis Mestras dos Templos de Inanna anuíram em coro por Namasté dito
E as seis Mestras dos Templos de Shara anuíram em coro por Namasté dito
E as oficiais participantes presentes na Assembleia Maior juraram cumprir
E todas juntas juntaram enfim as mãos sobre os peitos e cantaram pra Arina
Arina a todas ouviu como ouviu Inanna como ouviu Shara e selou o acordo
E então a partir desse acordo nasceu a Lei que há-de ser a Luz da fala eterna
E boca de cada Sharazade o cálice divino a há-de derramar aos quatro cantos
Por mil e um anos que viva Gilgamesh e reine em Uruk assim será sempre.

sexta-feira, agosto 27, 2010

lenda da origem do firmamento


Ainda rendo gosto às palavras indizíveis por dizer assim inauditas sejam
Malévolas e insubmissas e infiéis espartilham os devotos, os atam ao tempo
Pertinazes os atiram ao fundo de si mesmos sem reserva nem contemplação
E lhes vociferam e estilhaçam a alma solta em cada sílaba incendiária agreste
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa afiada e acutilante
Essa igual que acaricia as frondes das acácias no fustigar da rama superficial
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar que intenta romper os limites
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado apontando linda ao infinito
Na paisagem os dias sob a paleta das vozes íntimas se fizeram inseparáveis.


São para ti na erosão corrosiva dos sentidos todos os minutos crucificados
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta perante as distâncias
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis a cujo culto brando
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso pende e oscila enredos
Longe e desesperado de tão próximo, próxima aproximo a ansiedade máxima
Eis os lábios, nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua a gritar estrídula.


Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra de tender o arco da voz
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo numa manobra fugaz
Sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear equíneo do felino salto
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta e sem remorso
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós até à solidão palpável
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo que prolonga o infinito
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro sentido do signo
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos no mais-que jungidos
Se conjugam e aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade fulgente
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca e ecoam, ecoam
Ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, e-cooo-aaam...


Eis por que eis o porquê do laço nos une sobre a cruz do peito as mãos juntas
Alicerçadas no elo esfíngico de aglutinar o verbo inicial primaz inconformado
O que encerra todos os indizíveis ainda por dizer ou que ditos calmos urgem
Vogam na celestial aspereza da lonjura inominável – eis o sonho, eis Arina –
Eis o porquê de que por eis se manifesta presente o futuro no passado profundo
Ancorado sem contornos definidos está o nome, aquele que pronunciado ousa
Invoca a eternidade perene e duradoura do sentimento esculpido a golpe de asa
Que não desfalece e solto volta ao princípio dos princípios esvaindo-se meigo
Até ao delta da voz primordial como se a luz nascesse de si própria em si outra
Luz renovada essa a anunciar paixão cometida do silêncio exige conhecimento
Abrigo da foz ao ciciar do desejo incontornável dos corpos unidos pelos vértices
Abertos e plenos à entrega final sem parangonas desmedidas ou esquecimento.


Porque épico é o abraço na distância de morder o tempo, assim lesto se apronta
Abocanhar o laço de que a cruz é nó e sinal e sustento e verbo e nome indizível
Sustenido inconstante de dizer-me Aqui, eis-me pronto perante tua boca acesa
A receber-te plural na infinita agitação da espiral dissolvente entre significados
A que joga os pedaços de mim e de ti aspergindo o cosmos, estrela a estrela,
Estrela a estrela, pestaneja breve e repentina, eis a flor na onda o mar de Arina.


Eis que assim falou Mestra de Shara à Assembleia Maior no Templo de Inanna!

quinta-feira, agosto 26, 2010

as libações da espera meditam comigo


Com o destino traçado pelas vinte estrelas de Tique me disse Dice
As rosas, lírios, violetas, íris, jacintos e narcisos atapetam-lhe o chão
E cré com cré, lé com lé, nos losangos do centro do corpo humano
Coração e ventre nos vértices se unem, ondeiam, oscilam e dançam
Com precisão imaculada o fumo serpenteia a evolar-se das fornalhas
Enquanto na cella espero instruções da Mestra Sacerdotisa contemplo
É maior o meu respeito se na libação executo o mister da concentração
Recatado estou perante ti, ó divina feita mulher por cuja sede me meço
E teço exemplo sem ilusão mas que com a arte exímia exerço e adestro
Que a honra seja trinta e seis vezes superior à de qualquer outro escriba
Pois servir-te é merecer teu afago e desfrutar de tua vista e fala e sentir
E estar enlevado na partilha do fumo celeste pelo mesmo bocal leonino
E saber a luz que há na voz e escutar teu canto pelas minhas argilas lido
Minhas placas de alabastro esculpidas no estilete do rigor de tua ordem.

Quando a Lua cheia de teu nome transforma o sonho em vida real o rio
Devolve ao céu a tua silhueta de alambre e ambrosia que nele mais és
Mais ondulas e abrilhantas espigas e cintilas nas verdes folhas da hera
Essa que teceu a rede onde foram aprisionados os titãs primitivos infiéis
Masmorra dos descrentes a quem nunca será dada honra de argonauta
Nunca poderão negociar nem viajar entre o céu e a terra nem venerar-Te
Mesmo que suas raízes nasçam nos témenos que sejam tua propriedade
Pois nunca delas a flor brotará nem o ciciado murmúrio das ocarinas
Eflúvios chamamentos suspirados entre sonhos do mel apreciado bebo
Sorvo lânguido do bocal sobre o qual antes teus lábios disseram prece
E nada fica agora que obstrua a cristalina seiva do ser no libado vigor.

Estrela Inanna ladeia teu sucumbir perante a luz de Arina se amanhece
Porém não há batalhas divinas mas respeito e contemplação ordenada
Que quando Arina elucida todas e todos, ar, fogo, terra, água obedece
E lúcida é a alma que sabe e reconhece ser seu mister e a quem pertence
A voz rasga os véus e sopra vontades aos ouvidos acautelados e fiéis
Que ao oficio de dizer é inerente o acto se a fala no nome apenas se exala
E inala Inanna os eflúvios do meu pote enquanto espero se Shara chama.

A chama que é Shara e aquece o Lar pernoita também quando Arina dita
Sua cor aos quatro cantos do mundo pois o canto é luz de quem acredita.

quarta-feira, agosto 25, 2010

a trindade celeste no corpo terrestre

O crescente é fértil porque os campos estão alagados entre colunas
A benção de Inanna trouxe o húmus e o sumo sanguíneo do delta
Desde o golfo até Amorrou, de Eridu a Mari, de Ur a Assur, de Susa
A Samarra respira agora a luz de Arina e exala Shara a frescura verde
O doce aroma de seus seios amadurece os figos e brota mel nos frutos
As tamareiras estenderão seus cachos no penteado das palmas viçosas
Há a prontidão luminosa da esperança que se renova no cilindro oco
O ser irrigado pelas levadas subterrâneas exige finalmente o corpo
Encorpado das espigas que ondularão prenhes seu murmúrio ao chão
Eis o selo do Templo de Shara, a divina feita casa onde a família gera
O tempo não envelhece e as estrelas tocam címbalos e argilas ocas.
Cinco salas mais a cella onde habita a mestra sacerdotisa em redor
Círculos bases do mundo e sustentáculo das estrelas no equilíbrio Seu
O céu recolhe os ramos frondosos da árvore sagrada e a vida floresce
Deixa cair as pétalas e odor e silêncio e luar sobre as esquinas de Uruk.


Treze são os turnos de culto daquela que os escribas veneram de noite
Prestam culto de dia quando rendem adoração A Deus ilumina a Lua
Que esse é o seu selo que o Eufrates espelha se plano escorre de prata
Porque os rios são as pernas divinas entre as quais floresce o nardo
A semente fecunda o ser e bebem a seiva as raízes da árvore da vida
Cujo fruto rebenta as águas e provoca o dilúvio benfazejo de nascer
Todos os dias Arina nos concede o milagre e cumpre os votos tidos
Que devotos são todas e todos se respiram seus passos à luz templária
Quando Inanna caminha no céu traz o crepúsculo até à leda aurora
Que são gémeos e pastoreiam as constelações congeminando vinganças
Incestuosas intenções há no templo entre fiéis irmãos do mesmo culto
Assim o escriba e a deusa se enlaçam no verbo que completa o nome
Assim é nomeada Inanna quando cantam as oficiais de Shara olham
Arina e tecem a sede com suas bocas de querer a sofreguidão heróica
A épica senda está enfim cunhada no barro de seus corpos que é casa
E casa é templo e alma e cella que a estrela habita quando se demora
Quando vê entende a plenitude da palavra é desejo e posse e entrega
E dádiva e luz e caminho e grito pálido e branco em flor das noites
Os dias são seus pilares redondos e esguios de torre caleidoscópica
Zigurate natural de quantos procuram e aspiram regressar ao ventre
Não esquecem o abraço da deusa-mãe que aquece as horas e dita luz
Sobre a eternidade dos sagrados pastos que alimentam toda a alma
Que Arina é luz e esta está nos olhos que se alargam até ao infinito
Que Inanna é seios de onde escorre o néctar da vida e o mel da sede
Que Shara é cálice onde mergulha a voz e o canto do sonho em flor.

Essa é a trindade celebrada quando as mãos se juntam sobre o peito.
Namasté irmãos e irmãs que na vida se dissolvem em alagado delta
Que tocado no vértice com vértice ao seis torna um número perfeito!

terça-feira, agosto 24, 2010

as muralhas de Arina ondulam sobre o rio

Pelas margens do Eufrates acima a prosperidade floresce e reina
Agora de Uruk a Mari todos e todas prestam culto à divina Shara
Todas e todos veneram Inanna, como todos e todas adoram Arina
E Gilgamesh está na primeira fila dos seus templos entre devotos
Homens livres, subalternos e escravos são seus pares na fidelidade
Que pelos sofitos bebem a mesma luz por onde ecoam as vozes
Cânticos moldados pelos lábios, língua e palato das sacerdotisas
Música embala e dançam e ondulam como fumo oficiais e iniciadas
Sob o pretexto admirado das aprendizas e mancebos guebros gentis
Que assim ordenam A Deus e Inanna às gerações até ser eternidade
Que é o tempo divino que aguarda o tempo de Gilgamesh e nosso
Homens e mulheres seus veículos de percurso aos caminhos da luz.

Lugal Gilgamesh ensag querido do delta e além de Mari e Hassuna
Respeitado e temido em Amorru, Tauro, por semitas como por gutis
Dos montes Zagro até Sumer, de Acad até Subarru se perfila ante ti
Arina doce berço da luz e princípio de todo o universo e abraço fiel
Círculo de ternura e colo da natureza de gerações e A Deus dos deuses
Ampulheta do fogo celestial e cadinho de lava acesa no coração gentil
Mandou erguer seis zigurates para lhe renderem memória e honra
Rio acima o Eufrates a todos e a todas propiciará seus enlevados hinos
Que grande é o esplendor da gratidão aos olhos do cilindro universal
Aquele que é telescópio da alma sob o cone das mãos dadas e irmãs
Cinco com cinco dedos unidos sob os desígnios do Sol, Estrela e Lua
Porque prestar culto não é venerar nem adorar tem iguais sentidos
Ecoam liras, flautas e alaúdes entre as espigas douradas do Crescente
E já da deusa a voz incita ao meneio e abraço das danças seculares
Porém Gilgamesh se inclina de mãos juntas sobre o peito livre e justo
E ordena a todos os escribas veneração a Shara beijando-lhe o ventre.

E as ordens do seu Senhor são a regra e a forma do estilete hábil e são
.

sexta-feira, agosto 20, 2010

do culto épico e seus desígnios


Sete reis aqui tiveram seu desígnio real antes do grande dilúvio
Bem mais de mil anos cada qual engendrou os destinos de Uruk
Conforme as benesses de Arina primeira ternura do universo
A Deus que aquece a natureza e a torna alma de toda a eternidade
Porém nenhum teve fama e glória e nobreza par a Gilgamesh
Unificador de Kish e Uruk sob a tutela dos Três Templos Maiores
Que trouxe prà cidade as tradições e templos da Nippur conquistada
E do Templo a Shara me fez escriba vitalício devoto a sua mestra
Senhora das damas dignatárias que tecem e entretecem a Ordem
E a divulgam e ministram às aprendizas e iniciadas como ela fora
E aspiram ao poder dos números e veiculam esse mesmo poder
A seus filhos predestinados ensinam pois a verdade sincera deles
A dizê-la e a defendê-la por base no cálculo e código alfanumérico
Verdade preferida entre eles devotos inegáveis e incondescendentes
Que negam e abominam as dívidas como também toda a mentira
Porque ninguém aceita viver na falsidade nem A Deus o consentiria
Sequer saberemos como isso será algumas vez que ninguém o tentou
Ou sobreviveu a tal mundo e ficou vivo e são para poder contá-lo
Descrevê-lo a pormenor e detalhe verosímil sem a doença da loucura
Sem o descrédito de seu juízo o ter feito indigno dos ouvidos livres
Dos atentos e sensatos meneios dos velhos e curiosidade das crianças
Que eles são os olhos e ouvidos e boca e odor e toque da inocência
Transparentes e cristalinos como o Eufrates na hora de correr lesto
Como quando o Tigre se espraia viril na terra plana de suas margens.

E tão assim é grande o seu apego à verdade sincera e lúcida e audaz
Que a História do nosso povo é narrada em poemas e pedras votivas
Que o desejo épico mais que fé se faz querer que é palavra e acto
Todo um em si mesmo como o dignitário investido de sua função
Que tão digno é ele dela como ela o é dele não havendo destrinça
Como o signo é o significado igualmente visto um se vê logo o outro
E a natureza é A Deus como Arina é a natureza que Uma na Outra é
Assim caminha o escriba com sua arte que sem ela ele nunca seria ele.