A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quarta-feira, agosto 18, 2010

a Ordem de Uruk


Uruk apresta-se para celebrar o regresso do glorioso Gilgamesh
Mais suas hostes e os ilustres dignatários e dignatárias de Nippur
Entre os quais estão mais três oficiais do Templo de Inanna dessa
Uma cidade que também tem três templos maiores e mui respeitada
Igualmente eleitas a completar o séquito oficial do Templo de Shara
E seis será o seu colégio mas uma delas escolhida mestra entre todas
Que representará o templo perante outros templos e decidirá as Leis
As aplicará e falará por todas nos actos públicos a quem as assistentes
Farão compromisso de fidelidade e obediência e respeito e interpretação
E exercitarão as pupilas aprendizes na iniciação dos misteres do templo
Cujo nível é imediato ao Templo de Inanna que ao de Shara tutelará
E ambos fiéis ao Templo de Arina, Aquela que é Deus entre os deuses
Porque assim é a Lei como as luas seguem os planetas e estes o Sol
Estrela e centro e Ordem do Universo e assim será a Ordem de Uruk
Que sob o comando de Gilgamesh conquistou Kish e se fez par de Ur
Os dois impérios do crescente fertilizado pelo Tigre e pelo Eufrates
Fronteiras da civilização e da sabedoria entre os quais os homens
São livres e cultos e tementes A Deus e seus escravos os seguem
Imitam em tudo e os seguem na fidelidade que lhes é sagrada
Como sagrada para nós é a soberania de Gilgamesh na trindade
E este venera e adora Shara que adora Inanna que adora Arina
E assim é a Lei e assim será cunhada nas tábuas que a ditam
Tal como no Plano se ilustram agricultores e pastores e dignatários
Porque o escriba segue a Lei e é seu arauto e provedor e intérprete
Como o serão homem e mulher em cada família e em cada lar.

terça-feira, agosto 17, 2010

da benção de Inanna ao templo de Shara


É conhecido que de Eridu a Hadyi Mohammed e deste a El Obeid
Sempre minha família serviu os seus soberanos com dedicação
E todos os mancebos dela com seus escravos foram com Gilgamesh
Acompanham e pelejam agora a seu lado contra Agga de Kish
Sucessor de Emmebaragesi, porém sem a sua estirpe guerreira,
E faz hoje sete dias depois do sacrifício do grande touro a Inanna
Cujos adventos e profecias foram favoráveis à família e empresa
Pelo que Uruk conhecerá a glória vitoriosa em quarto crescente
Conforme vaticinou A deusa, à Lua apraz e Arina ordena ser
Que nada existe no mundo sem seu querer e parecer pois d'Ele é
Seu também somos que A Deus é a soberana dos soberanos até
Que o mundo nunca terá fim se o seu louvor houver em mim
E em vós seus misteres como houve em minhas irmãs e sobrinhas
A quem A deusa abençoou-o durante o sacrifício doneando-as
E hoje são iniciadas sacerdotisas capazes ao prazer da maternidade
Se comungarem juntamente com seus guebros o Sol de Arina
E maior mérito não há pra família nenhuma se livre em Seu culto
Como na minha houve e nela tem a glória seu canto por Inanna
Que consta ter repetido o nome do escriba em Nippur oito vezes
Durante os ritos sagrados e todos menearam as cabeças anuindo
De tão conhecido ser e bem-visto na assembleia e as sacerdotisas
Sobretudo pelas eleitas a oficiarem no Templo de Shara o mister
Que são três entre as mais formosas e aprovadas na iniciação tida
A quem minhas tábuas muito ajudaram e agora repetem os hinos
Todos os dias sem engano ou falsidade para agrado de Inanna
E Arina que são exigentes ao rigor da palavra na entoada devoção
E clareza na metáfora que à Luz proclama sua bem-aventurança
Que única é perante a eternidade além de tecer a harmonia do lar
Casa do corpo e alma da voz porque também a si deve significado.

E nelas está escrito que um dia de glória se celebrará da volta sã
Por cada mancebo sob o comando de Gilgamesh verti o sangue
Bebido foi do touro em cálices de prata pelas virgens iniciadas
Lindas que estavam em seus mantos de seda e tules ondulantes
Braceletes com pedrarias e colares e contas preciosas e diadema
Prontas a receber os brios enlanguescidos dos jovens sedutores
Professos cada um em seu ofício de servir com dedicado esmero.

Essa é a certeza que A deusa nos conta sobre a vontade de Arina
Porque dita oito vezes se torna inegável de aprendizas a oficiais
E os homens de quantas léguas em redor houver jamais contestarão
Pois além de temerem os ditames de A Deus também A querem
E crêem que só assim será cumprida sua prece quando lhes couber
Os desígnios e vaticínios invocados em seu favor por sacrifício
Quando iluminado que forem os seus caminhos possam cumpri-los
Por mérito e sem despeito ou contra-canto seja com que lira for.

sábado, agosto 14, 2010

o touro de Inanna


A vida próspera e afortunada de minha família renova-se
E Gilgamesh tem honrado todos os compromissos assumidos
Com meu avô que incansável ajudou Enmerkar a construir Uruk
E minha avó, sacerdotisa de Nisuh, esposa de Enmerkar e deusa
E ambos discípulos de Inanna, progenitores do grande Gilgamesh
Meu Senhor, que autoriza apascentar meus bois nos pastos reais
Me oferece o serviço dos seus escravos nas sementeiras e colheitas
E assim nunca me falta carne nem escasseiam nas tulhas cereais
Nem linho e lã, ânforas e potes, cestas e peles, frutos secos e mel
Mirra e rosmaninho, açafrão e sal, peças de alabastro e terracota.

Na última oferenda feita a Inanna, A deusa revelou-me que A Deus
Sim, Arina, vai ajudar Gilgamesh a derrotar Kish finalmente
E que essa vitória será derradeira e total, pródiga e promissora
E justa, fazendo de Uruk o maior Estado, maior ainda que Ur
Com quem desde Meskiaggasher temos diplomacia e comércio
Mantemos paz duradoura não obstante as vis intrigas de Etana.

Todos ansiamos por esse dia e o templo de Inanna está cheio
Ricos pastores trazem-lhe cordeiros e bezerros pra sacrifício
É abundante a dádiva dos agricultores nas tulhas dos cereais
E até os ricos negociantes também não têm sido nada avaros
Nada faltando às sacerdotisas nem às virgens aprendizas d'A deusa
Desde perfumes, iguarias e óleos cosméticos, pedrarias e ouros
Pratas e cerveja e leite e flores e sedas e brocados e sedutores.

À volta do templo pululam homens e mulheres nobres e generosos
E a minha banca de escriba teve que empregar mais dois oficiais
Um é meu familiar, porém o segundo é de uma família vizinha
Muito esmerado e competente, avisado e de cunhagem perfeita
Que ainda não quebrou nenhuma tabuinha de alabastro sequer
Tal é o seu cuidado e subtileza na grafia dos caracteres e sinais
Aplicação dos selos e manuseamento das cunhas e estiletes.

Será a ele que confiarei a condução do touro sacrificado a Inanna
Quando Gilgamesh pois é mau presságio ser levado por parente
Da família da dádiva com raparigas a serem iniciadas entre as virgens
Pois quem conduz o touro pode possuí-las se A deusa quiser e ordenar
Que a coragem e a força devem ser imaculadas como o sangue doado
Se o touro for digno dos favores de Inanna nos ritos e hinos a Arina
E obtiver a plena realização criativa das forças divinas e naturais.

Digo-te isto porque tenho certeza d'A Deus nos concederá de futuro
Outros vinte e cinco séculos como concedeu nos ledos já passados
E tu sabes que assim continuarás a ser Senhora de mim e dos bens
Que sendo meus apenas teus são a quem A deusa imita e me rendo
E enleio e desmaio na ondulante sofreguidão da serpente de tua alma
Esse olho de Aldebarã sobre as Plêiades e Híades aceso e sibilino...
E isto te digo pra que o não esqueças nem nenhuma de nossas filhas!

sexta-feira, agosto 13, 2010

acta nupcial

Nesta Lua Nova, sexta-feira, dia treze do oitavo mês
Estou em Uruk, meu amor, a vinte e cinco séculos de ti
E as árvores são as mesmas árvores cuja sombra te abrigou
Os animais rareiam mas são tão iguais aos que perseguiste
Excepto aqueles que nunca cheguei a conhecer se extinguiram
Os mesmos rios correm com idênticas águas sempre outras
O Tigre e o Eufrates antes cristalinos e insubmissos fluem
Agora tímidos e sujos e estagnam em barragens avulso
Os homens e mulheres já não flanam em sedas, linhos e lãs
E os brocados perderam as figuras geométricas que os esculpiam
Os losangos, círculos e triângulos da incógnita decimal divina
Nem inquietas danças balançam sob a sua passagem fugaz.

Mas esta esquina é a mais frequentada da cidade desde cedo
E nunca me falta trabalho, às vezes ainda se não vê claro e já
Tenho agricultores ou ricos negociantes para grafar contratos
Viúvas que querem mandar cartas a seus filhos e mais parentes
Nem nunca me faltam as tabuinhas de alabastro e terracota
E a deusa Inanna protege ciosamente altiva os seus súbditos
Porque Inanna, deusa do amor e da fecundidade, também é fiel
Súbdita incansável de Arina cuja luz a todos igualmente ilumina
Incluindo Gilgamesh, Enkidu ou até o sobrevivente Shuruppak
De quem o dilúvio quase tornou o único homem sobre a terra,
Embora se saiba hoje que não foi assim, pois todos aqueles
E aquelas que ao momento adoravam A Deus nos altos píncaros
Dos montes se salvaram ilesos e íntegros na carícia do vento
Como quaisquer frutos altaneiros a que as águas não atingem
Ou o voo das aves se torna impróprio ante encascada polpa.

Foi a principal prova do poder e gratidão de A Deus entre nós
De como o seu louvor é benfazejo e imaculado e são e puro
E de como nele os netos dos homens se fazem à medida avós
E de como o mundo todo é seu templo sem cúpulas nem muro.
palavra: pão da alma, numa
constelação sem remorso

"O persa – tão zeloso em rejeitar
Imagem e altar e as paredes e os tetos
Dos templos construídos pelo homem –
Cavalgando os altos píncaros dos montes,
A lua e as estrelas adorava
E os ventos e a matéria primitiva
E todo o firmamento, eram para ele
Ao mesmo tempo Deus e natureza."

Wordsworth


Quando pouco a pouco mergulho meus dedos no teu cabelo
Água cigana de rebentar em cachos à tona do verbo a tez
Cingido diadema da voz distante cintila e desenrola o novelo
Da fala, eis a luz, aqui a chama, a onda sobre a areia se desfez
Além o gesto nos lábios acesos de dizer o nome Era Uma Vez
O Sonho
que esperava à porta mas uma janela porém se abria
E sem bater entrava enquanto à solta de tanto bater o coração
Partia, e nas asas do serão, a terna noite murmurava Bom dia!...


Quando assim era, dispersa a alma sôfrega à desfilada acendia
Nos requebros tónica irregular da marcha à volta deste castelo
E guebro me chamavam, parsis do fogo que do alto do monte
A voz ao céu lançava tendo por único templo todo o universo
Devoção ao eu superior cujas filhas soberanas da delta fronde
Souberam, e ainda sabem, ascender por seus raios se o reverso
Da vida se mostra à sua ínclita face ou a insana febre defronte
Infiel à pureza singular, honestidade e benevolência ordenadas
Com que a regra se exige a quem erga as palmas bem cruzadas.

Divindade do fogo, cor da energia tomada em seu supremo ser
Aceno secreto A deus revisita angelas formas e te penetro fala
Que dizer é acender o nome até nele gerar o grito que não cala
Depor-se na argila dos píncaros zoroastros e luz até o céu ferver
Reunindo em si fogo, ar, água e terra com que de si a si se gera
Espelho circular cujo brilho encerra a palavra é assim tida vera
Se verdadeira e única explicar todo o firmamento duma só vez
Que ao resto do mundo natureza e divindades igualmente serão
Pondo caminho de luz a rasgar o breu se o céu tremeu azul e pez
Até este aquecer ao forno em que cozer da alma seu próprio pão...

Sim, conta-me outra vez, como foi que Pitágoras fez aquele dez
Nascer somando os primitivos quatro números (um, dois, três
E quatro) e nele resumiu o sistema solar por quantos planetas são
Nove ao todo, zero, enfim, que de tudo é princípio e também fim
Sinal de ligação, alvo, núcleo de célula e protoplasma, íris e visão
Sopro de Gês que serpenteia e abraça ovos de Fénix e Querubim
E exala do ninho de nardos, mirra e cinamomo a chama derradeira
Também primeira a iluminar a vida sendo-lhe margem e fronteira.

Conta-me, para que nunca o esqueçamos, seu voo até Heliópolis
E como as demais aves fizeram cortejo real em seu redor e do Sol
E com ouro, incenso e mirra exéquias a seu pai cumpriram gentis
Em Tebas assim o Egipto renasceu esplendor no ledo e fértil atol
Imperial como antes e próspero com plumas de ouro e carmesins.

Conta-me, que não renego meu ser guebro no seio e luz dos parsis!

quarta-feira, agosto 11, 2010

Sagitário, cavalo à solta, no céu suspenso


Júpiter recompensou Quíron pela sua índole e nobreza
Sabedoria e sentido de justiça, colocando entre as estrelas
Esse mesmo dorso que embalou Esculápio foi com certeza
O mesmo que Apolo e Diana cavalgaram sem lhe pôr selas
Nem arreios, mas antes a confiança da liberdade e sageza
Que entre as pérolas da verdade são as mais puras e belas
Mais humanas e divinas, comuns aos deuses e à natureza.

É desta comunhão que se acende a luz da digital binária
Estirpe daquela e daquele que por amor jamais prende
Mas aprende que a fusão entre os géneros não é contrária
Aos genes, nem isso prova que a humanidade descende
Da imortalidade dos deuses que espalharam sua semente
Em abundância, e se de virtude alguma deles se pretende
É essa intenção de domar em si a sua própria alimária...

Porque aprendido o passo a seu processo pouco falta voar,
Galope com salto sobre o destino cujo arremesso é o voo
Desse homem que consigo desde menino seu dorso usou
Para sonhar, e tanto sonhou, que Plutão invejoso o castigou
Por ele amar a vida e aos mortos, de arremetida, ressuscitar.

Dolorosa lição essa, e só se imagina visando o firmamento
Quando a luz dá forma equina e costura os pontos acesos,
Traçando o gesto a giz no manto azul do céu esse momento
Em que por amor nos tornamos livres prà vida ficar presos!

segunda-feira, agosto 09, 2010

Alinhavo Restaurador


Por cada vez que o poema se esgarça, e rompe
Deve ele ser novamente cerzido com linhas de prata
Para assim quem o leia, soletre, recite, partilhe, compre
Venda, veja do filigrana a ternura que o pesponte
Nas costuras comuns a quantos consigo trata,
As cruzes em X que os liga, une e ata.

Deve igualmente, na mecânica do restauro
Salpicar a luz da lua prateada com o solfejo da cor
Duma pepita dourada, mítica e fabulosa do Centauro
A tremeluzir num céu de pez, cuja incidência estrelada
Cavalgue galáxias como pradarias de campos em flor,
Que nesse caminho por Quíron trilhado, há a única aura
De magoar a dor, com a luz da cruz na cavalgada.

Que esse astronauta cruzador feito nome primeiro
É o mesmo que ao amor oferece o peito aberto,
Pondo o verbo semeado de alegrete em canteiro
Arroteando jardins nas dunas e areais do deserto!

quinta-feira, julho 08, 2010

Sujeição Ante o Resultado Acontecido...

Ao luar, entre as diatribes da luz
Das coisas, das sombras esmaecidas
Recordo agora, havia biliões de rosas
Vermelhas, quase todas se tida jus
Houvesse no dizer, caídas, esquecidas
Entre as estantes, sobre as mesas
Acocoradas aos cantos, acetinadas
Folhas entre as demais páginas
Espelhando os sentidos nos sentires
Embora eu, ao ver-te assim repartida
Clonada pela refracção das lágrimas
Te fizesse em absoluto reflectida,
Cuidasse serem cada qual tu apenas
Noutra forma desigual às pequenas
Surgidas dos canteiros e jardins
Dos beirais, esquinas, nuvens, sebes
Alucinação de louco entre querubins
Não destrinçando minha sede das sedes
Que todas as flores, lírios, jasmins
Orquídeas, hortênsias, cravos, alecrins
Estevas, afinal, que todas por igual têm
Achando a minha maior, mais imperiosa
Como nenhuma outra, e que mais ninguém
Tivera já, ao ver em tudo e todos só rosas
Rosas, e rosas, e rosas de pétalas acesas
Simplesmente porque tu as foste ou és
Entre as estantes, os arcos, as devesas
Sentada, caminhando, sobre cadeiras
Nas muralhas, claustros e seteiras
Arrumando o carro na berma da estrada
Descendo a rua ou subindo a escada
Entrando na sala de aula na tua escola
Vindo do café, lendo revistas ou tão-só
Navegando na Net e ouvindo meu dó
Pedido não trinado por qualquer viola
Mas antes no desmedido obstinado
De um coitado ansiando pela esmola
Da tua atenção, do teu tempo e olhar
Insistindo, porém insistido no rimado
Exagero requerido de poemas a dançar
Numa roda de dizeres repetidos sem fim
Na crença tida que ao ver-te em todo lado
Tu venhas um dia, enfim, a reparar em mim.

Todavia acordado, até no quotidiano viver
Durante as tarefas como nas conversas tidas
Ao fazer as compras nos hipermercados
Quando pelo autocarro espero, subo, desço
Escrevo recados, de manhã ou ao entardecer
Avalio as escritas passadas já imprimidas
Descoso as entretelas de filmes visados
Arrumo a casa, lavo a louça, e no avesso
De mim me viro para corar o íntimo ser,
Então, continuo a ver rosas onde rosas via
Flores atrás de flores a cada hora, cada dia
Segundo a segundo a cada e todo o instante
Feitas de jade, porcelana, diamante
Esmeraldas, quartzos, pérolas, rubis
Quer nas velas sobre o oceano navegante
Quer nas serras e descampados primaveris.

Estendidas sobre toalhas das praias e areais
Na relva das piscinas campestres e barragens
Nos rios, tombadilhos de barcos, nas carruagens
Do Metro, discotecas, esplanadas, jornais
E revistas, em fotos e quadros e textos originais
De poetas inéditos como dos clássicos antigos
Que mais não escreveram do que palimpsestos
Dos meus, envelhecendo-lhe eras e contextos
Dando-lhe atmosferas idas e velhos artigos
Ou arcaicas cantigas de amigos e madrigais.

Pois bem: a essas flores, oriundas das cascatas
Das ondas, numa vaga de espuma e incenso
Tão vivazes, ríspidas, vagabundas e insensatas
Amei-as todas, por causa de uma, em que penso!

segunda-feira, julho 05, 2010

Vigésimo Primeiro Cálice


Aqueles que não amam, sequer
Não são protegidos de Arina
Confundindo, portanto, A mulher
Com qualquer coisa, qualquer menina!


*

Três vezes sete foram as loucuras
Até ver as coisas como enfim são,
Que tudo há no mundo se o procuras
Na redonda vitória, sem teias de ilusão...


Bebida a última gota só formas puras
Ficam a dançar nos romances do pão
Bordados com as flores tecidas, seguras
No entretecido feminino da perfeição.

Estrelas, cometas, verdejantes prados
Claustros frescos, nichos triangulares
Onde os dizeres se tornam outros arados
De arrotear as tardes serenas, singulares

Em que os enredos maiores são calados
Como beijos recatados, cruzados a pares.


**



Sete pra ti, sete pra mim, e outros tantos
Pròs que nascerem agora deste momento,
Que vida fora se iniciarão leis e santos
Da beleza cativos, seu único tormento

Tomado gota a gota, cálice a cálice
Virando páginas por rumo na rota
Do interpretar, tecendo análise.


Trago a trago apreciado mandamento
Em que as frases se intitulam frota
E os parágrafos esquadrão de alento
Se batalha trava quem por si se afoita:

Que nosso é o firmamento dos mantos
Se em asas delta se tocam plo vértice
A siar rasgando medos e desencantos.


***


Duas vontades unidas por um só fim
Entretecida verdade nas duas metades
Que sendo tua a metade das liberdades
A outra em liberdade me cabe, a mim...

Se entretanto para esse tanto, assim
A que tanto disseste «talvez» e «não»
Outro tanto baste agora dizer: «sim

Sim ao Sol que na Aliança Velha arde
Onde por força só baste o ter razão,
Que a ancestralidade nunca é tarde
Se ao conhecimento vem renovação

De cada metade, desse outro ser nascido
Gota a gota caído em clepsidra sem fim
Que há do oito deitado ao infinito ido!

sábado, julho 03, 2010

Vigésimo Cálice

Arina, rainha dos astros e sóis
Que nos aquece e jamais esquece
Quem ama, se da tarde os atóis
Se inundam, eis que singela se oferece
E declama, como à luz de sua chama, nos tece.

E nos tem, sob protecção e tutela
Quando ao troar das trombetas liberta
O passado de seu túmulo e ao tempo acerta
Dando ao futuro o acumulo duma janela
Aberta, lente virtual que nos modela
Em alerta acenado A deus
Erguendo as mãos aos céus
Como Ela.

Dez dedos que são os nossos
Com outros dez que são os seus,
Depondo no alfabeto águas e ossos
Qual Xis a bailar ondeando véus
De gazes, de tules, de seda rosada
Estampados dédalos e labirintos
Cujas pétalas desenhadas camada
A camada, nos instruem os instintos
Nos sete sentidos da rosa desfolhada:


Olhar de pétala, lábios de veludo
Táctil cálice cuja sépala escuta
A concha do mar a degustar o escudo
No registo do Outro que tão-só executa
A empatia ao semear-nos pelo mundo.

E assim, água ardente vertida de oceano
Em oceano, sistema de líquido contínuo
Irriga-nos de sangue todo o ano
Por uma gota de momento exímio
E exíguo no equilíbrio suserano
De dois triângulos unidos pelo vértice
Da língua, enlaçadas margens do cálice
Na máxima míngua do estremecido ápice.

Comunhão do poder entre géneros
Acesos raios aquilinos do Sol universal
Onde o abraço resoluto das sementes e sócios
Gémeos nascidos da mesma luz na espiral
Em que os ócios merecidos são do labor igual
Além de mais igualmente da natureza – os números
Que põem e dispõem, ordenam o nível
Entre o lido e o por ler, o eterno e o perecível;
Entre o terreno e o espiritual, a matéria e o imortal

sexta-feira, julho 02, 2010


Décimo Nono Cálice


Nas vésperas eram sete
As franjas do seu xaile,
Que em batidas repete
Quem vai da fala ao braille.

Outras tantas estas horas
E a liturgia se renove
No convento sem demoras
Mal soam as dezanove.

Dia passado, dia tido
E muito já foi cuidado,
Anda na casa o sentido
Ao descanso desejado.

Que é recompensa leal
Na adversidade labor,
Triunfo sobre azar e mal
Ganho sem qualquer favor.









Diz o Tarot ser só união
Género assim geminado,
Sob o Sol da tarde a razão
Se renove por bom arado.

Esse que vira puro abraço
Quando o dia se acaba,
E grande é pequeno passo
Se enredado em rede alba.

Transparente e precisa
Sol digital a amanhecer,
Que a ternura apenas alisa
Quem já tem amaciado ser.






Quem acordou provençal
Em despedida cantada,
Dedilho secreto de jogral

Tendo a noite por alvorada.

quinta-feira, julho 01, 2010

Décimo Oitavo Cálice



Quando até a literatura é estrangeira
Na regra dos noves fora mais antiga
É condição redobrada ser a primeira
A contar de quanto trauteio a cantiga
De ficar absorto a soletrá-la pertinaz
Já que o corpo por repouso tudo aceita
Incluindo ler, que só à mente deleita,
Seja a tarde longa e calma ou fugaz
Que sempre voará se no fazer apraz.

Medido o tempo por esta clepsidra
Onde cada segundo é uma frase lida
A pingar da pipeta do entendimento
Tece enredos quem só decepa a Hidra
Lhe sega as cabeças do medo à vida
Tira à serpente gigante o tormento
E lhe dá em troca o jeito sagaz melado
De um S com asas dito voo soletrado
E no sibilo de uma língua enrolado.




A primeira letra de um nome, portanto
Só anda repetido adiante, se avança
Revestido na aliança serena do canto
Em que o compasso é passo e balança
Braço dado fazendo do par a esperança
Deste Alentejo como um lamento cantado
Na sesta amena ao ritmo arado do beijo
Que é outro tanto do canto do S no desejo.




Boca a desenrolar-se é só mandorla da fé
Num zero que a cabala indica, mas que é
O seixo do ábaco se a unidade multiplica
Por dez, por cem, por mil e até o infinito
Estica, dando ao ver o que só se acredita
Existir, sendo esse anel o aro de espírito
Suficiente à matéria como forma de lente
Prà visão num oito alcançar o ponto fito
Que nunca é visto só pelo olhar da gente.




Quem já viu longe e para lá do horizonte
Que a eternidade tem por coisa tão certa
Como uma árvore, colina, rio, ou monte
Habitado por família unida, sã e desperta?
Então, esse sabe até reconhecer a aresta
Que há no distante Sol cuja seta acerta
Raio de alerta e sobre a alma o rio apresta
Ao tempo contínuo, sem fim, sólida ponte!


quarta-feira, junho 30, 2010

Décimo Sétimo Cálice



Sobre o azul das cadeiras
Um ágil miosótis saltita
Alinha livros, limpa prateleiras
Cujos meneios são mil maneiras
De pôr o pó fora dessa palafita.

Aldeia dos lótus em flor
Siando à tona do olhar
Brancos, porém criando vida e cor
No horizonte desse teimoso leitor
Que decifra sentidos no imaginar.

Repõe a ordem nos fugitivos
Expulsa os intrusos do lugar
E se alguns são mais activos
Dá-lhes refrega e põe-nos cativos
Ordenando-lhes a onde ficar.




É autoritária esta serviçal
Dominadora perante residentes
Exigindo aos súbditos renitentes
Que assumam a sua posição real
Na estante, antes que lhe suceda mal.

E eles, livros perdidos, em jeito cru
Submissos, intérpretes do conhecimento
Acatam a catalogação em CDU
Como soldados em missão na ONU
Ou em serviço maior do seu regimento...



Tu prà'qui, tu prà'li, em fila, marchando
Pondo acerto no passo e tino nas maneiras
Que aqui, ao alto subida nestas cadeiras
Não há outras leis nem demais fronteiras
Pois que aqui, sou eu quem mais mando.

E perante essa razão incontornável
Sobre aqueles na reticência activos
Eis que Arina, o Sol da tarde perscrutável
Assume por momentos
As semelhanças e movimentos
De uma arrumadora de livros!

terça-feira, junho 29, 2010

Décimo Sexto Cálice


Tenho também seis rosas num quadro
Pintado pla mão divina ao alto erguida
De Arina revista no alfabeto soletrado
Da vida, como menina tão-só esculpida
No marfim dos teus gesto de lírio fugaz
Que por sorrir me apagas maior martírio
Me inspiras, absolves e anulas o delírio
Murmurando ordenada e tranquila paz.

Cada tem dez folhas verdes serrilhadas
Escondendo espinhos, afiado esmeril
E outras tantas emotivas pinceladas
Nas pétalas raiadas de luz primaveril
Convertida toda essa em tons estivais
Amadurecendo a promessa esperança
Nos chilreios e corridas de criança
Plos recreios de travessa ou colegiais.


Suposto é terem ainda uma fita de seda
A segurá-las e até aquela cesta de verga
Dando ao conjunto equilibrada e leda
Ordem, que ao ampará-las, também as erga
Como grito de cor no silêncio dos dias
Que assim nos conceda imenso regozijo
Combatendo o stress, ajeitando o juízo
No consenso das devolvidas alegrias.


Uma fita lilás, larga pétala de violeta
Entrançando o que demais és capaz
Com aquilo que somente eu te prometa
Na leitura irrequieta como pertinaz
Dos sinais que as estrelas vão ditando
Se audaz cometa cruza nosso momento
Propondo por condição o consentimento
De apanhá-los à mão, ardendo – e calando!

segunda-feira, junho 28, 2010

Décimo Quinto Cálice


Tulipas-lírio, dálias franjadas
Orquídeas, crisântemos, açucenas
Ladeiam os degraus das escadas
Ao Olimpo das mulheres pequenas,
Porém tão grandes e tão amadas
Que entre as flores mais cuidadas
São de todas elas, as mais serenas.

A cobiçada pose dos ramos singelos
E as vestes numa folhagem estival,
A seda escura dos castanhos cabelos
Certos e rimados ao meneio musical
Ondas sossego e escadeados anelos
Navegáveis sem nós nem novelos
Que encrespem os dias por igual.



É tudo tão simples, assim, encantado
Que do recanto nasce o canto vertical
A esquadro e a compasso desenhado
Como canteiro, ou minarete floral
Esboçando tela de quadro conventual
Para quem sonha, e desse sonhado
Floresça o sentido do sentir universal.




Início do que não tem princípio nem fim
Nem carece de conceito ou até de meio,
E completa tudo quanto falta em mim
Se dos teus lábios bebo o cálice cheio!
Décimo Quarto Cálice


Só quando te quero sou
Sou quanto te quero só,
Que dizer é içar-me voo
Venho e vou de dar o nó.

Crescer como um laço
Ao beijar o colo de jade,
Cruzar o tempo e o espaço
Nas asas em V da verdade.


Receber-me quando dou
E dar-me apenas abraço,
Cedendo tudo o que sou
Nos teus olhos de melaço.

Mel das flores silvestres
Alfazema, rosmaninho
Violetas entre agrestes
Junções do azevinho.




Dizeres de fresco pão
No miolo enfarinhado,
Que cada dia é canção
Se à vista do bem cuidado.

Do bem que se não perde
E das flores iguais bens,
Que se à flor, que bem herde
Há-de ter o que só tu tens.