A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
Mostrar mensagens com a etiqueta Velha Aliança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Velha Aliança. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, julho 21, 2025

O NOJO DA LÍNGUA PORTUGUESA

 


A LÍNGUA PORTUGUESA ESTÁ DE LUTO

 

Dia 17 p.p., durante a última sessão parlamentar que antecedeu as férias da Assembleia da República, qualquer coisa de muito feio aconteceu. O seu presidente 

 

                        Homem são e sem reserva

                        Que pondes sangue de parte,

                        Que nos respeitos conserva,

                        Nutrido aos braços de Marte

                        Com o leite de Minerva

                                                                       (NICOLAU TOLENTINO, Sátiras –

 Passeio, pág. 42) 

 

quis demonstrar que a frouxidão é de menor valor pejorativo do que a fanfarronice. Que a tibieza é mais condenável que a gabarolice. E que a jactância é mais desejável do que a falta de fervor. (Tal e qual como qualquer empresário das casas de luta de galos determinaria acerca dos atletas contratados para o espetáculo… Evidenciando suas preferências, e tudo.) 

 

Talvez algumas pessoas saibam porquê e tenham bastas e plausíveis razões que o corroborem. Mas eu não tenho, nem percebo, nem vejo como justificá-lo, quer apenas para mim mesmo, como para os demais, que no capítulo da retórica sempre são menos mornos e pacíficos do que sou. Que nos domínios da oratória sempre pugnam por se mostrarem mais empenhados, encarniçados, do que eu, queria eu dizer. Que sou morno reservado adepto dos brandos costumes e sensaboria nas relações do quotidiano. Que o que quero é papas e descanso. E bons modos.

 

Portanto, não vi com bons olhos a falcatrua de apoucamento nem a manobra de olhagem (sem pisca-pisca) à direita pacóvia e retrógrada, da parte do sr. presidente da AR. Se o fizesse lá em casa, à sua mesa, onde supostamente é ele quem paga as contas, ainda seria, vá lá, com’ò outro, e se já não fosse muito bonito discriminar assim parte dos comensais, é certo, mas tê-lo feito num órgão de poder autenticado e com pergaminhos assentes na Constituição da República Portuguesa, onde quem paga todas as contas é o povo português, o orçamento de Estado e a EU, além de feio, é crime de lesa coletivo e subtração da igualdade de tratamento que assiste a quem usufrui de plena cidadania.

 

As pessoas podem (embora não o devam fazer) enxovalhar a torto e a direito quem é das suas famílias dentro dos condomínios familiares, e sem ser à vista de quem está fora delas nem lhes pertence. Não sendo um direito que lhes assiste é uma prática que comungam e herdaram via progenitores, que só não educou melhor só porque não sabia mais nem como fazê-lo. Agora, que o façam em público e em direto, perante um país (ou parte dele) que está interessado em saber qual é o estado da nação, já é, senão imperdoável, pelo menos de muito mau tom, e pior exemplo para arraia-miúda.  

 

O que é caso para dizer, que a língua portuguesa se está de férias, à semelhança da AR, fá-lo-á, sem dúvida, de nojo carregado, em virtude de alguns dos seus melhores e eleitos, a terem vilipendiado sem o mínimo decoro, fazendo-se passar por sonsos e sem reparar nos efeitos da sua incúria… Porque não nos apercebermos nós do significado das expressões e étimos que ouvimos usar e usamos frequentemente, é matar a língua mãe, sem rebuço nem remorso. Porque,

    

 

Os verbos carregam o luto da fala

A sombria pronúncia das mentes vis,

Cuja voz se eleva se à verdade cala

E a trata por rumores, truques e ardis.

 

Que é a indigente gabarolice numa aula,

A fanfarronice narcísica, os croquis

Da hipocrisia em desfile numa sala

Que para a esconder a si mesma se desdiz.

 

Todavia os verbos não têm culpa nenhuma

De quem até os usa para maltratar outrem,

E adjetivos, sendo maltratados também.   

 

Que as famílias não escolhem a espuma

Nem os insetos refugiados sob a caruma…

Nem o cruel veneno dos sujeitos que têm!

 

E isso é muito feio, desde que o verbo se tornou princípio, pelo menos, para não dizer outras coisas.

 

Joaquim Maria Castanho


sábado, agosto 10, 2024

EDUCAR PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E INCLUSIVA


 

 

EDUCAÇÃO CONTÍNUA PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E MAIS IGUALITÁRIA

 

O grande perigo é o de nos deixarmos possuir por uma ideia fixa.”

 – André Gide

 

Aprender a conhecer (ou aprender a aprender, para podermos beneficiar das oportunidades oferecidas pela educação, ensino superior e experiência de vida), aprender a fazer (ou aprender a qualificarmo-nos profissionalmente, mas também a adquirir competências sociais e de utilização dos recursos económicos, financeiros e promocionais consequentes à atividade socioprofissional desenvolvida), aprender a viver juntos (ou aprender a cultivar a compreensão do outro, a treinar/aperfeiçoar a perceção das interdependências do pluralismo, realizar projetos comuns e antevisionar/antecipar-se aos possíveis conflitos daí resultantes) e aprender a ser (ou aprender a tirar partido das potencialidades próprias – memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar, etc. – a fim de melhor desenvolver a personalidade, a autonomia e a responsabilidades pessoal e social), parecem ser aprendizagens cada vez mais necessárias para estabelecer prosperidade, harmonia e equilíbrio na sociedade atual que favoreçam a emancipação e realização plena de cidadãos e cidadãs, que nos facilitem defendermo-nos das contínuas mutações sociais, estruturais, normativas e culturais consequentes à mudança constante e à instabilidade provocada pelos movimentos sociais, mas também pelas alterações climáticas.   

 

Isto é, afirmar a gente que as exigências educativas se podem resumir ao clássico aprender a ler, escrever, contar e utilizar as tecnologias da comunicação, demonstra estarmos eivados desse gregarismo fundamental que tudo unifica para melhor confundir, limitados a obedecer, enquadrados pela estrutura da ideia fixa ou obsessiva e que, assim, pretende iludir com as pinceladas maniqueístas tradicionais do mal e do bem, do certo e do errado, que reforça e veicula a estratificação social e eterniza as diferenças através de estigmatizações, preconceitos e não reconhecimento do Estado de Direito, através do fulanismo e do corporativismo provinciano atávico moralista. Porquanto parece ser uma maneira de negar o progresso social e cognitivo, tentando recuperar as azinhagas de ontem definindo-as como as autoestradas do futuro indo de encontro à lógica do tempo, às necessidades da sociedade, e às exigências de realização da pessoa humana de acordo com os direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República e a Carta Universal dos Direitos Humanos instituem e determinam.       

 

Para preparar o futuro é preciso formar e apetrechar os cidadãos e cidadãs de amanhã com as ferramentas suficientes e capazes de lhes facultarem uma adaptação homogénea. Inclusiva. Aberta. Democrata e funcional. E isso só se consegue com mais conhecimento, mais competências, mais sentido prático, mais comportamentos legitimados, mais atitudes inclusivas e mais cidadania, pelo que privilegiar o acesso ao conhecimento (básico) não basta, havendo também uma necessidade premente de conceber a educação como um todo, na perspetiva do futuro, que inspire e oriente as reformas educativas, quer no campo dos programas, quer no universo das novas políticas pedagógicas, que revitalize a consciência cívica e a emancipação integral das gerações através da educação contínua, feita também geração a geração, tornando a nossa sociedade não só cada vez mais democrata, como igualmente cada vez mais justa. E mais apta à equidade e igualdade de género. Enfim, mais igualitária… progressista e ativa.

 

Porque embora ainda não precisemos de “aprender a relatividade com Eisnstein para poder praticar o amor*”, o que é evidente é que todas as sociedades dependem da nossa capacidade amar, aptidão para amar, para se tornarem sustentáveis e sãs, e essa aptidão depende muito da nossa aprendizagem total, sustentada obrigatoriamente pelo aprender a conhecer, pelo aprender a fazer, pelo aprender a viver juntos e pelo aprender a ser, uma vez que sem essas aptidões entramos no universo das sociopatias e psicopatologias, e estamos/ficamos de formação incompleta por mais diplomas que tenhamos.   

 

Joaquim Maria Castanho  

 

*in PRIMEIROS CADERNOS

Albert Camus

Prefácio de António Quadros

Edição «Livros do Brasil»

Caderno nº 1, pág. 36

quinta-feira, fevereiro 09, 2023

testamento

 

TESTAMENTO



À beira do tempo, ensaio, recuperação

De quem fui, de quem sou, a pulsar pla vida,

O avançar sobre o ímpio breu do alcatrão.

E do outro lado, na margem oposta

Há o silêncio de quem gosta mas desgosta

Por preferir girar sempre em contra-mão.


Tudo é plano, exceto tu cidade qu’rida

Além pináculo das mouras encantadas…

Mas se houver alguém que por mim decida

Que nunca esqueça suas gentes tão amadas!



Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, novembro 15, 2021

VENTO QUE SILVA

 


DO SILVAR DO VENTO OUTONIÇO


De vez em quando, uma folha cai…

Então, o caminho aloirece.

Mas este rio continua, e vai

Pra lá da sombra que o escurece.


Afluente de outros maiores

Senhor dos vales e das escarpas,

E das silvas que já foram flores

Agora (h)ouve silvos

Entre margens cativos,

Sem violas e sem capas

Altivos, mesmo sem hinos nem harpas.


Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, junho 03, 2021

A ARTE DAS ARTES

 


A poesia é a arte das artes.

PORQUÊ?


Porque com todas elas, ela convive, sem nenhuma ofuscar, mas antes completando, e acrescentando valor, como sucede com a música, com a pintura, com o teatro, com o romance, com o cinema, com a fotografia, com a escultura, com a arquitetura, com a paisagística, com a pedagogia, com a didática, com o desporto, com a gastronomia, com a decoração urbana, com a decoração doméstica, com a filosofia, com as ciências, com as ideologias, com a política, com a história, com o moderno, com o antigo, com o exotismo, com o esoterismo, com a cibernética e com a semiótica. Com o design e com TV.

Quando Bob Dylan, num passado ainda recente, foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura, enquanto poeta, estendeu esse prémio a outra arte: à música.

Quando foi atribuído, a Gabriela Mistral, nos meados do século passado, o Prémio Nobel da Literatura, ela estendeu-o ao magistério primário, à pedagogia e à didática.

Quando no quotidiano, no dia a dia, em qualquer esquina, em qualquer café, em qualquer praia, em qualquer rochedo, em qualquer floresta, em qualquer fábrica, em qualquer repartição, em qualquer meridiano, nos acontece a poesia, ELA decora-os, embeleza-os, e dá-lhes sentidos e significados que, até aí, nunca tiveram ou lhes foram reconhecidos.

A POESIA É DESVIO. Sem ELA, tudo é rotina. Tudo é tédio. Tudo é compulsão. Tudo é monotonia. E tudo é lassidão.

Na economia, no jornalismo, na rádio, na televisão, marca presença, ilustra, dignifica, ou serve de argumento às matérias da comunicação social. Os jornais de referência repetem-na em títulos e a publicidade em slogans.

A poesia motiva, mostra, festeja, celebra, enaltece, conta, regista, fixa, o que a humanidade tem de heroico (ÉPICA), de existencial (DRAMÁTICA), de sentimental, emocional, afetivo e psicológico (LÍRICA), em cada uma das suas eras, de suas aspirações, de suas crises e de seus sucessos. Torna presente o que foi passado; “realiza” o que será futuro.

É imprescindível nas comemorações, atos solenes e passos em frente, de quase todas as culturas da atualidade. Os hinos de todos os países, compõem-se de poemas mais ou menos musicados, dando relevo ao que há de mais profundo em suas almas, seus inconscientes e conscientes coletivos.

Seja o que for que a humanidade fez ou possa vir a fazer, foi antevisto pela poesia, e diversos poetas ou diversas poetisas passaram por lá anteriormente, e interiormente.

A poesia integral, a prosa versificada e a prosa poética, divergem formalmente, mas estão unidas, e imbuídas, do mesmo sentido gregário, artístico, poético, ético, estético, literário, linguístico, pedagógico, filosófico e socializador, reunindo os seus cultores, fazedores e apologistas, numa mesma, grande e universal família – a nossa, a da POESIA. Umas vezes, cada qual trabalhando em separado e avulso; outras, em equipa, criando, divulgando, promovendo, usufruindo, trazendo a arte das artes para a praça pública, para o dia a dia. Para a publicação, para o entretenimento, para o espelhar da alma e das almas, para o livro… Como neste caso.


O livro qu’aqui ‘tá – obra com muita gente,

É um verso plural, poema coletivo.

Reúne de cada qual o ser diferente;

Dá a todos e todas, um sentir positivo.


Joaquim Maria Castanho