A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

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São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, janeiro 23, 2025

RECENSÃO do livro A Jóia Que o Rei Não Quis

 


A JÓIA QUE O REI NÃO QUIS

MÓNICA BELLO

Revisão de Raquel de Jesus

Guerra e Paz, Editores, Lda.

170 págs.

                                             by

                                                   JOAQUIM MARIA CASTANHO

 

            Reportagem virtual, ou relatório[1] ficcionado, de um contrato de compra e venda que naufragou, ou crónica[2] de uma encomenda não consumada, é a demonstração cabal, lógica, sensata e ponderada de como o trágico imprevisto pode ser colmatado pela prudente e disciplinada intervenção do mutualismo[3] português que nasceu quase em simultâneo com os nossos Descobrimentos, autenticando assim, em letra de forma, numa mancha gráfica de ótimo aspeto, cujo miolo é recheado pela palavra cinzelada de Mónica Bello[4], que a executa em modelo anglossaxónico, com parágrafos limpos, escorreitos, objetivos, cumulativos, estruturados (encabeçados) por leads concisos, sintéticos, que raramente vão além da frase de uma só oração, ocupando apenas a primeira linha, quase como títulos dos parágrafos que a seguir se esmiúçam, em discurso preponderantemente dramático, isto é, ancorado na 3ª pessoa do singular. 

            E reportagem virtual porquê? Porque apenas plausível, embora que sustentada em alguns factos históricos devidamente documentados. A recensão dum livro[5] é sempre uma resenha descritiva e discussão valorativa desse livro. Um processo crítico de ponderação e julgamento, a fim de salientar tanto os méritos como os handicaps que caraterizam essa obra. E um dos méritos com que mais rapidamente nos familiarizamos, é a qualidade do parágrafo que reporta sem importunar nem saturar o leitor com narizes de cera[6] nem exaustivas descrições, e aponta, informa, promete, elucida, desde a primeira linha quanto e como o seu conteúdo interessa ao leitor como à narrativa. Porque sendo como é a reportagem[7] já em si a ação, mas também a técnica de plasmar a dita em si mesma, porquanto sendo ela originariamente francesa, não só ofereceu a sua valência às correntes existencialistas francófonas, como consolidou a literatura numa arte universal em que inúmeros escritores, alguns dos quais laureados com o Nobel, nos têm oferecido obras inesquecíveis, a exemplo de Truman Capote (A Sangue Frio), Gabriel Garcia Márquez (Cem Anos de Solidão e Crónica de Uma Morte Anunciada, p. e.), Vergílio Ferreira, Daniel Defoe, José Saramago, etc., etc., também tem beneficiado muito o jornalismo de investigação e de qualidade, uma vez que este se faz com maior desenvolvimento, “em que se presta particular atenção às causas e consequências de acontecimentos atuais” ou de acontecimentos que supostamente tiveram lugar no passado, próximo como longínquo, emprestando-lhe a mesma virtualidade de rigor que assiste ao realmente visto e confirmado, ainda que esse rigor seja dependente dos documentos que lhes corroborem a factualidade, bem como a interpretação que deles é feita. Fazendo-o assim de forma díspar da literatura pura, posto que sucederam sempre fora do livro, do romance ou novela, exigindo-nos confiar em quem lhes assistiu e no-los conta, a narradora ou narrador, o ou a personagem envolvida, que nunca é o autor, nem a autora, que os imaginaram, e sim antes quem os viveu e concretizou na sua plausível factualidade, dando-lhe voz e peculiares maneiras de entendimento.

            E, na apressada atualidade, um parágrafo por extenso que seja, se tiver um bom lead, que elucida por inteiro da sua natureza semântica e do desenvolvimento que terá no corpo, além de propiciar o tema dá também o leitmotiv[8], sendo uma enorme ajuda que se faculta a qualquer leitor, poupando-lhe tempo e aligeirando-lhe esforço na interpretação, uma vez que o tema geral é a atividade duma seguradora e a atitude profissional dos seus colaboradores durante um período de tempo da sua existência que, neste caso, se relaciona com um motivo – igualmente expresso em título – ou bem de inegável valor histórico, artístico e fiduciário: a faca de punho e bainha esculpidos em prata, faca[9] de mato de dois gumes[10] que levou 11 anos a fazer mas que o rei D. Fernando II não comprou, embora tenha sido uma encomenda sua, ou favor[11] pedido – e cópia de uma outra com cabo e bainha em marfim, que já possuía – ao ourives Rafael Zacarias da Costa, lavrante de prata da baixa lisboeta, que se iniciou mais precisamente na rua Bela da Rainha[12], ora rua da Prata, e se instalou na rua Áurea (rua do Ouro) depois de aprendido o ofício, nos meados do século XIX – que é, exatamente, o leitmotiv desta obra. Contribuindo assim para que tudo neste romance pareça autêntico, verdadeiro, desde os acontecimentos aos personagens, desde a faca à traficante Eva Mayer, ao curador Carlos Coelho de Sousa, ao professor Jorge Ferreira, ao consultor Pedro Araújo de Brito, ao representante da Fidelidade Manuel Lacerda, ao mergulhador José dos Anjos e ao guardador e cronista[13] Jerónimo Chagas, até ao desfecho e conjunto que são notoriamente falsos, pois a verosimilhança de pormenores é sempre um meio de criar ilusões, ou isca para conduzir os leitores a essa situação incrível quão improvável, que inclui essoutra «verdade real»[14] mas mais profunda que os sentidos e sentimentos circunstanciais, que carateriza a obra romanesca, sobretudo o romance picaresco, transformando a anedota de tipos sociais assim noutra coisa, espécie de novela[15] com resultados muito próximos do romance filosófico[16], de onde podemos deduzir pelo menos cinco grandes lições: I – Que quem é manipulador é igualmente manipulável[17]; II – Em literatura não basta nomear ou adjetivar para fazer acontecer; III – A pré-perceção e perceção motivada só são concludentes depois de confrontadas com a realidade e esta as corroborar; IV – Que a ficção não é uma mentira recheada de pequenas verdades, e que não vale tudo para o conseguir; e V – Que os exercícios de narcisismo, mesmo se elaborados com cinzelamento de filigrana e motivação coletiva, não deixam de ser simples exercícios de puro narcisismo, e que até os reis precisavam de receber cem contos anuais para poderem cumprir as suas promessas e concretizar as suas extravagâncias. Ou seja, que quem quer rainhas, paga-as[18] – e os reis também.

            Todavia, ninguém junta duas personagens (pícaras) cujos nomes sejam Eva (a bíblica ancestral hebraica) e Pedro (o patrono do cristianismo, com basílica sobre o túmulo de Constantino) à volta duma mesma faca de prata de dois fios (e linhagens – Antigo [Paraíso] Testamento e Novo [Cristianismo] Testamento –) por acaso, sem um propósito definido, pois os nomes são falsificáveis mas nunca os seus significados, para se instrumentalizarem uma ao outro e vice-versa, se não tiver em mente algo maior, porquanto se a primeira inventou o pecado e a culpa, o segundo ungiu o perdão em consequência da confissão e do arrependimento. Exatamente de prata – porém com lâmina da aço, o que para o efeito previsto se vê em contradição, e apenas a fé um dia ousará explicar –, que é metal infalível para matar mortais e imortais, tanto naturais como viventes do oculto, bruxas, aventesmas e lobisomens, por exemplo. Isto é, a verdadeira joia que a coroa não quis… exatamente aquela que por ter levado 11 anos a fazer detinha o poder da luz como das trevas, e podia ter salvado a monarquia portuguesa de tantos dissabores, desastres e crises até à república final; porque se D. Fernando II se tivesse mantido fiel à falecida D. Maria II manteria o seu direito aos cem contos que lhe dariam para comprar a faca que encomendara – e muitas mais. E, não o fazendo, a credibilidade da coroa perante os súbditos degradou-se ainda mais do que já estava.  

            Sobretudo porque qualquer manifestação artística estabelece e compreende uma dinâmica própria entre as suas partes, mas também entre elas e o seu todo, e a literatura (romance, novela, drama, poema, que sejam) é uma criação artística[19] (técnica), e se Pedro tem comido “a maçã” que Eva realmente lhe oferecera, as consequências teriam sido obrigatoriamente outras. Ou seja, quando as personagens se instrumentalizam umas às outras pelas mesmas causas mas com diferentes motivações, os desfechos saem destorcidos, tal como na História de Portugal outro desfecho se daria se D. Fernando, o rei-artista, tivesse honrado a sua palavra, não obstante o lato intervalo entre o tê-la dado e o tê-la cumprido. E na História, como neste romance, pese embora tudo continuasse a ser verdade, o seu conjunto seria, como realmente é, uma ilusão desmedida. Uma mentira que não depende da nossa vontade de nela acreditar para se tornar verdade, não obstante as nossas crenças se vejam espelhadas e refletidas nela.

            Pelo que, uma vez que a ficção exige ser feita de intenções verdadeiras ou de sonhos que podem expandir-se para o coletivo, outra seria a faca se cortasse com prata, ou que o seu aço tivesse um leve banho de prata no vértice dos cortes, suscitando-lhe assim novos enredos e demandas, pois que dificilmente a fantasia popular a deixaria ser o que apenas aparenta para ajudar a ajustar contas com a História, onde a Excalibur e o mito ocupam lugares cimeiros, inspiradores e justiceiros, capazes de fazer pulsar os corações em romances que propiciassem renovar o esplendor da lusitanidade que se mantém em contínua e duradora convalescença desde o reinado filipino que nos abalou as fundações. Depois, Eva e Pedro, até podiam passar mais tempo numa estância turística Suíça, pois teriam quem lhe pagasse as contas… Sempre. E a horas.



[1] Exposição ou relação em que se descreve minuciosamente uma situação ou acontecimento, conforme a definição que Harry Shaw lhe dá, no seu DICIONÁRIO DE TERMOS LITERÁRIOS, Publicações Dom Quixote, Lisboa-1978, na pág. 393, catalogando neste item muitos artigos e algumas obras de não ficção [como ficcionadas, acrescentamos nós].

[2] Síntese de várias notícias, de acordo com Silva Araújo, no livro VAMOS FALAR DE JORNALISMO, Direção-Geral da Comunicação Social, 2ª Edição, Lisboa-1990, à pág. 15.

[3] “… era para os imprevistos que serviam os seguros”, como se afirma na página 98 deste livro de BELLO, Mónica.

[4] Que iniciou a sua carreira em 1988 como jornalista, editora e diretora-adjunta d’O Independente, mas também exerceu o seu profissionalismo noutros títulos nacionais como o jornal i ou a revista Grande Reportagem, conforme se enuncia na badana esquerda. 

[5] Shaw-1978, pág. 390.

[6] “abertura de frases estereotipadas com que, há décadas, se iniciava a notícia”, segundo Araújo-1990, pág. 50.

[7] Shaw-1978, pág. 394.

[8] “Quando o motivo aparece muitas vezes ao longo de uma obra, e assume aí um papel preciso, falamos por analogia com a música de leitmotiv (por exemplo, a pequena frase de Vinteuill, em La Recherche du Temps Perdu), conforme afirmam TODOROV, Tzvetan, e DUCROT, Oswald, no DICIONÁRIO DAS CIÊNCIAS DA LINGUAGEM, edição portuguesa orientada por Eduardo Prado Coelho, para as Publicações Dom Quixote, Lisboa- 1978, pág. 268.

[9] BELLO-2024, págs. 7, 43, 48, 53, 57, 59, 60, 61, 67, 68, 80, 88, 93, 95, 99,108, 112, 114, 115, 117, 125, 129, 136, 137, 142, 143, 144, 146, 147, 148 e segs.  

[10] Mais precisamente com “lâmina de aço de dois gumes”, c.f. BELLO-2024, pág. 88.

[11] Ídem, pág. 80

[12] Ídem, págs. 70 e 72.

[13] Ídem, pág. 145.

[14] WARREM, Austin, e WELLEK, René, TEORIA DA LITERATURA, trad. José Palla e Carmo, col. Biblioteca Universitária, Publicações Europa-América, 4ª edição, 1982, pág. 265.

[15] Shaw-1978, pág. 320. E também “Novel [porque] é um retrato da vida real e do comportamento da época em que foi escrito”, conforme WARREM e WELLEK – 1982, pág. 268.

[16] WARREM e WELLEK - 1982, pág. 267.

[17] BELLO-2024, episódio da noite passada no hotel por Eva Mayer e Pedro Araújo de Brito, pág. 144.  

[18] Conforme terá dito a rainha Maria Pia… in BELLO-2024, pág. 86.

[19] Arte significa exatamente expressão técnica de algo ou “conjunto dos meios pelos quais é possível obter a realização prática de algo. = TÉCNICA” – "arte", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/arte.

 

domingo, outubro 06, 2024

Mariana Root & instrumento Adufe @ Centro Cultural Raiano

Ana Laíns, Adufe Em Lisboa e EUL - Lés a Lés - Beira Baixa

na janela do tempo


 

 

NA JANELA DO TEMPO

Georgina Ferro

Capa de Raquel Gil Ferreira s/ foto de Abel Cunha

Edições Colibri

234 Páginas

Lisboa, julho de 2024

 

 

            Os textos simples são muito complicados. Sobretudo se pejados do linguajar popular das nossas gentes que, de terra em terra, não obstante o limitado dicionário que normalmente é apenas composto pelo léxico do quotidiano aldeão, dão aos termos sentidos práticos e significações diferentes, matizando palavras iguais conforme o uso que as pessoas e os tempos lhe vieram concedendo. Mas é exatamente essa alteridade, essa variação, essa cor local[1], essa elasticidade, que enriquece a língua portuguesa e nos exercita na capacidade de raciocínio, associação e entendimento a propósito de quem somos, ou como fomos evoluindo (paulatinamente, entre dizeres e afazeres. E umas vezes com uns, outras vezes por outros – ou vice-versa).

Crónicas[2], bilhetes[3], cenas[4], poemas[5] ou cantiga[6], cartas[7], episódios[8] campestres, contos[9]v. g. O Tio Pepe[10] e O Ti Fernando –, quadros[11] bucólicos, short-stories[12], ambiências, recordações, apelos e regressões, ou invocações da infância, desfilam ante nós com clareza e bem arrumadas, onde as palavras, incluindo as de pronúncia mais regional e incomuns para a generalidade dos portugueses, foram notoriamente escolhidas e estão ligadas umas às outras[13] completando-se amavelmente, proporcionando harmonia emocional e de significação, para conseguirmos, enquanto meros leitores e ocasionais leitoras, transformar-nos quase em testemunhas, reconhecendo-lhes as suas funcionalidade e determinação, como se fossem nossas, garantindo assim veracidade às situações espelhadas nos textos através da cumplicidade que a empatia oferece. E exige – pois dificilmente alguém conseguirá negar aquilo que lhe é evidente.

Nos poemas o ritmo poético[14] trabalha no sentido de gerar uma razão especial que justifique a sua elaboração e sentimentalidade, primeiro, bem como a sua presença no todo, depois, posto que os dois sonetos lhe servem de epígrafe, para celebrar o nascimento da autora (8-12-1948) como da obra, em conjugação com os astros e os elementos da natureza, fadando-a para os desígnios que lhe hão de seguir; e o segundo, um poema em sextilha[15] ao Ti Toino, próprio para entoar à guitarra portuguesa, encorpando a extensa sequência de quadros, a fim de gerar reconhecimento e comoção acerca do destino, do fado de um ser humano em fim de vida, sobre cuja desdita não devem restar dúvidas, demonstrando, por conseguinte, como é deveras digno de compaixão.  

 

No geral, o discurso é lírico em registo bucólico, todavia a prevalência de certos sentimentos e emoções mais envolventes dirige-o para aquele almiscarado afetuoso, tão peculiar ao tradicionalismo da gente provinciana, que nos tolhe e embarga, mas sem nunca descambar na lamechice atávica típica dos meados do século passado, atribuindo sim aos afetos a capacidade de marcar situações, ambientes, artefactos e acontecimentos de maneira a que inaugurem uma nova maneira de ver os demais. Tomemos o caso, o episódio do avental[16].   

Já não era o primeiro avental nem o mais bonito dos que a narradora tivera. Mas a avó Benta fez-lhe o primeiro aventalinho de trabalho. E, conta a autora, um dia “chegou lá a casa pouco depois do pequeno almoço e disse-me: / – Hoje é que te vou ensinar a descascar batatas! Trago aqui a faca pequenina com que a tia (sua filha) aprendeu. Foi o avô (meu bisavô Pires), que Deus tem em descanso, que a fez. Mas, primeiro tens que pôr este aventalinho. Gostas? Fi-lo ontem à noite para ti. / A partir desse dia, aquele avental servia-me de apoio para tudo!”

Neste episódio simples, um avental igualmente simples, mas carregado de afeto, transformou-se em matriz, em modelo dos aventais, que não eram coisas de somenos numa gente em que só não ia à igreja de avental[17]. Logo não foi a coisa, que ganhou valor sentimental, mas o episódio que a envolveu e originou, que marcou uma maneira de estar na vida, tornando-se não um fetiche e sim um exemplo, uma predisposição, uma lição, um motivo, um ensinamento, uma inspiração, um modus operandi para a apreensão de valores, que fizeram dela quanto foi pela vida fora, e ainda agora o é.

Portanto, pese embora aos autores[18] não devam ser imputadas as ideias, sentimentos, opiniões, virtudes e vícios dos seus heróis ou narradores, podemos sem sombra de dúvida afirmar que NA JANELA DO TEMPO é um künstlerroman[19] equilibrado[20] em formato de memórias, com que a autora completa a sua biografia editando-lhe as origens com nostálgico sentido mas, igualmente, emprestando-lhe os valores, a responsabilidade, o know-how[21] e a perspetiva de vida, cultivando-lhe a feminilidade com o exemplo feminino aldeão e familiar, a sensibilidade com a prazenteira convivência das suas gentes, sem folclores nem frenesins, e que foram razão suficiente para se abalançar noutras publicações ligadas a projetos da natureza e plantas como o Projeto Serra d’Ossa «Por um amanhã mais verde», ou o Projeto “Ceia”, e o livro O MEU ARRAIAR POR TERRAS DO SABUGAL (2013).

        Uma história de Era uma vez que se passa Naquele tempo em que as fadas e famílias se misturavam a eito na carava – nós pronunciamos caraiva, para lhe acrescentar o i que tiramos ao lête, e lhe dar assim a possibilidade de também significar moina – dispondo das circunstâncias como das pessoas e das suas dificuldades e necessidades, pondo exemplo nas que as levaram ao contrabando ou emigração[22], dando o salto para França, qual Europa antes da UE, preparando também o nosso coletivo nacional pràs particularidades que nos subscrevem presentemente, tendo em conta que as janelas do tempo, dão nunca para outros lugares ou panorâmicas, mas para outros tempos, sendo das do passado que vislumbramos as do presente que, naquela altura, não passava apenas duma hipótese de futuro. Uma história que começou em dezembro de 1948 mas veio ainda além do Natal de 2020, e para permitir que a menina continue a sonhar…  
 
                                             Joaquim Maria Castanho

[1] Particularidades de trajo, caraterísticas geográficas, circunstâncias dialetais, linguagem e costumes de um determinado lugar ou região portuguesa.

[2] Que se reporta a uma espécie regular de resenha de acontecimentos com referenciação temporal e significação próxima das histórias, conforme define Silva Araújo, no livro VAMOS FALAR DE JORNALISMO, Direção-Geral da Comunicação Social, 2ª Edição, Lisboa-1990, às páginas 141 e 142.

[3] Texto semelhante à crónica mas ocasional e que reporta exclusivamente a visão peculiar e pessoal do seu autor (Silva Araújo-1990), pág. 141.

[4] Incidente ou situação da vida real que corrobora as impressões da autora e exemplifica o seu efeito sobre si.

[5] Págs. 13-14, e 76.

[6] Cantar as Janeiras, págs. 198-199.

[7] Comunicações escritas, sejam notas ou missivas, trocadas entre pessoas, que identificam o género epistolar.

[8] Caso ou sucesso incidental que se inclui numa narração mais extensa, segundo o DICIONÁRIO DE TERMOS LITERÁRIOS, de Harry Shaw, Publicações Dom Quixote, Lisboa-1978, pág. 175.

[9] “Dá-se (…) a designação de contos (…) a narrações mais ou menos pormenorizadas de factos ou incidentes reais ou imaginários e a outras narrações de enredo simples”, conforme sugere Shaw-1978, pág. 120.

[10] Págs. 163 a 176 e 177 a 181.

[11] Grupo de pessoas ou objetos numa certa disposição, de acordo com Shaw-1978, pág. 384. 

[12] Histórias breves ou curtas, como se podem exemplificar com a intitulada Na Vila, da pág. 185.

[13] “As palavras estão ligadas umas às outras na medida em que algumas estão lá para «completar» o sentido, lacunar em si mesmo, de algumas outras”, como terão enunciado Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov, no DICIONÁRIO DAS CIÊNCIAS DA LINGUAGEM, edição portuguesa orientada por Eduardo Prado Coelho, para as Publicações Dom Quixote, Lisboa- 1978, pág. 259.

[14] “… o ritmo poético pode entender-se como aproveitamento melódico particular de uma certa estrutura determinado por um significado específico”, como o observa Carlos Reis, no livro TÉCNICAS DE ANÁLISE TEXTUAL, 3ª edição revista, publicado pela Livraria Almedina, Coimbra-1981, na pág. 177.

[15] Na pág. 76, onde falta o último verso.

[16] Pág. 97.

[17] Pág. 99

[18] Segundo parecer de René Wellek e Austin Warren, na sua TEORIA DA LITERATURA, trad. de José Palla e Carmo, editado pelas Publicações Europa-América, 4ª edição – 1982, pag. 89.

[19] Palavra alemã que significa «romance do artista» e se reporta a um tipo de narração que nos conta a vida e formação do autor (ou duma personagem que se lhe assemelhe) desde a infância à maturidade – conforme Shaw-1978, pág. 271.

[20] Diz-se equilibrado um romance cuja caraterização das personagens lhe traça os pontos favoráveis como desfavoráveis com igualdade, de acordo com Shaw-1978, pág. 178.

[21] Conjunto de saberes-fazer e conhecimentos práticos tradicionais.

[22] Pág. 143.