A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Assim Resistiremos, Até Haver Sinal



Inanna, aquela que ao mesmo tempo é neta
E é avó, é também filha e é mãe, e no respeito
A Arina recebeu das edubas de Shara a meta,
A palavra que soa nas mentes ao ritmo do peito
E acalenta com seu pulsar a respiração da Lua
Que fecundada é quando leda e plena mingua,
Manda que te diga e segrede o murmúrio do mar
Sopre a pérola dos lábios de amigo para amiga
Que isso do desejo é onda de espuma e cantiga
Onde apenas baloiça e dança quem sabe esperar…

Que sempre haverá alva na rosácea ansiedade
E brilho no olhar após respirar o alor da saciedade!

sábado, fevereiro 19, 2011

Sonhar é Abraçar-te Recordando Arina

Aberta a rosa da álgebra solta
Silvam aéreos reflexos da alma
Envolta a soletrar os atritos que salta
E aclama, chama acesa que acalma
E acena A Deus, eis Inanna, a maior Mãe
Que é Grande como Grande é seu Amor – também!

Mas se no topo da colina o sol declina
É Arina quem assim aceso e rubro o mantém,
Cujos raios como sedas de Borak sacode a crina
E à desfilada nos faz voar entre o real e o Além,
Casa sua e trono daquela que sendo Deus é mulher
E sendo mulher é irmã, esposa, estrela, rosa, mãe
Do sonho que a si mesma sonha se nos deseja e quer.

E ei-la tecendo agora neste repente o instante
Do abraço entre a realidade e a pura fantasia,
Que sendo Sol é igualmente espelho e amante
Adormecida Lua a iluminar a noite em outro dia
No Templo de Shara celebrado e dito e recriado
Colo de receber a palavra como ente vivo e amado.

Que a ternura é o manto violeta de seda doce e pura
Solfejo de ambrósia no repasto das almas famintas
Adocicadas reservas de aromas silvestres e cordura
Essa a da verdade aliciada das cores com que te pintas
E me destilas no verbo que a conjugar-se se aventura
A sonhar ser próprio amor que em amor único consintas.

Alimento de deuses que A Deus se comete cultivar agora
Outro âmbar de palavras feito produto do tempo e história
Onde o reduto dos homens se entrincheira na memória
Viva, dádiva que se promete e reinventa na vivaz demora
Dos lábios sobre lábios que como língua a língua devora
Dizendo sua meiga magia feita divina para intensa glória
A palavra que é gesto e num gesto a gesta humana aflora.

Arde-me a rosa na alva serenidade de teu olhar vigente
Sobre os andaimes da reminiscência ancestral, contudo
Em cada ramo da árvore do renascido amor há a semente
De quanto somos ainda repetições antigas na fé do mundo:

Arina é outra vez a vez que nasce para contar o destino
Que o ser humano apenas escuta, como qualquer menino
Disposto a alcançar o rosto da alegria suprema na esquina
Daquela cujo olhar a ver as flores na flor me ensina segredos
Rimas iniciais à repetida estrofe, encantos mágicos da flor lida
Que o sonho é igualmente duas mãos de entrelaçados dedos
Sem medo trocado nem fuga aflita perante os possíveis medos
Que escurecem os céus ou encrespam as vagas do mar da vida.

É sonhar de abraço e respirar adormecendo de qualquer amante
Num segredo arrebatado revisitando Arina e apagar todo perigo
Que o mundo se expande se o sonho se inclina e salta ofegante
Ao adormecer no desejo ardente para acordar feliz e vero amigo!

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

A Verdade Vertical da Primeira Linha

Pode chover, pode ventar, esfriar e rugir
Ainda pode também haver morte e breu,
Revoadas de insectos, bancos ruindo falir
Até torres cimeiras a cair, estrelas do céu
Baixarem aos rios dos caudais por ouvir,
Esconderem-se os rostos sob doloroso véu
Ninguém escutar o clamor humano a pedir
Socorro aos deuses com o destino por seu.

Contudo, mesmo que o infinito finito esteja
A madrugada vire tarde e o rumor grito seja,
Repare-se, toda vida passada é futuro intento,
Legítimo instante, insight que repete é reflectido
Após cada dia, cada noite, Sol e Lua no teu… – Nascimento!

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Andam Rosas a Aliciar a Solidão…


Sofro sempre alucinações repetidas de adivinhar-te
Se soam sonetos angélicos nos reflexos da aurora
Porém, cada sílaba acesa perde brilho na demora
De esperar-te: eis a razão desta tão singela arte
Ao cinzelar o sonho da alma na recorrente alegria
Com solstícios de âmbar repercutidos no ar que sia.

Se soubesses isso de sentir alvoradas ante a rebeldia
Corpo que insiste em galopar à desfilada conciliadora
Os verbos com o freio nos dentes, os lábios sôfregos
As mãos que procuram segurar-se aos vazios da hora
Abertas num grito, os dedos hirtos vencendo trôpegos
Silêncios da sonata áspera da resignação à aridez do dia…

Então, saberias arrotear as ravinas da ausência na sorte
Que é ver-te mesmo quando não estás – e em toda a parte!

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Secreta Alucinação de Regresso à Antiguidade

Se procurar antecedesse a voz e suprimisse a distância
Então ninguém poderia duvidar de meu ver-te alucinado,
Ver-te a todo o instante como em todo e qualquer lado:
Que a magia acontece e permanece muito para lá da infância.

Tenho a sorte de pensar por imagens e tu és [o] só o quadro
Preferido, a foto permanente do meu ambiente de eficácia
Onde me desenvolvo como palavra de brincar à solta no adro
A rodar o pião ou a virgular entre os ledos verbos da audácia.

Não nego, em momento nenhum, que veem nisto loucura
Como se insano estado fosse este ao querer uma realização
Que acontece se se entretece a vontade ansiada da alma pura,
Com as mais finas linhas e veias tecidas que nascem no coração…


Porém, da Babilónia a esposa do patriarca me sorri enigmática
E eu, perdido por tamanha magia, torno-me poema sem lição
Nem regra, nem forma explícita, ou limitação doutra gramática!

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Visão Fugaz

Às vezes acordo disparado entre o sufoco e o vil vazio
E dou por mim arrependido por não te ter dito a verdade
Do olhar, a sombra quebrada na esquina, quilha de navio
A mesma luz que ilumina também é capaz da escuridade…

Assim tipo bala de canhão humano feito um arco e até rio
Ponte entre margens por desenhar na topografia da idade
Sulco na pele a rasgar o desalinho das velas e seu pavio
De brilhar aceso na escuridão das ruas e vielas da cidade.

Negrito
Instante que sucumbe ante o flash da memória que resiste
E abriga todos os quereres que calados nos dissemos sós
Sem mais ninguém a quem nos socorrermos além de nós;

Que a vida e a solidão nada têm em si que seja tão triste
Como esse risco de abrir os olhos perante o silêncio atroz
E
ver que ver é só momento e o instante que não persiste!

sexta-feira, janeiro 28, 2011


Sob a Alegria Retornemos Ancestrais

1.

Espraiam-se alongadamente inquietos no meu chamamento
Enquanto cresce a distância de teu discreto e silente sentido,
Nas esquinas pródigas acendem-se à luz do amor desmedido
Em labaredas de silêncio amplificado nesse puro sentimento
Que é a ternura dos verbos entre os seus substantivos acesos,
Os teus olhos medindo dúvidas e esgares inflamados possessos
Da alegria, no à-parte da voz que diz seu próprio contentamento…

E di-lo calando na indecisa sombra a conjugação perfeita da cor
Das tuas vestes pelo creme da acinzentada espuma da areia fina
Ao grão ímpar dessa clepsidra que escorre a espera do botão à flor,
Que a vida lança seus ramos, enleia suas teias na orla que ilumina
A seda esguia da tecida intenção de colher frutos nos lábios fiéis
Em que o sonho cresce a realidade se implanta contra os ouropéis:
Eis a tua grandeza de mulher naquela silhueta de crescida menina!


2.

Digamos sempre o ponto sobre o ponto do grão preciso na reta linha
Que a costura nos sobra nas formas exemplares como quem respira,
Pois entre os arcos frios e gélidos das arcadas ímpias ainda se aninha
A lúcida serenidade dum sentir que se diz em gestos da luz que aspira
A ser apenas luz do verbo no som da sílaba viva e fugaz e tão decidida
Que os seus raios são só os vinte e um braços abertos na roda da vida.

Esta que gira em torno do eixo da voz a dizer caminho no cimo do outeiro
Onde o azinho da cortiça virgem algema de verde seu grito de liberdade
Que espelha em cada folha de húmida tez o luar do rosto neste Janeiro
Que sendo primeiro é também o mês da tutela dos deuses pela divindade…

Ante a nobreza felina que dilacera a mentira, a maledicência e a vil inveja
Como quem quebra aquele vaso insano e furado sem préstimo para nada
Com que carcomida palavra se aduba no preconceito e sobre nós despeja
Sua peçonha nojenta, apenas seremos voo e reflexo de sua seta dourada!


3.


Assim erguidos girando numa dança onde mil véus balanceiam só ilusão
Mostram e escondem os rostos subtis na miúda máscara sob a nívea tez
Que o mel lava pela íris em frincha de um felino em salto de caça, siamês
E gémeo deste querer recatado represo e plural de dois num só coração…

E que voando como dardo nas sigilosas alturas se vê como apenas tu o vês
De tuas palavras o meu ser, teus olhos a minha luz, de teu não o meu não
De teu sim o meu sim, teu prazer o meu sentir, teu bem-estar minha intenção
Sem mágoa nem arrependimento, é essa a glória de sempre na primeira vez.

Que onde a alegria do instante perdura mais que o suporta a vulgar eternidade
E o tempo rompe as fronteiras do sequestro entre os mostruários da redondez
É que nasce a flor que roda e rodopia edificando o brilho da mais pura claridade

Da mais pura ousadia, aquela que estende veios ao sangue na doce languidez
Transpirando na conspirada entrega dos deuses à sua Deusa única verdade
Posta sobre os altos montes a brilhar iluminando em seu carinho a humanidade!

domingo, janeiro 02, 2011


Flores de Chocolate…

1.

Ainda guardo, na gaveta superior, a fita dourada
Que vinha a jungir com laço a condizer, a caixa
Da prenda, que pelo Natal me deste, ao sol-pôr
Junto com a Aliança Velha de nossa endecha,
Igual àquela que fora cálice a cálice celebrada…

Tenho para mim que hei de usá-la por marcador
De leituras, nos ensaios e livros de cota baixa
Que é onde o chocolate da ternura se precisa
Que só da filosofia e ética ninguém terá queixa
Quando a lógica fria, aguda e sisuda, está incisa
Daquele soletrar adocicado pelo morno sabor.

É porém possível, que num qualquer outro dia
Eu venha a reconhecer esse aroma numa flor




2.

Gota a gota a plena água da doçura breve deleita
O palato que no céu a língua toca em melaço escuro,
Todavia mais que ao mar dessa calda negra desfeita
Meu ser navega em busca do colo em porto seguro...

Ouvem-se farrapos de nuvens no azul que espreita
E seu branco é de lã sem mágoa, níveo de tão puro,
Como se ditos na voz dos avós que na alma eleita
Seus ninhos constroem de loureiro, azevinho e ouro.

São acenares de fica mais um pouco, se puderes, ‘tá
Não demores nunca as ausências além de um instante
Que o breve é longo pra quem te espera do ainda ao ;

E mais que a nobreza da flor flutue na maré constante
De ir e voltar, balançando no vaivém dum manto grená
É a esperar-te que estou e fico, onde quer esteja e… vá!

segunda-feira, novembro 15, 2010

Febril Brecha na Alma


Escuta esta ausência que fere
Meu grito escrito no cuneiforme desolado
Magoado lamento de quem te prefere
Mais que ao ter, ser que quer
Ser se este for estar – do teu lado.

Esta febre que rasga e inquieta
Subtrai, aprisiona, pisa, dói, manieta
Incendeia e crepita noutra pepita da Lua-Meia,
Que muito além do que é comum e vulgar
Anda hoje a crescer de nuvem em nuvem
Assim, como quem no luar toda se enleia
Na teia solta e rebelde do teu cabelo cor de aveia
Madura, espiga na brisa de margem a margem
Ondulante até na areia dos dias apenas restar
Essa espuma de estrelas a sorrir e a brilhar
Ante o suspiro esvaído da fria aragem
Da distância, abismo brunido da minha ânsia...

Porque a dor polida pela saudade sentida
Tanto pode no doer como qualquer adaga afiada,
Que a vida no gume de uma corda estendida
Esticada, sobre o abismo do ser é a única medida
De aferir a brecha na alma partida – ao ser quebrada!

terça-feira, outubro 26, 2010

Cordão de Luz e Memória


Por essa linha fora, nesse registo
Em que o olhar se demora
Existo, na nesga celeste que o horizonte,
Qual fita azul que ao azul do céu fita
Distante, no longe da longínqua fonte
De quem sob a fronte se debita
Data infinita já desde o imediato agora
Até à Lua Cheia da humana História?

Eis, portanto, quem nasceu feminina nas dezenas
E mulher nas unidades, a que entanto
Se somados seus ícones na clave das serenas
Estrelas de oito pétalas ao octívago manto
Casulo arquitectado do perfeito eremita, poeta, santo
Capaz de nada como de muito, do pouco como do tanto,
O rubro rubi que ao aceso das almas amenas
Acalenta e aninha a palha dourada da luz crua
O cabelo de Verão das espigas maduras nas searas pequenas
Ao Outono da noite como um grito da Lua...

Oito deitado na dezena do ano, do segundo milénio
O génio do olhar que se alonga secreto até ao infinito
Mais que um remo que ruma é tão-só o silêncio do grito
Que calado se agiganta a arder na garganta
E rebenta na lava que lava e casa com a liberdade
Ao repetido anseio do esteio outonal da eternidade,
Num breve instante cujo ponto de vista
É mais distante quanto adentro alcança – e avista!

Selo de Arina que a brilhar destina ver
Da janela do ser a plenitude na profundidade,
Inventa o silêncio que conflui dizendo o saber
Esperar, aqui, Foz Inequívoca da Luz Incisa Paz na Alma
Fulgente à Íris Lavada no Ínclito Pleito da Aurora calma
A edificar brasão e flor se aninha na lídima cavidade
Do cálice onde estremece o néctar da vida feita seiva terna
Que o desejo é apenas outra realidade que se faz eterna.

Por essa linha imaginada, plana e plena
Em que os factos dependurados a secar
Buscam sua foz na voz serena
Almofada cósmica dos sonhos, como alfazema
Amadurecendo sob o amanhecido Luar.

Dia 26.10.2010, às 06:20 horas


(Ilustração: fotos de/e quadros de Filipa Brasão Antunes)

sexta-feira, outubro 08, 2010

Soneto da Gratidão


Com cinco dedos que o Noddy ergue ao céu e saúda
No celeste azul da pasta que ontem gentil me deste
Onde guardo as mais queridas canetas de escriba
A quem a escrita superiormente arrebata que ajuda
Neste presente em que o futuro é só mistério agreste
Estremeções do mole coração que assim vai arriba,
Eu te saúdo também, néctar de ambrosia silvestre
Alimento dos deuses que de tanto quererem bem
Imaginam, até que em imaginados seu ser se ateste;
Muito inspiram este mestre, que não ensina ninguém...

Excepto aquilo que ele próprio por si e de si aprende
Deambulando de flor em flor, cujo pólen aspira
Que à dor e morte apenas o amor vence ou defende
Do veneno e preconceito e medo em que ela o atira!



quinta-feira, outubro 07, 2010

Bandeira Natural Sob os Flashs de (M)Arina

Da lama da alma clamo na alameda dos álamos
A alquimia do olhar aceso à chama que ilumina
Enlevada calma enleia-me quando aludes a lidos
Acordes que acordam laivos de sonho na alegria
Ver-te aqui, entre as flores deste jardim escondido
Algures, lá onde as casas encontram suas portas
Mil, pelo menos, esculpidas como nichos de luz
Socalcos de cores no botaréu da escurecida noite
Amolecida, branda, breve liana de balancé o verbo
Oscila redondo e dito na ditada amálgama do ser
Diluído alento esse de esperar nas frinchas sólidas
Arejadas frestas da solidão onde o pequeno anuro
Desafia o sol sobre a rubra polpa da pétala veludo
Felpudo de ver, imaginar e não profanar ao toque
Como acaso feito símbolo que cresta iludida mente
A alivia do seu intrínseco desterro visceral emotivo
Que motiva quanto prende, e liberta quem entende.


Eis aí o secreto deleite do verde ser sobre a rubra capa

Que onde a esperança alcança o grito nasce outro mapa!
(Fotos: Zélia)

quarta-feira, setembro 29, 2010

Das Picadas das Silvas

Tal como há espinhos que dão flor
Também há silvas com frutos de igual cor,
Sim, como aliás em todas as histórias
A emergir dos nublosos enredos do passional...
Mas isso, é o mesmo que gostar de amoras:
Umas vezes, como-as assim, frugal;
Porém, outras vezes choro-as
– Ou deito-as fora.

Pois se do corpo são, lúdica é a pertença
Da alma que em vão se acenda,
Então, que o amor faça da vulgar indiferença
Outra, que não mais outra pura e remota lenda!

sexta-feira, setembro 10, 2010

a redistribuição da ordem e conhecimento


Era uma vez um escriba escolhido por Inanna no seu coração sagrado
Escolhido na pátria de Gilgamesh por Shara no seu coração sagrado
Escolhido no jardim de Arina por Shara e Inanna e seus corações sagrados
Escriba a que foi confiada a missão de relatar toda a verdade só verdade
Que é o tempo primeiro de todos os tempos e logo seu tempo original
Aquele tempo em que as horas eram só aprendizas das mestras de Shara
E iniciadas e oficiais do Templo de Inanna como do seu coração sagrado.


Se no banquete em honra de Enki Inanna lhe usurpou poderes divinos
Os sete sábios de Eridu viram ser essa a vontade de Arina e a seguiram
Igualmente Enlil guardião do fogo, o ferreiro sem igual de Sippur veio
Uruk tem agora como Bad-tibira a sua forja e centro da ordem do mundo
Eis que os sábios que transmitiram o saber a toda a humanidade imploram
E a três será concedida residência nos Templos de Shara por seis meses
Seis meses passará cada qual em cada um dos seis Templos de Shara
E outro mesmo sucederá com tantos três por cada dos Templos de Inanna
Que igualmente seis desde Uruk a Mari a comprido do reino de Gilgamesh
Mas o sétimo é Enlil ficará sempre no Templo de Arina no zigurate de Uruk
Até que esta o requeira na pira para lhe alimentar o fogo e há-de sarar todos
Há-de sarar conforme os preceitos de Inanna como segundo os de Shara
Porque sendo o sétimo sábio dele é a chave da porta vida e abrirá ou fechará
Enquanto obedecer à ordem do mundo e mais não é do que vontade d'Arina
Cujo mandato foi distribuído por Shara e Inanna sendo essas vontades Suas
Inanna que é a grosa da Lei das Doze Tábuas e logo a multiplica de si para si
E Shara que é a grosa da Lei mas apenas a divide de si pra todas e pra todos
Que só assim cada um será igualmente parte divina e comungar com Arina
Arina é fogo e é afecto e calor de Inanna que é Amor nos cálices de Shara.

Uruk a cidade das deusas e residência das rainhas protegidas e fiéis de Arina
Reino de doze distritos e trinta e seis ensi e cento e quarenta e quatro domínios
Mas de um só en a quem todos e todas veneram e respeitam por Gilgamesh ser
E pagam tributo todos os campos e todas as parcelas pela lei dos doze avos
Conforme o desejam dignitários e dignatárias donos dos campos de lavoura
Conforme o desejam os homens livres e escravos dos campos de subsistência
E assim o quer e acata o chefe de boi e todos os escribas do reino de Uruk.

Assim o querem e acatam os escribas na Eduba entre o Templo alto de Inanna Entre Templo alto de Inanna e o Templo baixo de Shara é a casa das tabuinhas
É Eduba a casa das tabuinhas e escola dos escribas pensativos e jubilosos
Assim o querem Ummia pai da escola e professor especialista sábio desta casa
Especialista em mitos e epopeias, hinos e lamentações, fábulas e provérbios
Director de todos os irmãos grandes ou professores assistentes e vigilantes
De todos os vigilantes e encarregados do chicote e encarregados da presença
De todos os filhos da escola seus pupilos e aprendizes diligentes e esmerados
Que hão-de ser os guardadores das memórias e contadores dos bens de Uruk
Súbditos fiéis dos templos das deusas e rainhas e vassalos de Gilgamesh
Senhor de Uruk e escolhido por Inanna e por Shara e seus corações sagrados.

segunda-feira, agosto 30, 2010

discurso da Mestra de Inanna na Assembleia Maior do templo


Se gasta em Tebas com a morte seis vezes mais do que à vida faz falta
As viúvas e órfãos de Uruk são superiormente valiosos aos fenecidos
Não há de Uruk a Acad, de Shubat-enlil a Kalá nenhuma alma defunta
Nenhum ser vivente ou das profundezas que renda culto A Deus Arina
Nenhum pode esquecer que a Luz é Amor e por isso Inanna A acolhe
Que a fecundidade honra e por tanto enche o cálice donde brota a seiva
E essa será de ora em diante a palavra de Shara que há-de apagar Isis
Porque onde Tebas faz gerar a morte Uruk elegeu o seu nascer celeste
Assim as Sharazades que são mestras e oficiais de Shara hão-de fazer
Porque estas foram as vozes e os cantos de Inanna que soube escutar
Que A Luz é cor que nos segreda a voz de Arina pelo sofito do templo
Recebe o Sol que fecunda o crescente alagado das almas devotas à flor.

Se os pequenos dilúvios de Abril e Maio fertilizam os vales do crescente
Se em Abril o Eufrates faz gemer seus sucos sobre as terras das margens
Se em Maio o Tigre rebenta seus limites e os alaga de Ninive ao Kerkha
É porque A deusa-lua Shara permite embeber-se d'A Luz de Arina a sábia
O primeiro seis do cosmos e da vida que é o conhecimento da deusa-mãe
E Inanna o segundo seis sua filha que lhe é devota e cuja sabedoria copia
Como de Shara sua neta e terceiro seis e na soma resulta A Deus Infinita
Porque dezoito é a dúzia mais a sua metade que é perfeição de si mesma
Como a grosa é a multiplicação de si por si e símbolo de A Deus na vida
A vida que tem quatro partes visíveis que comungam o cálice de Shara
Como também tem quatro partes invisíveis e escondem A deus nas trevas
Que o oculto é o culto onde se tece e entretece o destino das almas de Uruk
Incluindo a de Gilgamesh a quem devemos honrarias, fortuna, vassalagem.

E A Luz do conhecimento é Aquela que reflecte Arina e Esta é apenas Vida.

E eis que assim respondeu Mestra de Inanna ao pedido de Mestra de Shara
Mestra de Shara agradeceu e reverenciou com as mãos juntas sobre o peito
E as seis Mestras dos Templos de Arina anuíram em coro por Namasté dito
E as seis Mestras dos Templos de Inanna anuíram em coro por Namasté dito
E as seis Mestras dos Templos de Shara anuíram em coro por Namasté dito
E as oficiais participantes presentes na Assembleia Maior juraram cumprir
E todas juntas juntaram enfim as mãos sobre os peitos e cantaram pra Arina
Arina a todas ouviu como ouviu Inanna como ouviu Shara e selou o acordo
E então a partir desse acordo nasceu a Lei que há-de ser a Luz da fala eterna
E boca de cada Sharazade o cálice divino a há-de derramar aos quatro cantos
Por mil e um anos que viva Gilgamesh e reine em Uruk assim será sempre.

sexta-feira, agosto 27, 2010

lenda da origem do firmamento


Ainda rendo gosto às palavras indizíveis por dizer assim inauditas sejam
Malévolas e insubmissas e infiéis espartilham os devotos, os atam ao tempo
Pertinazes os atiram ao fundo de si mesmos sem reserva nem contemplação
E lhes vociferam e estilhaçam a alma solta em cada sílaba incendiária agreste
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa afiada e acutilante
Essa igual que acaricia as frondes das acácias no fustigar da rama superficial
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar que intenta romper os limites
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado apontando linda ao infinito
Na paisagem os dias sob a paleta das vozes íntimas se fizeram inseparáveis.


São para ti na erosão corrosiva dos sentidos todos os minutos crucificados
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta perante as distâncias
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis a cujo culto brando
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso pende e oscila enredos
Longe e desesperado de tão próximo, próxima aproximo a ansiedade máxima
Eis os lábios, nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua a gritar estrídula.


Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra de tender o arco da voz
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo numa manobra fugaz
Sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear equíneo do felino salto
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta e sem remorso
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós até à solidão palpável
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo que prolonga o infinito
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro sentido do signo
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos no mais-que jungidos
Se conjugam e aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade fulgente
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca e ecoam, ecoam
Ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, ecoam, e-cooo-aaam...


Eis por que eis o porquê do laço nos une sobre a cruz do peito as mãos juntas
Alicerçadas no elo esfíngico de aglutinar o verbo inicial primaz inconformado
O que encerra todos os indizíveis ainda por dizer ou que ditos calmos urgem
Vogam na celestial aspereza da lonjura inominável – eis o sonho, eis Arina –
Eis o porquê de que por eis se manifesta presente o futuro no passado profundo
Ancorado sem contornos definidos está o nome, aquele que pronunciado ousa
Invoca a eternidade perene e duradoura do sentimento esculpido a golpe de asa
Que não desfalece e solto volta ao princípio dos princípios esvaindo-se meigo
Até ao delta da voz primordial como se a luz nascesse de si própria em si outra
Luz renovada essa a anunciar paixão cometida do silêncio exige conhecimento
Abrigo da foz ao ciciar do desejo incontornável dos corpos unidos pelos vértices
Abertos e plenos à entrega final sem parangonas desmedidas ou esquecimento.


Porque épico é o abraço na distância de morder o tempo, assim lesto se apronta
Abocanhar o laço de que a cruz é nó e sinal e sustento e verbo e nome indizível
Sustenido inconstante de dizer-me Aqui, eis-me pronto perante tua boca acesa
A receber-te plural na infinita agitação da espiral dissolvente entre significados
A que joga os pedaços de mim e de ti aspergindo o cosmos, estrela a estrela,
Estrela a estrela, pestaneja breve e repentina, eis a flor na onda o mar de Arina.


Eis que assim falou Mestra de Shara à Assembleia Maior no Templo de Inanna!