Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
segunda-feira, abril 04, 2022
sábado, março 19, 2022
PROPÓSITOS & RESULTADOS, Lda.
PROPÓSITOS & RESULTADOS, Lda.
Sinto saudades do teu olhar risonho
Que me leva ao verso, me conduz ao sonho…
E faz florescer minutos ao meio-dia.
E me transforma os afazeres em poesia.
Me dá este agora em vez do quando
E escreve fora o que dentro guardo,
Pois que eu voo até mesmo se só ando
Em alheado vaguear de aedo ou bardo.
Quero arranhar os futuros livres, puros
Já audazes e capazes de pedir meças
Aos desígnios loucos – e inseguros –
Do caos das prosas malfeitas, e às pressas.
Certo é nada ser primordial agora
Que as batalhas o hão de zurzir de vez...
Int’resse bélico, sentires devora,
Assim, como o fez outrora a D. Inês.
Todavia, eu mergulhei nas trevas da luz
Como se um mastro em nevoeiro brando,
Pois só o teu olhar me alegra e conduz,
E me faz voar... – até mesmo se só ando!
Joaquim Maria Castanho
25.02.2022
Aos óculos duma Musa
AOS ÓCULOS DUMA MUSA
Primeiro sábado do mês
Pouco passava do meio-dia...
A passear andava Inês,
Que também se chama Maria.
Passeava com a sua avó:
Saltinho aqui, trilori-lori;
Saltinho ali, triloró-loró.
Um, dois, dois, um, três,
Assim passeava nesse dia
A Musa chamada Maria,
Que também se chama Inês.
Saiu para comprar brócolos
E comer uma massa-frita,
Mas eis que os seus óculos
Viram uma flor muito bonita…
Era verde, era amarela
Silvestre, tão campesina;
E ao ver tão linda donzela
Quis logo ser essa menina.
Assim, d’óculos especiais
Aptos a descobrir flores,
Por essas manhãs, tão normais
Que são iguais a jardins às cores.
Óculos vivos, e bem reais
Adequados e ativos,
Feitos pra verem bem demais,
E que sei serem bem bonitos,
A valer por cinco ou seis
Inteligentes e expeditos.
Mas os olhos de Maria Inês
Quando eu os vi a sorrir,
Posso dizer, ou garantir,
E sem ter medo de mentir,
Que bonitos e expeditos
Ainda o são muito mais!
Joaquim Maria Castanho
05.02.2022
segunda-feira, fevereiro 28, 2022
terça-feira, fevereiro 22, 2022
INVENTÁRIO EXISTENCIAL
INVENTÁRIO EXISTENCIAL
Que nada na vida é o que parece
E tudo emana dos seus segredos
Se diz, mas sentir é algo que cresce
Ainda que o faça entre esperas
Contrárias, tão frágeis como várias…
Invernos que são como primaveras,
Prenúncios de secas, vírus e medos.
Ameaças de guerra, confusões diárias,
Férteis para migrações e degredos.
Gripes, inflações, esperanças pueris,
Influências, modas, fatores astrais.
Politiquices imaturas, ou senis…
Desaguisados coletivos, pessoais…
Janeiros que são maios, marços por abris
De importâncias mundanas – e mundiais.
Défices d’economia, revistos em baixa…
Pois nada disso conta, nada vale.
O que sinto é qu’importa, e não cale
A felicidade de ver teus olhos a sorrir
Miríadas estelares, campos a florir,
Se passo junto a ti... – à tua caixa!
Joaquim Maria Castanho
22.02.2022
sexta-feira, fevereiro 18, 2022
QUANDO PASSAS ME LEVAS CONTIGO
QUANDO PASSAS ME LEVAS CONTIGO
Há instantes breves, e soalheiros,
Próprios para atravessar os dias,
Que valem por vários anos inteiros
E são a rotunda essência das poesias.
São ápices disferidos, e certeiros,
A despertar a beleza às fantasias,
A pintar meigas brisas pelos outeiros
No chão fértil das inocentes alegrias.
Clique! – Gota que por nosso ser s’alastra
Como onda que nos invade duna a duna…
Pois sentir, não carece de fortuna
Habilitações ou certidão ou casta;
É uma sede sôfrega e oportuna
Prà qual a vida toda nunca basta!
Joaquim Maria Castanho
18.02.2022
sábado, fevereiro 12, 2022
sexta-feira, fevereiro 04, 2022
OUTRA CHUVA NOS CONFORTA
CHÃO AGRESTE
1. MANEIRA DE SER
Calcetada de compungido silêncio
Eis uma rua que nada diz do que penso
Sob os frios passos magoados do caminho…
Seu semblante comum às idas abandonadas
Regressa ao estio dos cães em vadiagem
Ladra a preto e branco o bicudo escarninho
Por quem atravessa chão que é escadas
E leva às costas a sisudez da bagagem.
Dias escarram nelas a sombra dos plátanos.
Noites cobrem-nas de geadas deslizantes.
Mas ímpios e insensíveis são só pântanos
Onde coaxam as solidões ofegantes
De quem já esperou uma vida inteira
Que lhe reconhecessem normal o andar
Os gestos, a lida, a voz… a sua maneira!
2. OUTRA CHUVA NOS CONFORTA
É subterrânea a sombra
Que a luz dilacera,
Como se faz a uma cobra
Que sonhou ser Quimera.
Que travo trago a trago
Dos olhos que ora me norteiam,
E iludem o seco vago
Para em vez dele porem
O porém
Do amor, e carinho que semeiam.
Então, viradas para cima
As raízes da incerteza,
Eis que muda agora o clima
Chovendo-me na alma… Mas só beleza!
Joaquim Maria Castanho
terça-feira, janeiro 18, 2022
RESILIÊNCIA ORIGINAL
RESILIÊNCIA ORIGINAL
Toda hora é passo dado
Em frente, mesmo sem sair,
Ir para qualquer lado
Onde o proveito do porvir
Nos traga algum resultado.
Hoje é sempre o primeiro dia.
Longa espera chegou ao fim.
Que, para brotar a poesia,
Há que nascer outro eu de mim.
O silêncio nada inventa.
O medo à dor nada diz.
Só perece quem não tenta…
Florir é dar vida à raiz!
Joaquim Maria Castanho
domingo, janeiro 09, 2022
DA SERÔDIA SOLIDÃO DAS FOLHAS
DA SERÔDIA SOLIDÃO DAS FOLHAS
Afasto-me, nem sei para onde
Das nuvens escuras, doentias
Sob as quais o receio esconde
A pura inocência das poesias.
Dessa árvore de cuja fronde
Pendem os versos, as ousadias
A que hoje ninguém responde
Por vê-los como se folhas frias.
Mas é grande engano esse
Sobre o qual cai o julgamento:
Não há verso que ao soltar-se
Ainda que das mentes geladas
Não seja fogo, sentimento
Confissão labareda alento,
Lamento d’almas apaixonadas!
Joaquim Maria Castanho
sexta-feira, janeiro 07, 2022
AS DISTRAÇÕES PAGAM-SE (CARO)
AS DISTRAÇÕES PAGAM-SE CARO
O meu relógio biológico avariou.
É bússola cujo norte está no sul,
E se o consulto pra saber onde estou
Apenas me afirma que tu já passaste
Ou, então, sério, diz «Ah, ainda não passou!»
Porém, em algumas manhãs, com céu azul
Jocoso, irónico, e feito traste,
Num tiquetaque de quem cala o que sabe
Faz-me esperar até que a manhã acabe
E, mesmo assim, quase nada me diz
A não ser: «Paciência… Foi por um triz!»
Joaquim Maria Castanho
terça-feira, janeiro 04, 2022
JANELA ÍNTIMA
sábado, janeiro 01, 2022
sábado, dezembro 25, 2021
A BOCA DO TEMPO
A BOCA DO TEMPO
A grande solidão do mundo
Abateu-se sobre mim, ser ínfimo e moribundo
Que habita paredes-meias com o tempo frio
E o silêncio verde-escuro das agulhas dos pinheiros,
Para perguntar de vez «Quem mais pode: o rio
Que leva as águas dos choros derradeiros
Ou a certeza matemática do calendário
Quando solta mais uma folha ao vento
E exige que o consultes ao contrário
Da última prà primeira, até perderes o alento
Das páginas a que te amparaste a vida inteira?»
E eu respondi: «Nem um, nem a outra;
Que quem mais pode, cá como no Além,
Molda as solidões com ligeireza pronta,
E faz com elas castelos de cristal diamantino
Onde nunca entrará mais nada nem ninguém
Que não tenha construído também o seu destino.»
Então, a grande solidão do mundo
Três vezes rugiu como um mostrengo três vezes
Lançou seu bafo ácido, grosso e imundo
Sobre quanto havia e não havia entre nós, e disse
Resfolgando em cada folha virada, mês a mês:
«Aqui, já nada sou, já nada faço.»
E o tempo sem fim, enfim de vez, abriu-se
Engolindo-a para assim fechar-se, de novo,
E retomar a sua própria forma na forma dum ovo
Onde os vestígios de boca não passam dum traço.
Joaquim Maria Castanho