Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
quarta-feira, março 13, 2019
MISTER DO VENTO
O
MISTER DO VENTO
Sopra
o vento enquanto passas
E
diz-me coisas tão invulgares,
Que
até folhas ganham novas asas
Pra
limparem o chão pra tu passares.
Outro
tanto eu faria, se pudesse
Mas
o vento pode tão mais que eu,
Que
me aventaria ao chão se fizesse
Aquilo
que acha ser mister só seu.
Joaquim
Maria Castanho
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quinta-feira, março 07, 2019
DOS VERSOS, A PAIXÃO
A
PAIXÃO DOS VERSOS
Pela
incomparável luz
Dias
de chuva são assim
Na
pureza que os produz
Quais
gotas de sonho em mim
Que
sou atreito ao sentir
Este
fremir dentro do peito
Que
mal te vê, quer logo sair...
São
cristais gota a gota
Que
os ramos predem apenas;
Mas
eis que o vento os solta
Para
escreverem no chão
A
paixão, dos versos, pelos poemas.
Joaquim
Maria Castanho
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A IRREVERÊNCIA DUMA FOLHA
A FOLHA IRREVERENTE
Hoje, choveu um pouquinho
Mas já se levantou vento
A secar a água fria...
E, nas poças do caminho
Quando à beira delas
Em pedras toscas me sento,
As folhas parecem velas
A singrar no tédio do dia.
Então, soprou de repente
Uma rajada mais forte,
Que levou quantas havia
A perder tino e norte...
Porém uma, indiferente
Fincou-se na lama da sorte
E disse-lhes que ia!
Joaquim Maria Castanho
quarta-feira, março 06, 2019
terça-feira, março 05, 2019
DO VOO, A VOZ
O
VOO DA VOZ
Por
sob esta luz me perdoo
Se
sou quem grita à imensidão,
Pois
por ela, e só por ela soou
A
voz que escapou à solidão.
Nessa
dança deveras milenar
Aonde
a ilusão tropeçou,
A
voz escolhe luz pra dançar...
Então
se enleiam par a par
Até
que a luz parece pairar
E
a voz se atirou prò ar... – e voou!
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
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quarta-feira, fevereiro 27, 2019
BORBOLETEIO
BORBOLETEIO
Digo-me
com o verbo na mão...
Reescrevo-te
os lhos, faces
Na
companhia dessa solidão
Onde
se desenvolvem enlaces.
Tens
a beleza simples e grata
Que
nos dias ensolarados,
Deixa
de ser só uma lagarta
Pra
nascer em sonhos alados
De
coloridos trajes a rigor,
Onde
os corpos, por desejados
Volteiam
nas asas do amor...
Então,
dada por cumprida a missão
A
sua vida pode expirar,
Que
quem a lagartas deu atenção
Sempre
sonhos tem a borboletear.
Joaquim
Maria Castanho
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segunda-feira, fevereiro 18, 2019
DESTINO DE LAGARTA
O DESTINO DAS LAGARTAS
Pré-borboletas em trânsito lagartas são
E seguem em fila pelas azinhagas,
Hão de voar qualquer dia, ou talvez não
À parte os encontros que venham a ter...
Se com naturezas funestas e aziagas
Não se lhe adivinha bom fim nem razão
Já que as vão matar ou somente comer!
Joaquim Maria Castanho
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domingo, fevereiro 17, 2019
DIGAMOS A LIQUIDEZ DA PALAVRA
DIGAMOS
A LIQUIDEZ DA PALAVRA
Que
toda a vida é apenas uma palavra líquida
Incluindo a minha, digamos sangue, digamos
Digamos água corrente bebível a sôfregos tragos
Digamos regato que se esconde nas areias quentes e desérticas
Entre os poros da tua pele, subterfúgio de porcelanas
Amanhecidos marfins ante as portas de jade.
Digamos o escoar clepsídrico nos ponteiros da sinonímia
Literatura de sofreguir o momento sob a urgência (geo)métrica
Instante que vaza sobre o cálice do corpo a mágica sede.
Digamos imediatez no abismo estreito do abraço apertado
Lúdica entrega ao acaso descendente do ocaso na planície
Mergulho no outro lado exímia investidura leda no lá do lá
Ritmo animal que pulsa e se contorce na revulsão do ser
Sonho desnudo na boca dos olhos que gritam a saudade.
Digamos salto de corça na clareira das folhas impressas
Gesto, esgar, repente, gargalhada de arrancar ao movediço chão
O pavimento polido e xadrez interior da palavra tudo.
Digamos sílex acutilante, digamos recorte no espaço
Digamos teu nome sem ansiedade mas repetido alento,
Digamos desfraldada vela na crista da onda à proa do vento
Digamos murmúrio de dizer beijando o beijo em teu regaço.
Incluindo a minha, digamos sangue, digamos
Digamos água corrente bebível a sôfregos tragos
Digamos regato que se esconde nas areias quentes e desérticas
Entre os poros da tua pele, subterfúgio de porcelanas
Amanhecidos marfins ante as portas de jade.
Digamos o escoar clepsídrico nos ponteiros da sinonímia
Literatura de sofreguir o momento sob a urgência (geo)métrica
Instante que vaza sobre o cálice do corpo a mágica sede.
Digamos imediatez no abismo estreito do abraço apertado
Lúdica entrega ao acaso descendente do ocaso na planície
Mergulho no outro lado exímia investidura leda no lá do lá
Ritmo animal que pulsa e se contorce na revulsão do ser
Sonho desnudo na boca dos olhos que gritam a saudade.
Digamos salto de corça na clareira das folhas impressas
Gesto, esgar, repente, gargalhada de arrancar ao movediço chão
O pavimento polido e xadrez interior da palavra tudo.
Digamos sílex acutilante, digamos recorte no espaço
Digamos teu nome sem ansiedade mas repetido alento,
Digamos desfraldada vela na crista da onda à proa do vento
Digamos murmúrio de dizer beijando o beijo em teu regaço.
Joaquim
Maria Castanho
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A ACROBACIA DA BRISA
BRISA
ACROBÁTICA
Junto
às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos púbicos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.
Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?
Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-Vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.
Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos púbicos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.
Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?
Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-Vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.
Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!
Joaquim
Maria Castanho
Com
Foto de Elie Andrade
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