A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, julho 31, 2008

Cuido haverem outras Penélopes e outros Ulisses
Aflorando em nossos passos perdidos pelo gesto
De quantos minutos pesam dez anos na clepsidra
Vidro de medir o mar a remar desenganos me apresto
A reinventar mitos esquecidos, a cortar a Hidra
Olho de Ciclope a ver-te de onde apenas tu me visses...

Invectivei o dia, fustiguei a noite, parti por ti a jarra,
Intimidei com ameaças o tempo e o modo, e despi
A parra, para não magoar teus olhos de verbo sem ira
Na beira da fúria que mira o suplício da conjugação
Incondicional me fiz no imperfeito da pretérita solidão
E quando Roma me quis me vi romã aberta em tua mão.

Acordar é um desacordo intempestivo com o sonho
E bago a bago me dedilhas rede da sede que mantenho
Pela madrugada densa no dengado de tuas ancas acesas
Colunas do templo à subtileza columbina de teu colo
Arco que retesas no disparo se desejas quanto imploro
E naufrago na cascata de teus cabelos que a respirar decoro
Quando sôfrego neles morro, se me detenho e me demoro
Até castanho escurecido também eu ser que viver só é viver
Se se for vencido e assim perdido apenas por ti renascer.

Porque só quando a aurora se descodifica em luz e púrpura
A sombra incendeia o manto de aurífero brocado e canto
Ou teus olhos se abrirem para os meus sem medo e temor
Seda estampada de macia cor que na clara derme dorme pura
E mata a sede quando cedo me concedo à dor do desencanto
Ou te escondes de meus olhos sob a digita esquina escura,
É que do cálice do texto se pode fazer a leitura da borra negra
E a sina se desenha tsunami do passado que a ficção agrega
Segura no abraço-luz de ouro futuro rompendo a noite escura.

Cuido haverem outras Penélopes que escrevem e lêem teus passos
Sentem a navegação de sala em sala sobre as páginas da memória
Que as redes de nós lidos sob a prata dos peixes se fazem laços
Nas ombreiras pintados ou sinais da rota, sendas, mar de abraços
Celebrações secretas dos beijos dados nas catacumbas da História.
E delas, uma serei eu, a entrançar palavras para prender-te a mim
Que se me olhas me lavras seara de cristal na aura areia sem fim

Porque há alvas recordações em auríferas sendas entre a escória!

sexta-feira, julho 18, 2008

...

Perdoo-me esta insanidade de sentir-te indomável
Solta sobre o meu corpo na soletração insubmissa
Subjugando-o ao fogo arguto do voo insaciável
Redimensionado no táctil augúrio, dígita premissa;
Que nem fátuo arco-íris entre Vénus e Mercúrio,
No manto azul terreno envolvendo a névoa loa
Mas já nebulosa intemporal adormeço naufragado
Sonhos de corromper o instante tido em si destoa.
Que das ondas sou sempre o outro lado do centúrio
Fustigado, elo e coroa nos corais de mim compartido.
Aí, a seiva que brota em espuma se desfaz no areal
Fui eu a rapariga, enquanto tu o rapaz cavalheiro
Gentil que sulcando em lemes o mar todo e inteiro,
Tremes porém no imo abraço derradeiro mas plural
Ao que explodindo em ti a minha lava de quente bruma
Vulcão assim me (re)tornei homem que em ti se esfuma
E tu, a praia fértil que o (a)mar cava em eterna espiral!

Havia silêncio no pôr do sol, depondo as vestes da ousadia
A resvalada réstia dos ocasos alvorados e nascidos dia a dia
Astro a astro, numa sinfonia infinita compondo o alfabeto
Do mundo a dedilhar arcanjos amputados do grito secreto
No golpe das asas... Asas? Só as que a imaginação nos dá!
Essas sim, que são seguras e verdadeiras de forjar órbitas
Plenas e centrípetas, não ícaras sombras no lado de lá do lá,
A fazer autênticos alqueives e sementeiras de acordar acólitas
Da vida, quais obreiras de produzir o trigo que em nós há...

Pão de searas selvagens os corpos se equilibram e balançam
Incandescentes de bem-querer na vida suspensa dum cordel
Notas de solfejo na paleta colorida das diferenças se abraçam
Na magia simples de arrotear encontros que os peitos cruzam
De eu e tu, tu e eu, do eis à flor da pele, na entrega absoluta
Colhendo sem dor nem luta, das pétalas a cor, e do pólen... o mel!

segunda-feira, julho 07, 2008

Andam Ninhos No Ar

Dizes que já não queres acender o brilho?
Dizes que já Galaaz te venceu, e a espada?
Pois bem, amiga: mataste-te. Estás acabada.
Não há agora quem se importe com teu trilho.

Teus passos jograis do credo do sarilho
Cantam velhos eventos em nova estrada...
É o fim, amiga: quedo-me. Estás acabada:
Jamais amarás o amor como nosso filho.

Ao culto de Onan anuíste, cruel, ilesa,
Esquecendo que o amor é a melhor defesa
Contra o vento forte da morte e solidão?

Pois bem, amiga... A raiva a ti por ti acesa
Dar-te-á a liderança do €uro como do pão;
Mas nunca te há-de dar carinho – isso, NÃO!

quinta-feira, julho 03, 2008

Ainda Sabemos Amar Repetidamente


À porta de casa o futuro nos reescreve.
Por isso, soletra-me inteiro, não só universo quebrado
Da boca
Dos olhos
Do sexo
Da fala
Da diferença, mas também o igual âmago
Referente do que entre nós permanece humano
O rosto exíguo na luz do entardecer nas colinas breves
O sol oblíquo ao falado horizonte sustenido das árvores
A pedra, o tronco, o vidro em que me dilacero sílaba a sílaba
Os dedos
Presa fácil na mortífera insistência de dizer-te sede
Água cristalina Helena da minha Tróia nos cavalos do sangue
À desfilada na crista dos medos a sofreguir
Da boca
Dos olhos
Do sexo
Da fala
De teu corpo todo sob as vestes do silêncio
A fronte hitita e alva na rebentação da memória
Ondas de seda no afagar da sede
Sede de sonhos no congeminar da prece
Se apareço pronto a perecer ao teu apreço
Sebe de estrelas na Via Láctea do sorriso
Em que me acoita em infinita coita
Que a gesta se na serena luz se afoita
Torna-se breve instante de urgência preciso
E conciso
Na fala
Na cor
No gesto
Na alva sofreguidão.

Soletra-me inteiro como te soletro plena
Que o corpo só é verdadeiro
Quando no sonho do próprio nome nos acena!

quarta-feira, julho 02, 2008

Sorrir Ao Ruído Alivia


Há ainda (h)era nos muros da nossa casa
Onde às vezes se nos prende uma asa
Põe o dizer ao "se calhar, talvez" reticente...
Mas quando as falas são o imo que repetes
Eis que o sonho vem e nele se nos escora
Enleado pelos caules o verde da demora
E participo em ti como futuro é estar presente.

É um verbo de partir, ir embora, voltar diferente
Igual não é a mesma coisa e recorrer à cor ausente
Porque inesquecível só a imagem que tens e prometes.

Eu sei quanta flor se abriu assim-assim menina
Acção da pele aberta ao beber a pétala contigo investes
O marfim do nosso castigo seminal onde germina
O gesto de sofrer um fingimento tão real e puro:
Enfim, que verdade sou eu, e não me digo (muro).

Ou se dito, traz consigo a capa do renascimento
Grito de juventude a ecoar nas páginas vestes
Sorrisos de aspergir os dias em cada momento:
Que quando se sorri contentamento aos ruídos
Eclodem ecos musicais dentro de todos os ouvidos!

terça-feira, julho 01, 2008

Poema Peremptório

Peremptória é a luz que nos contrai
Como se fôssemos apenas um vírus de languidez,
Estivéssemos à beira do suspiro que sucede ao ai
Ou andássemos a cruzar os tempos pelo seu entremez
Entre a segura vereda e aquela por que ninguém vai…


Peremptórios são teus olhos que me cosem linhas
Rasgam as vozes, abrem sulcos e caminhos
Na alma de ledos segredos em que o sonho se esvai!
Arte de Regressar Ao Sonho

Procuro os nossos filhos, ouço-os no corredor, em tropel
Sabendo-se poemas tão desatentos todo o cuidado é pouco
Para ressalvar-lhe a voz, não deixá-los tropeçar no cordel
Escorregar pelas escadas de sermos a espiral do pião louco
Aquele que desliza e lhe sabe dos olhos o seu travo de mel
O cotão da camisa, gestos de abrir as mãos sorrindo eternidade.

Procuro os nossos sonhos, escuto-os já quando respiras, serena
E tento quedar-me retendo-me na memória do preferir agora
Mesmo que houvesse chuva a fustigar e relâmpagos lá fora
Que ao acenderem-se nos apagassem dos ledos lábios a amena
Sofreguidão eléctrica em descer nas esquinas dos corpos crus
Sob o contínuo procurarem-se na ambiguidade dos trovões nus.

Procuro os nossos dedos, enxerto-os de flor, em rosa branca
Moldo-os tornando-os a voz do barro, bíblica argila e cuidados
A curva de teu nome a espraiar-se espuma ágil na líquida anca
E assim os deponho sobre a nuca de estreitar abraços apertados
No requerer dos lábios a proferirem-nos promessa de liberdade.

Porquanto nela os soubeste inventar traduzindo o sonho em voo
Como se da vida, se cumprida, nascesse directa a sã qualidade
E dela nada mais contasse, de tudo o que tenho, o quanto sou
E que sendo-o, para ser supremo, é ser só teu, em toda a verdade!

sábado, junho 28, 2008

Poema do Inviável

Inviável...
É quando um dia matar o amor que te tenho, por descrido
E houver o fugaz rasgar da memória numa imagem lacada
Pedacinhos de visão confluindo no caixote do tempo, caído
A desorganização de teu rosto inadiável por sulcos gretada...

É quando a voz rouca se arrastar colérica tecendo insultos
E invadir a cidade como um guincho de soletração vociferada
Entre os choros das crianças e as proferidas iras dos adultos
Numa promessa de esperança fedorenta quase morte consumada
Pelo carpir de nossos corpos desencontrados na voz dilacerada.

Como inviável é outro sentimento qualquer senão o nado destino
Cujo mister encerra a entrega total do homem à sua mulher
O deita no seu colo, lhe atura tudo, incluindo o maior desatino
Se acaso ele se enrede como nenhum outro velho menino
Que na ânsia perdeu o tino e já mal sabe o que da vida quer.

Porém, coisa inviável, é também
Esquecer teus olhos ou incrustá-los, por desdém
Noutros rostos, noutros seres vivos ou mais alguém
Ainda que ao vê-la, essa, esse outro ser, não se saiba bem
Do carisma e perfeição constatada, se é deusa, estrela ou mulher,
Pois que amar-te é um quase nada
Que põe em ti a grande diferença desejada,
Te eleva sobre todo o mundo, tenha ou dele se diga
Em toda a mulher igual rapariga,
Que ao gabá-la, dela mais alto suba e louvor consiga
Propalando dons dizendo de mais, no que se disser...

Porque até pode ser que a vida tenha
Ainda mil segredos para me contar,
Que nenhum haverá, que me convenha
Além do escondido no teu olhar!

sexta-feira, junho 27, 2008

Secretas Alianças Redobram Audácias

Dêem-me só mais um dia de solidão sólida líquida e profunda
E eu dar-vos-ei em troca a obra quase explícita circular rotunda
Deitado oito de ver o longínquo futuro emergente a cada aurora
Quase a eclodir como se fosse o nosso túnel de viver renascendo
A vertigem de ir ainda além da curva oblíqua do ser sem desânimo
Os frondosos arbustos onde se mexem máscaras fantasmagóricas
Forçadas ao exílio com que cada qual se vai prometendo na noite
Ou no canto absurdo de um embriagado camponês de passagem
Casual na cidade as esquinas pintadas com nomes supérfluos
Esquecidos e lembrados somos sempre que dobramos mais um cabo
As velas audazes a convocarem mais redondos ventres nos ventos
Mais uma boca, mais uma doca, mais um sonho e um sorriso doce
A erguer-nos na tarde tranquila mas sem hirtos e medievos padrões
Apenas lábios aflorando a cal de teu terno rosto de rosa branca
Adornado marfim da existência na porcelana real pelos salões
Onde vogam caravelas ao sabor de inocências várias gentilezas
Sim, são adjectivos, são rótulos nas garrafas mensageiras, símiles
Sem nada dentro te procuro ânsia de uma inscrição a fogo perpétuo
Violeta voadora num papel o inscrito significado da minha loucura
O incontido ardil de buscar a solidão profunda das águas mornas
No segredo manso todos somos iguais e preferidos da causa única
Diferente só o sol o é dito Arina sua deusa e véu de treze plumas
Cabelos libertos acompanhamo-nos e surges tu que és madrugada
Hálito ainda fumegante e húmido o olhar do último grito aos céus
A voz que se equilibra na corda entre o sonho e realidade teus seios
O equino das coxas vibrado rigor do (com)passo que marca o tempo
Uma torrada e sumo de laranja à espera na mesa de xadrez atoalhada
A marquise aberta para os primeiros pássaros, primeiros ritos e voos
Tão desprendidos os seus cantos te esperam nas brisas pétalas mansas
Enrolada sobre ti a toalha de banho insiste em desvendar os ombros
Mostrá-los polidos e níveos e rosáceos ao amanhecer dos sonhos
Escorrendo diurnos a noite na seiva túmida de soletrar teu nome
Que só quando o deslaço me nele desenrolo em sustenido abraço
Descruzo audaz destemida jus onde és tu Sempre tu A Repetir A luz.

Crê na entrega: estamos prontos, sabemos discernir as palavras gesto.
Quantas vezes aguardámos este momento cruel de acender as mãos?
Quantos se descobriram ao acordar tão simples como o chilrear do dia?
Só que ainda não estás sentada cruzando o jeito das marés sem retorno
Polegar e indicador segurando a torrada morna das searas férteis
O sangue da laranja escorrendo sobre meu peito a esperar-te convexo
O copo repleto de tua boca tão próxima e exígua onde me bebo e sorvo
Num grito cintilante da eternidade sob o eco cristalino das estrelas...


Que é em ti que flameja o nome: sou eu quem nele arde e se consome!

quinta-feira, junho 26, 2008

Sonho Acordado de Repetir Auroras

A mentira de estar presente é tão-só pensar ilusão
Mas em ti tudo é lindo e sobre posto estou ancorado
Ser consciente é preferir o dia escolhido da paixão
Esse feixe de cabelos castanhos-escuros à tona da testa
Os olhos que se afundam quase longínquos entre livros
Capazes de emergir no nevoeiro em sonhos sustentáveis
Ao cruzar de célticos traços me chamam os lábios prà Net
Quando sorrindo lhe avivas a palavra solta descontraída
E sobram da mentira de estar apenas aqui por ti perdido
À espera que teu nome seja o único responsável do encontro
Marcado e assuma o sinal aberto da paixão incontornável.

Podia dizer-te tantas coisas mas somente me lembro
A lembrar-te, há todavia uma fonte que não esqueço
Onde nasce a veia que desagua em teu silêncio secreto
Porquanto ele Sopra sempre a Ânsia e Reprime a Angústia
Que Amar Recolhe a Alegria na Sorte que conhecer(-te) repete
Observa o desejo do crime que a eternidade em nós comete:

E amo-te desde o entre o tudo ao por nada sem ter fim
Mesmo quando serena me perguntas "o que é que foi?"
E assim a quase calada dúvida que sinto e no sentido dói
Por não saberes serem somente teus olhos a raiz de mim...

Que são eles apenas quem me segura à vida e nela contam
Me balançam entre o sonho e a paixão, iluminam a manhã
Dos amanhãs fazem o laço, atam o passado ao futuro infinito
Fiam o presente, tecem do novelo enleado em que acredito
No linho a rosa branca que de vermelho as palavras pintam

Se tuas, que a gravitar à volta da verdade são os olhos duas luas
Apagando buracos negros no cosmos e acendendo eternidade!

quarta-feira, junho 11, 2008

O Zoom Kfakiano Que Zune

For Marlen, with a Kiss

Se ao zoom que zune sobre a janela
Se quebra a jarra no espelho da água,
Então, se se mergulha a ira na mágoa
Nasce dela o nu desejo despido nela

Cecília, aquela que pra ser o que em si havia
Se despiu ali perante o olhar motivado
Daquela que vendo só via o que queria
E não quanto na fonte ao Tritão era mostrado.

Que quando zune o zoom cru da fantasia
E assim vai de janela em janela aumentado
É quase certo haver algo, algum dia
Daquilo que visto certo estar também errado.

Porque ver é estar-se todo nu nessa visão
E pôr os olhos onde quem apenas pôs o coração!

About Atonement (Expiação), de Ian McEwan, na
ESECB – Escola Superior de Educação de Castelo Branco, in
Reading Circle Activity – Literary Wrinting, by Marlen Schachinger
06.06.2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Sala e Antecâmara de Retorno à Alma

Registo-me no espaço terno e morno de dizer teus lábios
Restrito ao respirar contrito com que me miras circunspecta
Os corpos arqueando-se mútuos numa interrogação aflita
O futuro nos olhos brilhando apenas indecisa esperança
O silêncio que as mãos sabem decifrar se as almas falam

Aqui, até as palavras são vãs prontas a perderem-se nos lagos
Onde os rios do amanhã é já ontem desaguam tensos mansos
Refreando a imperpetuação do perpétuo sentido das quedas
A ânsia soliquefeita dos lábios descobrindo a mulher verbo
O suor deslizando pelo vale vertebral até à enseada do dorso
A apropriação da esfíngica sombra quando ser tem luz própria
Diluindo-se submissa na forma que contém o abraço se devolve.

E contudo o apito longínquo da locomotiva lançada à desfilada
De rápido afoito nas linhas do corpo inundadas de sofreguidão
Os ombros a gritar libertação e feitos lava de aspergir o sonho
O queixo emergindo explosivo que nem quilha de quebrar gelo
Nervoso pulsar de espera a abarrotar de expectativa e milagre
Sala feita gesto de recolher-te plena em mim num só beijo
Única ponte ente dos rios que desaguam na mesmíssima foz
Ditos com igual verbo e verbalizados com a mesma voz:
ARinA!! Só tu sabes precipitar-me no abismo e planar no voo
Porque as palavras são saudações entre dois genes originais
Almas que se cruzam e se tocam cansadas de serem sós!

terça-feira, junho 03, 2008

Sonhar Acontecer Repete-se ao Acordar

Raiva perdida, caminho deserto
Sofreguidão dum futuro tão perto
Que é já ontem em vez de só amanhã
Numa imensa solidão da palavra chã,

Soluto de consciências ao desperto
Quase vivas de correr no tempo certo
A destruir o que é árido da meiga lã
E nascer na aurora de teus lábios de manhã.

Tempo de esgrimir o mal e o ninguém
Que são todos, por apenas o único bem
De refazer a sede no grito de ainda viver

E ter as mãos que procuram tão-só o encontrado
Na transformação do indiferente em amado,
Como se fosse desejado, o sonho de acontecer!

sábado, maio 31, 2008

Socar a Ânsia Retira Algemas

O vazio de uma floresta sem pássaros,
O restolho gretado sob o sol acutilante,
O esquisso do horizonte violeta e rosa,
O silêncio gritante dos sobreiros solitários
Estendal dos panos templários da prosa

E mais que isso, na penumbra do rés-do-chão
A linha de teus gestos que se desprendem
Pouco a pouco, tudo nada, cabelos desalinhados
Que estendem o sonho dos olhos escorrentes
Na lágrima sobre a alvura da face coitados
Os braços esticados na procura do tronco
Elástico, elegante, ágil, felino de ter-te urgente
Verbo preso na caixa da boca, túmido
Socalco da sílaba no crescente desejo
A tua liquidez desmaiada no ocaso
A estrela da alma prestes a rebentar em luz
Lá no alto onde apenas se chega por ânsia
Esmagamento absoluto de perpetuar-te em mim
– AaaSSSSSiiiiiiMMMM!!!!, meu Deus – até as veias romperem
Gretarem a frase pelos complementos directos
Direitos ao verbo eclodir a esgarrar a casca
Pô-la porta aberta a soltar os sons insurrectos
De teu grito ledo de estilhaçar o medo!

sexta-feira, maio 30, 2008

Abraços são Reservas Anímicas dos Sonhos

Desço a Serra, escorregando-lhe pelos flancos. Não me vês?
Eu sei que não... Também não é lá que estou. Nem tu.
É aqui, a ver-me descer os olhos sobre ti, ajoelhar-me
E com sucumbido arrebatamento beijar teu abdómen de luz.

Trago aos ombros o molhe de sonhos que os deuses esqueceram
De levar para o céu quando partiram sob as trombetas da alvorada
E os olhos cintilam das infinitas brincadeiras a aflorar dos lábios
Com que as crianças me depõem entre os sortilégios preferidos.

Logo, talvez mais tarde, virás buscar um, dos mais mágicos e potentes
Talvez aquele que consigo me acarreta sobre as espáduas olímpicas
E me leves, sem nunca chegar a saber, qual a sorte que ele te deitou
Nem como ela se cumpriu quando o meu, ao teu nome, se abraçou
Letra a letra jungido, numa sábia sílaba de salvação apertada
Até que entre cada fonema não coubesse, nem soasse mais nada!

quarta-feira, maio 28, 2008

Soneto da Cantarinha Verde

Saiba-se pois que este ramo de flores
Que o guerreiro Tiuí aqui plantou,
Se regadinhas, até matam as dores
Mesmo as que um dragão semeou.

Da cantarinha ganharam as cores
E às folhas, nenhum vento as levou,
Que grandes jardins são os Jamores
E as taças, de quem neles melhor jogou.

Que do jogo, com ou sem sorte, é igual
Desde que o resultado seja de justiça;
Aos vencedores, é a taça em rico metal
E a dos vencidos, nem sequer de cortiça.

Porque no futebol, todos golos são flores
E até as taças, uma beleza de hortaliça!
Parabéns Inês


Não posso dar-te as chaves da minha cidade
Porque é livre e de portas abertas, sem idade...
Mas de tanto nomeá-las, a todas as suas ruas
Se tornaram minhas – e que agora, são tuas!


Tuas, por direito e alegria de um Portus Alacer
Que aos portos só podem chamar-se da alegria
Se forem igualmente pertença daquela, que mulher
É também rainha e luz quotidiana, no seu dia a dia.


Portanto, se de quanto esta terra dos teus avós
É meritória do romance que o teu nome encerra,
Das muralhas de D. Dinis os Pedros somos nós
Pedras de afecto seguro que só por ti se esmera,
E cresce dando-lhe o peito como lho dá a Serra.


Que os montes das oliveiras, penhascos e sobreiros
Onde pascem os sonhos floridos das Maias este mês
Sabes, sem dúvida o fazem para serem os primeiros
A cantar-te os parabéns... – assim: PARABÉNS INÊS!

(17.05.2008)

segunda-feira, maio 26, 2008

Alvos Reflexos Aspergem-me Silentes

Poderemos nós resistir por mais quantas eras
Estações onde o acontecimento único são teus saltos
Altos batendo à porta entreaberta para o corredor
A tua alva mão pousada sobre a maçaneta da porta
Cachos de castanhos anéis descaídos da nuca
O traço felino do olhar que perscruta a penumbra
Os dedos hábeis acariciando sonhos e esquecimento
No afago do sorriso enigmático e periclitante
A camisa transparente de noite brilha nos contornos
A visão de teu corpo a escorregar desde os ombros...

Poderemos nós resistir à ânsia de gritar o silêncio
Deixar de beijar-te toda como faz o sol matutino
Não permitir a língua bandeirante aflorar cada poro
A púbica sombra num triângulo de carícia e verbo
O bago doce no recôndito lóbulo de tuas orelhas
O felino dorso prestes a desferir o salto detonador
Ombros e seios de polido mármore rompendo o tempo
A planície do ventre alqueivando a posse e a sede
Repletos gestos frementes de abraçar o teu nome
Todo, apertado, jungido ao meu até não caber mais
Incandescente e rubro de fogo na fusão do ser.

– É esta a órbita do silêncio de meus gritos à deriva
Uivo na galáxia de estrelas cintilantes do teu olhar!

terça-feira, maio 13, 2008

Soltam-se Alegrias em Raras Almas

Deixem-na ser simples assim como um dia de Julho
Transparecer a fala e dançar em cada letra breve
Soletrar a voz imensa do luar no límpido marinho
Do céu padrão oceânico à bolina vogando no azul
Borboleta de multicoloridas asas nas matizes das vozes
Um rouxinol à procura do eco em que possa pousar-se
Um canto em busca de sua gaiola, seu imperador eleito
Sua boca, vulcão túmido, apurado no silêncio do grito.

Deixem-na apenas ser simples, que é a brincar ecolalia
Que se começa a perpetuação do zero no redondo da voz
Na formação de tudo isso composto e somado que dá nós
Quando conjugação integrante de uma oração preciosa
A fala, o gesto, a tarde, a luz, o corrupio do trânsito citadino
A outra conjugação, copulativa no retrós do modelar figurino
A garganta implorando água, somente sede, só sequiosa de ti.

Deixem soltar-se nela a alegria vasta e redutora da ilusão
Que é seu destino ser sem destinatário a própria missiva
Breve mas secular, mapa genético nuclear ao DNA
Cratera de fogo na placidez falada do corpo que não resigna
Sôfrego encontro entre os passados e os futuros inauditos
Gesto inédito de embandeirar os cabelos ao vento são velas
Redondas de rumo, grávidas de remar adiante, adiante, adiante
Muito para além da vida, esta coisa irrequieta pequena e frágil
Que apenas por ser nossa tanto prezamos e ímpios defendemos.

Porque um dia haverá em que baixamos os braços e, nisso, a vida

Continuará a tua luta imperiosa, apenas por uma questão de hábito!...

sábado, maio 10, 2008

Subterrâneos Acessos Rigorosamente Acesos

O meu jogo é de lantejoulas, palavras subsarianas
Cintilantes, desérticas, vítreos grânulos dos areais
Caracolinhos de cabelo na madrepérola, botão de camisa…

O meu jogo não respira as leis de novos evangelhos
Porque se afia no esmeril da esperança ao desenhar-te
O gesto equino com que irrompes na noite das noites
Partes à desfilada nas asas selvagens do louco desejo.

Jogo que é mesmo jogo entre o jogo e as suas regras
Ao proferir-te verbo de conjugar o aceso rigor da brisa
Pomo de eclosão ao arrancar-te a luz para dispersar-me
Estilhaçado, distribuir-me por todos os cantos universais
Pedacinho de vidro bailando a tinir no espanta-espíritos
Por detrás da porta, ao cimo das escadas, socalco à solta
Solta e livre nos soslaios que cambaleiam em vésperas
A lágrima euclase do lusco-fusco na esmeralda dourada.