A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

terça-feira, setembro 24, 2019

DA MOTIVAÇÃO DA ESCRITA


 



DA MOTIVAÇÃO DA ESCRITA
                                                                          (à fada de meus olhos)


Pequena fada me segredou
Sem tampouco me dizer nada
Que quando plos olhos me dou
É por ter a alma enamorada,
Tocada já pelas suas mãos
Desfeita em promessas, preces
Poções, palavras e razões
Que só tem mesmo quem é fada,
Merece o que só tu mereces:
Beijos em todos os desvãos
Do corpo, assaz escondidos,
Com que a alma apaixonada
Une e estremece os corações;
Sonhos perpétuos floridos,
Com que pétala abandonada
Esquece os amores tidos;
Luz que brilha poro a poro
Que com os lábios percorro,
Se os olhos neles eu demoro
E renasço, se acaso morro...


Pequena fada, de voz doce
Doce jeitinho e tão gentil,
Escrevo pra que teu ser fosse
Não só duma fada... mas de mil!

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, setembro 05, 2019

O ESPINHOSO DELEITE



  


ESPINHOSO DELEITE

Capricho de véspera
Tem o sol à espreita,
Que à vida áspera
Esp'rança a deleita...

Porém o verbo cresce
E torna-se natureza,
Que sonha mas esquece
O sonho por rudeza.

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

domingo, setembro 01, 2019

Lost for words - Pink Floyd - Legendado

A TOMADA DE CONSCIÊNCIA





TOMADA DE CONSCIÊNCIA


Se é tão bom gostar de ti
E melhor seja de quem for,
Não é por sentir o que senti...


Foi por ver que era amor!

Joaquim Maria Castanho

SE A BURRIDADE VIRA VIRTUDE...


   



DO VALOR DO PRECONCEITO

Se a burridade vira virtude
Haverá uma gente que nada sabe
Que muita coisa sabe e amiúde;
Porém, de tão rudimentar efeito
E rústica natureza, que cabe
No teor da palavra preconceito...

E pra todos os problemas do mundo
Acham ser essa a solução que resta.
Contudo eu, sem hesitar um segundo,
Digo-lhes já: «É mentira. Não presta!»

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, agosto 15, 2019

PORQUE TE DECORO?





DECORO-TE

Decoro-te... És pauta de harmonia
Divina poro a poro, pálpebra a pálpebra,
Sílaba a sílaba és códice, poesia
Digital ode nesta nova álgebra
Que estrela a estrela ao céu acende.
Decoro-te que nem chave indizível
Quase refrão perfeito que não ofende
A língua, tal e qual a alma tangível
Quando se estende é real, plausível...
Tal a voz nunca se cansa de repetir nós.

Decoro-te... És flor à beira da tarde
Que inclina as pétalas, fala à gente
E sorri, sorri sempre, mas sem alarde
Ante todos os incómodos que sente.

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, agosto 08, 2019

A CHUVADA INTERIOR


   



CHUVADA INTERIOR


Quando a poesia me acontece
Eu nunca saberei como, nem porquê,
Mas creio que ela só me aparece
Ao ler em teus olhos o que ninguém vê...

Eles dizem o esplendor do luar
Se acaso a lua brilhar tão cedo,
Que é uma adaga de prata a cortar
Silêncio ao luscofusco e ao medo.

Dizem por esse infinito profundo
Com que a alma se torna um poço sem fim
Donde a felicidade jorra prò mundo
Numa água que também me lava a mim!

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, julho 23, 2019

O DISCURSO DO TRIGUEIRO AOS SEUS PARES





DISCURSO DO TRIGUEIRO AO SEU BANDO

Aquele que morreu, era vosso irmão.
Tinha uma família que o amava
E todas as primaveras cumpriu missão
Que o destino, ou a vida lhe destinava:
Fazer ninho, alimentar filhos... – Mas em vão.

Aquele que morreu, era vosso irmão.
Não foi pra alimentar nenhuma cobra,
Não foi para alimentar nenhum gato.
Morreu sem um porque sim ou porque não,
Num desperdício de vida e de razão.
Aquele que morreu, era vosso irmão...
– Em nenhum planeta há vida de sobra.

Os seus assassinos ficarão salvos
Mas nós continuaremos a ser seus alvos...
– Em nenhum planeta há vida de sobra –
Aquele que morreu, era vosso irmão!

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, julho 04, 2019

AI, AI, TÍLIA, TILIAZINHA





AI TÍLIA, TILIAZINHA!

Já quando esta tília
Era menina, pequenina
E inocente, tinha família
Entre flores e demais gente.

Para mim, ao lembrar-me dela
Faz-me ela vários reparos,
Além do de ser útil e bela,
Chá de sabor e aroma raros.

Mais me disse que não conto
E acerca daquela grade,
Onde esperei feito tonto
Muitas vezes, às três da tarde.

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, julho 03, 2019

A LÁGRIMA INCANDESCENTE


   


LÁGRIMA INCANDESCENTE

Transpira-me a alma por fora
Envelope lacrado a pele,
Gota a gotejar, se expele
É gotícula que evapora.
É sinal do âmago, limo,
Cristal, pura transparência
Quando a alma vem ao cimo
No oceano da ausência.
Se desse refúgio aflora
Dá alvissaras a quem a zele,
Promete que não irá embora.
Geme como fado canalha.

Se a afagamos, estremece.
Se a sopramos, logo voa.
Mas quando a sede nos calha
Ganha tanta febre e aquece
Que bebê-la viva... – magoa!

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, junho 26, 2019

À DOÇURA DE ONTEM...





DOÇURA DE ONTEM...

O segredo da longa vida
É degustar essa magia,
Que a fada preferida
Terá feito n'outro dia.

Joaquim Maria Castanho

O VOO SEMINAL


   


VOO SEMINAL


Espera por ti sem menor esperança
Adjetivos novos, advérbios nos pés.
A cada passada, os braços balança
Os olhos sem suspiro algum
O grito adormecido
Ondulando de lés a lés,
Banhado por luz sem zunzum
Nem eco, estampido nenhum.



E se nesse entretanto
Houver um princípio sem fim
Ou o pintalgar da terra, cujo manto
Seja tão colorido como o espanto,
Não estranhes, nem também te sobressaltes
Com estampados de barro e esmaltes:
As flores do meu jardim
Foi uma ave que as semeou;
E se hoje ele está assim,
É por ter sonhado que voou.

Joaquim Maria Castanho

domingo, junho 23, 2019

O RECURSO INESGOTÁVEL




RECURSO INESGOTÁVEL 

Agarro o verbo substantivo
Vivo abstrato mas sem contrato
E dou-o àquela pra quem vivo
– Ramo de rosas riscado a rato.
É uma joia (sem quilate exato)
Preciosa sem preciosidade,
Libra cunhada, artesanato
Que a alma esculpe pla idade.

Porque esse cinzel inaudito
Que aprova, reprova e desbasta,
É o recurso mais expedito
Que o amor usa... – mas não se gasta!


Joaquim Maria Castanho

sexta-feira, junho 21, 2019

FA(C)TO DESMEDIDO


   


FA(C)TO DESMEDIDO


As fardas e capas tapam
Escondem os infinitos
Sorrisos mágicos, ritos
Onde lindos corpos ousam
Soltar os próprios gritos...

Mas o que mais me dana
Põe a alma desnorteada,
É amar aquela paisana
Que vejo sempre fardada!


Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, junho 20, 2019

DE SALTOS ALTOS




SALTOS ALTOS

Pediu as horas, mas deram-lhe o dia.
Pediu demora, mas deram-lhe pressa.
Todavia uma espora na alegria
Esporeou-a para nova promessa.

Coou sons, amputaram-lhe a melodia.
Esperou a espera, mas não era essa.
E aconselharam-lhe mais ousadia...
Partiu então, só, como quem regressa.

A esperança nascera-lhe da agrura.
Desilusão foi tempero de salada.
Contudo, e como pisava segura
Se alguém reparou, não disse nada.

Cresceu alguns centímetros... Foram poucos.
Mas se anda e meneia... – Deixa-nos loucos!

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, junho 18, 2019

AS LUMINOSIDADES INTRÍNSECAS


   


LUMINOSIDADES INTRÍNSECAS


Fantasias...
Fantasias toda gente tem;
Mas realidades fantásticas...
– Ninguém.

Nalguns dias
Alguém escreve versos em nós;
Flores são esferográficas...
– Também.

Têm tinta na voz.
E se,porventura, nos veem sós...

– Aí vêm!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

domingo, junho 16, 2019

Marlene Dietrich UNICEF GALA 1962 " sag mir wo die Blumen sind "

Yves Montand - Le temps des cerises

GÓTICO CÂNTICO





CÂNTICO GÓTICO

Encantadas ou desencantadas almas
Confirmam-se e configuram-se alvas
Violáceas entre violetas e malvas
Marmóreas entre ciprestes e palmas
Que entre pacóvios se pavoneiam...

Baixar o nível para ser entendido
Não demonstra sabedoria nenhuma,
Sequer diz ser a humanidade só uma...
É dar esperança ao vadio vendido,
Premiá-lo pla falta d'estudo tido.

Ignorar não é suma sabedoria
Nem diploma que os canudos norteiam;
E, muito menos, saque aos que saqueiam


– Apenas mata caça quem melhor porfia!


Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

quarta-feira, junho 12, 2019

ÉS MÁGICA SEJA ONDE FOR





ÉS MÁGICA SEJA ONDE FOR

Fico suspenso mas arrebatado
A alma em órbita plo infinito...
Se eu te vejo em qualquer lado
Encantamento deixa de ser mito!

A vida é simples, e sem atrito;
Sem causas obscuras nem doentias.
Acaba-se o que já fora começado
E começa-se sempre com cuidado.
Então inventa-se futuro aos dias
Pintando cada qual com a sua cor.
Os sorrisos nascem, nascem poesias
Nascem esperanças, e nasce o amor.

Mas se te vejo em qualquer lado
A magia deixa logo de ser supor!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

A INTEGRIDADE POÉTICA


   


INTEGRIDADE POÉTICA

Os poemas, quando verdadeiros
Resistem aos silêncios e amuos
Aos junhos, abris e fevereiros
Aos torpores azedos e recuos
Sem se melindrarem nem pedir perdão.
De olhos em frente, fincam os pés no chão
Arredam adversidades várias
E bastam-se a si, eficazmente,
Cobrindo-se de rimas primárias
E sentimentos avulso, dispersos.
Nunca acatam sílabas ordinárias.
Aprumam-se em medidas contidas
E até se abreviam cordialmente.

Só em último caso viram versos
Ou s'entregam a repetições perdidas!

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, junho 10, 2019

DA ESPUMA DOS DIAS...


   



ACERCA DA ESPUMA DOS DIAS

Hoje, foi como se o dia
Nascesse assim por magia...
Desde quando te não via?
E eis que de repente, zás:
Olho em frente e ali estás.

Não há comparação alguma;
Todos os dias são diferentes.
Mas eles têm sempre espuma
Feita de bolhinhas e repentes!

Joaquim Maria Castanho

domingo, junho 09, 2019

TUFO À MARGEM


   


TUFO À MARGEM

Digo-me tão pouco às vezes
Principalmente se me não vês,
Que as horas parecem meses...
Horas bem maiores que o mês.

Calada, és muralha, forte
Intransponível prò meu gostar,
Que eu, tufo, à sede, na morte
Fico na margem sem me molhar,
Sem beber dessa água pura
Que a vida traz do teu olhar
E fecunda alma se madura.

Digo-me tão pouco se me travas...
O verso brota ressequido!
Poemas são só ervas bravas
Sem palavras na margem do ouvido!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

domingo, junho 02, 2019

RÁPIDO, RÁPIDO, RÁPIDO


   



ÁPICE E VERTIGEM


Rápido, rápido, rápido
O sonho pousou,
Trazendo ternura consigo;
Doce, suave e ligeiro,
Que o amor é sempre o primeiro
Pra quem deveras amou.

O céu estremeceu,
O grito suspirou...
Porém rápido, rápido, rápido
Meu coração bateu:
Irrompeu de quem sou,
E nunca mais foi meu!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

sábado, junho 01, 2019

AOS CABELOS DE UMA FADA...


   


CABELOS DE FADA


A poesia é um esgar absoluto
Sobre um ponto concreto, particular,
Qualquer coisa como o produto
Da célula que se partiu pr'amar
– Almas gémeas plurissemelhantes,
Siamesas separadas mas amantes... –
E, assim, duplicada, cria afeto
Gera aí a sua própria geração,
Eleva sua estirpe a outro teto
Onde o incondicional é condição.

Nada escolho sem que ela o dite
Qu'ela quer com crer de fada e de mulher
E afirma de forma que acredite
Polvilhando com pétalas de bem-me-quer
Penteados aos dias maravilhosos...

A poesia é uma fada cujos cabelos
São versos de seda duma cor qualquer,
Que dançam singelos porém luminosos
Enternecendo olhares, dias, novelos
Que se desfiam tecendo horas à mulher.

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

terça-feira, maio 21, 2019

CHUVA DE LÁGRIMAS





CHUVA LACRIMAL


Ponh'os lábios na brisa da tarde
Que afagou teu cabelo preso
Pra beijar o silêncio que arde
Caiado d'azul celeste, ileso.
E, assim retido, posto a sonhar
Deixo a alma ganhar seu peso
Pra com ela pousar os pés na terra,
Fluir d'água que nuvem encerra
Mas que o sol impede de gotejar.

Tal sou eu, quando passas perto
E, sequioso como um deserto,
Não permites sequer contigo falar!

Joaquim Maria Castanho

domingo, maio 19, 2019

TUDO TERIA SIDO DIFERENTE





TUDO TERIA SIDO TÃO DIFERENTE


Toca de leve nos meus sentidos:
Clica aqui, clica ali, clica acolá.
E os sonhos disparam desmedidos
Nuns beijos que te dei...
Mas tu não estavas lá!

A sede não tem fontes, não tem marés,
Não tem mares, não tem rios, não tem céu.
Pisa as areias das almas sem ter pés.
Põe nossos tímidos corações ao léu.

Beijo-te os lábios à distância...
Pequenos passos que só o olhar dá,
Como sílabas em metros de ânsia
Restos duma infância
Que não fui, nem sei...
Porque tu não estavas lá!

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, maio 15, 2019

A INQUIETAÇÃO






INQUIETAÇÃO...

Embora “novo” ambiente
(Menos mórbido e triste)
Onde o olhar diferente?
Onde para a nossa gente?

Será que ainda existe?!

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, maio 09, 2019

Don McLean - Vincent (Starry Starry Night) Legendado Tradução (Van Gogh)

Espelhado sentir


TANTO MAL POR TÃO POUCO (bem)


   


TANTA MORTE POR NADA...


Toca na luz a asa estreme
Polindo sombras e arestas;
Usa os pólens como creme
Pra tapar cerzindo as frestas
Com arraiais ribeirinhos
E daquelas marchas funestas
Que se exibem plos pelourinhos,
Plos altares das ordens pagãs
Onde, com olhos esgazeados,
Loucos mataram pessoas sãs
Por terem sido doutrinados
Por outros loucos endeusados...
Coisas acontecidas outrora
Quando éramos antigos,
Mas que esquecemos agora
Porque temos outros perigos.


Porém, memória salva também,
Não do passado mas futuro,
E que nunca o olvide ninguém:
Tantas crianças foram mortas
Por o mundo lhes fechar as portas
Somente em troca dum muro!

Joaquim Maria Castanho
Com montagem de Elie Andrade, em memória de todas as crianças judias mortas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, 1939-1945.

quarta-feira, maio 08, 2019

Leonard Cohen - Hey, that's no way to say goodbye (Subtitulada / Subtitled)

SENTIR ESPELHADO


   



ESPELHADO SENTIR

A poesia ausentou-se...
Foi contigo a qualquer lado!
Deixou-me conforme te trouxe
Num momento desesperado.
Fê-lo, propósito vincado,
Com intenção bem explícita
De fazer sofrer um bocado,
“Qu'a dor à inspiração incita”.
Mas é engano e 'tá errado
Magoar para termos valor:
Quem vale ama descuidado
E não despreza nenhum amor.
Nem o seu, somente porque é seu;
Nem o nosso, porque valor lhe deu.

Joaquim Maria Castanho
Com foto (Parc Monceau, Paris), de Elie Andrade