A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

terça-feira, novembro 29, 2016

LETRA X




LETRA X 

Xistos, ardósias, lousas, axiomas
Logística existencial pretérita
Que – oxalá! – deixem de ser sintomas
Da XPTO, cruel congénita 
Incógnita, variável fundamental 
Ampulheta, argila ou cromossoma
Da cultura e genética acidental… 

Porque sem fé crê a razão acreditar
Em Xara, de Xarazade, é tutora 
Excelsamente exímia e senhora 
Do narrar que ao conto soma pontos
Cruz, nas linhas cruzadas desse contar
Com a excelência pelos encontros
Onde o Xis ganha alma – e é lugar! 

Joaquim Maria Castanho  

segunda-feira, novembro 28, 2016

LETRA W




LETRA W

Watt iluminador deste mundo
Capaz de gerar 1 J por segundo
(Mesmo sem Andy Warhol publicista), 
Eis-se no pisca-pisca do instante 
– Flash que não melhora nossa vista, 
Nem sequer divulga o diletante –; 
É o pirilampo das noites sem lua… 

Não carece diesel, nem de alpista;
E não polui por qualquer combustão. 
Mas se o virmos a cintilar na rua
Reconhecemos logo qu’é artista, 
A bailar pela pista do negrume
Com tracejado digital de sim e não…   
– Mostrando a razão de ser vaga-lume! 

Joaquim Maria Castanho

domingo, novembro 27, 2016

FUGA AO TEMPO PRÓPRIO




FUGA AO TEMPO PRÓPRIO 

Conserto desconcertado o ser 
Tentando converter a solidão 
Em palavras que queiram dizer 
Mais do que diz a ocasião. 
O ocaso além da pedra fria, 
Os sonhos que o sol consumiu
Nas cidades do dia a dia 
Onde a humanidade cria 
Tempo que ao tempo já fugiu! 

Joaquim Maria Castanho 

VERBO SEMPRE




VERBO SEMPRE

A felicidade é isso… 
Ver teus olhos todos dias, 
Observar o teu sorriso, 
Ouvir sublimes melodias
Dançar nas ondas dos cabelos
Onde o sonho se enleia
Entretece como em teia, 
Arrebata tão-só por vê-los… 

É uma queda que nos ergue
(Reparar sem que reparar!), 
Reparando qu’em Portalegre
Somos verbo sempre a conjugar. 

Joaquim Maria Castanho

sábado, novembro 26, 2016

REVER-TE




Reencontrar-te é rever por escrito
As pétalas à esperança (sonhada), 
Presas plo nácar da tarde, flor perlada
Abrindo as portas do céu infinito
Onde as estrelas copiam teu nome,
Onde a feliz alegria me consome
Quando a vida regista a tua lei; 
Onde nasce tudo quanto sou e sei 
– O que há e não há, além do que acredito! 

Joaquim Maria Castanho 

sexta-feira, novembro 25, 2016

LETRA V




LETRA V 

Viver é ouvir o vaivém 
Nas veias, 
Sejam nossas, sejam alheias 
Viúvas, como sem vintém; 
Novas, velhas, vazias, cheias
Beatas, nobres, pobres, plebeias
Vitoriosas ou vadias
Vividas na vida dos dias, 
Como esvaídas e sem ninguém. 

É avivar a voz do vento
Com vitrais, uivos da vontade
Vorazes e virtuais, vidrados
Pelos vernizes da liberdade… 
– Varonis, vitais, condenados 
A virarem-se em movimento! 

Joaquim Maria Castanho  

quinta-feira, novembro 24, 2016

LETRA U




LETRA U 

Usura dura e única esta: 
Ultrapassar a tua ausência – 
Ustir último se já funesta 
Urdidura uiva urgência, 
Ultima lugar prà sepultura, 
Aquiesce em suma anuência, 
Aqueda em tumular cesura… 
Que quando é usual ustir
Sem amuar (cumprindo ajuste), 
Nem undíssono urde iludir 
Porque “quem quer uste, que lhe custe”,
Num muito sumário aprumo
De quem curte seu supremo rumo
Em nunca ocultar – nem desunir! 

Joaquim Maria Castanho 

quarta-feira, novembro 23, 2016

LETRA T




LETRA T 

Tenho teus olhos 
No coração… 
Teu rabo de cavalo… 
E hoje, pra fugir à traição,
Fui lá buscá-los… 
Fui lá buscá-lo! 

Que a vida tem em si
Todas as tutelas. 
E às portas fechadas, ali
Abre, na memória, aqui
Teus olhos… 
Cortinas aos folhos… 
Lindas janelas! 


Joaquim Maria Castanho

terça-feira, novembro 22, 2016

LETRA S




LETRA S 

Senhora da penha
Da luz, da chegada, 
Se sinal, és senha
De rio alvorada, 
Nas hortas marcada
Plo pão com manteiga, plo galão quente
Das primeiras notícias do mundo
Da escola, da terra ou da gente,
Nesse nosso pertencer tão profundo. 
Tão no ser sentido
No querer forjado, 
Chutando o perigo
Para outro lado. 
Para outras bandas
Sem almas nem gado, 
Onde as desmandas
São por mel coado. 
Pelo grão na asa
Por tudo e por nada: 
Batizo em casa,
Velar de finada. 
Ou ida às “sortes”
Buscando canudo, 
Onde essas mortes 
Por tudo e por nada
São nadas do tudo. 

Joaquim Maria Castanho  

segunda-feira, novembro 21, 2016

LETRA R




LETRA R 

Regressar ao sorriso que nos resume
Pérola, redoma, reflexo de nácar, 
Fénix (renascida) das cinzas é lume
E ritual que repete sonho e luar; 
É ritmo renovado para quem rume
Atrás da réstia redonda de cabelos
Que nos aprisionam, só por querer vê-los
Sempre, sempre, sempre e repetidamente
Que o frémito surge, coração frecha
Ao sentir, urge sussurro extremado
Rumando estreme de brecha em brecha
No cabelo atado, como quem fecha
Círculo, regressa sorriso criado… 

Réstia reflexa no rimar nacarado! 

Joaquim Maria Castanho 

sábado, novembro 19, 2016

LETRA Q




LETRA Q 

Quando queremos quase e enquanto
Aproximação ao querer que é querendo, 
Quota-parte do ser em qualquer sendo
Questionamos qualidade e encanto
Ao querido, desejado, mas nele tendo
Outro sentido, que não o querer puro,
Pois queremos que nos queira também... 
Tem seu quê relativo, pouco seguro
Em queda já, sem quaisquer votos de quem
Dá ao querer um não-sei-quê de futuro
Que toda esperança quando quer, tem. 

Que o possa ver, requer que mais alguém
Veja, que mais alguém o note e queira
Como querença – e de qualquer maneira! 

Joaquim Maria Castanho  

sexta-feira, novembro 18, 2016

LETRA P




LETRA P 

Produto de partilha, a poesia
Põe, dispõe ou reproduz, mas por parcelas
O que apenas suprema, ela poderia
Possuir de próprio, e por profundo… 
É a prata de quem pelo dizer porfia; 
É ponte, é projeto, é vento e velas; 
É o espelho do que pode ser o mundo
Nas suas alegrias, magias e mazelas. 
Porém, podendo ser tudo e muito mais, 
Quer seja poder, como pleito sentido, 
Presta-se também a ser para jograis
O que nem imaginaram sequer ter podido: 
Porta que lhes dá direito de perdura
Em toda parte – até em literatura! 

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, novembro 17, 2016

LETRA O




LETRA O 

Ouço o teu rosto redondo, em osmose, 
Como no sonho, e omisso me socorro
E me decoro, e oponho, ao sono, à pose
De oximoro, se afirmo e nego, se morro
E vivo, em contradição, apoteose
Que ocorre logo que oco recorro
A outro rosto, procuro hipótese 
Provável de substituí-lo (de novo), 
Génese e ovo dos modos que absorvo, 
Louvo, somente saudoso dele, de ti… 
Porque o amor, o universo, é isso
Só isso, o teu olhar, forma e esquisso
Que conforma rota ao meu, pondo-o aqui
A focá-lo, sem sufocar como te vi. 

Joaquim Maria Castanho 

quarta-feira, novembro 16, 2016

LETRA N




LETRA N 

Nos teus lábios, língua languescente
Se aninha, letra no meio de nós assim
Que não nega renascer no ocidente
Nem faz, ou nem afirma, tão-só porque sim. 
E se no início é naipe exigente
Linha anil ou nesga de sonho no marfim, 
Nácar de ninfa no nenúfar tremente
Ante a corrente cristalina e de cetim, 
No fim é destino, melodia divina… 
Encantamento num’alma peregrina
Sem promessas por pagar nem por receber; 
Mas acatando sempre se o olhar ensina – 
Porque no inaudito nasce bem-querer! 

Joaquim Maria Castanho  

terça-feira, novembro 15, 2016

LETRA M




LETRA M 

Mais que mistério, mais que magia, 
Mais que momento, são os teus modos
De solucionar medíocre mediania 
E o sem poesia dos dias incómodos; 
Dos dias menos, tardios, serôdios 
Que mumificam as almas, se desfias
Missangas num rosário de Marias
Mudas pròs mundos – mundanos quase todos. 
E que é essa maneira que é só tua
De resumir hemisférios de humor, 
Multiplicando numa forma contínua 
O quadrar alegria pla redondez do amor; 
Pois muitos dias poderá ter um dia, 
Mas só se te vejo, neles, há poesia! 

Joaquim Maria Castanho

domingo, novembro 13, 2016

LETRA L




LETRA L 

Lídima lealdade na leitura 
Das sílabas dos lugares e ligações, 
Legítimo salto-cavalo, moldura 
De lótus, de lis, de lírios e de leões 
Que limaram e sublimaram tradições, 
Deltas iluminados, luz ou figura; 
Sombras a deslumbrar plateias, ilusões 
Com realidades dentro se em nós dura
A nobreza leve, nobre sentimento. 
Cinquenta linhagens universais
De áspides e ninfas, cujo cruzamento 
Concedeu a humanos e comuns mortais
O dom da entrega e arrebatamento  
Em ser frontais, sem deixar de ser leais. 

Joaquim Maria Castanho

sábado, novembro 12, 2016

CAPA DO LIVRO de MOMENTOS DE POESIA


Eis a capa do livro de celebração do décimo ano de Momentos de Poesia, a ser lançado no próximo dia 20, pelas 15:30 horas, no Hotel José Régio, em Portalegre, e que reúne a participação de 48 poetas e poetisas da nossa atualidade.
Este momento será constituído, além da apresentação da obra, também por alguns apontamentos musicais, corais e poéticos.

LETRA K




LETRA K 

Caderno trinta três na ordem suprema;
Tipografia avançada e em escala; 
Isolado, deitado, é nosso tema
Quando na língua, a escrita fala. 
Do cuneiforme ao digital emala
A bagagem – da humanidade a gema –, 
Que à ficção e fantasia dá “olá kala”
Mostrando as obras, mas não a arbitragem.
Só surgiu no mundo por necessidade
Mas imperou como a razão do meio, 
Oferecendo a Gutenberg a veleidade 
De ser do globo a esfera como o veio; 
Sucumbiu às catacumbas da idade
Pra fazer alegretes de bonito e feio!

Joaquim Maria Castanho 

quinta-feira, novembro 10, 2016

LETRA J




LETRA J 

Joias de Salomão justificadas
Em tesouros de justa preciosidade, 
Não teriam sido essas guardadas
Mas sim quem as guardou como verdade. 
Pilares da civilização, juradas 
Colunas na suma verticalidade… 
Portas do mundo. Cais pra sãs cruzadas, 
Que sustentaram nossa modernidade. 
Que muito mais que os bens guardados
São os sentidos valores aí propostos, 
Pois além de gerarem mil cuidados
São cuidado e aprumo de quem ‘tá a postos
Vigilante, determinado, de plantão; 
E à injúria faz negaça, trespassa 
A intrujice e à trapaça diz que não! 

Joaquim Maria Castanho 

quarta-feira, novembro 09, 2016

LETRA I




LETRA I 

Nove III, imperador do infinito
Condómino maior na escala decimal
Senhor do fim, do abismo e do esquisito
Faz saber que todo centro é marginal.
Todo o coletivo é individual. 
Todo o corpo é sempre um espírito.
Todo o silêncio é seu próprio grito.
E todo bem tem seu correspondente mal.

E mais que isso, se decreta agora, 
Que embora diga que és tudo e nada 
(Serviço de urgência, base, escora…), 
Não há prova que existas realmente: 
Só és ponto de partida e de chegada 
– Pintinha de sangue no olho desta gente! 

Joaquim Maria Castanho