A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, abril 05, 2018

ACERCA DO MITO...







DO MITO




Rotundo é o mito, circular
Como um grito a chegar, 
Onde rodopia na secreta via
Do rodar. 



E dessa chave, renascido enclave
Istmo consequente, 
Voa sempre outra nave
Que lhe promove o significado
Preciso e confluente, 
Dando-lhe aqui o sentido
Aceitado, pronto e assumido
Que ganhara noutro lado. 


Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, abril 04, 2018

NA VIAGEM, COMO VÉSPERA




VIAGEM DE VÉSPERA


Obliterado plo óbvio ativo
De ser outro para além de si, 
Quem se busca fá-lo sem ter motivo
Mas por inquietude sentida aqui
E agora a que sucumbe e explora
Quando ri, como quando chora
E empresta seu desvalido estar… 


Podia ser o partir sem sequer sair
Todavia, prefere ser esse emergir
Que é ficar mas só há no imaginar. 

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, abril 02, 2018

FLORIDA É A PLANÍCIE DA LUSOFONIA




138.
SOBRE A FLORIDA PLANÍCIE, A LUSOFONIA 



Há um poema que não digo
Mas nunca esqueço; 
Há um poema onde soletro
Por que estremeço
Me persegue s’o persigo
Mudo, circunspeto
Até que ecluda, por fim
Polvilhando searas 
De prosas (em assíndeto)
Como faúlhas, aparas 
Que são estilhaços de mim. 



É mel vertical que transluz 
Ao diluir-se em cor, 
Portal d’anseio que transpus 
Em espigas d’amor,
Prà farinha dessoutro pão
Qu’é o nome de cada flor. 

Joaquim Maria Castanho



CAMINHANDO E COLHENDO





136.
A COLETORA 


As estações expiram sem ais.
Às vezes, ditam-me os caminhos; 
Outras, dizem-me por onde vais
Apenas, e só, pra te encontrar
E ver, que as manhãs, se serenas
Imitam o teu modo de andar, 
De pisar chão, apurar-lh’o tato
Que nem cada pé fosse outra mão
A aflorar pedras, flores e mato. 

Se são muralhas, sobem-nas, então
Se rosas, não evitam espinhos; 
Se alecrim, carqueja, ‘piricão
Silvas – usam-no para infusão!    

Joaquim Maria Castanho


EXÍLIO PEDIDO




135.
PEDIDO DE EXÍLIO



Sei que exilar-me de mim é urgente 
– Nada corrobora esta quietude:
Fico ensimesmado, se entre gente
Só a pensar-te, na mesma atitude 
De quando isolado, ou sozinho, 
Me perco entre as paredes da casa
Ou vagueio por qualquer caminho, 
Divagando com a cabeça em brasa. 


E se o constato, por tão evidente
Também lhe reconheço outra virtude: 
A de ficar a saber que o carinho
É uma pátria suprema, querida,
Onde os beijos edificam o ninho 
– E o pedir… Qualidade de vida!  

Joaquim Maria Castanho

sábado, março 31, 2018

HUMILDE BIPARTILHAÇÃO

  


HUMILDE BIPARTILHAÇÃO 

É neste poema que aposto
Todas as fichas que possuo... 
Se ganhar, só ganho um gosto; 
Se não ganhar, sequer amuo. 
O crédito fica pra depois
– Quando um dia eu precisar! –
Se não der para partir em dois, 
Tal a célula ao procriar. 

Então, vistos os poemas assim, 
Neste investir sem arriscar, 
Creio que trabalho só pra mim
– Sem a poesia nada ganhar.

Joaquim Maria Castanho

sexta-feira, março 30, 2018

DO PORQUE SIM AO PORQUE NÃO




DO PORQUE SIM AO PORQUE NÃO 


Põe os olhos no exato
Sentido da palavra, raiz 
Pois é ela quem de facto
A alicerça pra dizer – e diz. 
Mas deixa-os escorregar
Log’a seguir, prà valeta
Para a água a depurar
E a tornar escorreita. 


E então, nesse ínterim 
Escuta-a só dizendo não
Somente porque não é não 
– Apenas porque sim é sim.

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, março 29, 2018

DOCE, MEIGA E MACIA MÃO...




DOCE, MEIGA E MACIA MÃO…  


Caprichou por exagero,
Exagerou por defeito, 
Coisa qu’é só desespero
Quando nasce do peito. 

Pois nem sempre assim é
Já todo mundo bem sabe, 
Mesmo a começar por mim 
– Pouco atreito ao alarde... 

À promessa feita em vão
E os sinais pra iludir, 
Quem concede ao coração 
Mais que ele pode pedir. 

Ped’afeto, ped’atenção,
Pede silêncio, carinho, 
E às vezes, até a mão, 
De quem o traz plo beicinho.   

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, março 27, 2018

A Poeirinha JAJÁ





A POEIRINHA JAJÁ 
(um conto muito pequenino)


Ao certo, acerca do deserto
Apenas se dizia que um havia
Ora muito longe, ora muito perto,
Logo enorme, interminável areal
A que se ia por aqui, acoli e acolá
Se visto como coisa séria – e real,
Feito dos ditos e dos vá-que-não-vá.

Mas cada areiinha, quase poeira já
Também era granito duro, em grão
Grãoinho-inho-inho tão miudinho
Que nem dava pra um micro-micróbio,
Fosse ele louvável como opróbrio, 
Fazer seu mini-mini-minúsculo ninho. 

Todavia, esse deserto, ei-lo que cresceu
Se tornou imenso de tão gigantesco
Que a ONU até teve de criar a UNESCO,
Por tanta areiinha miudinha haver, poeirinha já
Assim, insigne e incivil, e ignorante quanto eu.  

Joaquim Maria Castanho 

segunda-feira, março 26, 2018

SOL PRIMAVERIL II


DA PRIMAVERA, O SOL, A LUZ FECUNDA




SOL DE PRIMAVERA 


Nasceu já emancipada 
Por ser prima muito vera…
Do verão, é madrugada 
– Estrela qu’o dia espera. 

Sublinhou a claridade…
Trouxe paleta de rigor, 
Pra pintar pluralidade
Mas sem perder nenhuma cor. 

Porque todas fazem falta
Ao planeta, se inteiro, 
Mal ele se aperalta 
De mago casamenteiro
Da criação, logo, tutor
À genética esmera, 
Cujo brilho é só amor
Como o sol da primavera.  

Joaquim Maria Castanho

domingo, março 25, 2018

WHITNEY HOUSTON - One Moment in Time (TRADUÇÃO)

Djavan - Flor de Lis

O (RE)VERSO NA PEDRA




O (RE)VERSO NA PEDRA 

Só e doce
Era o verso que se dizia
E fosse
– Como um naco de poesia... –
Quando nos trouxe
(Num sapato
Feito coche)
Esse aparato
Da noite – ao fazer-se dia! 


Joaquim Maria Castanho

sábado, março 24, 2018

131,A ESTICADELA





131. A ESTICADELA   

Anda a gente ao deus-dará 
Pechincha aqui, pechincha ali, 
Pra respigar do quanto há
O déjà-vu do agora já vi… 

Já vi no que deu o (des)gosto.
Já vi que gostar não é ter. 
Já vi esse não ver que virá. 
Já vi que apostar tem posto. 
Já vi qu’o treze também ri. 
Já vi que não estou bem a ver. 

Mas como nesta minha visão
O ver nunca se justifica, 
Eis-m’aproveitar a ocasião
Pra ver se o não ver s’estica. 

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ, pág. CLXXVII

quinta-feira, março 22, 2018

O MILAGRE É COISA RARA




O MILAGRE É COISA RARA 


É… Ninguém mais connosco compete
Do que nós mesmos durante a vida, 
Fugindo ao erro que nos repete
Aviltando, dela, a nossa lida
Antes pronunciada por atenta, 
Perdendo o quanto já lucrara
Tão-só num instante dessa ilusão
Com que a esperança nos aventa
Todo o brio e juízo prò alçapão
Do falido limbo da coisa… rara!

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, março 21, 2018

SENTIR OU PENSAR NUNCA BASTAM...




SENTIR OU PENSAR NUNCA BASTAM...



Coisa afeta ao ser nos cremos,
Quando a noite nos consome
O que vemos, não é o que temos
Nem que sonhamos nos mata fome; 
Qu’a realidade, sempre outra, 
Exige constatação primeiro, 
Pois o corpo não é montra
Para nenhum amor derradeiro.


De ti só sei o olhar. Ele me diz
Que não digo, raiz quadrada
Traçada a giz dessa diretriz
Que é a estrada que não sigo
Porque se temos voz, tino, fala
Sentido preciso ao querido,
Então, é fundamental usá-la
Prò afeto nos ser merecido.

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, março 20, 2018

AO ECO DA PRIMAVERA




AO ECO DA PRIMAVERA



Escuto-te tão silenciosamente
Como um cicio que se distancia
De imaginado, recordado ente
Assente na face lúcida, macia
Tesselária do verso inesgotado
Que só se redime se renovado
Plos afluentes reais da poesia.

Navegas entre as bátegas soltas…
E, umas vezes, ficas; outras, partes
Justificando aí todas as artes
Que nascem do amor – quando voltas.

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

VALOR ACRESCENTADO




VALOR ACRESCENTADO

Matei uma saudade
Nasceu-me outra maior, 
Pois amar a verdade
Triplica muito valor. 

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

4) de MINARETES DO EU




118.
MINARETES DO EU

(...)

4.


Porque, enfim, sustento-me de agoras
Pra matar esta fome incandescente
Com que todo tempo pica as esporas
Nas doídas ilharga do sol nascente
Feitas das manhãs de orvalho cerzidas
Em ponto rendado, mas tão caprichado,
Que as minhas promessas ficam cumpridas
Pisando o chão já mil vezes pisado… 


Porém, se logo nele contigo cruzo
D’imediato outro caminho se torna,
Tão novo, refeito e apto ao uso
Que se faz raridade o antes norma!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ - página CLX