A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

É URGENTE (inventar) O AMOR


É URGENTE (inventar) O AMOR



Querer fazer parte da tua vida

Não me dá o direito de mandar nela,

Que o amor tem por certa a medida

De não cerzir sedas com cerol e sovela.


Nem obriga a respeitar só por obrigação,

Ou a transformar em meio qualquer fim;

É antes ouvir NÃO quando dizes «não»,

E ouvir TAMBÉM quando dizes «sim».


Joaquim Maria Castanho

ƸӜƷ Ϡ₡ ☀@ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ϡ₡ ☀@ ♫♪✿♣ Ϡ₡♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪Ϡ₡ƸӜƷ 



(Ilustração: telas de ESTHER SILVA, pintora maranhense)

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

QUEBRA-GELO



QUEBRA-GELO

Acorda-me o gesto…
Na sofreguidão da luz
Cada sombra é um resto
Do que pelo sonho depus.

E a esperança dum rosto
Na acesa sede das horas
Anima motivos e gosto
Se em teus olhos me demoras.

Acorda-me o sonho…
Que o gesto repete,
E o frio mundo medonho
Sucumbe ao sol.. e derrete!

J Maria Castanho
ƸӜƷ Ϡ₡ ☀@ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ϡ₡ ☀@ ♫♪✿♣ Ϡ₡♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪Ϡ₡ƸӜƷ 

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

MOTIVAÇÃO ÚNICA



MOTIVAÇÃO ÚNICA 

Precisa e incidente a alva tez
Da luz que diz o silente afeto
Deambula em meus sonhos, talvez
Cerzindo-os de doce e nobre aspeto…

São puros, como só a alma pode ser, 
E inquilinos irrequietos do desejo. 
Mas guardam-nos os olhos duma mulher
Tão meiga e bela como o próprio beijo. 

E se além, ainda, no desvão do mundo
Superior é tida alguma imensidão, 
Então, são dela eles também, e tudo
O mais que é real e nasceu da imaginação. 

J Maria Castanho
ƸӜƷ Ϡ₡☀@ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ϡ₡☀@ ♫♪✿♣ Ϡ₡♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪Ϡ₡ƸӜƷ
http://www.facebook.com/evolui.verde

O PRONOME DA FELICIDADE



O PRONOME DA FELICIDADE



A felicidade são os breves instantes
De morar nos olhos que vimos toda a vida
Mas nunca tínhamos visto antes.

É um entrar já de saída
Que nos deixa titubeantes
E de fala presa, e comprida.

É contrair por contágio (e magia)
Toda a florescência do dia
Nas cores sonoras duma voz,
Que disse «eu», mas ouvimos «nós».

J Maria Castanho
ƸӜƷ Ϡ₡ ☀@ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ϡ₡ ☀@ ♫♪✿♣ Ϡ₡♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪Ϡ₡ƸӜƷ 

domingo, fevereiro 15, 2015

DA DEVASTAÇÃO DA AUSÊNCIA



DA DEVASTAÇÃO DA AUSÊNCIA

Nós escolhemos a palavra
E dentro dela o silêncio escuta-nos
Nesta sede que nos arde por dentro.
Às vezes queima tanto
Que é quase um trair-te contigo,
Mas sem ti…

Então, fingir que não te amo
É um tsunami de dor, perda e dano.


J Maria Castanho

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

TEM TINO, JUÍZO



TEM TINO, JUÍZO 

Entre o siso e o sizo a ortografia
Está apenas na mona de quem lê,
Que se o erro ao facto enuncia
Só temos que perguntar-nos «PORQUÊ?!»

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪ ƸӜƷ




Riram-se à minha custa
Mas ninguém sabe porquê,
Que onde a razão é à justa
Mingua o sizo, como se vê.

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪ ƸӜƷ

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

VERTIGEM EXISTENCIAL



VERTIGEM EXISTENCIAL

Mergulhar no olhar em que acredito
É atingir, numa vertigem, o infinito,
E voltar à sofreguidão do destino
Na flecha do sonho, no eco dum sino;
É ser percorrido por leda ventura
Na pertença intensa que mata e cura,
Eleva e aprofunda, tão plena de magia
E doçura, que mete inveja à luz do dia.

É retornar àquela criança que somos
Assim aspergida poeira do cosmos.

J Maria Castanho




terça-feira, fevereiro 03, 2015

O DOM DE LER



Não há tempo mau nem bom,
Ser que não possa ser (melhorado);
Que quem de ler tiver o dom
Pode fazê-lo em todo lado.

J Maria Castanho
:D ƸӜƷ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪ ƸӜƷ (Y)

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

NAS GAVETAS DO VERBO



NAS GAVETAS DO VERBO

Mas agora tenho um segredo
Tão secreto, que é apenas meu…
São uns olhos que matam o medo
E voz que me faz ouvir o céu.

Que é tão segredo secreto
Que ao sonhá-lo até finjo
Nunca tê-lo feito, e invento
Ideias assim, que não atinjo,
Poemas em que digo e desdigo
Coisas de mim só pra comigo,
Não vá alguém ver, desconfiar
Que o sonho que ora persigo
Está nas caixas do verbo amar.

J Maria Castanho
:D ƸӜƷ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪ ƸӜƷ (Y)

sexta-feira, janeiro 30, 2015

AL'ARRIBA!


AL’ARRIBA!

Cinzento é o destino
Do dia que nasceu velho,
Mas nunca foi menino;
E que assim sobrancelho
Fez das suas à nobre gente,
Obrigando-as a vivê-lo
Com ganas de forte arrimo,
Pra torná-lo mais quente.


J Maria Castanho

quinta-feira, janeiro 29, 2015

LUA MENSAGEIRA


Lúdica, a lua cresce
E me ilude na espera
Do rosto que não esquece
Nunca, nem é coisa mera.

Já que primordial o vejo
E tenho na vida minha,
Lua leva-lhe este beijo
Pela quinta à tardinha.


J Maria Castanho

segunda-feira, janeiro 26, 2015

O PANÓPTICO INCINFORMADO


𝓸 PANÓPTICO INCONFORMADO
                 Joaquim Maria Castanho




Ontem, na tentativa de conviver de perto com aquilo a que comummente chamam “espécie humana”, fui até ao Café. Após bebericar da típica e apenicada chavenazinha a água castanho-escura com creme espumoso e dourado denominada “Bica”, deixei-me afundar na discreta leitura de um dos jornais do dia que adquirira no Quiosque Jardim. E afundar é a palavra exata. Precisa. Principalmente porque ainda não chegara às palavras cruzadas, que são o suprassumo ou tiro-e-queda na matéria, já ninguém estranhava ou notava a minha presença. Fora assimilado…

O dia acordara assim-assim, que é o tal jeito provinciano de referir tudo quanto é sonso e intragável mas não nos importamos de consumir, engolir, tragar, porquanto tem tanto de saber a nada como de a coisa nenhuma. Todavia o céu estava azul, daquele azul caraterístico dos desenhos animados, embora que polvilhado, aqui e ali, de farrapos de esbranquiçadas nuvens, ao caso, e, por sinal ou influência do modo vivente local, bem pouco apressadas.

Dei o meu melhor no apagamento, estratégia aprendida pelo íntimo convívio, diário e constante, com a minha aranha doméstica, que ocupa o canto inferior direito da janela do quarto, e que depois de feita a teia se apaga nela não fazendo outra coisa senão esperar que alguma mosca incauta ali se enleie. Então, salta-lhe em cima, e injeta-lhe, numa ferroada rápida, eficaz, profissionalíssima e fatal, o narcótico que há de adormecê-la a fim de a poder sugar paulatinamente, degustá-la viciosa e demoradamente como a substancial iguaria que para ela, sem dúvida, é.

“Há quem suba a descer”, conforme referiu Florbela Espanca no conto A Paixão de Manuel Garcia, e é inequivocamente esse afundar de mergulho no discreto areal do anonimato que o impulsiona e motiva, pescando pequenas pérolas das conversas alheias, desgarradas frases que o acaso vai plantando nas mais variadas pronúncias e falantes, enunciados que entretecem a malha significativa do momento imediato, inaudita até então, sentenças e expressões invisíveis e desnotadas antes ainda porque já ouvidas, ou mesmo que anteriormente ditas e escutadas terão passado a leste da acuidade, seguindo diretas para o esquecimento e apagadas para que outras lhes sucedessem de igual calibre e quilate, garantindo o lugar e primazia às atuais capturadas, presas e troféus dum veterano caçador de recompensas sempre pronto a torná-las reféns da sua vontade de renovar, e reciclar, o conteúdo do gavetão dos analíticos e lexicais discursivos, com exemplares indesmentivelmente originais e inéditos.

Sobretudo porque nessa entrega ao significado de cada uma das recém-captadas, enquanto frases comuns e insuspeitas que alcançaram o Olimpo da particularidade incomum da genialidade criativa, nesse trotar de sílabas gregárias na mecânica dos ouvidos pelos paralelos molhados do calçadão dos enigmas e mistérios, nos adensamos na semântica das horas breves e fúteis, tornando-as úteis e prazenteiras, industriando a alquimia de tornar precioso o que antes fora vago, ordinário, vulgar e medíocre, concedendo-lhe alforria e estatuto de insubstituíveis, quando notoriamente corriqueiras e descartáveis anteriormente seriam, por mais bem-ditas e pronunciadas que tivessem sido de acordo com os requintadíssimos superlativos da dicção.

Portanto, entrincheirado na leitura do diário matutino segui de soundbyte em soundbyte, saltitando de comentários para apartes, de confissões para desabafos, de apreciações para argumentos, de conclusões para considerandos, de apelos para invetivas, em velocidade de cruzeiro, em passeio, ladeando paralelo a vitrina e parede desse longo e circular aquário que é o meio-ambiente, o nosso raio de ação e visibilidade própria, varrendo a 360 graus a atividade da flora e fauna fleumáticas da bolha observável, perscrutando a evolução das formas e sonidos, os sublinhados e expressões com propósito de significação, involuntários uns, intencionais outros, de natureza prefixa ou sufixa segundo o enraizado espontaneamente estabelecido. Uns referir-se-iam ao universo da e das políticas, das noticias do Jornal da Manhã como dos acontecimentos do passado recente; outros, às atividades da urbe no fim de semana, às ocorrências da vizinhança, aos pequenos escândalos e comezinhos atalhos nos privados da convivência, às situações e atitudes de familiares, aos serviços e ofertas de cafetaria, e reparos aos afetos e desafetos em geral, mas principalmente acerca dos ausentes que costumavam estar presentes. Ou que ganham hegemonia no presente pela sua ausência.       

Porque na tentativa de absorver a realidade até ao absurdo, o ser humano, como qualquer indivíduo que se apraz pertencer a uma espécie que insiste em ser distinta das demais, mas suficientemente numerosa para consignar às diferenças entre si essa mesma distinção, por grupos, ficheiros, tipologias, conforme o cariz das avaliações, quer elas sejam elaboradas por empatia como por estranheza, por compreensão e semelhança, como por aversão à matriz, contraste ou intolerância, não se coíbe de recorrer à clandestinidade, ao disfarce, à infiltração, ao subterfúgio, para melhor conseguir a dita apropriação do real, quer social, como pessoal e circundante, ainda que este seja exemplo incontestável de uma ficção ou conglomerado de ficções, teorias e delírios místicos. E, com os olhos visivelmente ocupados na decifração alfabética, os ouvidos ficavam-me totalmente livres e recetivos à absorção de todo e qualquer estímulo sonoro passível de descodificação que ocorresse, distinguisse, discernisse entre as mensagens flutuantes as que, por natureza, relevância e consistência, eram propícias ao investimento analítico. Aliás, fora na mira de tal operação que ingerira a cafeína depois do substancial e nutritivo pequeno-almoço que tomara em casa, e que me concederia todo o tempo do mundo para dedicar-me em exclusivo à tarefa da perscrutação, sem pressa, sem ansiedade, sem sofreguidão, ou restantes causas que nos levam a entrar pelos atalhos inimigos da lucidez: precipitações.

Por conseguinte, ali estava eu como se sempre ali estivera, plantada peça de decoração ou móvel da casa fosse, enraizado de pedra e cal, embaucado e de matutino em riste, resguardado de congeminações e alusivas considerações adversas, recatado, pronto e sadio prà função, recetível ao dito, disponível e atento prà frase que soasse e viesse, viesse como viesse, misturada ou sem ruído, embrulhada ou despida de qualquer ganga marginal, límpida ou obscura, com ou sem preâmbulo, com ou sem epílogo, com ou sem rótulo, prestes a consumir com sucesso e galhardia um oitavo da vida, que se resume sempre à terça parte dos 12 avos que o carnaval é. À esquerda, à direita e em frente ninguém suspeitava das intenções reais perante a coreografia do momento, acaso sobre acaso dispostos sem ordem nem objetivo definido, tudo espontaneidade simples, pura e dura, desprovida de intencionais arranjos, à flor do ar e fluida e plástica e flexível e moldável como a primitiva argila da nossa essência gregária.

«Tenho que ir fazer análises», afiançou a quase-idosa mesmo ao lado, da terceira mesa prà direita, assim mesmo à babugem do orelhame, «pois o meu filho diz que quando nos doem os pés, é porque temos o colesterol elevado… E a mim têm-me andado a doer ultimamente; parece que vou sempre a pisar gravilha quente, Gracinda», que era a companha que a escutava, embora aparentemente mais nova e bem-conservada, e que, de frente para a falante, mexia-mexia-mexia-mexia o café como se temesse que o dito coalhasse, talvez esquecida do que fazia, abstrata, e com aquele semblante de quem viaja por outras paragens que não aquelas onde deveras está. De gestos automáticos, mecânicos, tipo máquina de operações repetitivas a que se esqueceram de desligar no interruptor, e que só pararia quando a pilha descarregasse totalmente.

Mais adiante, e do mesmo lado, entre os assíduos ou habitués e os fumadores, que foram literalmente empurrados para os fundos, próximo da porta das traseiras, marginalizados, qual retaguarda da direita conservadora do lugar, dum casal de meia-idade que parecia ser igualmente de meias-posses e de aprumado mas já percetivelmente usado vestuário, após pousar os sacos das compras no supermercado vizinho, reparou ele que «nesta cidade nunca há nada. Mas quando há, ninguém vai… Viste ontem quantos estavam a assistir à música no coreto? Eram mais os tocadores da filarmónica, dos que a ouviam de fora», puxando uma cadeira da mesa atrás para ajeitar melhor um saquinho. «Pois é», assentiu ela, «e os que vão são sempre os mesmos. Só lá vi gente que esteve anteontem no museu, a ouvir o coro.» «Se calhar são da mesma capelinha que promoveu a gaitada» anotou o parceiro. «É sempre assim: promovem o evento, atiram os foguetes, e ainda são os mesmos que vão apanhar as caninhas. Seja o que for» garantia, e dando-me a oportunidade de confirmar como nas parcelas do território onde imperou o latifúndio e o condado, o acerto senhorial e a grande propriedade, a marcação do gado extravasou das unidades de produção pecuária para a esfera social, para a mentalidade urbana, corporativa, mais ou menos cosmopolita, efetuando essa transferência por meio da metonímia e da metáfora, que são os tropos mais recorrentes do pensamento mágico, numa modalidade simplista da regra dos três simples: se fulano tal frequenta o pasto da casa tal, então tem a sua marca, o que lhe permite frequentar todo e qualquer pasto da mesma casa. Precise ou não, goste ou abomine. A coisa não é grave, ainda que primitiva e secular, e não é caraterística desta ou daquela terriola em especial, antes está generalizada de alto a baixo do retângulozinho portuga, nele constatável e visível, senão transmissível de geração para geração sem qualquer esforço ou sacrifício.

À esquerda, não distante nem revolucionária, mas também não imediata, dois idosos – inequivocamente avançados na idade – e uma senhorita razoavelmente muito mais nova, bem-conservada e sadia, porém visivelmente alheada da conversa, como quem já conhece a cantiga de cor e salteado e lhe dispensa o remake, ou está cansada de dar para tal peditório, e lengalenga, avaliavam as perspetivas de êxito da Feira das Cebolas, efeito muito considerado e frequentado noutros tempos mas a que os hipermercados estouraram com as habilidades, aventando um deles, o com óculos castanhos de massa e lentes grossas, ainda muito bem encabelado, por sinal, com pelos espessos e fortes, cerdosos, luzidios e prateados, que «se não chover durante estes dias, vão-se vender aqui umas toneladas boas de cebola, lá isso vão… sobretudo à noite, que é quando o pessoal que trabalha pode vir. Que trabalha e pode comprar», e piscou o olho sabido para o compincha. «Isso, sim!... Antigamente, era aqui que a minha gente comprava cebolas para todo o ano, era. Mas agora, vai comprando conforme lhe vão fazendo falta. São mais baratas, e não lhe apodrecem. Também são mais rijas, principalmente as espanholas… Mas são cebolas na mesma, e ninguém lhe mete muito o dente em cruas!»

Este último, careca mas armado de óculos metálicos e lentes progressivas, que refletiam a claridade da rua sempre que abanava a cabeça, que devia ter sido comerciante antes de se aposentar, de frente para a janela, avaliando com preceito de negociante como de político, adiantou ainda que «naquele tempo justificava-se, e dava um jeitão. Mas agora, não. E fazer esta feira, é promover a fuga ao fisco, oh, se é! Durante estes dias vão passar de mãos quilos e quilos de mercadorias, e nenhuma vai pagar IVA nem averbar fatura!»

«Eh-eh-eh-eh! Bem lembrado. É que nem ginjas!», redarguiu o primeiro. «O mais engraçado, é que é um órgão público, uma autarquia, a câmara municipal a instigar à fuga ao fisco, essa é que é essa!»

«Ou seja: a expensas do erário público, organiza-se e promove-se um evento onde o capital circulante vai todo parar à caixa 999999999999999. E tanto faz estarmos em crise, como não: faturas viste-as! O IVA delas, das cebolas, batata. Vai lá IVA, lá vai! Este ano o valor de contribuições estimáveis da atividade da economia paralela, só ele, pagava a nossa dívida à TROIKA: 45 milhões de euros. E a câmara? Pois.»

«Isto é tudo a mesma cambada… Carregar nos velhos, nisso estão todos de acordo. Agora, fazer o que devem, só fazem se for decretado pelo partido deles. E nunca é, que a maioria só tem partido, quando precisa dos favores de algum dirigente. Se precisa, filia-se, e paga as quotas. Se não precisa, procura outro. E ele há tantos! Depois no governo, só há gaiatos…»

«Gaiatos uma pinóia, que gaiato fui eu e aos oito anos já trabalhava desde o nascer ao pôr-do-sol, com o meu pai e os outros homens na padaria do meu tio, e mal pago, que ele era sovina com’às cobras. Fazia cá falta era outro Salazar. Havias de ver como aprendiam a marchar certo e direitinho!», sentenciou o bem encabelado, mostrando o branco dos olhos para sublinhar o vaticínio. Mas a moçoila que os acompanhava nem reparou no trejeito, e fez o ponto da situação, que, conforme esperava, foi ratificado por ambos: «Eu já bebi o café, e vou ali ao supermercado aviar a lista. Quando me despachar, venho aqui ter, ok? Não saiam daqui, senão faz-se hora de almoço, e a gente não chega a tempo.»

Eles que «sim filha, vai descansada». Mas, embora os dois tivessem anuído ao mesmo tempo, com a cabeça para baixo e para cima, apenas a voz do segundo se ouviu, talvez a dar a entender que era o mais civilizado e citadino de ambos. E notava-se, pela modernidade dos acessórios, e pela falta de cabelo, a que o pentear quotidiano e lavagens foi tirando força e número.                      

Nada há que seja simples nesta vida, há é olhos rudes e espíritos tacanhos que não conseguem enxergar a riqueza sútil e intrínseca dos pormenores dum detalhe, é a premissa que supervisiona a atitude de quem se considera observador de mão-cheia, quer dizer, de olho vivo e raciocínio sagaz, expedito, porém não nos devemos esquecer que o perfeccionismo e a acutilância no detalhe também leva à dispersão dos intentos, vendo ele tantos pormenores, muito facilmente esquece o fim maior a que se propusera. E é lógico que assim seja, como o confirma a prática, porquanto nesse ínterim eu já nem fazia o menor gesto de disfarce, entregando-me de corpo e alma, por assim dizer, à única tarefa de escutar, talvez mesmo pondo a cara à banda para melhor ouvir, descuidado, e nas tintas para que reparassem na minha curiosidade ou não. Ser apanhado em flagrante não seria grave, uma vez que todos e todas o fazem; mas chamaria a atenção dos clientes da casa, pondo-os de pé atrás quanto ao cromo e suas intenções, o que diminuiria a fidelidade e nutrientes das falas, como dos seus conteúdos. E eu queria algo vivo e substancial, pelo que virei duas ou três páginas do jornal, destaquei o suplemento, folheie-o, sublinhei dois itens da programação televisiva. Fui ao balcão buscar mais uma garrafinha de água. Perguntei as horas ao barman. Tudo coisas normais, e que poria quem quer que fosse a espantar a pulguinha de detrás da orelha, se acaso lá se tivesse instalado.

As falas são o que são, bastantes trazem ruídos e mais barulhos à volta, é certo e sabido, e para as despirmos dessas gangas temos primeiro que concentrar-nos neste ou naquele timbre, desligar dos demais, para lhe discernirmos a suculência. E das bandas dos fumadores, três ou quatro raparigas faziam-se notar pela vivacidade das expressões, bem como pelo rir descomplexado e metálico, sem ser estridente todavia, que emitiam. «Eh-eh, põe lá isso onde estava. Então não foste tu que disseste ontem que ias deixar de fumar?»

«Fui. E já comecei: hoje já nem comprei. Vou fumar só à crava. Quando não tiver a quem fazê-lo, fica cumprida a promessa!», esclareceu a interpelada, uma cachopa cheia de carnes e cores, bem nutrida e sem-papas na língua.

«Espertinha… Não tens piada nenhuma» glosou a primeira que falara, dando um safanão ao cabelo castanho claro, quase louro, comprido, que espanejou o ar em redor como uma crina de inquietude. «Hoje vemos o jogo, à noite, no sítio do costume?»

«Vemos», respondeu a terceira, fazendo um Yes com o braço direito, de punho fechado, braço dobrado e de cima para baixo, com quem faz um afundanço de cotovelo. «Nem podíamos faltar!»

Claro que podiam, pensei. Se faltam às aulas para vir prò café, muito mais facilmente podiam faltar a um jogo de futebol transmitido pelo canal desportivo, num estaminé qualquer como aquele em estávamos, senão precisamente nele. As calças de ganga, agarradinhas às pernas, e a saltar a ribeira, desenhavam-lhe as formas, que suspeito serem só febra de saudável têmpera. Cabelos castanho-escuros, face abonecada, olhos de sevilhana, amendoados, quase negros e destemidos. Quis-me parecer que seria a mais calma das três, mas errei no palpite redondamente. Porque, tendo tocado o seu telemóvel, ei-la que se levantou num ápice, e atravessou o café para ir atender no exterior, como se estivesse numa passerelle, dando à anca e fazendo trejeitos de quem desfila perante seleta plateia, gingando sensual, o dedo indicador da mão esquerda nos lábios a fazer biquinho, destilando coqueteria nos esgares à direita e à esquerda como Lolita sabida. Tive pena de não poder ouvir a conversa ao telemóvel, que prometia ter sido fogosa e folgada, sobretudo porque quando regressou, passado algum tempo, trazia aquele brilhozinho nos olhos de que fala a canção do Sérgio e o rubor nas faces de quem viu passarinho novo.

No lado dos fumadores, mas na fila oposta à das cachopas, um trabalhador da coisa mental, afanava-se com desembaraço e empenho, fazendo contas numa pequena calculadora, cujo resultado anotava numa folha Excel. Deduzi que fosse contabilista, mas depressa arredei a ideia. Creio que era antes professor de gestão ou disciplina próxima, talvez da escola de hotelaria e turismo, ou mesmo da de tecnologia e gestão, e que preparava alguma aula ou exercício para os seus educandos. Fato aprumado, azul-escuro, camisa creme e gravata verde-acinzentada, corte de cabelo à executivo e óculos dourados de aros retangulares, parecia ter sido recortado de uma revista de marketing e relações públicas. Impassível, sem a mínima expressão facial, consultou duas ou três vezes os livros que tinha ao canto da mesa, bem arrumadinhos, um sobre o outro, cantos com cantos em simetria perfeita, e, metodicamente também, anoto-os aqui e ali, copiou algumas passagens para a margem da folha de cálculo, fez sublinhados (que deviam ser retos e exemplarmente esgalhados, mas que não pude ver pela distância que nos separava).

Entretanto entrou uma sujeita que tinha tudo para ser uma dama das camélias, mas como os tempos mudaram, ficara incompleta. Bem-vestida, mas sem coerência de conjunto, rendas e folhos, saia travada, saltos altos, mala de mão, lenço rameado na cabeça, e que foi direitinha ao lado dos fumadores. O maço era comprido, e os cigarros, branquinhos com filtros cremes, miúdos e delgados. Fumou um com ansiosa pressa, em aspirações prolongadas e expirações em picotado, expelindo em duas ou três porções o fumo que engolira só duma vez, foi ao balcão buscar o café, fumou outro com mais calma e, ainda mal o tinha terminado, acendeu um terceiro que, esse sim, foi já não como quem ingere sofregamente algo que lhe faz falta, mas como quem fuma somente para ver expirar o tempo, evoluindo numa ténue espiral cinzento-azulada até ao teto.

Foi então que olhei o relógio de pulso. Passavam dois minutos da hora do autocarro. Havia-o perdido, e teria que esperar pelo seguinte, que passaria daí a três horas. Além do café, da água e do jornal, que perfaziam uma soma de 2,50 €, ainda ia ter que almoçar fora, coisa que nunca ficaria por menos de 8,00 €. Despesa desnecessária. Inútil. Não programada, nem figurara no meu planeamento inicial para o dia. E, tudo isso, porque caíra na expetativa de que as melhores frases e tiradas literárias, não são as que inventamos com propósito explícito e sobreaquecimento das celulazinhas cinzentas, mas as que vêm ter connosco por acaso, enquanto estamos que nem esponjas ou plácidos batráquios a ver voar as libelinhas. Pufff! Qual nada, a realidade só é frutífera quando queremos reproduzir outra realidade inferior a ela, pois que, se pretendemos criar uma ficção, só quando nos alimentamos também de ficção o resultado é rentável.

Não me posso conformar… Gastei eu um dinheirão, perdi tempo que jamais recuperarei, e o que consegui? Nada. Trinta parágrafos de ninharias que, se bem espremidos, não valem a traição dum poeta num verso que capturou a um poema esquecido e antigo que encontrou numa coletânea ou almanaque do século XVIII. Tenho que deixar-me disto, ou ainda acabo por ser publicado por alguma editora de best-sellers e títulos de autoajuda. Enfim, errar é humano, mas perder tempo com saloiadas é desperdício de talento!                          

  

O DIABO DE BURRO



O DIABO  DE  BURRO
                                                                     
                                                                        Por
                                                                            JOAQUIM CASTANHO

Quando cheguei a Casal Parado, vindo de uma capital de distrito, não conhecia cá ninguém. Nem sequer aquela que viria a ser a minha hospedeira.
Mas a tropa manda, e aconselha no desenrasque!... E, mais ou menos porque à força de nos encontrarmos em idênticos sítios pelo igual da hora, criamos parceiros para o jogo dos grupos no parcelamento estrutural da sociedade – o que é um contrassenso –, ou nos damos como cúmplices uns dos outros em pecados imaginários e futilidades menores, para que possamos preencher a solidão pelo custo da sua hipoteca – a esperança. O certo é que, sem sentirmos, nos vamos enraizando juntando-nos a outros desenraizados que normalmente nos acolhem, mais por necessidade de sangue novo no seu antro, do que por solidariedade. Que foi o caso.
Profanado por uma trindade que nada prometia em troca de coisa nenhuma, e sujeito a esse abrigo que é o (imaginário) chapéu de chuva como único recurso de defesa contra a tempestade do “dum lado chove, do outro faz vento e o chão é um rio pegado”, que é a nossa capacidade de adaptação a novas situações e meios, enquanto genuínos portugueses, e querendo romper a indiferença pelo menos numa dessas três frentes (e a saber: os casalenses, os não-casalenses e o grupo tertulino do café), vi-me metido numa confusão que foi obra!... E de que saí ileso e sem beliscadura de maior na moral e amor próprio, porque o acaso e inconsciente, que são os únicos sábios que conheço (para além do tempo) e reverencio desde que Atenas foi romanizada, vieram em meu auxílio e ditaram as sortes que nem por encomenda e duma só assentada. Canja!, foi o que foi – ó larilas!...
Éramos, ao todo, naquela tarde chuvosa de Outono a brincar ao Carnaval e disfarçada de Inverno, seis ou sete em volta da comum mesa, no Tonel Bar, frente a insinuantes garrafas de sinuosas bebidas (pelo cerealífero efeito). E inspirados em carpir a derrota de qualquer dos clubes desportivos que tivesse perdido na jornada do fim-de-semana passado, independentemente de ser ou não o das nossas preferências e simpatia. Que isso de uma desgraça nunca vem sozinha, e já que o nosso perdeu, há também sempre outro que lhe igualou o feito, que se bem lamentado e com ênfase, pode até parecer que a derrota do nosso clube foi uma coisa de somenos se comparada com a cabazada desse, além de inesperada, numa superstição pedagógica, e como que a dizer-lhes (aos jogadores e técnicos) que se a intenção deles, em perderem tão ostensivamente, era ferirem-nos e humilharem-nos, não conseguiram de maneira nenhuma, pois que se querem alcançar algum êxito nessa direção e sentido, em surpreenderem-nos!, o melhor que têm a fazer é inverter a tática: ganhando!... 
O Vicente, motorista de autocarros de passageiros; a Adélia, messalina do nosso contentamento, e professora do ensino secundário; a Ana Teresa, funcionária pública e namoradeira em rotatividade; o Augusto, agricultor e vinicultor, novo empresário, e, por sinal, de entre os demais, o único residente e autóctone; o Dinis, enfermeiro; a Almerinda, empregada de escritório num gabinete de contabilidade; a Francisca, professora primária; e eu, este vosso e fiel servidor. Aio e escudeiro nesta e outras cavalgadas. Eis os quantos, por rotina ou falta de família na localidade, fizemos do café a salinha de estar que os nossos frios e bolorentos quartos não conseguiam ser! E mais ainda: os que em desespero de causa se forjaram numa companhia onde muito superiormente se toleram do que se aceitam.
Pois, sendo eu a aquisição mais recente, e recenseador do INE (Instituto Nacional de Estatísticas) por excelência, com uma modernidade de dois meses e piques, e sobrecarregado por uma volumosa bagagem de timidez acumulada, embatucava frequentemente e deixava que a conversa corresse a expensas dos mais velhos e expeditos. Em resumo, a minha participação no grupo pouco ia além duma futebolada aqui, umas observações sobre o tempo acolá e umas quantas respostas empacotadas em tara perdida, concisas e económicas, ao perguntarem-me o quer que fosse. Se solicitado era lesto na réplica, não por boa vontade ou espírito prestativo, mas sim porque quanto mais rápido respondesse, mais depressa me deixariam em paz ou as atenções deixariam de recair sobre mim. Uma espécie de fuga para a frente.
Aliás, ao grupo, essa minha evidenciada tendência para bicho-do-mato, parecia não incomodar; antes pelo contrário, agradava imenso. É que o comedimento, modéstia e discrição, facilitavam sobremaneira que quem queria e gostava de brilhar, o pudesse fazer, e brilhasse. O que é normal e naturalmente lógico, ou de plena compreensibilidade: ocupar os espaços deixados vagos é uma forma tão biologicamente saudável como qualquer outra para crescer e evoluir, conquistar e vencer, conhecida até dos mais elementares seres do reino vegetal, quanto mais dos do animal! E eles, ou a maioria deles, faziam-no, com prazer e oportunidade, conforme lhes competia.
Simplesmente, como é pela operação que melhor se conhece a natureza do operador, e pelo ato a do agente, graças à minha inatividade e silêncio, pressentia causar-lhes grandes dificuldades em definirem-me e rotularem-me, e que se o ousavam raramente chegavam a consenso ou unanimidade. Para cada qual havia uma característica da minha personalidade e conduta predominante, mas diferente. Uns que assim, outros assado, aqueloutros cozido; no entanto, com muito pouca convicção. Do que resultava nenhum resolver-se por veredicto certo e seguro.
Até que o inolvidável aconteceu. Um dia, estando eles em amena cavaqueira, ao regressar dos meus afazeres estatísticos, desemboquei na mesa razoavelmente eufórico e se não comunicativo. Olharam, todos e à vez, para mim, com ar de caso e espessa interrogação a pender-lhes dos narigões, que nem ranheta outonal de constipação mal curada, e, sem mais nem aquelas, disparei-lhes à queima-tímpanos:
«Já não morro estúpido.»
«Hãn?! O quê?!» Admiraram-se uns e outros, sem que se saiba ao certo quais fizeram “hãn” ou quais fizeram “o quê”, para manifestarem a sua surpresa. 
Então, para melhor gozar o prato, insisti:
«Isso mesmo. Como eu exatamente disse: estúpido é que já não vou morrer», e sentei-me entre o Vicente e a Almerinda, que, como é óbvio, abriram a respetiva ala.
«E porquê?», inquiriu a última.
«Ora! Porque hoje vi, na estrada de A-dos-Tansos, uma coisa que nunca pensei possível, e muito pouca gente há de ver ou já viu!...»
«Mas o que foi?», quis saber o Augusto, reforçando a questão posta pela curiosidade da Almerinda.
«Vi o diabo montado num burro a galope», afirmei eu, sublinhando bem cada uma das letrinhas em causa.
E o dito caiu que nem aguaceiro primaveril. Primeiramente, e pela globalidade, se calaram e recolheram em suas conchas de abrigo à mudança; mas logo que passou, e se refizeram das nuvens da estupefação, saíram a terreiro em chilreio tal de querem falar todos à uma, que as vozes, não fosse o meu longo treino de silêncio tímido e à escuta, se confundiriam e se tornariam indistintas, nos seus falares de mim como se eu ali não estivesse, ou nunca ali houvesse estado.
«Estou em crer», tentava imperar a Ana Teresa, à minha frente, «que estamos na exemplar presença da esquizofrenia típica. Hoje viu o Diabo, amanhã vê Deus; se não o dois ao mesmo tempo, e à bulha. Li em qualquer lado que é precisamente isso que caracteriza tal moléstia da psique: o assistir à luta mortal entre seres supremos e contrários, personificando-os e acreditando que lutam pelo espólio que significa aquele que assiste. Que é por causa dele que se debatem. Da sua alma. É uma distorção autista e fantasmagórica da realidade. E bastante evidente se relacionarmos a sua tendência para ficar calado entre nós, num mundo só dele, bloqueado e a funcionar por caprichos, dum modo artificial e amaneirado.»
Mas o Augusto, com aquele sentido prático e de desconfiança, que lhe deu a vida da terra, considerava que não.
«Isso não pode ser», vociferava. «Não me venham cá com lérias. É mas é uma grandecíssima mentira. E ele está mas é a gozar connosco», adiantava retumbante e rotundo, a olhar-me de esguelha, e exibindo gestos com as mãos, bastante indicativos do que tinha vontade de me fazer, caso não fosse atender aos presentes e local onde nos encontrávamos.
«Cá pra mim, ou é droga, ou vinho a mais», retrucava o Vicente. «Tive um vizinho que lhe aconteceu o mesmo. E eram as duas coisas em simultâneo!... Tanto se encharcou e pedrou, que começou a variar da moca e passou a ver coisas escaganifobéticas de alto lá com elas!... Às vezes estava a conversar muito bem com a gente, e sem que ninguém esperasse ou percebesse porquê, punha-se a dizer baixinho: Está quieto. Não te mexas... Nem digas nada. Que está o incrível Hulk por detrás de ti. Deixa-o passar... Que nunca se sabe o que é que ele pode fazer!... E depois voltava, num repente, à conversa que estávamos a ter.»
«Ná!... Essa não me convence», argumentava a Almerinda. «O que aqui está claramente visto é uma manifestação de recalcamento inconsciente, uma realização simbólica e mascarada, a conversão somática de desejos inaceitáveis pelo fulaninho, e de natureza edipiana. É histeria pura. É neurose de elevado grau. Então não veem o comportamento dele? Característico de uma crise de identidade em estado avançado e evidente, de confusão verbal e mental, o desdobramento da personalidade, o histrionismo, a sugestibilidade, a pobreza de afetos, o medo de se expor, de falar e de confiar em nós, a introversão rígida e caraterialmente deformada?... Como podem dizer barbaridades de uma pessoa que apenas está doente!...»
Eu queria atalhar e defender-me. Dizer de minha justiça. Mas eles não mo consentiam. De tão preocupados que estavam em resolver o busílis, nem queriam saber da minha existência, quanto mais das minhas razões ou os pormenores da sucedância. Estavam na elaboração de hipóteses, fabricação em pleno contínuo, e, se algo eu pudesse vir a dizer, certamente lhes não seria útil àquele ponto da refrega. Talvez lá mais para o tarde isso fosse possível, ou quando passassem às fases da experimentação e verificação me quisessem ouvir!... O que para mim se apresentava como uma hipótese esperançosa, embora que remota, de vir ainda a salvar a dignidade, a integridade, a sanidade moral e psicológica, já então de rastos naquele vaivém de gestos e contra-argumentações, qual festival de artifício a que acossado assistia, com medo de mexer-me por mor de assim poder piorar as coisas, e em que me limitava a tentar ver e ouvir o mais atentamente que me fosse dado, o orador que ao momento fazia uso da tribuna, se afirmava, com redobrada convicção e empenho.
Por outro lado, Dinis opinava:
«Esse gajo sempre funcionou a ritmo delta, não foi?!... E daí que agora a falta no mexer-se se agravou: além de funcionar mentalmente às três mudanças tradicionalmente lentas (devagar, devagarinho e parado), tudo indica que também se deixou apanhar pelo síndroma de Korsakoff. Tiro e queda. Se não, como definir o estádio de confusão mental, a confabulação e os falsos reconhecimentos? É que nem ginjas!...»
Contudo, Francisca, não radicalizava tão descaradamente. Ou porque o maternalismo latente se tornava saliente; ou porque da profissão nos fica aquilo que à vida mais simplifica.
«Estou em crer» achava ela, «e com bastas e fortes razões para essa crença, pois sei do que falo!, que aquilo com que nos deparamos, mais não é que outro manifesto exemplo da muito premente necessidade de atenção e afirmação, talvez com regressão infantil, acompanhada e desmultiplicada por uma imaginação extraordinariamente fértil. Provavelmente até delirosa, mas que ainda se não tinha revelado porque a nossa acuidade tem andado dispersa e solicitada por outras atitudes e comportamentos, ou por outras personagens extraordinariamente fantásticas e igualmente absorventes, esquecendo-nos nós, e descurando, aquelas que nos estavam mais próximas. E isso fez com que não notássemos a sua crónica tendência de alucinado para o delírio, para um delírio porventura palingnóstico, que compreende elementos de fabulação com falsos reconhecimentos e uma hiperexpansividade imaginativa, por um lado; e para um delírio de imaginação, por outro. E que – não sei se se lembram da maneira sobrevalorizadora com que há uma semana atrás nos falou da grandiosidade e riqueza da sua família!... – é fundamentalmente caracterizado pela predominância da imaginação na sua origem, permanentemente enriquecido e com temas preferenciais que orlam a mitomania, a filiação, erotomania e a megalomania. Além de outras taras, sem dúvida.»
Bem vistas as coisas a minha sentença estava lida: no mínimo dos mínimos, davam-me o estatuto de maluco. Sem retroativos nem ajudas de custo. O que, diga em abono da verdade, não era nada que desse azo a profícuas gabações e orgulhos. Ou era?! A reputação que calculava ter, e quisera criar à força de muita ponderação, teimosia e discrição solícita e atenciosa, estava a ir por água abaixo, e, pior ainda, a arrastar-me com ela. Porque a vida tem destas andanças, onde e quando nunca se sabe no que elas poderão vir a dar!
Tentara interferir diversas vezes para esclarecer o que se tinha passado em A-dos-Tansos terra em que avistara o inominável dito cujo em cima de um burro a galope. Mas vai lá, vai!... Compenetrados e empenhados que estavam na imposição de seus veredictos, assim que abria a boca, logo outra voz mais sonante e timbrada apagava a minha, fazendo-a passar, num golpe, de fala de gente a ruído de fundo. E, aquilo que a princípio não era mais do que uma situação cómica, começou a ser drama com sérias tendências de evoluir e transformar-se em tragédia. Sobretudo para mim, que era quem estava a entrar em pânico, quase a raiar as fímbrias duma aflição sem apelo.
O que não era de menosprezar. E iniciava a levedar. Até porque a minha timidez e vergonha de falar em público persistia em tomar conta do meu comportamento, e a imperar sobre a necessidade salvar o meu amor-próprio duma derrocada derradeira, aí sim com muitas e fortes probabilidades de lhes dar razão e cair numa de identidade deveras supérflua e indesejada. Porque essas fatalidades não são como o totoloto ou lotaria, que sempre e exclusivamente saem aos outros, mas pelo contrário, é infalivelmente em nós que com superior força carregam, ainda que sejamos quem menos as merece.
Mas eis se não quando, em desespero já, e pensando convictamente que o melhor seria levantar-me e sair para nunca mais, enquanto vivo fosse, e deixar de frequentar tal bar e convívio, ou voltar sequer a Casal Parado, entra oportunamente um indivíduo, estudante num curso em regime noturno, que sabia a residir em A-dos-Tansos. Não hesitei. Chamei-o alto e bom som, determinado e imperativo:
«Ó amigo: ouça cá!!»
E ele veio. Para ouvir. Cá. E que era ali, na mesa a que nos encontrávamos.
Os demais, em redor, calaram-se. Finalmente. E quedaram-se com aquela cara de cu à paisana que geralmente antecipa a pergunta: “ O que sairá agora?!... “
«Não há, em A-dos-Tansos» perguntei-lhe eu, «um burro cinzento, altote e magricela, cujo dono ainda o utiliza para se transportar, amanho e trazer de espécimes da fazenda?»
«Há sim.» Respondeu o interpelado, confiante, feliz por encontrar alguém que lhe dirigia a palavra e o ajudasse a passar o tempo, no que a este faltava para o começar das aulas. «É o do ti’ António Diabo. Aind’agora o vi nele, quando regressava dos talhos.»

Eu, respirei fundo e fixei olhos nos olhos a cada um, e à vez, dos meus compinchas. Um olhar que era de superioridade mais do que desafio, com a respetiva legenda de “ vejam, eu não vos tinha dito “. Estavam arrumados e abatidos, e quase me pareceu ouvir ranger engrenado de reajustamento dos seus processadores de justiça e moral, ao serviço da peculiar lógica de quem vai de caminho. E aos tombos.