Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
terça-feira, janeiro 30, 2018
domingo, dezembro 17, 2017
domingo, dezembro 03, 2017
BRINDE a Margarida, tinto de 2010
103.
BRINDE A UM POEMA TINTO DE SOL
Sê bem-vinda, Margarida
No teu trajo Alicante
Polp’em carvalho cerzida
Em 2010 vestida
Brocado tingido macio
Frutada plo diamante
Que há num soneto de brio
Digno da pena de Dante…
Meneias doce aroma
Em redondilha bem maior
Que o extremo de Roma
Se anagrama de amor.
E singras plo tempo vazio
Com’um sonho viajante
Que não teme fome nem frio
À proa e leme do navio
Qu’é o peito dum amante!
Joaquim Maria Castanho
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sábado, dezembro 02, 2017
A GOTA DE ALMA
GOTA D’ALMA
Da lágrima condensada
Choveu quase saudade,
Choro de fado e fada
Na terra (da liberdade)
Nesse quase instante
Antecedeu adivinha
Do quase seja distante
O samba que nos chuvinha,
Cacimba, lã de cerração
Terreiro de altos voos
Para planar do albatroz
Asas abertas do coração
Coreografia, vivo show
– Gota d’alma que há em nós!
Joaquim Maria Castanho
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sexta-feira, dezembro 01, 2017
IDEAL CONCRETO
IDEAL CONCRETO
Tal se introduz na sombra a alva veste
O andar escorreito, o sorriso em flor
Assim, me dei eu total ao que me deste
Qu'o sonho nasce da solidão agreste
Tão só, tão-só por si mesma se propor
Que ante o frio por gélido o teste
E ao calor ajuíze em mais calor;
Que à alma no rigor do imprevisto
Por bem apenas tem toda a surpresa
Nascida quando vemos ser beleza
Tudo que já também houvéramos visto
Em alguém, que só críamos como normal
Vulgar, esquecendo ser o sonho isto
Que transforma o concreto em ideal…
Joaquim Maria Castanho
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quinta-feira, novembro 30, 2017
VOO... MAS FICO!
E FICO PRESO EM TEU VOO…
És confluência, és astro
Espiral por que remoinho
Nave, muralha, sol, castro
Souto no meu próprio ninho.
Voas, ápice rasante,
À boca da caverna de mim
És estrela navegante
Destino… Oriente sem fim
Se tal nascer também causa
Motivo à vela, lastro
Mar, chão de remar mansinho
Duna batida, onda, pausa
Por quem o verso é mastro
Sustenido… e caminho.
Joaquim Maria Castanho
segunda-feira, novembro 13, 2017
SENTIR QUE PERDURA
SENTIR QUE PERDURA
Voa-me a voz pela planície
Petisca de teus olhos o sentido,
Que sentir é um querer que se demora
A dizer-se para melhor ser ouvido
Assim, feito amanhãs deste agora
Nascido, milhentas manhãs, construído
Convertido, verdade hora a hora
Sem sombras, passo a passo percorrido,
Grelhado sob o crivo dessa ternura
Que apenas tuas mãos sabem moldar:
Dando sã magia, além da candura
Que nos dura entre sentir e desejar,
Também à vida a doce formosura…
– Desde que nela perdure o teu olhar!
Joaquim Maria Castanho
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domingo, novembro 12, 2017
RASCUNHO DE AMADOR
RASCUNHO DE AMADOR
Só de tuas mãos nasce o sonho, magia…
Elas emprestam delícia ao que tocam,
Conduzem luz à própria luz do dia –
São espaço onde estrelas balançam.
E se de lá dos altos cimos nos focam
Ditando mais que a vida pode ser
É porque elas além de trinchar, traçam
Sulcos de plantar sentir pronto a colher.
Acarretam sublimes gestos por dizer
E dizem como quem cala, transparentes
Mas precisos, integrais, criadores…
Que os meus parecem gestos ausentes
Presos, rebuscados, fora dos caminhos
Quase rascunhos desses amadores
Que, de tão ideias, amam sozinhos!
Joaquim Maria Castanho
quinta-feira, novembro 09, 2017
quarta-feira, novembro 08, 2017
Homenagem a minha Mãe...
HOMENAGEM TARDIA E DEMORADA
Das batalhas que travaste, mãe
Até na derradeira estiveste só;
Foste a guerreira crente mas também
A mulher por quem apenas Deus sentiu dó.
Deste sempre o teu melhor, em tudo
E se não fizeste mais, foi porque não pudeste
Com teu desejo de conserto vão e mudo,
Que a vida é muito dura, e assaz agreste
Perdida no preconceito ignaro e imundo,
Pra quem luta na solidão que lhe deu o mundo.
Não foste douta nem sábia de academia
E o saber que tinhas, forjaste-o no coração
Sofrido, aviltado, enfraquecido pela fria
Atitude dos que amaste até mais não.
Essa será a tua glória de Maria
Antónia, Nicau além de ainda Marchão,
E que Senhora foste no dia-a-dia,
A quem, se alguém julgou, foi por confusão
D’esquecer aquilo em que a humildade é lição.
Não te esquecerei nesta vida, pois certo é
Que nessa outra em que agora estás
Tu também jamais esquecerás quem até
Bem pouco te ajudou nas horas boas, como más.
Talvez eu, talvez aqueles ou aquelas
Que te viram de raspão nas janelas
De que abristes somente pequena fresta…
E que desconhecendo o teu sofrimento
Pensaram ser apenas mero divertimento
O esgar e dor com que franzias a testa.
Talvez esta homenagem tardia, demorada
A quem muito sofreu muda, e chorou calada.
Joaquim Maria Castanho
terça-feira, novembro 07, 2017
É no escuro que melhor se vê a luz...
VER ESCURO NO ESCURO
A besta cega do breu oxidado
Que escreve poemas de escuridão
Nos icebergues do ser silenciado
Existente nas estrofes da ilusão,
Desceu aos antípodas deste lado
E do outro, com um caneto de carvão
Pra riscar dos muros o giz imaculado
Dos grafites de luz que há no trigo, pão,
E disse, lá da janela do sobrado
Como se fosse a Senhora do planeta:
– O que só em nós estará esgotado
Não são os recursos, nem a esperança
Mas simplesmente a falta de cuidado
Com que subscrevemos qualquer treta
Patranha, sentença, lei e orçamento
Dando-lhes nosso aval e confiança,
Sem antes lhe ajuizar bem do intento!
Joaquim Maria Castanho
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quinta-feira, novembro 02, 2017
A PROXIMIDADE DA DISTÂNCIA
A PROXIMIDADE DA DISTÂNCIA
Ergue-se-me uma árvore no peito.
Seu tronco deita os braços ao céu
E, dos olhos, esse azul no preceito
De pintar ramagens, como um véu,
Qual manto diáfano – ao léu!–
Ante nívea brancura do leito
Eleito nas campinas o jeito
Que tão-só a natureza lhe deu.
Tem o esgar duma pomba mansa
Periclitando de ramo em ramo,
A cavalgar réstias d'esp'rança
A clicar esses chamo, não-chamo,
Com que no mapa dos zeros e uns
Somos distantes-próximos… comuns.
Joaquim Maria Castanho
quinta-feira, outubro 19, 2017
quarta-feira, outubro 18, 2017
SUOR, LÁGRIMAS E SANGUE
SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS
Se estivermos atentos
Sempre que uma flor brilha,
Logo veremos momentos
Em que mãe é também filha
Aspergindo esse deserto
Das vozes, se distantes
Com que o amor torna perto
Os corações dos amantes
Na recíproca medida:
Beijo entre após e antes
– Cálice de pura vida!
Joaquim Maria Castanho
terça-feira, outubro 17, 2017
segunda-feira, outubro 16, 2017
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segunda-feira, outubro 02, 2017
OUTONO PRIMAVERIL...
OUTUBRO PRIMAVERIL…
T'eclipsaste na dúbia tarde
Resguardo de Afrodite caído
O marmóreo ombro, destemido
Cruzando o tempo sem alarde
No espaço dum quando se solta
– E eu rogo-te… «Volta!»
Porém, ficaste tão-só de perfil
Que o sol em verbo s'espraiou,
Ficou perdido, esquecido
E entre o anil celeste voou
Na peugada dum outro abril
Que, afinal, nunca chegou!
Joaquim Maria Castanho
quarta-feira, setembro 27, 2017
UMA MULHER EM BERLIM
"Fico espantada por ele falar comigo tão abertamente. Da mesma forma direta, pergunta-me se sou realmente saudável. «Compreenda-me... quero dizer, compreende-me.» (Mistura ainda o tu com o você.) Digo-lhe a verdade, que nunca sofrera de qualquer doença desse tipo. No entanto, saliento, ignoro se não terei sido contagiada por algum dos russos que me violaram. O major abana a cabeça e suspira: «Ah, esses hooligans!» (Hooligan, pronunciado khuligan, palavra estrangeira muito utilizada pelos russos para designar patifes, vagabundos, rufias.)
in UMA MULHER EM BERLIM, pág. 125, Edições ASA/LEYA
Tradução de Hans Helmker e Fernanda Helmeker
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