ABSTRACÇÃO
Fitando a chuva tu olhas
Entre nada e coisa nenhuma há;
E perto das cores que desfolhas
Estás, longe de ti, como quem não está.
És um ponto indiscreto de soletrar
Um silêncio a descoser-se na sutura;
E quando te miras, já te não vês murmurar
Quem querias ser, numa emenda futura.
Podias recorrer à insensatez de sonhar.
Podias esperar na imensidão do dizer.
Porém... preferes, simplesmente, estar.
Podias esconder a franca nudez de ser.
Podias pensar na contradição de pensar.
Mas no contudo, porém, queres apenas ler!
Que o breve é leve quando ao se prolongar se faz curto
Podendo – quem sabe! – até haver
Ao nascer da esperança, seus sentimentos
Eis-me rasgando o instante em pedaços;
Embora sejam iguais as cordas tensas
Consequentemente, não podemos adormecer
É que, ao ver assim a beleza sem lhe tocar, a gente
Nas trevas da distância singro
Clicando rima acima se ruma no rio do tempo
Inclui minha prece no teu sonho de mar e sol
As liras e as harpas conhecem-lhe a dedilhada tradução
Anda-me a alma neste somenos da Psique enamorada
Que isso, de ser Mariana se cumpre de qualquer maneira
Escuta… Eu venho de muito longe
Que nisso do rasgar primaveril
Andava eu morrendo por tão pouco ver-te,
E assim, apareces na tarde que me amanhece
Havia naquela sombra o não haver do gesto,
Tu como poema, eu como apagada e crua prosa.
Acontece sempre que a cor se oculta
Sob o contorcido sobreiro, junto à carreteira

