A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

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São o chão em chamas onde as lavras
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segunda-feira, maio 01, 2017

À BEIRA-RIO, ROMANCE COM SEREIA



ROMANCE COM SEREIA À BEIRA-RIO

Adivinho-te ainda do outro lado
Mas já defesa me caiu e espero,
Sem que pela ânsia desesperado
Expetativa esconda o que quero,
Que águas correntes são cadeado
Quando coração bate por sincero
E silêncio não significa cuidado
Se calado espero – e até acelero
O tempo pra que surjas imediata, 
Sorriso tão à flor dos olhos, assim, 
Que do respirar então me escapa 
O barco das viagens aonde se ata
O corpo s'o desejo quer e destapa
Pra beijá-lo poro a poro e sem fim.

Joaquim Maria Castanho

sábado, janeiro 28, 2017

A CHAVE DAS HORAS




A CHAVE DAS HORAS

Procuro-te nos labirintos do dia
Entre os produtos, entre as estantes
Entre sonhos que não tinha, nem havia
Nos gestos que repetia, como soía antes… 
Tens o nacarado lunar que me guia, 
O jeito das estrelas caminhantes, 
A luz que estilhaça as manhãs frias, 
Pondo doçura nas suas cambiantes.
E se as sombras oprimem, tu libertas.
S'águas doem, tu lavas, purificas. 
Mas, sobretudo, silente dignificas
Habitando horas que, antes, desertas
Me desabitavam, por dilacerantes.
Fechadas. E só, por carinho, abertas! 

Joaquim Maria Castanho 


domingo, outubro 16, 2016

ASSÉDIO MORAL




ASSÉDIO MORAL 

O assédio moral existe
Com o fito de desmoralizar; 
E só o pratica quem persiste
Em diminuir e apoucar. 
Quem critica afetos, relações, 
Pondo em causa aos demais; 
Ou duvidando das intenções
Dos que vê como desiguais.

O assédio moral existe
Nas empresas, nas repartições, 
Supermercados, hospitais; 
Nas famílias e religiões; 
Nas câmaras municipais, 
Nos cafés; em tais dimensões, 
Que até plas redes sociais.   

O assédio moral existe, 
Digam o que disserem, agora… 
Se do lobo pele vestiste
Torna-se tua sem demora!

Joaquim Maria Castanho  

segunda-feira, setembro 19, 2016

ABSORTO TE ABSORVO




ABSORTO TE ABSORVO 

Há um Império de lonjura
Entre nós Pessoa chamou-lhe O Quinto
Mas, mesmo assim, na candura 
Dos dias procuro o mar entrançado, e sinto
As vagas encaracoladas do ser
A enlear-me em sonhos que não sei dizer. 

És o segredo de cada passada
O verbo aflora rimas ancestrais
E, na manhã da manhã, esperada
Sobre xis de cromossomas maternais, 
Ditas poesias pelos céus diamantinos…

O sol empurra-te para o outro lado;
Porém, seguro-te, estendendo-te o olhar
Descuidado, para te guardar (ensimesmado). 

Joaquim Maria Castanho 

domingo, junho 19, 2016

PORMENOR IMPORTANTE




PORMENOR IMPORTANTE 

Hoje mataram a poesia... 
Apenas com uma frase! 
E todo amor que havia 
Ficou menos que quase. 

Há palavras que são balas
Ao atingirem o coração, 
Onde só o eco das falas 
Abala a maior paixão. 

Nada terá mais poder
Sobre os seres viventes, 
Do que esse ouvir dizer 
Em termos indiferentes. 

Porque se não contarmos nós
Para quem para nós conta, 
Até o continuarmos sós
Detalh'é de pouca monta. 

Joaquim Castanho

sábado, junho 18, 2016

INSTANTE LUMINOSO




INSTANTE LUMINOSO 

Passo a passo, ouço
Espera e encanto, 
Sem prantos avulso
Sob o sol, esse manto
De luz no dia em curso.

E a mais linda voz
Que a natureza tem, 
Nasce da luz em nós
Quando o teu olhar
Se nega a naufragar, 
E vem - sendo luz também! 

Joaquim Castanho

sábado, fevereiro 13, 2016

DOÍDAS ESTROFES




DOÍDAS ESTROFES

Teu olhar em mim, de instante perfeito
Fez-me, enfim, correr numa tempestade
Como rio fora do leito, que a saudade
De um dia só, tem assim tamanho efeito
Como qualquer outra nascida de mil dias... 

Mesmo destes, cinzentos de nevoeiro e breu; 
E, não foram as estrofes de sofridas poesias, 
Sem o desabafar, quem muito sofria era só eu. 

Joaquim Castanho 
(Ilustração: Princesas Disney)

domingo, janeiro 31, 2016

CALIGRAFIA INTEMPORAL




CALIGRAFIA INTEMPORAL 

Quanto nos dizem as sombras que expiram
As metades que se não completam 
As tentativas que nunca foram intentadas
As vozes que morreram ocas nas gargantas? 

Mas entre a estepe e os horizontes
Adormecem sempre surpreendidos 
Os gestos esquecidos de si mesmos.

Joaquim Castanho

sábado, janeiro 30, 2016

NA PLURALIDADE, O VERBO




NA PLURALIDADE, O VERBO

O futuro é um poema que caminha
Em busca de sentido no verde chão
Há horas avulsas, e nas frondes ilusão
Dos significantes onde predomina
A luz e a sombra, o ficar, a espera
O verão, o inverno, a cor, a primavera
Como se fossem do tempo a própria mão
A desenhar passos e voos de Quimera... 

Nuncamente nos diremos doutro modo
Se nos supusermos verbo conjugável,
Que cada parte em si também é todo
Logo parte, plos dois todos responsável. 

Joaquim Castanho  
(Ilustração: foto de José Carvalho)

quarta-feira, janeiro 13, 2016

DIDÁTICA DA ODES E PASTORELAS



DIDÁTICA DA ODES E PASTORELAS 

Cumprir a lei é amar o semelhante
O distante, que os outros somos nós, 
Em todo o tempo, a qualquer instante
Como os que sofrem, até ficarem sós... 
Que os dias se fazem amplos na água
Rumorejante dos regatos cristalinos, 
Onde, sobre remoinhos à flor da mágoa, 
Somos odes, pastorelas, velhos hinos. 

E o meu sonho se espelha também nelas: 
Cruza estepes, alaga pomares e valados; 
Que, assim, ao escrever-se em pandas velas, 
É que se açoita a escuridão e meus cuidados. 

Joaquim Castanho

GOTA A GOTA SOO



GOTA A GOTA SOO 

Acuidado registo, o verso
Em sons pingando da língua, 
Caiu «ping-ping» controverso
E de conteúdos à míngua; 
Soltou-se assim retinente,
Cruzou as linhas do grito, 
E fez-se algo emergente 
Como outro eco do dito. 

Voz com sotaque de mundo, 
Estatura de gota de céu, 
Anda na vida sem fundo
Desnudando-a do seu véu. 

Joaquim Castanho

segunda-feira, outubro 12, 2015

A RAZÃO DAS ÁGUAS CORRENTES




A RAZÃO DAS ÁGUAS CORRENTES

Sei duma lenda de encantamento, 
Tão antiga com'as cores e o vento, 
Que conta haver versos na corrente
Dos rios que, em marulhar de gente,
Se escoam pelo doce remanso
Dos olhos que suas águas fitam.
E também neles os meus descanso,
A ver de quanto me querem contar,
Desses ledos segredos que crepitam
Nas tranquilas águas de seu olhar. 

São magias, são futuros a nascer; 
São passados que ganham novos dias
Em baladas, acordes, melodias
E Musas que inspiram a vida... a viver! 

Joaquim Castanho 

quinta-feira, agosto 20, 2015

PÉTALA IMPERATIVA




PÉTALA IMPERATIVA 

Anda um tropel de flores distintas
A pôr-me a alma em áureo filigrana: 
Ditongos, sílabas átonas e famintas
Com que o versejar todo se ufana... 

E creio até que murmura, ou cicia
Nas lágrimas das pétalas do goivo, 
Que por certo há de ter qualquer dia
Um poema como seu único noivo. 

Eu só observo, em acanhado esgar, 
Tímido e apreensivo, mas deleitado
(E louco) a negra petúnia desse olhar... 
É que no tropel, o céu, o astro se agita... 
E se uma pétala grita todo o cuidado
(É pouco).       


Joaquim Castanho

quarta-feira, maio 27, 2015

O ESTILO SOMOS NÓS

 

 

 

O ESTILO SOMOS NÓS

 
Incontáveis copos de vinho
e Li Bai compõe cem poemas.
Dorme numa taberna, no mercado de Chang’an,
quando o imperador solicita a sua presença.
O poeta recusa a barca do Filho do Céu e diz:
“Que Sua Majestade saiba,
este seu humilde servidor
é o rei dos Bêbedos.”

LI BAI

 


“No Verão de 742, de novo na província de Shandong, Li Bai cumpre o ritual de ir ver o nascer do sol no alto da montanha, exatamente sobre a Taishan, a mais sagrada de todas as montanhas da China. Lá encontra meninas de jade que lhe oferecem de beber em taças de nuvens. Mil duzentos e trinta e nove anos depois, em Outubro de 1981, no mesmo lugar, um português, aos tombos pela China, cumpriria, rigorosamente igual ritual” – afirma António Graça de Abreu, no Prefácio a Poemas de Li Bai, editado pelo Instituto Cultural de Macau, em 1996. Omar Kayyam, outro poeta da nossa intencionalidade, astrónomo e matemático persa, muçulmano, e que viveu entre os anos 1040 e 1122, celebra os prazeres etílicos, em termos quase religiosos, não obstante a proibição do uso de bebidas alcoólicas estipulada no Alcorão, proibição essa a que se deve a descoberta do café, que então foi considerado como substituto do vinho. E fá-lo em termos tais, que esse misticismo ultrapassa o purgatório, como no Rubayyat «um jardim, uma jovem ondulante, a ânfora cheia de vinho, / meu desejo e minha amargura: eis o meu Paraíso e o meu Inferno. / Mas quem percorreu o Céu e o Inferno?», ou naquele outro em que confessa que «jamais desejei o manto do engano. / Mas roubaria por um copo de vinho. / Tenho setenta anos: o meu cabelo é de neve. / Hoje quero ser feliz: amanhã será tarde», onde as noções de tempo e propriedade, de ética e de sociedade, são minimizadas face à impetuosidade da bebida. Inúmeros artistas plásticos, não só andaram aos bordos, como esculpiram ou pintaram sob a inspiração de Baco, onde figuram os nomes de Miguel Angelo, mas igualmente Rubens, Velázquez, Murillo, Le Nain, Jordaens, os mestres flamengos e a quase totalidade dos surrealistas da modernidade. Xenefonte, Tácito, os versos de Homero, Anacreonte, Horácio, Rabelais, Baudelaire e Carducci, ou ainda os escritos geórgicos de Plínio, Columelle e Catão, são inegáveis testemunhas da importância do vinho na História (e nas estórias). Exemplos mais recentes nas literaturas nacionais e universal, como o foram Jack London, Blaise Cendras, Fernando Pessoa, Hemingway, Manuel da Fonseca, Cardoso Pires, que não negaram nunca o valor da bebida como auxiliar de criatividade. Da Antiguidade aos nossos dias, o vinho tem estado sempre na linha da frente das relações sociais e artísticas, impondo-se sobremaneira, senão pelo recurso económico e comercial que é, pelo menos nos efeitos que propicia.

Ao longo dos tempos, dispersando-se por diversas tonalidades, perfis, sabores, graus, divinizado ou satanizado, socializado ou marginalizado, o vinho veio no entanto ganhando foros de imprescindível na caracterização das celebrações (de vitórias desportivas, de colheitas, de negócios, de matrimónios e batizados, de inaugurações e de liturgias), da sabedoria (no reconhecimento da palavra e da honra, da família e da amizade, da integridade dos contratos, da reconciliação entre opositores), do amor (na antecipação e preparação do prazer, na resistência às paixões impulsivas e momentâneas, no afogar das mágoas passionais), do ritual (religioso, guerreiro e de iniciação à maturidade), do tempo que passa (iludindo a solidão, esquecendo as limitações ou eliminação do vazio existencial), de todos os dias (às refeições, aos encontros e nas esperas), da saúde (como analgésico, desinfetante e condimento substancial das mesinhas caseiras) e da morte (para “chorar” ou beber o defunto, esquecer os entes perdidos e comemorar ou homenagear datas épicas e heróis); mas foi sobretudo na sua capacidade de transfigurar o tempo e os modos, que o vinho veio a realizar a maior proeza histórica, que até hoje nos foi concedida: a da igualdade. Aquilo que sempre foi impossível pelas medidas de coesão, pelas políticas e reformas sociais, pelas legislações e Cartas de Direitos, pela luta de classes ou pelas atividades missionárias e evangélicas, conseguiu-o somente a tendência alcoólica dos povos, pondo na mesma mesa ou valeta, tanto os ricos e afortunados, os clérigos e os tropas, os políticos e os vagabundos, os doutores e os analfabetos, os condutores e os peões, os valentes e os fracos, os feios e os lindinhos, como os atléticos e os enfezados: de gatas e, às vezes, na mesma morgue.

Portanto, independentemente daquilo que aconteceu no passado ou do que venha a resultar no futuro, importa hoje escamotear, exorcizar, pensar, as motivações e efeitos dum bem, que se mal usado nos pode desgraçar. Esclarecer as relações de amor/ódio com um produto de tão grande poder sobre nós e os outros, é um passo importante para ganharmos patamares de defesa, como de usufruto do prazer, que nos podem auxiliar no relacionamento com uma substância que tanto nos pode pôr a par dos imperadores, à semelhança do que sucedeu com Li Bai, ao ser solicitado à presença de Sua Majestade, como dos velhos ladrões de Omar. Nos pode emprestar o génio de um premiado com o Nobel, como nos pode atirar para uma cadeira de rodas o resto da vida, entornando-nos o cálice da eternidade no asfalto do sofrimento e dependência. Como nos pode facilitar o dia-a-dia ou torná-lo numa dolorosa ressaca, mais ou menos interrompida conforme a carteira ou disponibilidade temporária.

Porém, sendo uma espécie de corda bamba entre bebedores e abstémios, o equilibrista nem sempre mantém a postura da vara, faça ele o que fizer, porquanto se esgueira demais para os lados da imaculada perfeição que é abdicar de si mesmo em favor da sua teoria de vida. E hoje, superiormente às circunstâncias que estipulam o consumo ou não de bebidas alcoólicas, o que está sobretudo em causa é como cultivar a nossa atitude perante este ou aquele produto, que nos pode ser benéfico e igualmente nocivo, e assim definitivamente possamos aprender a conviver com “alguém” de que nunca seremos capazes de nos separar, embora nos comprometa ou nos teste os limites por dá cá aquela pinga. Principalmente porque, como Li Bai, também nos é possível afirmar das bebidas, sem mágoa, que são essa «água faiscando como seda prateada / [que] transforma a terra num céu sempre igual» e nos permite «agarrar esta noite de luar, / vogar na barca do vinho e procurar as flores.” Essencialmente  porque tudo é possível, se acreditarmos que sim. E o vinho e o tempo, é, pelo modo como se usam (consomem, bebem, fazem, gastam, aproveitam, testemunham, apuram, editam) que ganham a diferença – e a qualidade... Enfim, o seu estilo. E esse, somos sempre nós.

 

Joaquim Castanho      

terça-feira, novembro 25, 2014

TÁBUA VOTIVA (DA EDUBA DE INANNA)




Absorve a seiva suave da luz matinal;
Deixa-a escorrer ao longo do silêncio cinzento;
Traduz-lhe os sinais recônditos e sutis.
Permite. Permite e confia.

Depois, memoriza a sílaba evanescente, solúvel
Ante a penumbra, diluída nas doces conjugações
Que misteriosa e sibilina afaga A Sol das dez horas.
A Estrela te incendiará na confiança desperta!

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪♫♪Ÿ♫♪ ♫♪ƸӜƷ
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sábado, outubro 04, 2014

ASPIRAÇÃO



Ergue-me o gesto inimputável,
Nosso grito de desejo e querer,
Que o sonho é esse céu arável
Onde nos semeamos sempre a crescer.


J Maria Castanho

quarta-feira, outubro 01, 2014

MARCAS IDENTITÁRIAS E PERSONALIDADE



Decido a decidida incerteza
Ato seguro da insegura voz,
Que além do ideal há a natureza
Pronta no decidir quem somos nós.

Circunstâncias, principalmente,
Acasos adotados e repetidos,
Registos de formatos de gente
Firmados em livros esquecidos.


J Maria Castanho