Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
sábado, fevereiro 28, 2015
sexta-feira, fevereiro 27, 2015
DO CINISMO PREDADOR
DO CINISMO PREDADOR
Por cada inocente que acredita
Há um cínico que enriquece,
Que a vida não é nenhuma fita
Em que só de dá bem quem merece.
Gente confiada, à beira da desdita,
Que anda na árdua lida e esquece
Os sempre prontos a esticar a guita
Para que assim nela caia e tropece…
Gente que estima, como é estimada;
Que preza a família e a família preza;
Mas que por bobos se vê interpelada
Por não lhe terem dito «ámen» “à reza”.
Por cada inocente submissa e calada
Há (plo menos) um alarve que a despreza.
Joaquim Castanho
quinta-feira, fevereiro 26, 2015
HORIZONTE ADIANTE
HORIZONTE ADIANTE
Nas ondas das vozes que inspiram as nuvens
Voa essa luz que a alma aspergiu de carinho,
Que adoça e dignifica idosos, adultos e jovens
Com pétalas de algodão em flor e rosmaninho…
São brancas e são violetas… São tudo e cintilam
E gizam no azul os sonhos de mulheres e homens;
E dão-lhes seus dias e suas noites quando brilham.
J Maria Castanho
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ÉTICA COMERCIAL E CONCORRÊNCIA
ÉTICA COMERCIAL E CONCORRÊNCIA
Pagar para aturar palhaços
É pacóvia asneira e sandice,
Que “mercearias” deviam ser espaços
Onde o respeito ao comércio se visse.
Pagar para aturar estafermos
É coisa que não está com nada,
Que o vender, faz-se com termos
Ou muda-se o povo de “estrada”.
JOAQUIM CASTANHO
quarta-feira, fevereiro 25, 2015
O QUARTO CIGARRO
O
QUARTO CIGARRO
Por
Joaquim Castanho
Por hábito, ou por vício – que o quotidiano é composto
de rotinas –, a hora da bica tornou-se uma referência quase mítica à minha
maneira de estar em cada dia. Tanto pelo que novo, às vezes conseguia
acrescentar; como pela ausência de novidades. E, porque aquilo que ontem foi
variante à força de repetir-se se transformou em constante, saciando a neofilia,
“assimilar desconhecidos”, pela frequência dos encontros, em conhecidos,
tornou-se irrelevante quanto ao facto de estar presente.
Dito e feito.
Assim, o silencioso mistério que o aparecimento de Inês
provocou, desvaneceu-se, e deixou em seu lugar a tranquilidade duma presença
inequívoca e familiar. O rosto angular miúdo esquadrilhado pelo negro cabelo
curto, arrapazado, servindo de suporte ao olhar sereno das pupilas pretas,
acutilantes e inteligentes, transmitindo passividade observativa, veio ganhando
desnitidez para operar-se em mais um rosto irrelevante entre outros tantos de
igual e indiferente relevância. Quando presente era legendado em off de consciência pelo ecoar interior
de um “cá está”; e, se ausente, por um outro a que se apunha um laçarote
negativo de “não está cá”, alterando a
ordem dos significados e significantes para produzir a diferença, pois que
é isso acima de tudo que está em causa sempre que pensamos em alguém, ou que
alguém nos começa a transmitir algo mais com a sua presença ou ausência do que
a noção exacta e factual do que elas significam. É quando começamos a ouvir
ecos e vozes sinistras, em off. O off do desejo; ou o off da atracção. O off da
prudência; ou o off da aventura. O off da esperança; ou o off do medo.
Falar da personalidade de Inês é falar dum corpo de
menina com a mentalidade de uma mulher de trinta anos. De estatura baixa, entre
o metro e cinquenta e o metro e sessenta, sem ser magra nem gorda, mas polida
de arestas, movimenta-se assentando meticulosamente primeiro o calcanhar no
chão, aparentando mais um deslizar do que um caminhar a dois pés. E no
vestuário, sempre de calças, em ganga ou bombazina castanha ou cinza,
inconfundível e alternadamente castanhas ou cinza, a preocupação de resguardar
o corpo da sevícia dos olhares, principalmente o tronco e os seios pequenos e
gomosos, por uma sequência de camisolas ou camisas abotoadas até ao pescoço, em
cores discretas, mas sempre a condizer com a demais indumentária.
Bonita? Se não achasse que sim, nem estaria a falar
nela.
Contudo, não nos dispersemos.
Ao sentar-me diariamente à mesa do café, entre a bica e
a terceira página de leitura do livro que incondicionalmente me acompanha, ela
chegava. Sentava-se sozinha, fumando um cigarro antes do café, outro depois
dele, e, passado pouco tempo, após duas ou três goladas no copo de água, um
terceiro – e último. Todos os dias. Invariavelmente. Exceto aos sábados, em que
não vinha à noite, mas sim à tarde, logo a seguir ao almoço e até um nadinha
antes do jantar.
Falar... Tão-só o essencial. “Boa tarde” ou “boa noite”
à empregada, que, devido à constância da receita nem sequer lhe perguntava o
que queria; ou algum “com licença” se entrando para sentar-se ou levantando-se
para sair, acontecia invadir o espaço de outro cliente. Nunca a vi rir; apenas
sorrir, e raramente. Uma única vez, quase, que não cabe dizer agora aqui. Mas
também me não lembro de a ter visto triste e melancólica. Ou aparentemente
triste. O seu semblante era o desenho, a máscara perfeita, numa plástica de
serenidade completa e satisfeita.
A vida é um off
infinito interrompido milhentas vezes, até à perpetuidade.
E nós, exímios ases do disfarce e simulação, da camuflagem,
nem sempre conseguimos a contenção suficiente para não deixar transparecer nos
nossos rostos e comportamentos, os sentimentos e ideias que no imo evoluem, os offs ditados e sublinhados por esse
constante e secreto diálogo interior, que mais não é do que a apólice de
garantia por estarmos vivos. Daí que, durante esse ano e tal de presença
assídua, em diária e subtil insinuação, tímida, silenciosa, impercetível, mas
inequívoca, Inês tenha sido o polo aferente, o núcleo duro, à volta do qual
giraram, umas vezes mais tranquilos, outras mais sobressaltados, uma miríade de
offs satelitizados.
Tanto assim que, ao chegar, ou logo que chegasse, antes
mesmo que a tivesse visto ou ouvido, ainda que o café estivesse a abarrotar e o
som da televisão num volume fora do comum, cujos ruídos se impusessem e me
solicitassem a atenção, eu aperceber-me-ia e saberia da sua entrada, numa
constatação indubitável, e tão vincadamente certa, ou até mais certa do que se
a estivesse realmente a ver e ouvir, quando nem estivesse nesse momento a fixar
a porta.
Não digo que o desejar vê-la funcionasse como um
chamamento para a sua aparição, como se fosse a efetiva materialização duma invocação,
nem que a coincidência do espaço-quando entre o aperceber-me da sua chegada e o
ela chegar, tivesse relevância ou fosse sintomático de tendências para o
misticismo, para o reconhecimento mágico, da minha parte. Mas acontecia. Fatal
e irremediavelmente. Sem que ao menos tivesse consciência disso. O “cá está” em
off soava, e eu levantava os olhos do
livro, em soslaio para a porta, e lá estava ela a entrar. Sempre. Sempre.
Sempre. Sempre.
É esse diálogo em off
que nos mantém ímpares, expectantes e sobreviventes. Sem ele, a solidão nada
teria de aventureiro e fantástico, mas sim de mortífero e doentio. Senão de
desumano, até. De monstruoso. Reconhecer que Inês tinha aparecido nesse dia
dois minutos mais cedo do que o habitual, era uma vitória proustiana; dois
minutos mais tarde, uma catástrofe e uma calamidade. Dois minutos que podiam
ter o efeito de um obus. Ou de um fogo-de-artifício maravilhoso e sublime. E,
afinal, dois minutos que em vinte e quatro horas, nada mais são do que a milésima
parte do dia. Mas que eram sem sombra de dúvida, um reconhecimento intensamente
sentido por essa brecha da alma em carne viva, que é a certeza de resistirmos sempre
muito para além dos limites.
Adriana, provavelmente, não veria as coisas de idêntica
forma... (Ou será que via?...) E paradoxalmente, na sua passividade, era a
cavilha, a espoleta, o fulminante, o rastilho, para o fogo e atividade em que
me ardia a existência, numa cozedura de furna vulcânica. Num consumir impercetível.
Eu lia. Mas que ninguém me inquira sobre o que estava
escrito nessas três ou quatro páginas que duravam a sua presença. Ainda que tivessem
sido sempre as mesmas. Repetidas quinhentas e tal vezes. Que eu não saberia
honesta e sinceramente responder; a não ser que inventasse. Ou se no café
também estavam fulano ou sicrano. Seria igual. Branco sobre branco.
Até que um dia, faz hoje precisamente dois anos, não
dei por mim a reconhecer a sua entrada; todavia, ao erguer os olhos do livro,
para a frente, ela estava a puxar a cadeira da minha mesa, e a sentar-se nela.
Fronteira a mim, à exata distância de um tampo de mármore, de uma mesa, qual
tumba branca e fria, a separar-nos. E senti que dentro de mim se rebentara um
saco de águas, uma borbulha de soro vital, que se alastrava por todo o corpo,
até ao mais ínfimo e recôndito pormenor, exalando, transpirando, emitindo, uma
profusa sensação de calma e tranquilidade. Que, aliás, se repetiu, embora
perdendo gradualmente a intensidade, nos dois ou três meses que se lhe seguiram.
E em que a sua presença à minha mesa ganhou foros de dado adquirido e conquista
irrevogável.
E assim foi, até ao ano passado, todos os dias. Todos.
Todos. Todos. Todos.
Sentava-se. Fumava um cigarro. Chegava o café, e
adoçava-o; então, bebia-o serenamente, em três goladas precisas e rigorosas.
Fumava novo cigarro. Dava dois ou três golos no copo de água (não tão precisos,
mas não menos exatos). Fumava outro cigarro; e partia.
Todos os dias o mesmo ritual. Inconfundível e
inalterável.
Entretanto, eu lia. Mas não lia. Mentalmente
perseguia-lhe cada gesto, adivinhando-o antes de acontecer.
“Sentava-se. Fumava um cigarro. Adoçava o café e
bebia-o. Fumava outro cigarro. Dessedentava-se. O terceiro cigarro; e saía.”
Na minha frente os gestos aconteciam imediatos e reais.
Mas eu revia-os em replay,
saboreando-os gulosamente. E se calhava levantar os olhos do papel era para
fazer a sobreposição do fotograma sobre o instante real, e reconhecer que não
havia qualquer disjunção, qualquer desvio, qualquer assimetria. Que a cópia e o
original se encaixavam perfeitamente. O que sempre sucedeu durante um ano, como
já afirmei.
Em dois anos consecutivos somente houve uma alteração,
com um ano de antes e outro de depois dela: O quarto cigarro. Após um ano ininterrupto
a sentar-se, fumar o primeiro cigarro, beber o café, fumar o segundo cigarro,
beber água e fumar o terceiro cigarro, para seguidamente se levantar e sair,
passou a sentar-se, fumar o primeiro cigarro, beber o café, fumar o segundo,
beber água, fumar o terceiro, beber novamente água e fumar o quarto cigarro,
para partir consumido este, no decurso do ano seguinte. Nem mais. Ou menos. Exata
e exemplarmente assim.
Mas essa alteração, menor, como afinal o foram antes
desse ano os dois minutos de antecipação ou de atraso, arrastou-me para um
turbilhão de sentimentos e ideias e dúvidas e contradições, inconcebível. Para
uma tempestade interior de onde tinha que sair a nado e a pulso, sem qualquer
suporte ou auxílio, em solidão total, esforçada e exaustivamente conseguida.
Respirar era uma batalha. Perceber que continuava vivo depois dela ter partido,
uma vitória. Nunca a minha vida valeu tanto, nem tão pouco!
Talvez seja a este prazer de torturado que alguns
autores aludem, em suas obras de personagens ou temáticas sadomasoquistas; ou
esse contentamento descontente dos poetas. Não sei. Contudo, se cada dia
tivesse mais um ou dois segundos dessa parca meia hora em que ela permanecia na
minha mesa, tenho a certeza de que morreria. Sucumbiria, fulminado.
Naufragaria. Indubitavelmente, sem esperança nem recurso. O Inferno de Dante
parece uma piada ridícula e idiota face àqueles trinta e tal minutos.
Acreditem.
Há pessoas que são capazes de se matar pelos outros. Há
mortes e suicídios por amor. Nem era estritamente necessário que alguns shakespearianos
no-lo tivessem lembrado em literatura, para que o soubéssemos e
reconhecêssemos. Outros, de morrer. E eu, convencido que estava, e estou!, que
se Inês ficasse alguma vez mais esses fatídicos minutos, por cada dia, eu
morreria... Mesmo assim, chegava a desejá-los. Não percebem?... Não importa; eu
também não – embora seja a mais pura das verdades.
Todos os dias, ela vinha e sentava-se; e eu restava
ali, abatido, prostrado, naufragando sem debate, nesse remoinho tempestuoso de
milhares de offs e pesadelos alucinados,
aflições, letargias e expetativas. Irremediavelmente só, até aos infinitos
limites de eu próprio, invocando religiosamente a pírrica frase por cada
vitória de cada dia a que sobrevivia. Trezentos e sessenta e seis dias escritos
por extenso e em brasa na página mais secreta do meu ser.
Mas valeu a pena, meus amigos. Porque hoje, inconfundivelmente
hoje, precisamente um pouco antes, um nadinha quase nada, da primeira página
destas linhas, ela concedeu-me esse minuto em que residia o limiar da minha
resistência. O derradeiro. O fatal. O fatalíssimo, em érrimo grau.
E eu, em desespero, ansioso, febril,
seguramente convicto de que iria morrer na sequência dele, consequentemente,
ergui os olhos para os dela, implorante e grato, acabado, vencido, a fim de lhe
ouvir dizer, sorrindo em condescendência e num lamentoso oscilar de cabeça:
«Tonto!... Claro que te amo. Ou achas que se não te
amasse eu teria fumado mais um cigarro, por cada dia e durante um ano?! Por
cada bica?... Aumentando assim as minhas possibilidades de cancro, hãn?!...
Tonto!»
E saiu. Reportando-me a existência
para uma arte bastante estranha de entender as coisas e a vida. Mas ficara
convencido: ninguém, em seu perfeito juízo, se destrói por nós, se nos não ama
verdadeiramente, seja lá o que isso for da verdade e do amor... Ninguém!
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ABAIXO A PÁGINA EM BRANCO
ABAIXO A PÁGINA EM BRANCO
Há que fazer a folha
Ao palhaço branco
Dita o verbo da razão,
Que quem te escolha
E escolhe a negação
Só merece o barranco.
Há que fazer a espera
Aos estigmas racistas
Que os demais ofendem,
Porque esta ecosfera
É biodiversa e contém
Nossas culturas mistas.
Há que ler o capítulo
Que esclarece as vistas
A quem põe a ridículo
Todos poetas e artistas.
J Maria Castanho
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terça-feira, fevereiro 24, 2015
DA INSEGURA SEGURANÇA DO AMOR
DA INSEGURA SEGURANÇA DO AMOR
Amar não é fácil para ninguém,
E, muito menos, coisa para amadores;
Que após ausência, a saudade vem
Plantar incertezas, ânsias e dores.
Amar é difícil, e se o fazemos bem,
Ou com jeito cuidamos de nossas flores,
Não raro vem a falta de jeito de alguém
Fazer (re)florir novas plantas e cores.
Amar é um (des)andar na corda bamba
Contínuo, ou por tudo, e até por nada;
Que mesmo que se a alma ginga e samba
Logo o corpo entra em outra roubada.
Amar dá arrepios, securas, rubores,
E exige engenho e arte aos amadores.
J Maria Castanho
segunda-feira, fevereiro 23, 2015
ORAÇÃO
ORAÇÃO
Hoje, sobre ti a
Lua-Nova abre
O seu cálice de ouro
e sigilo,
Quase copo de adaga
ou sabre
Afiado gume e
gélido brilho.
É cálice de
renascida intenção
A transbordar
sombra de lado,
Onde cabe humana
condição
Tecida esperança e
tido eito
Do verbo quer ser
conjugado.
Nada me digo. Ponho
as mãos
E cerro os olhos
com respeito
Ante teu sonho
assim desejado,
E à noite abro todo
meu peito
Pra que nele seja
enfim tatuado.
Ponho as mãos, mas
o coração
Esse, fica sempre
do teu lado.
J Maria Castanho
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O CARNAVAL CONTINUA, QUE A VIDA É QUE SÃO SÓ DOIS DIAS
O CARNAVAL CONTINUA, QUE A VIDA É QUE SÓ SÃO DOIS DIAS
Pouco pode quem manda
Pois já nada lhe diz respeito
Num país que, em vez de andar, desanda,
E onde o governar é do mesmo jeito.
Impostos… Só paga quem não consegue fugir.
Garantias… Só as que o tem-que-ser dita.
Liberdade… só se for a de mentir,
Que quem não sabe fazer é perito em estorvar.
Porém, se o défice geme e a balança apita,
Ei-los pimpões e repimpados a palpitar diagnósticos na TV…
Ou a desfilar em belos carrões – que pagaram…? Qual o quê!
J Maria Castanho
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MODINHA PARA TACÃO E BICO
MODINHA PARA TACÃO E BICO
Se esse lixo que dita a gesta
É quem nos lixa a sorte e vida,
Então nada mais nos resta
Senão dar-lhe pontapé de saída.
Ler-lhe a sina escrita à mão
Pregando-os na cruz do boletim,
Que o voto é única ação
Pra quem não quer continuar assim.
Que dos dois países que há
(O das estatísticas e o real)
Nenhum serve para quem vá
Mourejando duro – e ganhando mal.
J Maria Castanho
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domingo, fevereiro 22, 2015
GAIATO RODOPIAR
GAIATO RODOPIAR
Porque se a terra não é só de ouro,
Ainda que seja matéria preciosa
E sustente o instante duradouro,
É quem gira à volta da luz, e o glosa.
É o íman cósmico; mas é profundo.
Gaia ciência; e também magia.
Ocre de pintar verde sonho no mundo
Com a leda graça, esplendor, alegria,
Do oxigénio feito vento numa dança.
Que puxa e afasta, é botão, e é rosa;
É cova de morte ou seara d’esperança;
É empréstimo de poesia à prosa;
E sobretudo é rodopio de criança
Que gira à volta do sol… e o
glosa!
J Maria Castanho
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ÂNIMO E REALISMO
ÂNIMO E REALISMO
Sob as ordens de
teus olhos iniciado
Meu querer só tem
um crer consecutivo:
Cumprir toda existência
do teu lado
E ser da vida servo
feliz e cativo.
De estar nela,
sendo dela, porém só teu;
Ter por norma a
sublimada convicção
De preferir a
certeza que de nós nasceu
À fama próspera e
livre da solidão.
De respeitar teus
desejos, atitudes,
E vê-los de mim próprio,
naturais;
Ou saber que os
defeitos são virtudes,
Logo que vistos
doutros pontos cardeais.
J Maria Castanho
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sábado, fevereiro 21, 2015
ORAÇÃO
ORAÇÃO
Hoje, sobre ti a
Lua-Nova abre
O seu cálice de ouro
e sigilo,
Quase copo de adaga
ou sabre
Afiado gume e gélido
brilho.
É cálice de
renascida intenção
A transbordar
sombra de lado,
Onde cabe humana
condição
Tecida esperança e
tido eito
Do verbo quer ser
conjugado.
Nada me digo. Ponho
as mãos
E cerro os olhos
com respeito
Ante teu sonho
assim desejado,
E à noite abro todo
meu peito
Pra que nele seja
enfim tatuado.
Ponho as mãos, mas
o coração
Esse, fica sempre
do teu lado.
J Maria Castanho
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sexta-feira, fevereiro 20, 2015
A TRAGÉDIA
A TRAGÉDIA
Juvêncio Pernas nunca foi homem de falas
desperdiçadas, nem palavras sabidas em ró-có-cós e caganeirices. Mas deu-lhe a
vida, por mor de muita andança e surpresas várias, aquele semblante desconfiado
e o cenho franzido de olhar os outros sob a pala do boné de bombazina castanha,
que só tirava para dormir, e as mais das vezes nem para isso, pondo-o sobre a
fronte, se de alguma sesta à sombra de árvore mais frondosa o calor e cansaço
lhe impunham. As pressas o não impediam. E à companha dava jeito.
Nado
e curtido nas charnecas de outrora, nunca se adaptara solidamente às sociedades
que a longevidade lhe fez atravessar: na de produção negou-se à prisão
condicional dum emprego fixo e horário rígido; à de consumo, recusou a corrida
sem tempo de olhar os campos, as aves, os riachos e os arvoredos; e tão-só da
de comunicação quis aproveitar mais do que alguma musiquinha brejeira nas
noites de sábado em rádio portátil. E ao mundo, queria-o pequeno, para que lhe
pudesse dar a volta num dia, de cão coelheiro preso ao eixo da carroça puxada
pela arisca e finória “Boneca”, uma mula e tanto, picaça, que ainda prometia
muitos e aturados anos de atafais. Em toda a vida tivera quatro para a lida, mas
aquela era de todas a que mais lhe enchera as medidas, pelo porte fino, esguio,
nervoso temperamento e maneiras de madame exigente nos mimos e no trato.
Altiva, que nem uma soberana; folgazona e lesta, que nem uma alvéloa.
Assustadiça, porém, se não se tivesse mão nela e uma palavra de acalmia.
Por
ganha-pão agarrara-se vida fora ao ferro-velho. Essas azinhagas e carreteiras
foram-lhe o chão da casa, e por piores que estivessem os seus pisos, desde que
lhe cheirasse a ferrugem nalgum casal ou monte de confins, nunca lhe
impossibilitaram de fechar negócio. Um faro danado que detetava os oxidados a
milhas, e nos olhos de medir a disposição do vendedor, sem dúvidas nem
lambanças, uma acuidade e concentração que assustaria os psicólogos mais
expeditos, forjaram-lhe sério e avultado pecúlio, que deixou a forrar juros de
ano para ano, sem precisão de mexidas por doenças e desafortunas.
O
casamento durara-lhe e tivera na vida dele o mesmo desassombro de uma trovoada
de Abril, morrendo-lhe a companheira na primeira prenhez, levando com ela a
cria, que nem do tempo era. Coisas que um homem não desmisterializa, nem a
natureza concede desvendação. Bastando-lhe a experiência, não sem antes afogar
as mágoas, frequentando intervaladamente algumas casas menos religiosas, mas
mais iniciáticas, embora que doutros credos e catecismos.
Foi
à tropa quando devia ter ido e não ganhou nem perdeu nada com isso. Se
anteriormente, por trabalhar, era mal pago e pior considerado, quando lá,
continuaram a pagar-lhe mal, trabalhou de igual modo e a consideração também
não subiu. Infantaria, escolhera ele, por ser um nome pomposo e de realeza, que
deveras o fascinou e o seduziu: meteram-no a limpar cavalariças e tratar de
cavalos.
Aprendeu
o negócio com um tio que o explorou de sol a sol, e que o empregou por
extraordinário favor familiar, materno, por imploração da mãe, e a quem haviam
nascido os dentes no ofício. Três anos, foi quanto durou o idílio!... Um dia,
pelo S. Martinho, atirou com os aparelhos ao ar e mandou os favores do tio pràs
urtigas, que era de onde nunca deviam ter saído! Estabeleceu-se com três contos
de réis, a que foi acrescentando outros, somando aos três de cada vez, até que,
ao casar possuía de seu o albergue e a viatura. O primeiro muar foi a meias com
um comerciante de gado, que lhe aproveitou as voltas para fazer propaganda à
mercadoria. Não fora grande coiseca, mas vendeu-se com lucro para os dois, a um
vinicultor a quem dava bastante jeito, pela moleza e obediência, únicas
qualidades que evidenciara em dois anos de trato.
Quis
o destino que, na sexta-feira santa de l990, às seis da tarde, lhe fosse a
sorte arredia na desfeitura do produto de sessenta e dois anos, bem conservados
e nutridos, sem moléstia de maior, num molho de ossos quebrados, além de umas
dores danadas, que por certo, nem às parideiras era dado ter, se não, nem no
mundo haveria geração.
Andara
durante o dia pelas bandas de A-dos-Tansos, zona encarapelada de morros e
vales, alguns a pique, deixando ravinas de alto lá com elas!... E ao fundo das
quais, o Rio Tramóia, que na sua terra, Casal Parado, mal passava dum
ribeirote, mas que para os sítios, engrossado por uns quantos riachos e
ribeiras, de fracos recursos em
pleno Verão , corriam à data sem descaro nem licença para
dentro dele. E, em determinados locais, se o declive o propiciava, em cascatas
espumosas de água pardacenta dos esgotos e pecuárias que lhe desaguavam.
O
caso dera-se sem apelo, não obstante as suas destras mãos na exímia condução da
Boneca, tivessem recorrido a toda a mestria acumulada nos ininterruptos e idos
anos de domar os ânimos e desquites às alimárias do seu sustento. A estrada
serpenteava encaracolando-se à volta do morro, dando-lhe pela esquerda frondosa
mas pedregosa fasquia, e pela direita, inclinado precipício, esgalhado à mão
podoa, de piornos, xaras, carapetos e zambujeiros, entremeados de morouços de
pedras e menires naturais que aos celtas da zona não ofereceram qualquer
utilidade.
«Ah,
mundo cangalheiro!...» Responsava consigo próprio, num resmungo de medir-lhe os
cômoros e declives, contabilizando os espécimes da flora até ao rio, no fundo,
a borbulhar cachões. «Arre, que até arrepias!!...»
E
impressionava mesmo. Dava vertigem, a quem se debruçasse da estrada para lhe
espiar o leito, sumido as mais das vezes, encoberto pela vegetação.
De
santa a sexta-feira não tinha tido nada, prò negócio. Umas aduelas, relhas
partidas, duas camas de ferro carcomidas de ferrugem e uns quilos de arames
vários, fora quanto abichara. Mas pronto!, para a broa sempre havia de dar...
Sem conduto, é claro, que as carnes não se mercam com ninharias!...
Cogitava
nas contas do que reunira semana fora, em termos de remessa, visto que no dia
seguinte, sábado, era dia do camião da metalúrgica, que lhe ficava com os
pesos, passar pelo estaleiro a carregar. Feitas por alto, não excediam as três
toneladas – o que era pouquíssimo!... Noutros tempos, chegara a juntar sessenta
e setenta de sábado a sábado. Mas os costumes mudaram-se, e o ferro da lavoura,
que fora do que mais lhe viera parar ao lastro da carroça, sucedera substituído
nos tratores e demais alfaias sem propensão para metal, ainda velho que fosse.
A
estrada é apertada, mal permitindo passagem, no cruzar-se, a dois carros. E nas
ultrapassagens via-se obrigado a entrar com o rodado no piso de chão da valeta,
a facilitar a manobra aos outros viaturantes. Apercebeu-se perfeitamente da
natureza e porte do veículo que se aproximava pela retaguarda. “Um pesado de
grande curso”, pensara ele.
E
era. Nada mais que um TIR, transporte longo e de manobra difícil, de
assustadora envergadura, no seu comprimento de doze rodados. Mas o motorista,
cruelmente brincalhão, sobremaneira o quis ultrapassar, fazendo da buzina de ar
um instrumento de tortura para os serôdios do progresso, mandando-lhe duas
estrondosas bufadelas no cachaço, ecoantes de estrépito civilizacional nos
orelhões do muar. Bbbrrrhhhuuummm!!... Bbbrrrhhhuuummm!!...
Resultado:
o bicho embraviscou-se, deu dois cangotes, entrando em pânico pelo alvoroço,
desobedecendo ao arreatar do freio e serrilha, investindo-se de teimosia
bárbara e diabólica, levando o rodado da carroça a saltar a valeta, que, num
ápice se resvalou – zás, pás, catrapás, pás, zás – precipício abaixo aos
trancos e tamancos, de cangalhas às avessas, num pandemónio que dificilmente ao
sarraceno lembraria. E o energúmeno nem parou, ainda assim o não chamassem a
contas pela brincadeira!...
Porém,
não eram decorridos dez minutos após o desacato, quando um residente daqueles
ermos, dirigindo-se a casa, vindo do trabalho, na sua motorizada de 50 cc,
apercebendo-se do desastre parou a traquitana e constatou nada poder fazer além
de ir a casa telefonar para a GNR e Bombeiros Voluntários de Casal Parado. Que
foi o que fez, à ligeireza do enquanto o diabo esfrega um olho imposto na
distância.
Os
primeiros a acorrer ao local foram os Gê Nê Rê, nas pessoas do cabo e dois
praças, que, pé ante pé, e à custa do pretexto da demora dos soldados da
machadinha, desceram a ravina.
O
tio Juvêncio Pernas fora o que caíra mais longe, esgalhando piornos e xaras,
até se quedar, de braço direito e clavícula esquerda partidos, as costelas a
multiplicarem-se em duas por cada uma, tíbia e perónio esquerdos em fratura
exposta, e duas brechas no toutiço em que cabiam à vontadinha dois patacos de
Euro, no arejar-lhe do cérebro por um par de vinténs. Antes dele ficara a besta
– salvo seja, que se no desaguisado alguma houvera, fora outrossim o fitipaldi
dos camiões –, de espinha partida em dois lados, escoriações na cabeça, e a
pata dianteira esquerda quebrada em duas secções. E na superior da superfície,
acamarotado de primeira, o canzote coelheiro, que inúmeros laparotos lhe havia
trazido à mão, se acaso o soltava onde visse que era chão deles e sem perigar
de ser autuado pela venatória, com o pescoço traçado pelo cordel que o prendia
ao eixo da carroça, sustendo a cabeça ao corpo por um fio de carne e pele,
patas traseiras partidas ambas e outras feridas menores. O resto da carroçaria
e carga, foram parar espalhadas encosta adiante, conforme o peso e os
obstáculos.
Ao
GNR, o cabo Sabino quanto apurei, deparou-se primeiro com o cão. Meteu-lhe dó o
animal, naquele estado, ganindo e gemendo de cortar a alma às postas de meio
arrátel. Sacou da pistola, e não esteve com demasias: assestou-lhe um tiro de
misericórdia, acabando-lhe de vez com o sofrimento.
Encontrou
seguidamente a mula Boneca, cujo estado de graça não era para menos, e
processou-lhe igual tratamento. Pum!!,
mesmo de cano enfiado no interior da orelha do bicho.
Finalmente
deparou com o tio Juvêncio Pernas, escarranchado num carapeteiro, que crescera
aprumado sobre um desabrido morouço de calhaus, ainda com a arma em mãos das
anteriores utilizações. Este visionou o guarda, o cinzento pardo da farda a
aproximar-se, e logo que o teve perto de si, esboçou um sorriso de quem estava
num dos melhores sofás do salão de chá, e afiançou-lhe:
«Oh, Sr. guarda: tal foi a tragédia!... E eu, nem um
arranhãozinho apanhei!!?»
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