Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
sexta-feira, junho 14, 2013
quinta-feira, junho 13, 2013
DE BRAÇO ERGUIDO – II
Nas famílias, perante o melhor gesto
Sempre há alguém a aprendê-lo por perto,
Que o futuro, quando se quer lesto
É um hoje a que o passado dá concerto.
Tudo o que somos já certamente foi
Um dia, em qualquer lado, ‘teve alguém
A fazer copy past do DNA se constrói
Assimilando-o, para vir a sê-lo noutrem.
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AS PESSOAS SÓ SONHAM SER… E DEPOIS SÃO.
Me enleias por abraço
Neste desassossego de alma,
Que o heterónimo é um traço
De quem se fez na própria palma.
Mais a de Ophélia o querer,
Conjugado num foi sequer,
Tendo o tampouco que tinha
Já que não há outra inha-inha
Da vida rainha, que nasceu pra ser
O verso numa linha de mulher.
(13.06.2013)
segunda-feira, junho 10, 2013
POBRE
POETA (É O POVO)
Ao
dia em que Camões morreu
Deram-lhe
os “amigos” outro funeral:
Fizeram
dele a efígie e o camafeu
Pràs
comendas do “ilustre” Portugal.
De
amargurada vida feneceu,
Mas
após morte teve pedestal…
Até
parece que o portuga nasceu
Só
pra ser molestado e passar mal.
Porém,
hoje vaticinam doutos sábios
Serem
o valorizar do património
E
a ruralidade, os novos astrolábios
Que
vão tirar-nos deste Santantónio,
Desta
Troika, por cujos finos lábios
Andamos todos neste pandemónio! sábado, maio 25, 2013
SABER ESCUTAR NÃO É
DOENÇA
Com o enredo entre
os dentes
Oscilo a cabeça num
«não, não, obrigado!»,
Que para sermos
todos diferentes
Ninguém precisa ser
desarranjado.
Se estou muito bem
como sou
Sem qualquer
capricho ou mania,
Então, por que me hão
de pôr nesse voo
Ao ninho dos cucos
da patologia?
Loucura é ignorar, sermos
indiferentes
A quantos mesmo ao
nosso lado,
Com gestos inseguros
e palavras reticentes,
Só pedem a atenção
dum ouvido bem lavado…
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quinta-feira, maio 23, 2013
NASALANDO ME ALENTEJANO
Estirado na rede me alongo
E desenleio por leve balanço,
Como qualquer til em nu ditongo
Que por vão repasso ao descanso.
Atrevo-me a soletrar-lhe o gesto,
A pôr-lhe vincos de sílaba sã;
Porém, cada acento é só o resto
Do escoado caféii da manhã.
Tenho esse não-sei-quê de preguiça
Na fala desde que a letra me ocorre…
Mas como detesto entrar na liça
Calo-me, e a pronúncia morre.
quarta-feira, maio 01, 2013
QUEM PREDICA SE CONJUGA
Quanto pode um verbo que é predicado
Dum sujeito que se não sujeita aos jugos?
Mais que todos os complementos ao lado
Com seus lamentos, amuos e resmungos…
Todavia, se predica pode ser condenado:
Que os inocentes não lhe perdoarão jamais
Ficar de fora do pecado, sendo seus iguais!
sábado, março 30, 2013
NOTURNO
VOO VERTICAL
Quão
espessa a tessitura da noite
Se
mais que o silêncio a entreteça,
Ainda
embora o peito sôfrego acoite
Esse
abraço que só a distância terça…
Mas a
voz desce ao fado, tange-o
Melancólico
ao dedilhar das ondas;
E o
barco do destino, por contágio
Balança
o ser em repetidas rondas.
Circulares
e centrífugas todas elas
Numa
espiral em contraluz cerzida,
Se a
ternura solta ao vento as velas
Para
receber e doar a própria vida!
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quinta-feira, março 28, 2013
NATAL
DA ÁRVORE
Na alameda
dos troncos cinzentos
Aconteceu,
hoje, grande novidade:
Havia um
deles com oito rebentos
Do verde
translúcido da claridade.
Uns cinco,
vieram sós, espalhados
Aqui e
ali, como quem espera alguém;
Dois,
fizeram logo par, enamorados
A espreitar
o pequenino, mais além
Que sob
os musgos d’água saturados
Arriscava
vingar e afirmar-se também.
Eu passei,
ambos sorriram para mim…
E ao
ver, como no pequeno reparei
Na
brisa tremeram, dizendo que «sim».
NÃO
AOS JAMAIS!
“Um
não desfaz no carinho de quem a gente gosta, só por causa que os estranhos
estando vendo.”
In JOÃO
GUIMARÃES ROSA, Dão-Lalalão (O Devente)
A sombra
é escassa no verde tanto
Que a
seara se abraça à esperança
Diluindo
seu grito calado num manto;
E ali
mesmo, sob o céu singelo, alcança
Os poréns
do voo que toda a terra quer.
Podia escolher
qualquer nome, exigir
Do mundo
e homens todos os direitos,
Fazer de
seus ramos vis e nunca florir,
Vingar-se
da solidão e demais efeitos
Que à
planície são atreitos e normais.
Mas
prefere vestir-se e dançar no vento,
Dominar
os altos cimos e profundezas,
Pôr os
braços à volta da magia do tempo
E beijar
a seiva de nossas vãs certezas.
Ou até,
ninguém pode duvidar sequer!,
Esculpir
as vozes primeiras, ancestrais
No marulhar
das folhas como uma mulher
Se penteia,
tirando do futuro os «jamais!»
sábado, março 23, 2013
TERNO
BROTO TENRO
Abro a
porta à primavera
E abraço-a
no hall de entrada
– É
que foi fria e longa a espera,
Tornando-a,
por demais, desejada.
Tenho
os teus gestos na memória
E despidos
de mim os ramos teus;
Porém
as águas, no rio da história
Redemoinham
em pátios e gineceus.
Dizem
que é um calar interrompido,
Argumentam,
agitam a mansidão…
E,
como quem se rebela do olvido,
Gritam
seu «sim» mesmo se dizem «não».
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quinta-feira, março 21, 2013
ESTAÇÃO
DA FOLHA EM FLOR
Daqui
vejo teus olhos em flor:
São palavras
com asas de borboleta,
Folhas
que siam, outro Condor
Nesse
céu que nos sonhos espreita
Como
o vivo lótus, que vivaz te enfeita.
Mesmo
quando se te outona a voz
E em
nós, aqui a primavera nasce,
A amizade
é o pólen que o poema pasce
Colhendo
a farinha pura de nossas mós,
Essa língua
comum te banha e nos estreita
Num abraço
que ao ano inteiro aceita…
És a
minha alma nua, e plo reverso,
Tanto,
que quando sou significante
Tu és
significado; e se apenas verso
Tu és
mensagem, referente vivo e cintilante.
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terça-feira, março 12, 2013
LÚMEN
MÁGICO
Acondicionada
a voz no timbre exato
Eis
que o sol tinge de luz o plano aberto
E,
acesos os olhos percorrem o visto fato
Para
exercer seu míster, quando desperto…
Podia
eu dizer-te «bom dia, até que enfim
Te
vejo, sem ser em sonhos», ou mesmo ainda
Que
«na realidade és, decerto, para mim
Bem
mais sensual, preciosa, mágica e linda».
Podia
escrever co’a língua os poros de teu rosto
Um
a um, e desenhá-los com sílabas puras,
Permitir
aos lábios esse calor de agosto
Dos
verões que à alma dão as divinas criaturas.
Podia…
Que não mentia. Como, aliás, nunca minto,
Que
teu olhar é o sol que dá luz a quanto sinto!
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segunda-feira, fevereiro 18, 2013
DESTINO
DE CAMPEIRO
“Tudo
o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar.”
JOÃO
GUIMARÃES ROSA, in Dão-Lalalão (O Devente)
Na capanga
levo o sol
Que é
astro todo o ano.
Porém,
neste peito mole
O coração
em desengano,
Me diz
que a lua é quem mais manda
Se um
homem por este mundo anda.
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sexta-feira, fevereiro 15, 2013
NAS COXILHAS, A ADIVINHAÇÃO DA PRIMAVERA
“– Você acredita em pressentimentos?
– Sempre.”
In ÉRICO VERISSIMO, Sonata
Quando as árvores contam segredos risíveis
Nascem brotos dos ramos do tempo ser,
E as borboletas petiscam pólenes invisíveis
Entre os emaranhados da paisagem a tecer
Fevereiros aguardando o detonar marços
possíveis…
São eles quem escreve o verde para o siar dos
anos
E pintalga de pombos e rolas turcas o céu de
jardim,
Ou soletra as baladas que a dedilhar nos damos
Mãos nas mãos, olhos nos olhos, ante o alecrim
Que crepita afogueado na lareira dos
desenganos.
E nessa labareda em que Arina tão vivaz
remanesce
O espreguiçar do vento, o estremunhar da fonte,
O murmurar da relva a sua seiva, impávida
prece,
Eis que caminhas meneando íntimo horizonte!
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domingo, fevereiro 03, 2013
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