A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, novembro 05, 2009



A tua alma é o teu corpo todo. De lés a lés
Não peças refúgio; não te impliques na lógica.
Aproveita o ar que te toca não só para respirar,
E deixa a diferença caminhar a teu lado
Como se ela fosse o teu par de dança, a tua paixão.
Mas sempre que o sol ofuscar o teu olhar
Com seu brilho de frente em laranja crepitante
Admite-o como teu igual e concede-lhe a graça de nascer amanhã
Outra vez, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra
Até ao clímax final que é a morte de cada um.


Quando morreres a morte morre contigo também.
É imprescindível que assim aconteça para que a terra continue a girar,
Os peixes subam os rios na procura de águas límpidas em que desovar,
Ou os homens ganhem a certeza de que as estrelas existem
Ainda que a noite urbana seja clara como quase nunca o dia.



Mas se no ingresso do mar ouvires de vozes profanas
Que te esperam a indiferença e solidão de não teres partido
E o eco amorfo dum abdicar que faz escola,
Não desesperes: que és mais que o produto da reunião das partes,
E teu corpo merece sem sombra de dúvida a alma que o constitui,
Porque a vida não é aquela linha paralela ao comboio que tomámos
Em que outra carruagem segue sempre à nossa frente,
Mas sim a alma que te acompanha para onde quer que vás.

terça-feira, novembro 03, 2009


Sabes como é isso, de quando a gente se vira
Contra a ansiedade e angústia e desespero
... E luta!
Deve ser-te fácil pois resististe
Sobreviveste
À tua infância tanto quanto eu
Que nada sou além
Este produto do sonho pela verdade, emigração e vero exílio.


E que faz a dor ser pequeno insecto
À volta da vela luz de descobrir sempre
Outro caminho mais sereno e seguro de queimar as asas,
Ou a simplicidade dum girassol fixando o rei
De igual para igual exalando aroma e sementes
Por mais sequiosas que sinta suas raízes.


Pois bem: é mesmo assim que se aprende.
Reconhecer é pelo menos saber;
Duas vezes é mais importante que um só experiência,
Como se fôssemos eu e tu numa curva
Contendo as lágrimas e obrigando o rio a seguir
U N O entre um de cada lado
Embora revolto contra as margens de nossos lábios.



Nunca esqueças então que no dia em que nasceste
A terra fez anos e celebrou-te
Argila da festa de esperar-te
E repetir-te
E referir-te
Dia de todo ano
Dia de todo o mês
Dia de todo o dia

Que nem fosse a alegria de teu nome
A porta que se abre para a vida
Na festa do avental secreto das flores
Raparigas celtas dançando plenas em roda
Na clareira silvestre da beleza que te sobra.


E escorre e molha e me lava e me resume
Quanto se apresta



E me resta e edita
Do passado banhado por puro sonho e cresta
A gesta

A naufragar na latinidade de teus olhos.


É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.

É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.

Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.



Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.

É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.
“ What’s in a name? That we call a rose
By any other name would as sweet.”




Às vezes perguntamos ao nosso caminho
Quem somos nós
Ou a nós mesmos qual é o nosso caminho.
E não sabemos como sair da baralhação dos sentidos.
Fazemos dos sentimentos um escudo que nos ataca
E não ouvimos distintamente os segredos
Que a vida tem para nos contar.

Mas também às vezes, quando amanhece nebuloso
Ou o sol se nega a repetir que temos em nós tudo
Principalmente aquilo que ele mais ama
Com sua voz de violar-nos a alma pelos olhos
Uma rosa vermelha vem pousar-nos em frente,
E dizer-nos que ainda é possível a ousadia
Que ainda é possível o sonho
Que ainda é possível o sorriso
Que ainda é possível a ternura...


Porque mais do que a voz e a língua
Há o silêncio de um olhar que significa.




AS PESSOAS REESCREVEM-SE no improvável
Qual forma verbal de dizer o silêncio
De aspergir o futuro, a imensidão, o infinito
Tão contrária à força de iludir tranquilidades
Como as sebes de ciprestes dos talhões urbanos
Dos quadros variáveis nas janelas dos autocarros
Dos comboios, computadores portáteis inoportunos
Mas sempre presentes em cada pálpebra descaída
De quem não quer ver quem o acompanha, ter
É ser-se quem é, onde está, para onde vai, assim
Sem querer, ou sem saber de querer ir ainda
Bater às portas apenas pintadas nas paredes
Nos muros que Berlim ergueu em cada um
De nós, atados fazendo-nos dois pelo menos Pessoa
Que foi mais também não teve vida fácil
Nem compreender significa tornar as coisas simples
Dóceis, unas, definidas, homónimas ao ser
Estarem prontas e disponíveis ao pragmatismo
Exigente, cruel, verdadeiro, imoral, financeiro
Como cada poema escrito a pensar no amanhã.


Porque hoje é uma palavra que marca a fogo.

quarta-feira, outubro 28, 2009

“Gracias a la vida que me ha dado tanto/ Me ha dado la risa y me ha dado el llanto/ Así yo distingo dicha de quebranto/ Los dos materiales que forman mi canto/ Y el canto de ustedes que es el mismo canto/ Y el canto de todos que es mi propio canto”. (Mercedes Sosa)


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.

E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...

A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.


"Quem é essa que desponta a Aurora,

Bela como a Lua,

Fulgurante como o Sol,

Terrível como as coisas grandiosas?"

(Cântico dos Cânticos, 6,10)

sábado, outubro 24, 2009



PROMESSA


É quando o sulfuroso da alma
Se entrega ao desmaiado azul,

E as lacrimais águas se fundem
Num só rio em busca da voz

Que tu e eu, meu amor
Ganhamos sentido nesse futuro que caminha
E baloiça sob a pendular força da incerteza,
Mãos nos bolsos,
Cordel do pião a arrastar na areia...

Nunca o esqueças
Sobretudo se os nossos netos o desconhecerem
Quem são – quem foram.

SAUDADE


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.

E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...

A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.
(RE)ENCONTRO


Ninguém adivinha até onde pode chegar
A distância dobrada pela solidez
Do silêncio, pronto, finito à pequenez
Do verbo – amar é sempre ruptura
Ponto de entrelinhamento , sutura
De conjugação propensa ao ansiar
Ambíguo de escrever a sublime doçura
Dos olhares que se perdem em buscar.

Somos ínfimos, é certo, no sentido pleno
De nos dizermos grandiosos
Num mundo tão pequeno.
“ Onde foi que nos vimos pela última vez?!... “
Façamos de conta que foi na imensidão
Da planície ensolarada dos tempos talvez
Há mil anos junto aos rochosos
Desvãos do silêncio dado da mão.

Há mil anos... Quem diria!...
E ainda nos reconhecemos!... Como quando
Ao fim do trabalho de um longo dia
Nos vamos à beira de ser soletrando!

Tivesse sido ontem, ou já agora:
Há tanto, tanto tempo numa hora!!...


PODIA

Um homem e uma mulher sabem
Sempre quem são se os olhos mentem
O que a voz desdiz – e quedos
Murmuram serenos quadros
Dum imperioso desejo que se quis.

Que apagou pétreos medos
Ao corroído silêncio dos segredos
E fez do ser um campo de aventura,
Qual seara ondulante sob a brisa da ternura.

Podia até haver temporal! Podia
Até o sol cair a pique na planície!
Podia até o sonho revulsionado
Naufragar nas escarpas da crendice,
Que o dia seria de constante calmaria
A pairar no olhar apaixonado
Dum homem, duma mulher... Que se queria!



FINALMENTE


As horas passam diluídas
Na espera dum ocaso diferente.
São sinais de morse, pontos ..
Traços - -, .. pontos, a terçar encontros
Nos S O S da gente.


São fazeres de assim,
Olhares de dizer nas vidas:
Até que enfim!

MUSA


Olha desconhecida!... O acaso mexe-se
E surpreende-nos com seus tentáculos
Na orla do verbo dos verbos, e esquece-se
De ser o que nunca foi pelos oráculos
Da vida.

São coisas profundas essas!
As paixões carcomidas, as desditas
Com que pedimos meças
Às palavras esquecidas.
Hermafroditas
Pontos de referência na malquerença
Tida;
As bexigas da vida.

Sinais de somenos, asteriscos da diferença
A escorrer do rosto, cruéis, brutais
No acatar da sentença:
Tu és a causa – eu sou a consequência.

sábado, outubro 17, 2009

Vitral J ao Poente

Ao quebrar o ritmo da sombra a voz
Inquieta luz entre os rebentos frágeis
Equidistantes ao seio de Arina a seiva
Sagaz e doce e láctea de figos e mel
Humílimos laivos de âmbar e pétalas
De rosmaninho e violetas cristalizadas
Escorrendo veios de caramelo vertentes
Da muralha aquecida de teus ombros.

Ninguém adormecerá perante a lava,
Ninguém correrá por socorro no aflito ar,
Ninguém esconderá seu rosto no receio aceso,
Ninguém escutará teu choro ante a silente hora
Excepto esse estrelado olhar à porta do universo
Divisa e legenda que assinala a ternura no destino
A garantir que cada um, é sempre. "Bem-vindo ao Sonho",
Nosso perpétuo lar em cuja câmara escura eclode a rosa
A semente do século dos séculos dita verdadeira forma
Imagem gémea da perfeita insígnia do Sol que é norma
Regra absoluta de regar as violáceas vestes com crepúsculos.

sexta-feira, outubro 16, 2009

ESCULTURA PESSOANA


Põe os teus olhos sobre o mundo e deixa-o descansar
Como se ele fosse o móvel, a mesa em que repouso os óculos
Os mesmos que vincaram o enorme nariz da humanidade supérflua
Na execução técnica de todos os impérios do colectivo anónimo
Na invenção das navegações modernistas em redor do símbolo.


Eis a chávena; eis a cadeira; eis o cigarro fumegante
Ainda de repensar os lábios que o sustentaram.



São de bronze as pernas forjadas no cruzamento das linhas
Díspares do horizonte sem gaivotas nem navios a sair da bruma
Dum olhar que se solidifica inconfundível para a História.


Depois, como quem já não quer acreditar nem ousa
Desce ao tempo, afoga em azul todos os sonhos e alucinações
E permite que a voz abdique do verbo que a suprime
Em marioneta, modela e manieta, numa cadeia irrefutável.


Toda a solidão do mundo é de menos para consumir
Este grito de árvore perdida na imensidão do betume.
Sou nós quem se ouve dilacerado pelas mecas
Profanas ao gesto explosivo da semente do futuro.
Eis o meu caule de seiva imprópria engarrafada
À pressão dos dias que não chovem o sol que estoira
Na incerteza suculenta dos advérbios inorgânicos que abafam.
Crestados estão os solos dolentes de estio e de suão
Como a pele das mãos que não escrevem o pó, o giz, a ardósia
Nem a esperança, nem a solicitude apagada dos corpos.
Corpos que se dão inteiros na fímbria esculpida do tempo
Mãe: não fervas o meu pranto com couves e nabos e toucinho
Nem permitas à sopa das horas esfriar minha inocência
À deriva como folhas vogando tresloucadas no vento norte.


És a minha terra, que língua bastarda da sorte
Escorrendo dos rios inteiros como pedaços de céu
Abrasador, infernal, boca de expectativa contorcida
Sobreiro de Florbela na trombose do verbo esclerosado e
I m p e r f e i t o


"Mea culpa, mea culpa" e de quem parte e regressa sonhando
Que do Alqueva ao mar, da planície à montanha, atravessa a sageza
Dos heterónimos de quem se está pontualmente soletrando.

quarta-feira, julho 08, 2009

Seara Acesa nos Regatos da Alegria


Há segredos que ficarão sempre guardados entre nós dois
A sete chaves entre os murmúrios dos marmóreos muros
Não há só amanhã, nem ontem e muito menos até depois
Despedidas portas abertas escondem-se na transparência
Como eu e tu que a sentir pensamos, criando consciência.

Recordo. "Surpreendo-me" disseste, ao pestanejar do gesto
Suspenso só agora veio à fala a resposta do resto impresso
Teu falar próprio como palavra da palavra exacta ao texto
Significativo – se dirá: "acariciar-te exige demasiado tempo
Esforço, atenção, predicado fiel ao verbo, pretexto afectivo;
És rebelde em teus contornos", adiantaste porém, a conclusão
Como um til de breve meneio, odalisca a dançar no palato
Contorcido baile do corpo que se desfaz entre tules e tafetás
Eclodindo cliques na língua de gás oxigenante à fala, o tacto
Sob o tecto de nós, grito que se ouve aflito por estarmos sós.

Somos únicos no amor nada receamos nem a dor, desengano
Porque todos sabem que te amo, mas ninguém como e onde
Esconde o verbo, rola-o na ponta da língua, a láctea pérola
Enrola-a entre sílabas difíceis, segreda o nome se te chamo
Di-lo sentido, alvéloa saltitante caçando os insectos desta voz
É como seara que se acende a reinventar a aurora ao novo dia
E em regatos de oiro rega a ocidente foz num oceano de alegria!

quarta-feira, julho 01, 2009

Depois de Camões e Pessoa só tu sabes a cor esmeril
Só tu sabes sentir a dor da ausência e dizer que não é nada
A transformação tida enquanto o fruto da rubra flor separada
É coisa doce que dói e corrói o dançar da seara ensolarada
No choro que é rir, fazer sala, consentir, mostrar servil simpatia
Ainda que à imensidade do mar o pranto tinja a rosácea do dia
Lhe encrespe de solidão se ao cavado oceano é roubado anil.

Basta de dizer a voz ingrata quanto ao cruel intento da cruz
Da ida (e quem sabe?) e volta remando rumo no vazio a voz
Os pés na luz a boca soprando as velas do algoz quotidiano
Navegável numa fragata de cascas de nós, máscaras sem jus
Balouçando loucas espigas entre as escarpas da luta agreste
Às ordens dos mares em revolta na planície desmaiada ateste
Aberta ao silêncio da pedra do granito azedo, eis-me aceso
Fogo preso à intenção, amada, de sonhar-te a razão perde peso!

sexta-feira, junho 26, 2009

Onde ainda houver água irmã, poderemos sempre ser
Construir a cidade acarreta seus rigores e exigências
É preciso que se queira viver nela e não custe ser feliz
Não esteja somente ao alcance de alguns ou seja Utopia
Que essa de tão sonhada amargurou pendente entre ideais
Suspensa entre vivos nunca se consumiu, nunca se cumpriu
Nem nunca foi, só oásis na visão dos perdidos nos desertos
Que entretanto caminha entrapada, zombie político das Eras
Entre os escombros, as tumbas esventradas ao deus-dará.


Mas olha, faz de conta que ainda sou quem sou e tu também...
Faz de conta que ainda és Arina rainha do Sol a solfejar luz
Faz de conta que ainda sou o escriba do teu celeiro de amoras
Faz de conta que ainda sinto o edículo aperto de teus braços
Faz de conta que ainda sentes meus lábios sobre o teu colo
E peito faz de conta que ainda somos capazes e totais a eito
Faz de conta que és prenome e eu sujeito, dupla sem esporas
A saltar obstáculos no hipódromo da cultura aos socalcos
Labirintos de encosta, nas arribas do vento olhando o mar.
Que a fazer de conta há a História que ainda ninguém contou!


Sabes?, quando os olhos se levantam na ária dos corpos entoam
Quando o vento canta o sussurro da sombra morena na pele
Quando as horas passam rápidas em bando voam consigo os dias
Quando os lábios se encontram rés das estrelas e dos oceanos
A areia esguia se furta ao tempo e cristaliza vítrea a lente doce,
Quando a solidão pesa tanto que nos sentimos multidão anónima
Quando os ramos das árvores soltas soam e tilintam iridescentes
Quando nos escondemos e procuramos no silêncio dos templos
Quando nos cruzamos nas escadas e elevadores do Sul ocaso
Quando nos abatemos no leito como aves abatidas em pleno voo
Quando a nossa loucura ultrapassa os limites da loucura possível
Quando tudo nos acontece sempre pela primeira vez estamos
Preparados, definitivamente preparados prò que der e vier
Cais de chegada como de partida, portas do sonho como da vida
Nenhum impedimento existe quando deveras se é homem e mulher.

terça-feira, junho 16, 2009

Sob as Ameias Rúbeas as Águas do Bósforo

Junto às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos pubianos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.

Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?

Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.


Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!

sexta-feira, junho 12, 2009

Sentimento Vertical


Antes da palavra o nome, o verbo, o verso despido e nu
Não a intenção, sim primeiro ela, e só muito depois nós
Assim espontânea cerzida azul universo estrelado e cru


Aberto para o futuro e mirante, janela dos egrégios avós
Momento feito aqui, feito de agora, pleno de mim e de ti
Onde a saudade nos dói, explode, implora, racha, tritura
Tortura, e não mata, põe na cela a sela e sela, monta a sós
Doma a espera, pica, incita, espora, a incendeia ideia pura.

Antes da palavra, ecolalia, anagrama circundante, o afago
Nascido do princípio ao fim, em si de imaculada loucura
A eito de mim, fogo me arde e chama, aura no céu largo!

sábado, junho 06, 2009

Sábio, Abraão Revela a Alma

Na aldeia, consta que Abrãao tirava vantagem nos negócios...
Apresentava sua esposa por irmã, tamanha beleza a sua era
Que aqueles que consigo cambiavam ouviam sonhos e ócios
Esquecendo os contratados, trocando os lucros pela quimera.

Também Madalena outrora perdida por iguais equinócios
À sua filha, por tão bela a ver, enfim o mesmo nome dera
Princesa herdeira do trono de Deus na Terra entre os sócios
De uma irmandade por cujo cálice seu tinto sangue bebera.

Porém, tenho muito mais sorte que a mulher de Jesus Cristo
E que o Patriarca dos tempos ancestrais, que a amá-la existo
Além do nome a pessoa também: ela me domina e escraviza,

Porém, incandescente exerce a magia de simples pitonisa
Talvez musa, ninfa, se da fantasia Maia a tristeza suaviza
Só de vê-la troiana lucro ternura onde antes havia quisto!

sexta-feira, junho 05, 2009

Soneto a duas tartarugas (que eu conheço)

Desexilado sou agora que me nomeaste aqui
Entroncamento de sentidos alerta na esquina
Adorno andrino no dorso da cidade imo de si
Estatueta breve em marfim ao Sol de Arina.

Da água a seiva húmida de coligir a pele senti
Sede sob a concha o corpo aos membros ensina
Que no frio é casa ou no estio o meio que escolhi
De guardar a asa do lento voo pelos rios acima.

Até à nascente do inclinado sol, o raio, a luz, a seta
Que a estrela que busco entra pela janel@ abert@
E torna cada segundo contigo mais que a hora certa.

Porém, o melhor da desibernação é este asterisco
Por cuja mão cresce o astro ou se clarifica a meta
E sacia o vício dando-me na boca precioso marisco!
Secreto sussurro manso da helénica brisa

Breve mordisco o lóbulo e sopro teus cabelos de seda doce
Acendo a sede e cobro dízimo ancorar na curva do pescoço
Onde deponho murmúrios de sofreguidão vulcânico alvoroço
Baía fosse apagava o fosso do gesto ao som, da cor ao morse:

Descansa o olhar aqui na voz branca dos terraços sobre o mar
Tece a rede que nos impede a nós de vogar à deriva, naufragar
Entre a luz do silêncio diurno estrelado sob o peso do ser as mós
De soletrar os verbos acesos rolados na ponta da língua luminosa
Cruzada rosa entre operários sorrisos em turno os dentes da prosa
Trituram taciturnos tácitos fadários nos ermos as naus nós após nós
Milhas feitas sobre as fragas correntes entre as gentes estas ilhas
Cujas mulheres entretanto mães também são igualmente filhas.

E adorna quem te adora da ré à proa como uma labareda cristalina
Sonho e alma na marina onde aproa Arina que só a beijos abalroa!