A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

terça-feira, novembro 10, 2009

(Sobre tela, um óleo de rapariga subindo a escadaria de entrada duma
Escola Secundária, a fim de ir fazer exames.)



Nos degraus das escadas os olhos postos
Sobem lestos e azulíneos através dos rostos
Cínzeos de bronze e pedra lacerados cedo.
Tão de repente demasiados dos sustos
Há órbitas sôfregas em ausentes custos
E rangem os granitos sob os pés do medo.


Fitam-se ângulos rasantes à íngreme escalada
Horizontes tangentes chocando estrelas no vértice
Só de humano nos esgares perpendiculares da escada.
Raios disparam-se em traços de ícones formas em hélice
Ferindo plásticas portas encimando telas
Feitas das lonas tostadas nos mastros das velas.


Fendem-se os gestos no cinzento dos gritos!
Gemem lágrimas dos ângulos aflitos!
Gladiam-se os exteriores em espólia conquista.
Esvoaçam tecidos frémitos adolescentes; crista
De onda em plúmbeo orgasmo de atritos!...
VER É SENTIR


Procura o silêncio. É aí que reside
A profundidade das coisas simples;
É como estar na berma que divide
O ser pela fronteira das arestas.


Sejamos breves na luz que incide.
Acutilante é estar no raio das frestas
E vogar como fumo em espirais deslizes

Assim se podem aspirar imortalidades,
Não por diatribes do som que desdiz;
Que quanto mais simples, mais são verdades
No perfeito do verbo que ousa
E diz,


Calado, mudo, incauto dum sereno olhar
Ao saber que ver é sentir sem esperar.
Secretas Insignificâncias,
Omissões Breves, Fortunas Vãs



Há os segredos que segredam
E calados dizem certos indizíveis
Jamais possíveis aos que se quedam
Perante a penumbra oculta dos sinais,
Na rubra resistência aos signos credíveis.


São a indumentária dos serenos murmúrios,
Dos rituais na ternura das noites sigilosas
Discretas, profanas, amantes e pecaminosas;
Mas também as leigas preces nos subúrbios
Das mães solteiras ao filho que tarda fora
Madrugada adiante na boémia noite, a demora.


E que como um luxo do coração no dizer
Imperam ainda além das palavras reais
Dos nomes, das pessoas, das coisas, do ser;


Que vistas à lupa dos factos que tais
Participam em tudo que é por acontecer
Sendo quanto não foram... E muito mais!
Instante Instantâneo



Quando a sombra desliza protuberante
Entre as frestas da penumbra secular,
É a fantasia concubina em sonho distante
Esboçada promessa de ser, em lesto chegar.

É a magia do desejo traçando a secante
Ao interno novelo que enleia as preces,
Transformando o longe num instante
Em que te fazes autêntica... E apareces.

É o fulgor aceso do flashback desejado
A enobrecer a realidade, pondo amor
Inesperado no acaso, tornado áurea cor.


E também é o verde semáforo sincopado
Frente à zebra que nos queremos transpor
Em que à ousadia sempre incita outro Condor!

sexta-feira, novembro 06, 2009



l.
Guardas a avareza de Israel
A luxúria de Roma – bebe neste sol... bebe!
Vives na aspereza da morte
Da sorte
Em gestos lentos de quem passaja tempo
– Bebe neste sol... Bebe!
A planície lá ao fundo respira (ainda)
Como quadro crispado se
Sobre sendo.
As horas rompem másculas
O silêncio
Em separata e cuidados.
Receias-te e recompões-te sequencialmente
Sem notar que há mar e fogo e sede.
Sonhas e sondas o hemisfério

Pela sinédoque do arco do arco-íris
– Bebe neste sol... Bebe!



2.

A alva lava está entre mim e ti.
Com ela mergulho – pertenço-te.

Quando se parte somos distância que se concretiza em nós como se fosse órgão vital
Vísceras, úlcera, soro, sangue ácido a corroer-nos por dentro forjando esquecimento
Quase incandescente a soletrar-nos solidão, ponto agreste e difuso na planura do ser
Mancha de fogo na planície que abarca horizontes desencontrados, sonhos daninhos
Na monda dos riscos e das formas, intempéries de medo que assolam a seara submissa.


Não me ponhas nos gestos sentimentos que não tive nem nas noites pessoas que não houveram
Quando no silêncio das madrugadas perscruto as ansiedades de outros silêncios fugitivos
Quais felinos domésticos caçando soturnidade e mistério pela calada dos tempos pueris.


Permite apenas que perdure o suficiente para não querer morrer sem choro e voz e canto
No vegetal suspiro de ficar alerta, a palavra à flor da pele, os olhos inquietos
De pardal assustadiço espiado bebendo a água das fontes dos caçadores furtivos e implacáveis.



Tenho na boca a salinidade das ervas de uma açorda que não quis, o aroma dos poejos
Bravos, o judaico amargor no alho duma esperança amassada em alquímico almofariz.
Sou aquele que não pretende, mas pretérito conjugado por mais uma dúvida a amadurecer
Sob a brusquidão de todas as imagens apagadas, de todas as fotografias perdidas.


Cada vez que partes é de mim que te escondes, outra rocha sob a espuma das marés quotidianas
Vaivém ensurdecedor, casquinado, ósseo, terrífico, por todos os fantasmas que não foram
O sentimento de busca no abraço do vento envolvendo teu colo de planície dourada musical
Ondulante, adolescente dançarina, entregando seu ventre ao orvalho das madrugadas de Junho
Num grito de acordar universos, porque se nos mantivermos vigilantes, Deus não adormece...


Rosas sem fim. Flores caídas
Num chão amassado por rodas,
Sem outras forças para lidas
Que não as que nos restam, tidas
Como perdidas, quase todas.


Trabalhar e comer, duas partidas
Para um só princípio: cordas
Que nos aprisionam as vidas,
Mas nos estimulam e dão forças.


Alimentas a vontade criadora
Com subtis plumas de prazer,
Qual forja para o pensamento.
No entanto, eu, aqui intento
Que do mundo serás senhora
Se no corpo fores também mulher!




quinta-feira, novembro 05, 2009


QUANTAS SÃO AS VOZES que proliferam
No nosso encontro há fantasmas
Inoportunos como as folhas caídas
À sombra de memórias célticas
Copadas no tinto da sofreguidão dúbia
Recôndita, ancestral, milenar, esguia
Escorreita de teus gestos de divina
Deslocada pela ausência semente
Da saudade imperfeita do futuro
Por que lutas e estudas e antecipas
Em cada gesto esquecido de mim
De nós.


És uma porta a que não sei bater
Sem tremer nos intentos punhos
Uma impotência interrompida no olhar.
Ninguém saberá este silêncio infrutífero
Por cada palavra em dizer calada
À força do medo e insegurança e solidão
E anos infindos a sofreguir expectativa
Ansiedade púrpura lívida de morte
Como esperança hipotecada de querer ser
Estar em minutos repartido segundo a décimo
Em ti, nos olhos, nos lábios, no sexo
Na aspiração contínua do dia a dia
Do sentir apagado das palavras...
... a pronunciar.


A tua alma é o teu corpo todo. De lés a lés
Não peças refúgio; não te impliques na lógica.
Aproveita o ar que te toca não só para respirar,
E deixa a diferença caminhar a teu lado
Como se ela fosse o teu par de dança, a tua paixão.
Mas sempre que o sol ofuscar o teu olhar
Com seu brilho de frente em laranja crepitante
Admite-o como teu igual e concede-lhe a graça de nascer amanhã
Outra vez, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra
Até ao clímax final que é a morte de cada um.


Quando morreres a morte morre contigo também.
É imprescindível que assim aconteça para que a terra continue a girar,
Os peixes subam os rios na procura de águas límpidas em que desovar,
Ou os homens ganhem a certeza de que as estrelas existem
Ainda que a noite urbana seja clara como quase nunca o dia.



Mas se no ingresso do mar ouvires de vozes profanas
Que te esperam a indiferença e solidão de não teres partido
E o eco amorfo dum abdicar que faz escola,
Não desesperes: que és mais que o produto da reunião das partes,
E teu corpo merece sem sombra de dúvida a alma que o constitui,
Porque a vida não é aquela linha paralela ao comboio que tomámos
Em que outra carruagem segue sempre à nossa frente,
Mas sim a alma que te acompanha para onde quer que vás.

terça-feira, novembro 03, 2009


Sabes como é isso, de quando a gente se vira
Contra a ansiedade e angústia e desespero
... E luta!
Deve ser-te fácil pois resististe
Sobreviveste
À tua infância tanto quanto eu
Que nada sou além
Este produto do sonho pela verdade, emigração e vero exílio.


E que faz a dor ser pequeno insecto
À volta da vela luz de descobrir sempre
Outro caminho mais sereno e seguro de queimar as asas,
Ou a simplicidade dum girassol fixando o rei
De igual para igual exalando aroma e sementes
Por mais sequiosas que sinta suas raízes.


Pois bem: é mesmo assim que se aprende.
Reconhecer é pelo menos saber;
Duas vezes é mais importante que um só experiência,
Como se fôssemos eu e tu numa curva
Contendo as lágrimas e obrigando o rio a seguir
U N O entre um de cada lado
Embora revolto contra as margens de nossos lábios.



Nunca esqueças então que no dia em que nasceste
A terra fez anos e celebrou-te
Argila da festa de esperar-te
E repetir-te
E referir-te
Dia de todo ano
Dia de todo o mês
Dia de todo o dia

Que nem fosse a alegria de teu nome
A porta que se abre para a vida
Na festa do avental secreto das flores
Raparigas celtas dançando plenas em roda
Na clareira silvestre da beleza que te sobra.


E escorre e molha e me lava e me resume
Quanto se apresta



E me resta e edita
Do passado banhado por puro sonho e cresta
A gesta

A naufragar na latinidade de teus olhos.


É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.

É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.

Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.



Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.

É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.
“ What’s in a name? That we call a rose
By any other name would as sweet.”




Às vezes perguntamos ao nosso caminho
Quem somos nós
Ou a nós mesmos qual é o nosso caminho.
E não sabemos como sair da baralhação dos sentidos.
Fazemos dos sentimentos um escudo que nos ataca
E não ouvimos distintamente os segredos
Que a vida tem para nos contar.

Mas também às vezes, quando amanhece nebuloso
Ou o sol se nega a repetir que temos em nós tudo
Principalmente aquilo que ele mais ama
Com sua voz de violar-nos a alma pelos olhos
Uma rosa vermelha vem pousar-nos em frente,
E dizer-nos que ainda é possível a ousadia
Que ainda é possível o sonho
Que ainda é possível o sorriso
Que ainda é possível a ternura...


Porque mais do que a voz e a língua
Há o silêncio de um olhar que significa.




AS PESSOAS REESCREVEM-SE no improvável
Qual forma verbal de dizer o silêncio
De aspergir o futuro, a imensidão, o infinito
Tão contrária à força de iludir tranquilidades
Como as sebes de ciprestes dos talhões urbanos
Dos quadros variáveis nas janelas dos autocarros
Dos comboios, computadores portáteis inoportunos
Mas sempre presentes em cada pálpebra descaída
De quem não quer ver quem o acompanha, ter
É ser-se quem é, onde está, para onde vai, assim
Sem querer, ou sem saber de querer ir ainda
Bater às portas apenas pintadas nas paredes
Nos muros que Berlim ergueu em cada um
De nós, atados fazendo-nos dois pelo menos Pessoa
Que foi mais também não teve vida fácil
Nem compreender significa tornar as coisas simples
Dóceis, unas, definidas, homónimas ao ser
Estarem prontas e disponíveis ao pragmatismo
Exigente, cruel, verdadeiro, imoral, financeiro
Como cada poema escrito a pensar no amanhã.


Porque hoje é uma palavra que marca a fogo.

quarta-feira, outubro 28, 2009

“Gracias a la vida que me ha dado tanto/ Me ha dado la risa y me ha dado el llanto/ Así yo distingo dicha de quebranto/ Los dos materiales que forman mi canto/ Y el canto de ustedes que es el mismo canto/ Y el canto de todos que es mi propio canto”. (Mercedes Sosa)


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.

E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...

A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.


"Quem é essa que desponta a Aurora,

Bela como a Lua,

Fulgurante como o Sol,

Terrível como as coisas grandiosas?"

(Cântico dos Cânticos, 6,10)

sábado, outubro 24, 2009



PROMESSA


É quando o sulfuroso da alma
Se entrega ao desmaiado azul,

E as lacrimais águas se fundem
Num só rio em busca da voz

Que tu e eu, meu amor
Ganhamos sentido nesse futuro que caminha
E baloiça sob a pendular força da incerteza,
Mãos nos bolsos,
Cordel do pião a arrastar na areia...

Nunca o esqueças
Sobretudo se os nossos netos o desconhecerem
Quem são – quem foram.

SAUDADE


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.

E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...

A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.
(RE)ENCONTRO


Ninguém adivinha até onde pode chegar
A distância dobrada pela solidez
Do silêncio, pronto, finito à pequenez
Do verbo – amar é sempre ruptura
Ponto de entrelinhamento , sutura
De conjugação propensa ao ansiar
Ambíguo de escrever a sublime doçura
Dos olhares que se perdem em buscar.

Somos ínfimos, é certo, no sentido pleno
De nos dizermos grandiosos
Num mundo tão pequeno.
“ Onde foi que nos vimos pela última vez?!... “
Façamos de conta que foi na imensidão
Da planície ensolarada dos tempos talvez
Há mil anos junto aos rochosos
Desvãos do silêncio dado da mão.

Há mil anos... Quem diria!...
E ainda nos reconhecemos!... Como quando
Ao fim do trabalho de um longo dia
Nos vamos à beira de ser soletrando!

Tivesse sido ontem, ou já agora:
Há tanto, tanto tempo numa hora!!...


PODIA

Um homem e uma mulher sabem
Sempre quem são se os olhos mentem
O que a voz desdiz – e quedos
Murmuram serenos quadros
Dum imperioso desejo que se quis.

Que apagou pétreos medos
Ao corroído silêncio dos segredos
E fez do ser um campo de aventura,
Qual seara ondulante sob a brisa da ternura.

Podia até haver temporal! Podia
Até o sol cair a pique na planície!
Podia até o sonho revulsionado
Naufragar nas escarpas da crendice,
Que o dia seria de constante calmaria
A pairar no olhar apaixonado
Dum homem, duma mulher... Que se queria!



FINALMENTE


As horas passam diluídas
Na espera dum ocaso diferente.
São sinais de morse, pontos ..
Traços - -, .. pontos, a terçar encontros
Nos S O S da gente.


São fazeres de assim,
Olhares de dizer nas vidas:
Até que enfim!

MUSA


Olha desconhecida!... O acaso mexe-se
E surpreende-nos com seus tentáculos
Na orla do verbo dos verbos, e esquece-se
De ser o que nunca foi pelos oráculos
Da vida.

São coisas profundas essas!
As paixões carcomidas, as desditas
Com que pedimos meças
Às palavras esquecidas.
Hermafroditas
Pontos de referência na malquerença
Tida;
As bexigas da vida.

Sinais de somenos, asteriscos da diferença
A escorrer do rosto, cruéis, brutais
No acatar da sentença:
Tu és a causa – eu sou a consequência.

sábado, outubro 17, 2009

Vitral J ao Poente

Ao quebrar o ritmo da sombra a voz
Inquieta luz entre os rebentos frágeis
Equidistantes ao seio de Arina a seiva
Sagaz e doce e láctea de figos e mel
Humílimos laivos de âmbar e pétalas
De rosmaninho e violetas cristalizadas
Escorrendo veios de caramelo vertentes
Da muralha aquecida de teus ombros.

Ninguém adormecerá perante a lava,
Ninguém correrá por socorro no aflito ar,
Ninguém esconderá seu rosto no receio aceso,
Ninguém escutará teu choro ante a silente hora
Excepto esse estrelado olhar à porta do universo
Divisa e legenda que assinala a ternura no destino
A garantir que cada um, é sempre. "Bem-vindo ao Sonho",
Nosso perpétuo lar em cuja câmara escura eclode a rosa
A semente do século dos séculos dita verdadeira forma
Imagem gémea da perfeita insígnia do Sol que é norma
Regra absoluta de regar as violáceas vestes com crepúsculos.

sexta-feira, outubro 16, 2009

ESCULTURA PESSOANA


Põe os teus olhos sobre o mundo e deixa-o descansar
Como se ele fosse o móvel, a mesa em que repouso os óculos
Os mesmos que vincaram o enorme nariz da humanidade supérflua
Na execução técnica de todos os impérios do colectivo anónimo
Na invenção das navegações modernistas em redor do símbolo.


Eis a chávena; eis a cadeira; eis o cigarro fumegante
Ainda de repensar os lábios que o sustentaram.



São de bronze as pernas forjadas no cruzamento das linhas
Díspares do horizonte sem gaivotas nem navios a sair da bruma
Dum olhar que se solidifica inconfundível para a História.


Depois, como quem já não quer acreditar nem ousa
Desce ao tempo, afoga em azul todos os sonhos e alucinações
E permite que a voz abdique do verbo que a suprime
Em marioneta, modela e manieta, numa cadeia irrefutável.


Toda a solidão do mundo é de menos para consumir
Este grito de árvore perdida na imensidão do betume.
Sou nós quem se ouve dilacerado pelas mecas
Profanas ao gesto explosivo da semente do futuro.
Eis o meu caule de seiva imprópria engarrafada
À pressão dos dias que não chovem o sol que estoira
Na incerteza suculenta dos advérbios inorgânicos que abafam.
Crestados estão os solos dolentes de estio e de suão
Como a pele das mãos que não escrevem o pó, o giz, a ardósia
Nem a esperança, nem a solicitude apagada dos corpos.
Corpos que se dão inteiros na fímbria esculpida do tempo
Mãe: não fervas o meu pranto com couves e nabos e toucinho
Nem permitas à sopa das horas esfriar minha inocência
À deriva como folhas vogando tresloucadas no vento norte.


És a minha terra, que língua bastarda da sorte
Escorrendo dos rios inteiros como pedaços de céu
Abrasador, infernal, boca de expectativa contorcida
Sobreiro de Florbela na trombose do verbo esclerosado e
I m p e r f e i t o


"Mea culpa, mea culpa" e de quem parte e regressa sonhando
Que do Alqueva ao mar, da planície à montanha, atravessa a sageza
Dos heterónimos de quem se está pontualmente soletrando.