A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, março 28, 2013


NÃO AOS JAMAIS!



“Um não desfaz no carinho de quem a gente gosta, só por causa que os estranhos estando vendo.”

In JOÃO GUIMARÃES ROSA, Dão-Lalalão (O Devente)



A sombra é escassa no verde tanto
Que a seara se abraça à esperança
Diluindo seu grito calado num manto;
E ali mesmo, sob o céu singelo, alcança
Os poréns do voo que toda a terra quer.



Podia escolher qualquer nome, exigir
Do mundo e homens todos os direitos,
Fazer de seus ramos vis e nunca florir,
Vingar-se da solidão e demais efeitos
Que à planície são atreitos e normais.



Mas prefere vestir-se e dançar no vento,
Dominar os altos cimos e profundezas,
Pôr os braços à volta da magia do tempo
E beijar a seiva de nossas vãs certezas.



Ou até, ninguém pode duvidar sequer!,
Esculpir as vozes primeiras, ancestrais
No marulhar das folhas como uma mulher
Se penteia, tirando do futuro os «jamais!» 

sábado, março 23, 2013


TERNO BROTO TENRO



Abro a porta à primavera
E abraço-a no hall de entrada
– É que foi fria e longa a espera,
Tornando-a, por demais, desejada.



Tenho os teus gestos na memória
E despidos de mim os ramos teus;
Porém as águas, no rio da história
Redemoinham em pátios e gineceus.

Dizem que é um calar interrompido,
Argumentam, agitam a mansidão…
E, como quem se rebela do olvido,
Gritam seu «sim» mesmo se dizem «não».



quinta-feira, março 21, 2013


ESTAÇÃO DA FOLHA EM FLOR



Daqui vejo teus olhos em flor:
São palavras com asas de borboleta,
Folhas que siam, outro Condor
Nesse céu que nos sonhos espreita
Como o vivo lótus, que vivaz te enfeita.



Mesmo quando se te outona a voz
E em nós, aqui a primavera nasce,
A amizade é o pólen que o poema pasce
Colhendo a farinha pura de nossas mós,
Essa língua comum te banha e nos estreita
Num abraço que ao ano inteiro aceita…



És a minha alma nua, e plo reverso,
Tanto, que quando sou significante
Tu és significado; e se apenas verso
Tu és mensagem, referente vivo e cintilante.



terça-feira, março 12, 2013


LÚMEN MÁGICO



Acondicionada a voz no timbre exato
Eis que o sol tinge de luz o plano aberto
E, acesos os olhos percorrem o visto fato
Para exercer seu míster, quando desperto…

Podia eu dizer-te «bom dia, até que enfim
Te vejo, sem ser em sonhos», ou mesmo ainda
Que «na realidade és, decerto, para mim
Bem mais sensual, preciosa, mágica e linda».

Podia escrever co’a língua os poros de teu rosto
Um a um, e desenhá-los com sílabas puras,
Permitir aos lábios esse calor de agosto
Dos verões que à alma dão as divinas criaturas.

Podia… Que não mentia. Como, aliás, nunca minto,
Que teu olhar é o sol que dá luz a quanto sinto!

segunda-feira, fevereiro 18, 2013


DESTINO DE CAMPEIRO 



“Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar.”
JOÃO GUIMARÃES ROSA, in Dão-Lalalão (O Devente)

Na capanga levo o sol
Que é astro todo o ano.
Porém, neste peito mole
O coração em desengano,
Me diz que a lua é quem mais manda
Se um homem por este mundo anda.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013


NAS COXILHAS, A ADIVINHAÇÃO DA PRIMAVERA



“– Você acredita em pressentimentos?
– Sempre.”
In ÉRICO VERISSIMO, Sonata

Quando as árvores contam segredos risíveis
Nascem brotos dos ramos do tempo ser,
E as borboletas petiscam pólenes invisíveis
Entre os emaranhados da paisagem a tecer
Fevereiros aguardando o detonar marços possíveis…



São eles quem escreve o verde para o siar dos anos
E pintalga de pombos e rolas turcas o céu de jardim,
Ou soletra as baladas que a dedilhar nos damos
Mãos nas mãos, olhos nos olhos, ante o alecrim
Que crepita afogueado na lareira dos desenganos.



E nessa labareda em que Arina tão vivaz remanesce
O espreguiçar do vento, o estremunhar da fonte,
O murmurar da relva a sua seiva, impávida prece,
Eis que caminhas meneando íntimo horizonte!
  

domingo, fevereiro 03, 2013


ATÉ O BREU TEVE UM NASCIMENTO COLORIDO



Pode haver tamanha iluminação?…
E porém, a noite se aproxima
A passos largos de segunda intenção
Criando o breu, de baixo pra cima
Sob os mistérios das vivas cores,
Nas quais, pressentidos temores
Ficam à espera de maior negridão.


terça-feira, janeiro 29, 2013


LUCIDEZ



Desvenda os receios que te vedam o ver
E desce a venda que nos cresta a alegria:
A regra do rigor é a exata cor do crer
Querendo na alma a querência que sia.
Não hesites nunca perante o incontingente
Porque este medita o êxito ante a ousadia,
Põe a nu o anseio melhor, o fulgente,
Quebra os instantes retinentes no dia.



Depois, cresce como qualquer outra flor
E alivia o ser do peso da vontade
Que entre a desmedida sede, a dor
Retesa o arco, aponta a ansiedade
Qual seta venenosa, mortal, ao amor,
Obliterando-lhe a sua maior qualidade!



sexta-feira, janeiro 25, 2013


SILHUETA NO NEVOEIRO



Vejo-te, a subir, na avenida
Esguia, falando ao telemóvel,
E as galochas brilham na lida
De tornar o destino possível.



Assertiva, de cabeça inclinada
Parece discutires com alguém;
Todavia, pla firmeza da passada
Pressinto estar tudo muito bem.



Umas vezes soletras, ergues a voz,
Repetes, reiteras determinada;
Outras, anuis quase calada
Como quando estávamos sós.

Com quem estarás a falar assim?
Creio ouvir o que dizes, distante
Do terraço alto, ser dissonante
Perante o ver-te, sem me veres a mim!

quarta-feira, janeiro 23, 2013


PRISAO CABOCLA



Pouco a pouco ante a colina dos gestos
Perco o olhar sob o querer da luz e cor,
Que na mansa coxilha do verde fazedor
O fungu nada pode com seus molestos,
Seus torpores, seus azedos gargosos
De cerdear as asas ao são desejo,
Pois o flete do sonho tem por gostosos
Os galopes no ventre vivaz e benfazejo.



Então, macanudos braços jungidores
Manuteiam com macota intenção
Meu ser prendido nos meigos favores
Dessa leda e brava alma de chinocão.



terça-feira, janeiro 22, 2013


SEREI(A) ETERNA



O desgaste não ensombra o ser
Nem o declive empurra a vontade,
Que o ângulo que consolida o querer
Está aí, na confluência da liberdade
Com o conhecimento de si, do meio e dos demais
– Que o invento do progresso é sermos iguais.

Burlequeando assim pela cidade
Com os valores apontados na esquina,
Jamais os defeitos serão idade
Para quem nunca deixa de ser menina…

Porém, o mar a chama, insinuante
E lhe declara devoção, ante a negra terra;
Contudo o destino, fatal, determinante,
E sem pudor, a janela da vida lhe encerra!
  

quarta-feira, janeiro 16, 2013


INSTANTE DERRADEIRO



Acordou-me hoje demasiado tarde o olhar
E quando reparei, já tinhas passado…
Que este instante só é eterno se ficar
Preso ao querer com durar ilimitado.



O que importa jamais perde significado
Mesmo após o seu tempo e o prazo expirar,
Porque o mundo ganha o seu sentido cruzado
Entre o real e o que o coração consegue imaginar.

Depois, esperei que voltasses de igual modo…
Serias outra do raro que nos é constante,
Daquilo que fomos e seremos, desse mesmo todo,
Ou que somente a vida nos traz de rompante.



Voltaste. E foste exatamente como eras outrora,
Quando o sentir te clicou nesta foto de agora!

segunda-feira, janeiro 14, 2013


REGRA DE PARÁGRAFO ÚNICO



Arrisco o gesto até ao lusco-fusco…
Sou radical na fuga prò outro lado,
E neste intento de esconder-me me busco
Eu de mim, por mim próprio abandonado.

Não tenho proposta de futuro nenhum,
Nem me acalentam valores ímpares…
Quero apenas o sono do sonho comum
A perspetiva de nele tu entrares.

Esta é a parada, e dela não abro mão,
Num tudo ou nada para seres feliz,
Que no jogo da vida a única condição
É só ganhar se quiseres o que eu quis!

domingo, janeiro 13, 2013


OUSAR COMO TEMPO NO VERBO



Pedir ao tempo seu mister
Dado à flor sem procuração,
É ter caprichos no aluguer
E muitas culpas por razão.

É dar hipoteca por aval
Dum bem que ainda se não tem,
Meter anúncio no jornal
Do que se quer não o saiba ninguém.



É descer o rogo, pedido,
Às profundas emocionais,
Dar à voz o medo sentido
Por si mesmo e plos demais.



O que ao tempo pertence,
Seu mister, e sabedoria,
Ninguém jamais o merece
Sem o criar com ousadia!

sexta-feira, janeiro 11, 2013


ESPECTRO NO NEVOEIRO DA HISTÓRIA



Acordar em Portalegre
Numa manhã de nevoeiro,
É espreguiçar de almocreve
Num chistar de carreteiro,
Que enxota do sono leve
A espertina do dia inteiro

Prà surdina dos rodados
No caminho das caravanas,
Que o sal do povo e soldados
Trouxeram idas semanas,
Em pó e pisos esburacados
– Pobre rancho e duras camas!

quinta-feira, janeiro 10, 2013


DA INEGÁVEL IDENTIDADE



É na correnteza das horas
Que ligam os dias aos dias
Os meses aos anos, e as alegrias
Que nos damos aos puros agoras
De sermos ainda quanto fomos
Como nos dizemos ser – e somos.

Nada nos acode, nem limita;
Nada nos obriga, nem liberta.
Mas se a dúvida desperta
E a curiosidade incita,
Eis que de pronto nos erguemos
A crer em quanto queremos.



Queremos o sol na réstia da alma
E o brilho da flor na clara voz:
A linha da vida a correr na palma
Da mão, que o carinho somos nós!

sexta-feira, janeiro 04, 2013


SONETO DOS LÁBIOS FECHADOS



Dizem ser legítima a maior das dores
Se causada pela distância entre seres...
Em mim foram, porém, outros causadores
Que do silêncio fizeram seus pareceres.

Não "ouvi" nos recatados bastidores
A doce voz que me motiva os afazeres,
Nem do ocaso eclodiram vivazes cores
Antes tão prontas aos entardeceres.

Quis-me o vil e cruel destino assim testar
Esquecendo que nada pode contra mim,
Que tua foto, sereno, posso sempre olhar

E ver o carinho brilhar no desktop aceso
Tão perto que me dita cada verso, enfim
Seres da poesia o carmim que me tem preso.

quinta-feira, janeiro 03, 2013


AFLORAR DESCENDENTE



Detalhe oblíquo a teus lábios
Este beijo discreto, descreve
Na sede, dos poemas sábios
A fonte, a cascata de seda leve
Que breve, ao teu colo aflora.

São cachos de sonho caindo
Sobre as colinas dos ombros,
E que ante o querer infindo
Quebram receios e escombros.
Abatem ânsias à demora... 

Tocá-los com o olhar, assim
Tão plenos de sedoso agora,
É penteá-los com o marfim
Deste sentir que nos escora!    

quarta-feira, janeiro 02, 2013


SOBRE A ÁRVORE, OS MADUROS VOOS



Voar para o sul como onda,
Cruzar o destino inventado
Num cruzeiro que nos sonda,
É como o soletrar descuidado
Na ecolalia dos tempos idos,
Em que o passado nos ronda
Com os futuros prometidos.

De sua gesta o grito ao alto
Não tem qualquer contramão,
Que a distância é só um salto
Entre a cor, o sonho e a visão:
Pontos na luz em linha aberta
De Portus Alacer a Portimão
Frente ao ocaso que desperta.

Sua direção, fi-la por minha;  
Seu destino, pra mim o quero.
Que ao voo que se acarinha
É dado ledo sentido (e vero),
Nessa linha curva dos ideais
Onde o querer é pouco austero
E se quer sempre, e sempre mais!

terça-feira, janeiro 01, 2013


DA PERMANÊNCIA DO INSTANTE



Só nas vésperas do segundo, o dia se faz instante.
Porém, no caminho colhe aqui e acolá décimos de cor
Com que possa refazer a saudade no breu cessante
Dormente, e siar nos sonhos com asas de condor.

Não leva mais nada na bagagem, senão a cortante
Aragem dum frio que promete. Ei-lo assim, ante a dor
De descrer em mim, este humano, simples figurante
De coreografia, cujo espetáculo não tem dura de valor…

Os olhos, me sobreviveram para além daquilo visto
Incapazes contudo, de reter o colorido do céu em si
Nem da memória outro arquivo mais justo me registo.

Mas soube a voz que ecoa sobre tudo quanto eu vi
Dizer-me que ser é um cógito (vejo-te logo existo)
Pelo qual nunca me separo – nunca me separo de ti!