A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

segunda-feira, junho 10, 2013

POBRE POETA (É O POVO)



Ao dia em que Camões morreu
Deram-lhe os “amigos” outro funeral:
Fizeram dele a efígie e o camafeu
Pràs comendas do “ilustre” Portugal.

De amargurada vida feneceu,
Mas após morte teve pedestal…
Até parece que o portuga nasceu
Só pra ser molestado e passar mal.

Porém, hoje vaticinam doutos sábios
Serem o valorizar do património
E a ruralidade, os novos astrolábios



Que vão tirar-nos deste Santantónio,
Desta Troika, por cujos finos lábios
Andamos todos neste pandemónio! 

sábado, maio 25, 2013

SABER ESCUTAR NÃO É DOENÇA



Com o enredo entre os dentes
Oscilo a cabeça num «não, não, obrigado!»,
Que para sermos todos diferentes
Ninguém precisa ser desarranjado.

Se estou muito bem como sou
Sem qualquer capricho ou mania,
Então, por que me hão de pôr nesse voo
Ao ninho dos cucos da patologia?

Loucura é ignorar, sermos indiferentes
A quantos mesmo ao nosso lado,
Com gestos inseguros e palavras reticentes,
Só pedem a atenção dum ouvido bem lavado…

A POESIA NÃO SE DIZ: DÁ-SE



Que o segredo do tempo está
No tempo guardado sem porta
Onde te espero, e de pronto já
Pra não me esconder do que exorta.



Na lapela, a pronúncia da fala
Trago como joia, pregão, crachá,
Pois muito pode quem não cala
O poema, que em vez de dizer, dá.

quinta-feira, maio 23, 2013


NASALANDO ME ALENTEJANO



Estirado na rede me alongo
E desenleio por leve balanço,
Como qualquer til em nu ditongo
Que por vão repasso ao descanso.



Atrevo-me a soletrar-lhe o gesto,
A pôr-lhe vincos de sílaba sã;
Porém, cada acento é só o resto
Do escoado caféii da manhã.



Tenho esse não-sei-quê de preguiça
Na fala desde que a letra me ocorre…  
Mas como detesto entrar na liça
Calo-me, e a pronúncia morre. 


quarta-feira, maio 01, 2013


QUEM PREDICA SE CONJUGA



Quanto pode um verbo que é predicado
Dum sujeito que se não sujeita aos jugos?
Mais que todos os complementos ao lado
Com seus lamentos, amuos e resmungos…



Todavia, se predica pode ser condenado:
Que os inocentes não lhe perdoarão jamais
Ficar de fora do pecado, sendo seus iguais!



sábado, março 30, 2013


NOTURNO VOO VERTICAL



Quão espessa a tessitura da noite
Se mais que o silêncio a entreteça,
Ainda embora o peito sôfrego acoite
Esse abraço que só a distância terça…  

Mas a voz desce ao fado, tange-o
Melancólico ao dedilhar das ondas;
E o barco do destino, por contágio
Balança o ser em repetidas rondas.



Circulares e centrífugas todas elas
Numa espiral em contraluz cerzida,
Se a ternura solta ao vento as velas
Para receber e doar a própria vida! 

SOMBRA EM TRÂNSITO  


Ouço pulsar a planície ao ritmo do sol breve…
E o silêncio ecoa como um coração incansável.
Mas à sombra das oliveiras ninguém escreve
Quanto durará a paisagem, nem se é sustentável.

Portanto, junto meu verbo à sua frágil condição,
Que o respirar das árvores é o azeite da nação!


quinta-feira, março 28, 2013


NATAL DA ÁRVORE



Na alameda dos troncos cinzentos
Aconteceu, hoje, grande novidade:
Havia um deles com oito rebentos
Do verde translúcido da claridade.

Uns cinco, vieram sós, espalhados
Aqui e ali, como quem espera alguém;
Dois, fizeram logo par, enamorados
A espreitar o pequenino, mais além
Que sob os musgos d’água saturados
Arriscava vingar e afirmar-se também.

Eu passei, ambos sorriram para mim…
E ao ver, como no pequeno reparei
Na brisa tremeram, dizendo que «sim».   


NÃO AOS JAMAIS!



“Um não desfaz no carinho de quem a gente gosta, só por causa que os estranhos estando vendo.”

In JOÃO GUIMARÃES ROSA, Dão-Lalalão (O Devente)



A sombra é escassa no verde tanto
Que a seara se abraça à esperança
Diluindo seu grito calado num manto;
E ali mesmo, sob o céu singelo, alcança
Os poréns do voo que toda a terra quer.



Podia escolher qualquer nome, exigir
Do mundo e homens todos os direitos,
Fazer de seus ramos vis e nunca florir,
Vingar-se da solidão e demais efeitos
Que à planície são atreitos e normais.



Mas prefere vestir-se e dançar no vento,
Dominar os altos cimos e profundezas,
Pôr os braços à volta da magia do tempo
E beijar a seiva de nossas vãs certezas.



Ou até, ninguém pode duvidar sequer!,
Esculpir as vozes primeiras, ancestrais
No marulhar das folhas como uma mulher
Se penteia, tirando do futuro os «jamais!» 

sábado, março 23, 2013


TERNO BROTO TENRO



Abro a porta à primavera
E abraço-a no hall de entrada
– É que foi fria e longa a espera,
Tornando-a, por demais, desejada.



Tenho os teus gestos na memória
E despidos de mim os ramos teus;
Porém as águas, no rio da história
Redemoinham em pátios e gineceus.

Dizem que é um calar interrompido,
Argumentam, agitam a mansidão…
E, como quem se rebela do olvido,
Gritam seu «sim» mesmo se dizem «não».



quinta-feira, março 21, 2013


ESTAÇÃO DA FOLHA EM FLOR



Daqui vejo teus olhos em flor:
São palavras com asas de borboleta,
Folhas que siam, outro Condor
Nesse céu que nos sonhos espreita
Como o vivo lótus, que vivaz te enfeita.



Mesmo quando se te outona a voz
E em nós, aqui a primavera nasce,
A amizade é o pólen que o poema pasce
Colhendo a farinha pura de nossas mós,
Essa língua comum te banha e nos estreita
Num abraço que ao ano inteiro aceita…



És a minha alma nua, e plo reverso,
Tanto, que quando sou significante
Tu és significado; e se apenas verso
Tu és mensagem, referente vivo e cintilante.



terça-feira, março 12, 2013


LÚMEN MÁGICO



Acondicionada a voz no timbre exato
Eis que o sol tinge de luz o plano aberto
E, acesos os olhos percorrem o visto fato
Para exercer seu míster, quando desperto…

Podia eu dizer-te «bom dia, até que enfim
Te vejo, sem ser em sonhos», ou mesmo ainda
Que «na realidade és, decerto, para mim
Bem mais sensual, preciosa, mágica e linda».

Podia escrever co’a língua os poros de teu rosto
Um a um, e desenhá-los com sílabas puras,
Permitir aos lábios esse calor de agosto
Dos verões que à alma dão as divinas criaturas.

Podia… Que não mentia. Como, aliás, nunca minto,
Que teu olhar é o sol que dá luz a quanto sinto!

segunda-feira, fevereiro 18, 2013


DESTINO DE CAMPEIRO 



“Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar.”
JOÃO GUIMARÃES ROSA, in Dão-Lalalão (O Devente)

Na capanga levo o sol
Que é astro todo o ano.
Porém, neste peito mole
O coração em desengano,
Me diz que a lua é quem mais manda
Se um homem por este mundo anda.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013


NAS COXILHAS, A ADIVINHAÇÃO DA PRIMAVERA



“– Você acredita em pressentimentos?
– Sempre.”
In ÉRICO VERISSIMO, Sonata

Quando as árvores contam segredos risíveis
Nascem brotos dos ramos do tempo ser,
E as borboletas petiscam pólenes invisíveis
Entre os emaranhados da paisagem a tecer
Fevereiros aguardando o detonar marços possíveis…



São eles quem escreve o verde para o siar dos anos
E pintalga de pombos e rolas turcas o céu de jardim,
Ou soletra as baladas que a dedilhar nos damos
Mãos nas mãos, olhos nos olhos, ante o alecrim
Que crepita afogueado na lareira dos desenganos.



E nessa labareda em que Arina tão vivaz remanesce
O espreguiçar do vento, o estremunhar da fonte,
O murmurar da relva a sua seiva, impávida prece,
Eis que caminhas meneando íntimo horizonte!
  

domingo, fevereiro 03, 2013


ATÉ O BREU TEVE UM NASCIMENTO COLORIDO



Pode haver tamanha iluminação?…
E porém, a noite se aproxima
A passos largos de segunda intenção
Criando o breu, de baixo pra cima
Sob os mistérios das vivas cores,
Nas quais, pressentidos temores
Ficam à espera de maior negridão.


terça-feira, janeiro 29, 2013


LUCIDEZ



Desvenda os receios que te vedam o ver
E desce a venda que nos cresta a alegria:
A regra do rigor é a exata cor do crer
Querendo na alma a querência que sia.
Não hesites nunca perante o incontingente
Porque este medita o êxito ante a ousadia,
Põe a nu o anseio melhor, o fulgente,
Quebra os instantes retinentes no dia.



Depois, cresce como qualquer outra flor
E alivia o ser do peso da vontade
Que entre a desmedida sede, a dor
Retesa o arco, aponta a ansiedade
Qual seta venenosa, mortal, ao amor,
Obliterando-lhe a sua maior qualidade!



sexta-feira, janeiro 25, 2013


SILHUETA NO NEVOEIRO



Vejo-te, a subir, na avenida
Esguia, falando ao telemóvel,
E as galochas brilham na lida
De tornar o destino possível.



Assertiva, de cabeça inclinada
Parece discutires com alguém;
Todavia, pla firmeza da passada
Pressinto estar tudo muito bem.



Umas vezes soletras, ergues a voz,
Repetes, reiteras determinada;
Outras, anuis quase calada
Como quando estávamos sós.

Com quem estarás a falar assim?
Creio ouvir o que dizes, distante
Do terraço alto, ser dissonante
Perante o ver-te, sem me veres a mim!

quarta-feira, janeiro 23, 2013


PRISAO CABOCLA



Pouco a pouco ante a colina dos gestos
Perco o olhar sob o querer da luz e cor,
Que na mansa coxilha do verde fazedor
O fungu nada pode com seus molestos,
Seus torpores, seus azedos gargosos
De cerdear as asas ao são desejo,
Pois o flete do sonho tem por gostosos
Os galopes no ventre vivaz e benfazejo.



Então, macanudos braços jungidores
Manuteiam com macota intenção
Meu ser prendido nos meigos favores
Dessa leda e brava alma de chinocão.



terça-feira, janeiro 22, 2013


SEREI(A) ETERNA



O desgaste não ensombra o ser
Nem o declive empurra a vontade,
Que o ângulo que consolida o querer
Está aí, na confluência da liberdade
Com o conhecimento de si, do meio e dos demais
– Que o invento do progresso é sermos iguais.

Burlequeando assim pela cidade
Com os valores apontados na esquina,
Jamais os defeitos serão idade
Para quem nunca deixa de ser menina…

Porém, o mar a chama, insinuante
E lhe declara devoção, ante a negra terra;
Contudo o destino, fatal, determinante,
E sem pudor, a janela da vida lhe encerra!