Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
terça-feira, fevereiro 16, 2016
domingo, fevereiro 14, 2016
A VOZ DO VENTO ENTRE AS VOZES
A VOZ DO VENTO ENTRE AS VOZES
Pois claudica a sombra ante a claridade,
E também a palavra plo jogo de linguagem,
Ao saber-se num contexto como verdade
À revelia de sua história, e linhagem.
Que dizer amor hoje, não é igual a ontem;
E ouvir o vento, se estamos na ventania,
Outro significado tem, se no descampado
Ou entre verde arvoredo; se noite, se dia.
Ainda há pouco, ele gemia triste e coitado...
Fustigava a janela com enlevada melancolia.
Foi então que percebi que, no seu arrazoado
Ser ele que te chamava, enquanto eu escrevia.
Joaquim Castanho
sábado, fevereiro 13, 2016
DOÍDAS ESTROFES
DOÍDAS ESTROFES
Fez-me, enfim, correr numa tempestade
Como rio fora do leito, que a saudade
De um dia só, tem assim tamanho efeito
Como qualquer outra nascida de mil dias...
Mesmo destes, cinzentos de nevoeiro e breu;
E, não foram as estrofes de sofridas poesias,
Sem o desabafar, quem muito sofria era só eu.
Joaquim Castanho
(Ilustração: Princesas Disney)
sexta-feira, fevereiro 12, 2016
ÍNTIMO OLHAR
ÍNTIMO OLHAR
Hoje duas amoras negras
Adoçaram o meu olhar,
Mudando todas as regras
Que nem a Lei ousou mudar.
Atiraram meu ser ao céu;
Catapultaram-no prò Além.
Vestindo-me a alma dum véu
Pra não entrar lá mais ninguém.
E do sentir que há no mundo
Outro mundo me nasceu,
Onde só o sentir profundo
Me permite sentir-me teu.
Joaquim Castanho
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ÁUREA ABERTA
ÁUREA ABERTA
Me acomodo à sensível lide
De apor crescida florescência
À inquietude que ao ser elide,
E que assim, à solta, progride
Edificando a permanência.
Da tez, a memória me pondera,
Numa receita que a dissolve;
Porém do risco nasce a espera
Que se não desespera, resolve.
Joaquim Castanho
(Imagem ilustrativa: Princesas Disney)
ENTRE CORRETO E INCORRETO É QUE A ESCOLHA ESTÁ
ENTRE CORRETO E INCORRETO
É QUE A ESCOLHA ESTÁ
Porque subcutânea voz nos interpela
Quando, e se precisamos de decidir,
É que, se justos, nossas vozes são dela,
E s'adversos à razão, não nos quer ouvir.
À pieguice das artes e letras, diz que não;
À falsa poesia, nega reconhecimento;
À sonsa e ufana diáfana do sermão
Das ignaras seletas do blá-blá sabujo
Faz notar o mister mais perverso e sujo
Desse saber diplomado e sem valimento...
É por ela que seremos atentos e audazes;
Sem limites que a lei não determine já
Plos interesses e conceitos sãos, capazes
De gerar a retidão que no Direito ainda há.
Joaquim Castanho
quinta-feira, fevereiro 11, 2016
TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA
TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA
Minha regra é norma aberta
Escrita na ordem vigente,
Qu'é onde a lei me desperta
Positiva e naturalmente...
Suas pétalas de mel em flor,
Sorriso de pepita dourada,
Incrustada na alma sem dor
Ao ser pla brisa desfolhada.
Se tem espinhos, eu não o sei;
Se quer infinitos, não mo diz.
Amar o próximo é ser a lei –
Poder d' inspirá-la sem ser juiz.
Joaquim Castanho
terça-feira, fevereiro 09, 2016
CARDIOGRAMA SECULAR
CARDIOGRAMA SECULAR
O arquiteto universal
Esclareceu a humanidade
De que todo o valor, se é real
Tem o gráfico duma cidade,
Gizado na sua vista geral...
O da nossa evolui constante,
Tremelica aqui, um pico além,
Talqual o coração amante
Quando se lembra de "alguém".
Murada por reis, é rainha,
E da alegria porto e palco;
Mas a receita deu-lh'à vinha
Cultivada plo deus Baco.
Joaquim Castanho
(Ilustração: excerto de foto de Mario Lourenço)
https://www.facebook.com/CartoesAmantesDaPoesia/photos/a.279470145496093.57708.279467508829690/852788684830900/?type=3&pnref=story
segunda-feira, fevereiro 08, 2016
FÉ
FÉ
A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.
E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição).
Creio que era um lírio, uma açucena...
Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.»
Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir.
Joaquim Castanho
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REMANSO MATINAL
REMANSO MATINAL
Espécie de silêncio, na fala
O vento murmura à água,
Quanto a nossa luz exala
Doçura e plácida trégua.
É a fidelidade eterna
Numa canção que mal se ouve;
Mas, como raiz viva, moderna
Só nossa sombra a promove.
Porém, da manhã, um cicio
Sem lamento que a estorve,
Pede ao momento seu brio
De instante que a renove...
que a renove... que a renove...
que a renove... que a renove...
E ele escuta. A água escreve.
Joaquim Castanho
sábado, fevereiro 06, 2016
sexta-feira, fevereiro 05, 2016
POR QUE AMANHÃ É SÁBADO
POR QUE AMANHÃ É SÁBADO
Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais.
Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia.
Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida.
Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto.
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização.
E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!
Joaquim Castanho
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quinta-feira, fevereiro 04, 2016
TUmTUm em mim
TUmTUm em mim
Entre aqui e acolá...
Entre planície e o mar...
Entr'a solidão que há
E os modos da desejar,
Ninguém sabe ao certo
O valor do que é perto.
Que n'amizade não há
Longe algum a crescer,
Pois em nós sempr'está
Outro coração a bater.
Joaquim Castanho
https://www.facebook.com/CartoesAmantesDaPoesia/photos/a.279470145496093.57708.279467508829690/850381285071640/?type=3&theater
terça-feira, fevereiro 02, 2016
escribalista: JARDIM DE ESTROFES
escribalista: JARDIM DE ESTROFES
https://www.facebook.com/CartoesAmantesDaPoesia/videos/849248421851593/
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DA INVEJA DAS ESTRELAS
DA INVEJA DAS ESTRELAS
O eco da luz nos espelha e arde
Entre demais vozes que ecoam,
Já que nunca para nós será tarde
Se cristalinos sinos no céu soam...
Que essa voz imensa e nobre nos abre
Suas portas prà alegria duradoira,
Onde mais brilha a pomba que o sabre
Enquanto o sol à tarde aloira.
Mas nas sombras o candeeiro d'esquina
Que o coração acendeu por cada lar,
Escreve com diamantes e platina
Que as noites não esperam por chegar;
Delas, as estrelas, mil olhos de ninguém
Olham o querer-bem,e põem-se a invejar.
Joaquim Castanho
segunda-feira, fevereiro 01, 2016
MEU PONTO CARDEAL
MEU PONTO CARDEAL
Digo coisas que não importam a ninguém
Como quem arremata um negócio alheio,
Mas se do ser o inquieto mistério nos vem
É por elas que no mundo e vida me enleio.
O meu sentido, nelas se prende e retarda,
Bem assim como barco amarrado ao cais;
Porém, é teu ouvido o meu anjo da guarda
Quando a incerteza pla viagem pesa mais...
Que o farol prà alma foi sempre outro ser:
Foi a luz na bruma, foi este ficar acordado,
Pedindo ao horizonte pra jamais esquecer
Que se o sol vem, não importa de que lado.
Joaquim Castanho
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O FULGOR DA LUZ NO ÚLTIMO FÔLEGO
O FULGOR DA LUZ NO ÚLTIMO FÔLEGO
Na exata distância do exímio
Ao invulgar, subsunção e extermínio
Do lugar, do ai profundo, suspiro
Quieto e secreto do ser em retiro,
Ómega da exaustão evidente:
O seu cálculo está assim correto
Sem a menor dúvida; mas tem entre
Si e o seu fim, ocaso de puro afeto,
Esse fulgor duma luz duradoura
Que tratou a planície por Senhora...
Prestou-lhe vassalagem durante o dia.
Jurou-lhe uma fidelidade eterna.
Ao entregar-se-lhe eis que a possuía...
E hoje, por notá-lo, me disse porém
Se o faz por todos, fá-lo por ti também!
Joaquim Castanho
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