DA PRESUNÇÃO DA VELA ACESA
Por mais longe que chegue o apêndice mucalNas assoadelas de quem muito se afirma e diz,
O mundo não é nenhum vergel ou culto quintal
Que lhe acabe na iluminada ponta de seu nariz...
Há bastante mais vida para além da de cada qual
Que se insurge como medida da pureza e matriz
Dos costumes ou simplesmente do bem e do mal
Que estruma os preconceitos com que se faz juiz.
Juiz dos outros se se lhe comparando acha superior,
Como se nele se albergasse toda a verdade infinita
Em imaculado pecúlio de nobre e galhardo valor
Cuja lei é ditame mesmo sendo baboseira inaudita,
Bobagem egoísta ou vil desmando de feudal senhor
Que vê razão no mesquinho arrufo em que acredita!
Neste condomínio fechado o sonho se diz
Se é pura sede a seda doce e quente
Quando celebramos a noite das noites
É quando o ver é visto
Sei, sim, sei que sou fundamentalmente kitsch

Que o breve é leve quando ao se prolongar se faz curto
Podendo – quem sabe! – até haver
Ao nascer da esperança, seus sentimentos
Eis-me rasgando o instante em pedaços;
Embora sejam iguais as cordas tensas
Consequentemente, não podemos adormecer
É que, ao ver assim a beleza sem lhe tocar, a gente
Nas trevas da distância singro
Clicando rima acima se ruma no rio do tempo
Inclui minha prece no teu sonho de mar e sol
As liras e as harpas conhecem-lhe a dedilhada tradução
Anda-me a alma neste somenos da Psique enamorada
Que isso, de ser Mariana se cumpre de qualquer maneira
Escuta… Eu venho de muito longe
Que nisso do rasgar primaveril
Andava eu morrendo por tão pouco ver-te,
E assim, apareces na tarde que me amanhece
Havia naquela sombra o não haver do gesto,
Tu como poema, eu como apagada e crua prosa.