A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

sexta-feira, junho 11, 2010

Terceiro Cálice



A Deus Arina escutou meus pedidos mais íntimos e profundos
E o delta de fogo me verte nas veias teu silêncio incandescente
Sagra-me aedo dos rituais do amplexo entre o Sol e os mundos
Entre a história e a ficção, entre o imaginado e o ainda existente
Já se esculpe a muralha do futuro em seus devires vagabundos,

Qual gesto de lírio entre as caiadas frias arcadas dos claustros
Eclode o senso da pétala azul e lilás a ocultar-se na coluna plena
Se fecha como biombo ou luminescente leque de vivos astros
A esconder tão-só a luz da luz que há da razão na manhã serena.



Ninguém saberá nunca até onde alcançará o licor nosso segredo
Até onde, a que reino chegará esta soletração arisca da regra alva
Nem, muito menos, que significa isso de dizer o amor sem medo
A crepitar polposa flor-de-cera como em verde veludo da malva.

terça-feira, junho 08, 2010

Segundo Cálice



Antes do verbo o nosso aceso referir de alianças siderais
Correntes de água renovadora dessa onda sufixa às olaias
Habitáculos exclusivos da liberdade escrita nestes anais
A medir arestas reflexas ao tanger isolado néctar das sericaias.

Osculo teu ventre e deponho meus ternos lábios e fiéis
Tributos sagrados do amplexo redentor à ampla amplidão
Estelar aos sonhos alegres risonhos da acção, sentimentos
Unificada em teus gestos de catalogar papéis, documentos




Notas de rodapé, informações imprescindíveis, signos preciosos
Ordenar alfabetos, cruzar conhecimentos novos e ancestrais
Moderar influências, riscos, atitudes menos harmoniosas
Esquecidos solfejos de Arina nas rosas acesas dos cristais…

segunda-feira, junho 07, 2010

Primeiro Cálice


São esses altares de rigor a Arina em segredo edificados
Sempre que as pétalas de veludo de tua pele deslaçam
E na alvura marmorínea o sorriso descreve os passados
Mas é o futuro que leio se meus lábios aos teus soletram

Na linda do silêncio, ao fundo da tutelar penumbra
A tarde aguarda ante o cintilar sincopado do browser
Teu perfil sob a cascata sedosa dos cabelos síceranos-
Sibilinos sussurram-me o olhar ledo de colorir a sombra
Repetindo cada gesto tudo quanto o sonho apenas requer
E crescem-me aos olhos tamanhos os amanhos de mulher
Os trabalhos, as lides, as esperanças que só o desejo cobra
Pondo cobro ao tédio se sobraça e grita, incita e tece obra:

Eis o aval de quem se prende por cativo preferir ser homem
Cuja bandeira sacudida alude rebeldias ancestrais helénicas
Na senda dessas flores acesas que em ternura se consomem
Brilham nos céus pejados labaredas iridescentes e académicas.


Não sei quem foi que disse isso ser amor alguma vez sequer...
Porém, essa esquina única em que a alma se baloiça e me dobra
Ferve em cachão se tua mão me açoita semeando nessa sina sobra
De vivo esse ser, ao soltar-se o silêncio audaz no repentino arder!

segunda-feira, maio 31, 2010

O Segredo da Quinta [da] Sílaba...

Acontece, se no dilúvio da noite é soprada a escuridão
Quando até ainda muito antes que a meiga aurora tinja
Violeta rosácea neblina no manto do horizonte, e atinja
O soslaio alarmante do céu nas searas do nosso ledo pão

Cozido por raios solares de ouro, e o diadema real cinja
Nobremente a tez daquela cujo sonho é apenas luz da luz
Galáctica silente esplendor da suprema jus a fulgir, então...



Sem dúvida através dos olhos se incendeiam arribas e ravinas
Dos escolhos revertem oceanos seus imos lances as enseadas
Náufragos atravessam Olimpos como se estes fossem salinas
Vincando os seus passos serenos nas brancas tardes caladas
Vertendo ou agindo sobre mim aquela quase lava de vulcão
Corrosivo rasgando-me o ser aflito no delta dum rio sem leito
Sanguíneo a pulsar-me no coração, até me rebentar no peito
!

terça-feira, abril 27, 2010

Estrela do Verbo Alado

A cadência da batida do tear dispõe
Enquanto vestes o tempo de flores coroadas
Marca o ritmo da consciência compõe
A sopesar, a transferir as cores bordadas
Para o horizonte que se quer distanciar…


Cresceste-me como um ventre inaugural
A redoma do destino na imensidão da planície
A lente de alvorar à estrela incondicional
Afinal a heurística desse sempre que nos inicie
Como se cada passo fosse o derradeiro primeiro passo
Cada voz a incontornável revelação de sermos sós
Cada laço lasso a única maneira de darmos nós
Cada nó a distância feita atreita à curva do compasso
No desembaraço do balanço redondo da redoma plural.



Havia de dizer-te entre as folhas
Como luz esgarçada saltitante
A bailar na sofreguidão da tarde
Que conforme no verbo me recolhas
Assim perecerá a sombra distante
Deste Sol que por nós em nós arde!

quinta-feira, abril 22, 2010

Terceiro Passo



A minha casa tem sete portas
Todas abertas de par em par,
Aquelas em que o Sol não entra
É porque estão viradas prò Luar.




No átrio, o relógio dá horas certas
Excepto quando são dez pràs duas
Que aí, escrito em círculos e rectas
Nas minhas teias e veias secretas
Apenas pulsa o sangue das tuas…



Ao ritmo binário deste solfejo
Cuja clave nasce quando te vejo
Ou se rodas a chave para entrar:
Na boca, o sorriso da rosa num beijo
E nas mãos, a SimpleS carícia do ficar.

terça-feira, abril 20, 2010

Segundo Passo


Se neste incréu ser
Só creio que quero e crio
Quando aos nossos nomes afio
Entre as aparas do saber
Arroteando as ondas do mar gentio...
Então, é a crescer que alivio
Tão-somente a sorte da semente
Por cuja morte se arriscou deitar flor!

Porém, se no chão semeio ou abro reduto
Dito ao céu meu verbo incoerente
Faço o sapiens do habilis astuto
Apago os elos da eriçada flama
Como quem transpõe as Portas do Ocidente,
E atesta seu dardo no fugaz fulgor
Das cores abertas à divindade humana.


Porque ao (pro)pôr-me assim, equacionado labor
Produzo e me reduzo e igualo à solar chama
Como quem se transforma em afecto ou calor
Terno e buscado asilo em que se torna
A jorna, de quem afinal só por amador trai a sepultura
Transformado que foi o obrador em obra pura
Tal como outrora acontecera ao criador
– Pela criatura...



Que eis da palavra em si mesma reflorida
Nasce o gesto que a lusa língua lavra
Na descida do seio ao ventre sulcando se destrava
Em lava própria de sarar a humana ferida!

quinta-feira, abril 15, 2010

Primeiro Passo



Dá-me, da madrugada
Teu corpo aceso,
Que na alma pungente
A escalada urgente
Te socalca a chegada
Do desejo indefeso
Como em fito esguio
Viés sinuoso mas sem desvio,
Enleio riscado no rasto da estrada
Em vulcânicos eSSeS dessa serpente
Incêndio sibilado a silvar na terra de teu rio,
Catarata fervente vertida
Sobre as colinas do dorso e seios
Cadinho, labareda e delta da vida
Da qual sois meus fins, motivos e meios.

Xis de cruzar todos os Ocidentes
Ao desmaiado estertor
Que dizer é ouvir, gritar
É subir, descer, partir é chegar
Abraçar é voar nas correntes
Em combustão de lava na luz e fulgor
Entre sonhos incandescentes
A nadar no fogo do ar que nos respira
Nos retém e resvala, ata, solda, cala e vira
E tudo isso junto, enfim
Tenho para mim, que é apenas amor!

terça-feira, março 09, 2010

Dia de Infinito



Ontem lembrei-me de ti, Arina – era o dia da mulher... –
Mas eis que assustado, me retraí
Por ser a celebração de um ser que ninguém quer
Ser, excepto quando alguém se refere
Ao Ágora de simplesmente agora e aqui
Onde viver, nem é o sinónimo de sobreviver sequer.

Não sou ingrato, escuta, a Lua desce
Raio a raio na noite escura e mingua,
Mas entanto no coração a ternura cresce
Floresce, em teu seio a pérola líquida, nua.

Sei pouco de escutar-te – o ouvido colado
Ao ventre, os olhos postos no nódulo de luz,
Ao seio, o asseio da boca no contacto original
Desejado, mas anexado aos signos da cruz
Eis-me sinal calado do silêncio que nos traduz.

Podíamos ser outros se acaso o tédio da união
Andasse de mãos dadas com o grito de luta,
Todavia, da data, nasceu essa pura contradição
Que é a de que quem ouve, dificilmente escuta
Outro silêncio, outra voz, outra labuta,
Outra língua que não sua, em qualquer ocasião.



E disso é testemunho, ter os sentidos por metade
A que faltam a empatia e a propriocepção,
Como ao esquecimento tão-só chamar saudade...

Faz-se o mundo, depois construi-se nele a vida,
Porém dela, aos buracos negros chamamos desvão
Onde arrumá-la, como a mais uma intenção perdida
De onde jamais lhe viria na vida, a mínima qualidade
Ou lídima exactidão, que invocar o Sol, é nomear a Verdade.




sábado, fevereiro 13, 2010

Ode do Vassalo à Sua Suserana

Porventura, muito complicada coisa será
Esta de estar aquém do quase nada
E porém, sonhar, que se está
A rodopiar no infinito sonho de acontecer
Ser alguém, a quem acontece, que a onde quer que vá
Ou esteja com quem estiver, seja tão-só o teu olhar
Apenas aquele onde sempre eu me queira ver;
O teu sorriso, o meu sorrir
O teu gesto, o meu dizer
As tuas palavras, o meu ouvir
Teu ser de mulher, o meu sentir,
Que se a vida é de quem a sonha viver
Então, a minha tua, pois que estar do teu lado
É querer, nos acordes simples do Sol, do dia
Guia da aurora ao crepúsculo, escutar a harmonia
Opúsculo de sonhar acordado, a trautear
Hino e elegia de ébrio enfeitiçado
A quem menos custaria morrer
Do que perecer aprisionado nas "teias do não te ver"
Todos os dias, e nessa visão, viciado
Mais preferir ser o desejo, gritado
Beijo a beijo, no arrebatamento alucinado
De voar entre tuas coxas – e assim
Abraçado, alcançar o infinito fim
De em mim ser teu grito celestial libertado.





sexta-feira, janeiro 22, 2010

Torres Transversais




Às vezes percebo o anagrama a dizer, a vociferar
Eu mato-te, mas também não é isso que queria
Era outra coisa que igualmente não era ela
Eu amo-te as mesmas letras, sílabas, confirmo
É certo, contabilizo, mas estão muito desorganizadas
Sabe-se lá o que fizeram para terem sido condenadas
A significar o contrário daquilo pra que nasceram
Revoltadas umas com as outras, zangadas, contritas
O T duplicado como uma aliteração esotérica
Templária, cristianismo de outros tempos e credos
A besta à volta da Torre do Tempo a recuperar a dor
As vestes no cabide da moralidade rectilínea
E rígida e intransigente e fechada do sacrifício

Em nome da humanidade, outra mentira descarada
Nem sequer em nome de Deus, e muito menos a favor
Dos homens, foi deste ou daquele cujo poder vitalício
Quis abarcar Toda a Terra e ir além da sua vida
Ter a eternidade por conta própria e ao seu serviço
Mais um vassalo às suas ordens, contudo insanas!

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Les songlots longs des violons

Tenho um enorme vício, que me desgraçou:
O de sonhar cada palavra na frase lida...
Por isso, nem sempre sei se ao ser, assim, não estou
Apenas a ler, ou a sonhar, a minha própria vida.





Mas de entre todas as imagens
Que me são mais queridas
Reconheço o teu rosto incandescente,
E nesse logo, as vertigens sentidas
Gretam-me o sonho em suturas desmedidas,
Vibram-me as cordas dos sentidos
Acordados num sustenido plangente.

Do braço ao coração dedilhado
Meu ser aproa ao cais infinito
No celestial oceano desse choro magoado
Com que aceso me resto incendiado grito,
Tão rés das ondas revoltas no chão empedrado
Em que me ato e me soltas
Rodopio e coso nas esquinas de granito,
Que convulso dou voltas e voltas
De sufi em redor de ti, entregando-me aflito.

E no predicado que és, a periferia de mim
Dilui-se no "lento soluço de um violino"
À esquina do (nosso) condomínio global e sem fim
Universo de todos os verbos sob o manso destino,
Vaivém marinho de nos reduzir, enfim
Entre páginas e páginas, candentes outonos da memória
Versos liquefeitos no solfejo do vento, desafino
Se me aguardas mas não sonhas ao mesmo tempo,
Me rasuras e esqueço o fim da história...

Porém, se todavia, me tocas no vértice
A saliva da fala sonha, reage no húmido indicador
Aspergindo letra a letra, pormenor e zoom, até ao índice
Este simples amor que não arrefece
Nem esquece o terno e doce ardor
Em que ferve o uno e a lume brando apura o estilo, e esvanece
Cada um no outro, asilo de nós, que em nós, se torna cúmplice!



quinta-feira, dezembro 10, 2009

Punctum Um






Da vida saberás um dia
A importância dos pormenores.
Dez milhões de portugueses
Todos eles a mesma língua, os mesmos genes
Os mesmos apetites, a mesma solidão
Os mesmos gostos, as mesmas aspirações
A mesma urgência, a mesma gratidão

As mesmas penas, as mesmas contas
As mesmas pérolas, as mesmas plumas
As mesmas armas, as mesmas almas
Igual partida para idênticas chegadas.

Todavia, de todos os pormenores
Eis que és o único que perdura
Além dos dias, das horas, dos segundos
Dos gestos, dos instantes, das cores
Dos hábitos, do sonho, da amargura
Nos segredos dos degredos aos desamores.



Enfim, o ponto incandescente, o sinal
Que não morre além do pôr-do-sol!

quarta-feira, dezembro 09, 2009

nada Sou, nem nada haverá, Além de ti



Por mil anos que vivêssemos jamais conseguiria esconder-me de ti
Deixar de sofrer por cada dia, hora, que partes, sais, tão-só te adias
Como se fosse amputado por vitais desastres, danos, perdas, afasias,
Órgãos essenciais, membros sem os quais não viveria, veres que não vi.

Porque sou um morto sem ti, uma alma penada, coisa, avantesma:
Um registo apagado. Um mutante sem futuro. Um ser do ser isento.
O Quasímodo. A elevada potência de nada. A nulidade em si mesma.
A raiz quadrada de ninguém. Um grafite sem muro. O cais insustento.

Porque sou a encarnação do desespero puro, o clamor da voz insana
Gesto tímido de menino abandonado e inseguro, seco musgo na savana
Força escondida sob a laje da esperança decepada, restolho que emana



Pó, a esperar-te verso a verso, suplício das artes, na oclusão do ser
De fazer rimar amor com desejo, cotejo de futuro na erva em chama
Ou regresso, se a saudade clama, na dor em que partes, e repartes
O silêncio dito, escutado a bater, num salto alto que me toca, a dizer!

sábado, dezembro 05, 2009

Rosto Agreste



Sei dos gestos só aquilo que há
Para saber, nada mais que a plástica,
O incompreendido registo na prática
De uma intenção que se não vê nem dá.


São peças dum puzzle, retalhos vivos
De vidas sem princípio nem fim
Que ao sucederem entram nos arquivos
Fechados das gavetas bolorentas de mim.


Desta memória que insiste ser realidade
Farol, escora, muralha insegura
Que a cada dia me faz a caridade
De me tornar a vida ainda mais dura!

sexta-feira, novembro 27, 2009




Procuro a véspera, a minha flor negra
De raiz branca, a mandrágora e o lótus
O génesis português, o verbo, a regra
De sair vivo porém cativo entre mortos…






Mesmo que a luz nos enfeitice e separe
Estas palavras ficarão, cruas, nuas e vivas
A testemunhar, que se nos céus houver luar
E de te amar nunca pare, nestas velas a brilhar
Ardidas para além dos tempos e das seivas,
Seu fim será breve como leve é este chão de mar,
Este encrespado de espuma e leivas a chamar
No peito dos alqueives ainda por arrotear.




Já que de ao sonho ao sonhado, pressentido então
Seja dado ser infinito se se intentar ser imortal,
Como o de Petrarca, Dante ou até de Nasão,
Porque não o nosso, se é humano quão é real?...




Que eu, à minha parte, a pulso, até sozinho
Prometo bem, e cumpro mesmo ser capaz
De cantá-lo todo o caminho, da ode ao hino
Que à teima de ternura o sexo faz, o ser se compraz
Como as aves fazendo o ninho, palha e palha
Em que nasça menina ou rapaz, génio ou canalha.





Mas importa que seja rafeiro, castanho, mestiço,
Digo zambo, cabrito, simbiose – sei lá!
Para que quando se quebre do sonho o feitiço
Dos corpos ao culto da terra
Se veja nele que houve todos os plurais e há
Metade de cada um sem guerra
Das cores que ao crepúsculo lótus nos dá.







Uma estrela apagada no escuro
Mas que brilhe durante o dia,
Tornando-nos o olhar mais puro
Fazendo da diferença energia.


E que tenha a exigência perfeita, a noção exacta
Do que a (as)simetria faz às cores, faz às formas,
Para que ao ritmo da voz inaudita, tépida e intacta
Diga que as harmonias desarmam, e são normas.


Os diálogos... As trocas ímpares, sem rede.
Como se fôssemos seixos dum regato fundo
Correndo constante ao cristalino da sede
De ter em si mesmos todo o mundo.



E uma propensa mania indigente
De percorrer os dias ao pulsar solar,
Que nem fôssemos a posta-restante
Da noite amante
Em seu correio com o luar


Ou álibis... ou cúmplices... ou sentinelas,
Guardiões dessa fortaleza muralha
Com que um braço é um pão, e o pão as janelas
Com que o futuro nos trabalha


Molda, exige, completa, pede contas,
Diz do tempo mais que a sorte
De esquecer rácicas afrontas
Do pó que é pó, antes e depois da morte.


Porque, para quando todos formos filhos
Dos nossos filhos em mistura de razão
Duma milésima hipótese genética,
Ao beijarmo-nos sejamos os trilhos
De um canto sem mas, nem senão
De gorar a aposta (pari)patética
Ao ser chão que se levanta do chão,
Para logo cair que nem castelo de formigas
Oco por dentro, erecto na visão
Mas sem o discernimento das mãos amigas
Aperradas no Xis de pura comunhão.

Porque mais que os lábios a língua se toca
Cruzando a procura de nós
Que em cada beijo somos a rota
Do sangue e vontade de nossos avós...


Afinal, tão ainda perdidos
Nesse azul de água que é o céu
Em demanda de outro D. João II
Fazendo novo mar desse véu
Que é o tecto do mundo!

Abóbada de um só vitral
Cujo desenho seja uma estrela em rosa
Negra e branca, como da areia nasce o cristal
Dessa seiva incontida
Que faz de teus olhos a flor formosa
Que são as letras de escrever a vida.

terça-feira, novembro 24, 2009

Presente II



Que é isso de a gente oscilar na corda plangente

Estar à porta do tempo, equilibrados no botaréu
Com um pé fora e outro dentro, dependurados do céu
Trajados no rigor ascendente, da lua em seu quarto aceso
Crescente, com a certeza que o passo não nos pertence
Assente de um acontece acontecido ao avesso?




Não há prosas vãs, rimas falhadas, nem palavras perdidas
Quando os momentos são directos, instantes abertos
Em que todas as noites são confessadas nas nuvens caídas
No acontecerem dias completos, de minutos a segundos certos
Na surpresa graça do que soído fora, nos escora concretos.




Que o amanhã é um ontem que vigora, e dura com vigor
Embora haja quem lhe chame futuro sustentado, é dado de rigor
No humano designo de um soneto inacabado, que se fora creditado
É tão-só aquilo que eu, rústico e tosco, nomeio apenas por agora!

Ninguém suspeita daquilo que se esconde em teu olhar
Por revelar estará sempre quanto só o soslaio calou,
Dito de outra forma, jamais alguém acreditaria sequer
Que o futuro é título de quem um dia ousou, no crepúsculo
Amar, e rendido ficou, enleado, sofrido, a naufragar
E a congeminar se congeminou nos teus sonhos de mulher.




segunda-feira, novembro 23, 2009



Esfarelados escombros resumem os locais a histórias
Todas elas abertas aos acesos movimentos dos tempos
Por demais interrogativas e subtis nas fugazes memórias
Essas consumidas sem pios desvelados consentimentos
Alternos à dor, afoitos ao medo, idos contornos serôdios
Repartidos no degredo à volta do imenso ocaso no azul
Que feito ânsias já não vão além nem vêm, sequer restam
Lodo ou nesga de sombra movediça, chão de qualquer paul.




Cruzam-se vozes na breve altivez, qual sotaque da silente cor
Fazem aos homens outros homens o favor da infrutífera espera,
Mas quanto mais profunda é soletrada a profundidade em flor
Mais desmaiam os ângulos da igual redondez na global esfera.

Fosse a terra toda una e ninguém haveria de escorrer na solidão
Que isso do mundo é uma palete que se comete sem incriminar
Sem violar a integridade aos nomes nem lhes roubar a sede e pão
Cuja água nunca mata porque o seu mister é tão-somente saciar!


sexta-feira, novembro 20, 2009



Este é o império do foi ontem, ao crepúsculo;
Tudo é memória, lassidão contemplativa, sede.
E esse alguém que procuras do outro lado da espada
Que conhece o gume e fio de diferente ângulo ao vértice
Já esculpiu a dor na pedra dos rostos com o cinzel da fala
Já escorreu de ventre esgueirante entre as fragas agrestes
Já desceu os rápidos entre o silêncio e o sonho
Como se canoa de asas abertas fosse o seu canto
Num composto cromático de argila vermelha e cinzenta.



Já te disse que nunca poderia ir por onde todos vão
Embora haja no seu sorriso a precisão dum caminho
Duma vaga ambiguidade a que me possa abandonar,
Alguém a pisar o linho com o sopro da voz no desvão
O murmúrio quase aceso no patamar de uma elipse
A curva do tronco a arfar na contradição do suspense.


Esse thriller, sim, que a história nos segreda nas tardes
Como se fosse o dia do tamanho dos milénios indecisos
É tão-só o negativo do romance que o teu nome soletra
À esquina da sombra, entre ser e dizer, apenas sofreguidão
Aberta válvula para dentro transparecer a serenidade doce
Da luz a desmaiar aos pés de um quotidiano que aspira
Corre e se deita ao comprido das águas imperiosas.

terça-feira, novembro 17, 2009


Pensei que eras a linha do mar
Que na distância usurpa o olhar;
Pensei esconder a ilusão do corpo
Preferido no silêncio de naufragar;
Pensei que havia um grito absorto
Em cada antecedido gesto de posar.


Pensei que eras a língua do império
Na curva do ser ao dizer “descobrir”;
Pensei sentir o pulsar lúcido e sério
Dum romance onde pudesse intervir;
Pensei que estava na paixão do chegar
E, afinal, ainda nem chegara a partir.


Pensei que eras luz mas fazias a noite
Por cada sorriso em sustenido ensaiado;
Pensei que eras alegria mas eras açoite
Em alambique de metal velho e oxidado.


Pensei em tudo e até em ti, como foras
Um dia à procura do olhar que diz e diz
O silêncio de soletrar ínfimas desforras;
Mas o que pensei ser pensar era querer
A apodrecer de tédio antes do verbo nascer,
Antes de existir e ser, de quem não quis
Inventar o seu próprio nome – e acontecer!