A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

domingo, junho 16, 2013

Ai!!!!!....



Sempre afeitos ao microfone
Ninguém lhes leva à palma
A pintar a situação visível
Com as cores do seu nome,
Esquecendo que a lusa alma
À verdade é bem sensível
E não quer ser enganada:

Que prà política ser credível
E defender a gente honrada,
Não deve ter seu dizível
No blá-blá que não diz nada!



OS PROJETOS ELABORAM-SE, NÃO SE ESPERAM



Viver é abrir,
Morrer é fechar;
Que saber sorrir
Acarreta amar.

Abrir é nascer
E omitir, acabar;
Quem sonha tem crer
E quer sem esperar.


sábado, junho 15, 2013

ESCREVER É ESCOLHER



Proveito e oportunidade
Estão ligados entre si:
Do primeiro, a utilidade
Com que a segunda devora
A prioridade no aqui
E agora, que é, do que li,
O que nunca deitei fora.

sexta-feira, junho 14, 2013

QUE AS RIMAS NOS SALVEM!



Digo tantas nadas(1)
Que ao algo desnoto;
E não fossem rimadas,
Tudo era bem pouco.



Ao vivente é dado
Esquecer mor lição,
Da que nasce ao lado,
Em pura ilusão…



(1)     Bagatelas, coisas nenhumas, ninharias, nonadas e inutilidades.

quinta-feira, junho 13, 2013

DE BRAÇO ERGUIDO – II



Nas famílias, perante o melhor gesto
Sempre há alguém a aprendê-lo por perto,
Que o futuro, quando se quer lesto
É um hoje a que o passado dá concerto.



Tudo o que somos já certamente foi
Um dia, em qualquer lado, ‘teve alguém
A fazer copy past do DNA se constrói
Assimilando-o, para vir a sê-lo noutrem.



O SUSTENIDO DO ECO



Há, na planície
Um silêncio assustado,
De quem a si mesmo disse
Ter de ir trabalhar noutro lado…

E ainda que ninguém o escute
Ou tenha por interrompido,
Eis que o olhar o repercute

Como um eco em sustenido. 
AS PESSOAS SÓ SONHAM SER… E DEPOIS SÃO.



Me enleias por abraço
Neste desassossego de alma,
Que o heterónimo é um traço
De quem se fez na própria palma.



Mais a de Ophélia o querer,
Conjugado num foi sequer,
Tendo o tampouco que tinha
Já que não há outra inha-inha
Da vida rainha, que nasceu pra ser
O verso numa linha de mulher.

(13.06.2013)

segunda-feira, junho 10, 2013

POBRE POETA (É O POVO)



Ao dia em que Camões morreu
Deram-lhe os “amigos” outro funeral:
Fizeram dele a efígie e o camafeu
Pràs comendas do “ilustre” Portugal.

De amargurada vida feneceu,
Mas após morte teve pedestal…
Até parece que o portuga nasceu
Só pra ser molestado e passar mal.

Porém, hoje vaticinam doutos sábios
Serem o valorizar do património
E a ruralidade, os novos astrolábios



Que vão tirar-nos deste Santantónio,
Desta Troika, por cujos finos lábios
Andamos todos neste pandemónio! 

sábado, maio 25, 2013

SABER ESCUTAR NÃO É DOENÇA



Com o enredo entre os dentes
Oscilo a cabeça num «não, não, obrigado!»,
Que para sermos todos diferentes
Ninguém precisa ser desarranjado.

Se estou muito bem como sou
Sem qualquer capricho ou mania,
Então, por que me hão de pôr nesse voo
Ao ninho dos cucos da patologia?

Loucura é ignorar, sermos indiferentes
A quantos mesmo ao nosso lado,
Com gestos inseguros e palavras reticentes,
Só pedem a atenção dum ouvido bem lavado…

A POESIA NÃO SE DIZ: DÁ-SE



Que o segredo do tempo está
No tempo guardado sem porta
Onde te espero, e de pronto já
Pra não me esconder do que exorta.



Na lapela, a pronúncia da fala
Trago como joia, pregão, crachá,
Pois muito pode quem não cala
O poema, que em vez de dizer, dá.

quinta-feira, maio 23, 2013


NASALANDO ME ALENTEJANO



Estirado na rede me alongo
E desenleio por leve balanço,
Como qualquer til em nu ditongo
Que por vão repasso ao descanso.



Atrevo-me a soletrar-lhe o gesto,
A pôr-lhe vincos de sílaba sã;
Porém, cada acento é só o resto
Do escoado caféii da manhã.



Tenho esse não-sei-quê de preguiça
Na fala desde que a letra me ocorre…  
Mas como detesto entrar na liça
Calo-me, e a pronúncia morre. 


quarta-feira, maio 01, 2013


QUEM PREDICA SE CONJUGA



Quanto pode um verbo que é predicado
Dum sujeito que se não sujeita aos jugos?
Mais que todos os complementos ao lado
Com seus lamentos, amuos e resmungos…



Todavia, se predica pode ser condenado:
Que os inocentes não lhe perdoarão jamais
Ficar de fora do pecado, sendo seus iguais!



sábado, março 30, 2013


NOTURNO VOO VERTICAL



Quão espessa a tessitura da noite
Se mais que o silêncio a entreteça,
Ainda embora o peito sôfrego acoite
Esse abraço que só a distância terça…  

Mas a voz desce ao fado, tange-o
Melancólico ao dedilhar das ondas;
E o barco do destino, por contágio
Balança o ser em repetidas rondas.



Circulares e centrífugas todas elas
Numa espiral em contraluz cerzida,
Se a ternura solta ao vento as velas
Para receber e doar a própria vida! 

SOMBRA EM TRÂNSITO  


Ouço pulsar a planície ao ritmo do sol breve…
E o silêncio ecoa como um coração incansável.
Mas à sombra das oliveiras ninguém escreve
Quanto durará a paisagem, nem se é sustentável.

Portanto, junto meu verbo à sua frágil condição,
Que o respirar das árvores é o azeite da nação!


quinta-feira, março 28, 2013


NATAL DA ÁRVORE



Na alameda dos troncos cinzentos
Aconteceu, hoje, grande novidade:
Havia um deles com oito rebentos
Do verde translúcido da claridade.

Uns cinco, vieram sós, espalhados
Aqui e ali, como quem espera alguém;
Dois, fizeram logo par, enamorados
A espreitar o pequenino, mais além
Que sob os musgos d’água saturados
Arriscava vingar e afirmar-se também.

Eu passei, ambos sorriram para mim…
E ao ver, como no pequeno reparei
Na brisa tremeram, dizendo que «sim».   


NÃO AOS JAMAIS!



“Um não desfaz no carinho de quem a gente gosta, só por causa que os estranhos estando vendo.”

In JOÃO GUIMARÃES ROSA, Dão-Lalalão (O Devente)



A sombra é escassa no verde tanto
Que a seara se abraça à esperança
Diluindo seu grito calado num manto;
E ali mesmo, sob o céu singelo, alcança
Os poréns do voo que toda a terra quer.



Podia escolher qualquer nome, exigir
Do mundo e homens todos os direitos,
Fazer de seus ramos vis e nunca florir,
Vingar-se da solidão e demais efeitos
Que à planície são atreitos e normais.



Mas prefere vestir-se e dançar no vento,
Dominar os altos cimos e profundezas,
Pôr os braços à volta da magia do tempo
E beijar a seiva de nossas vãs certezas.



Ou até, ninguém pode duvidar sequer!,
Esculpir as vozes primeiras, ancestrais
No marulhar das folhas como uma mulher
Se penteia, tirando do futuro os «jamais!» 

sábado, março 23, 2013


TERNO BROTO TENRO



Abro a porta à primavera
E abraço-a no hall de entrada
– É que foi fria e longa a espera,
Tornando-a, por demais, desejada.



Tenho os teus gestos na memória
E despidos de mim os ramos teus;
Porém as águas, no rio da história
Redemoinham em pátios e gineceus.

Dizem que é um calar interrompido,
Argumentam, agitam a mansidão…
E, como quem se rebela do olvido,
Gritam seu «sim» mesmo se dizem «não».



quinta-feira, março 21, 2013


ESTAÇÃO DA FOLHA EM FLOR



Daqui vejo teus olhos em flor:
São palavras com asas de borboleta,
Folhas que siam, outro Condor
Nesse céu que nos sonhos espreita
Como o vivo lótus, que vivaz te enfeita.



Mesmo quando se te outona a voz
E em nós, aqui a primavera nasce,
A amizade é o pólen que o poema pasce
Colhendo a farinha pura de nossas mós,
Essa língua comum te banha e nos estreita
Num abraço que ao ano inteiro aceita…



És a minha alma nua, e plo reverso,
Tanto, que quando sou significante
Tu és significado; e se apenas verso
Tu és mensagem, referente vivo e cintilante.



terça-feira, março 12, 2013


LÚMEN MÁGICO



Acondicionada a voz no timbre exato
Eis que o sol tinge de luz o plano aberto
E, acesos os olhos percorrem o visto fato
Para exercer seu míster, quando desperto…

Podia eu dizer-te «bom dia, até que enfim
Te vejo, sem ser em sonhos», ou mesmo ainda
Que «na realidade és, decerto, para mim
Bem mais sensual, preciosa, mágica e linda».

Podia escrever co’a língua os poros de teu rosto
Um a um, e desenhá-los com sílabas puras,
Permitir aos lábios esse calor de agosto
Dos verões que à alma dão as divinas criaturas.

Podia… Que não mentia. Como, aliás, nunca minto,
Que teu olhar é o sol que dá luz a quanto sinto!