A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

terça-feira, agosto 05, 2008

About Roads And Streets

São apenas oito os caminhos da liberdade no acaso do ocaso
Os olhos, as bocas, as línguas, os sexos, os abraços infinitos
Seios de Hipátia em Cirene apedrejada por sentir prazer dizendo-o
Por pregar a autarcia e emancipação de quem a si se conhece
Alfa e ómega das estranhas estradas para (im)possíveis longes.

De resto labirintos, abismos, promontórios, padrões e cruzeiros
Cruzamentos, pelourinhos e rossios de sextas-feiras à meia-noite
Rotundas como becos sem saída nem outro fim além de si mesmas.

Porque só são caminhos os caminhos abertos
Todos aqueles de cujas janelas se avistam campos de papoilas
Na frugal avareza dos olhos silvestres
Das bocas
Dos sexos
Dos abraços apertados
Como nas demais estradas ainda possíveis.

Porque de resto é a morte
É a progesterona
É o nuclear
É a modificação genética
É o suor frio
É o efeito de estufa
É a campânula do smogue
É a birra e o capricho
É o silêncio incomunicável
É o homicídio de um no par
É o rio apodrecido
É a floresta incendiada
É o beco sem saída
É o precipício abismal
É o redil e o curral
Onde chafurda a própria vida
No suíno lodo do quintal
Tão inútil
Como todas as outras coisas inúteis.

E
Inútil é o estares aí e eu aqui e
Inútil é a leitura sem sentido e
Inútil é a sequência mortífera e
Inútil é a gradação decrescente e
Inútil é a estrada fechada e
Inútil é a anáfora rotineira e
Inútil é a hipálage do medo e
Inútil é a dissimilada opressão e
Inútil é a configurada abdicação e
Inútil é a estrada sem destino e
Desconhecer que uma estrada é um corpo
Uma rua que se faz caminho novo ao apagado caminho.

Como a letra, a palavra, a frase que leva até ti
A língua que se curva em redor do teu nome...

sábado, agosto 02, 2008

Quando enfim voarmos de Ítaca para Roma ou no regresso
Inverso voo de conjugarmos o ser diverso que somos, és e sou
Ou soar sobre o mármore das escadas o tilintar das lídias
Rolando degrau em degrau como uma História que saltita
Entre os cômoros do tempo onde se ergue o nosso bairro
Na encosta frente ao mar saberemos o destino de cada barco
Cada silêncio à tona do azul cintilante no esgar dos dias
Lua deslumbrada mas tão equívoca aos instantes de prata...

Porque se Ítaca nos receber de volta, sim iremos certamente
As rédeas nas asas à solta sem freio qual voz incandescente
De moldar o vidro com o sopro simples do murmúrio ledo
Ciciada penumbra sólida das esquinas insolúveis do segredo.

Iremos sim, sem serôdios recatos nem esperar outras alegrias

Nem sufrágios alcantilados nas ruínas agrestes alinhados cedo
Além dos socalcos natos das varandas donde a ver-te me vias!

quinta-feira, julho 31, 2008

Cuido haverem outras Penélopes e outros Ulisses
Aflorando em nossos passos perdidos pelo gesto
De quantos minutos pesam dez anos na clepsidra
Vidro de medir o mar a remar desenganos me apresto
A reinventar mitos esquecidos, a cortar a Hidra
Olho de Ciclope a ver-te de onde apenas tu me visses...

Invectivei o dia, fustiguei a noite, parti por ti a jarra,
Intimidei com ameaças o tempo e o modo, e despi
A parra, para não magoar teus olhos de verbo sem ira
Na beira da fúria que mira o suplício da conjugação
Incondicional me fiz no imperfeito da pretérita solidão
E quando Roma me quis me vi romã aberta em tua mão.

Acordar é um desacordo intempestivo com o sonho
E bago a bago me dedilhas rede da sede que mantenho
Pela madrugada densa no dengado de tuas ancas acesas
Colunas do templo à subtileza columbina de teu colo
Arco que retesas no disparo se desejas quanto imploro
E naufrago na cascata de teus cabelos que a respirar decoro
Quando sôfrego neles morro, se me detenho e me demoro
Até castanho escurecido também eu ser que viver só é viver
Se se for vencido e assim perdido apenas por ti renascer.

Porque só quando a aurora se descodifica em luz e púrpura
A sombra incendeia o manto de aurífero brocado e canto
Ou teus olhos se abrirem para os meus sem medo e temor
Seda estampada de macia cor que na clara derme dorme pura
E mata a sede quando cedo me concedo à dor do desencanto
Ou te escondes de meus olhos sob a digita esquina escura,
É que do cálice do texto se pode fazer a leitura da borra negra
E a sina se desenha tsunami do passado que a ficção agrega
Segura no abraço-luz de ouro futuro rompendo a noite escura.

Cuido haverem outras Penélopes que escrevem e lêem teus passos
Sentem a navegação de sala em sala sobre as páginas da memória
Que as redes de nós lidos sob a prata dos peixes se fazem laços
Nas ombreiras pintados ou sinais da rota, sendas, mar de abraços
Celebrações secretas dos beijos dados nas catacumbas da História.
E delas, uma serei eu, a entrançar palavras para prender-te a mim
Que se me olhas me lavras seara de cristal na aura areia sem fim

Porque há alvas recordações em auríferas sendas entre a escória!

sexta-feira, julho 18, 2008

...

Perdoo-me esta insanidade de sentir-te indomável
Solta sobre o meu corpo na soletração insubmissa
Subjugando-o ao fogo arguto do voo insaciável
Redimensionado no táctil augúrio, dígita premissa;
Que nem fátuo arco-íris entre Vénus e Mercúrio,
No manto azul terreno envolvendo a névoa loa
Mas já nebulosa intemporal adormeço naufragado
Sonhos de corromper o instante tido em si destoa.
Que das ondas sou sempre o outro lado do centúrio
Fustigado, elo e coroa nos corais de mim compartido.
Aí, a seiva que brota em espuma se desfaz no areal
Fui eu a rapariga, enquanto tu o rapaz cavalheiro
Gentil que sulcando em lemes o mar todo e inteiro,
Tremes porém no imo abraço derradeiro mas plural
Ao que explodindo em ti a minha lava de quente bruma
Vulcão assim me (re)tornei homem que em ti se esfuma
E tu, a praia fértil que o (a)mar cava em eterna espiral!

Havia silêncio no pôr do sol, depondo as vestes da ousadia
A resvalada réstia dos ocasos alvorados e nascidos dia a dia
Astro a astro, numa sinfonia infinita compondo o alfabeto
Do mundo a dedilhar arcanjos amputados do grito secreto
No golpe das asas... Asas? Só as que a imaginação nos dá!
Essas sim, que são seguras e verdadeiras de forjar órbitas
Plenas e centrípetas, não ícaras sombras no lado de lá do lá,
A fazer autênticos alqueives e sementeiras de acordar acólitas
Da vida, quais obreiras de produzir o trigo que em nós há...

Pão de searas selvagens os corpos se equilibram e balançam
Incandescentes de bem-querer na vida suspensa dum cordel
Notas de solfejo na paleta colorida das diferenças se abraçam
Na magia simples de arrotear encontros que os peitos cruzam
De eu e tu, tu e eu, do eis à flor da pele, na entrega absoluta
Colhendo sem dor nem luta, das pétalas a cor, e do pólen... o mel!

segunda-feira, julho 07, 2008

Andam Ninhos No Ar

Dizes que já não queres acender o brilho?
Dizes que já Galaaz te venceu, e a espada?
Pois bem, amiga: mataste-te. Estás acabada.
Não há agora quem se importe com teu trilho.

Teus passos jograis do credo do sarilho
Cantam velhos eventos em nova estrada...
É o fim, amiga: quedo-me. Estás acabada:
Jamais amarás o amor como nosso filho.

Ao culto de Onan anuíste, cruel, ilesa,
Esquecendo que o amor é a melhor defesa
Contra o vento forte da morte e solidão?

Pois bem, amiga... A raiva a ti por ti acesa
Dar-te-á a liderança do €uro como do pão;
Mas nunca te há-de dar carinho – isso, NÃO!

quinta-feira, julho 03, 2008

Ainda Sabemos Amar Repetidamente


À porta de casa o futuro nos reescreve.
Por isso, soletra-me inteiro, não só universo quebrado
Da boca
Dos olhos
Do sexo
Da fala
Da diferença, mas também o igual âmago
Referente do que entre nós permanece humano
O rosto exíguo na luz do entardecer nas colinas breves
O sol oblíquo ao falado horizonte sustenido das árvores
A pedra, o tronco, o vidro em que me dilacero sílaba a sílaba
Os dedos
Presa fácil na mortífera insistência de dizer-te sede
Água cristalina Helena da minha Tróia nos cavalos do sangue
À desfilada na crista dos medos a sofreguir
Da boca
Dos olhos
Do sexo
Da fala
De teu corpo todo sob as vestes do silêncio
A fronte hitita e alva na rebentação da memória
Ondas de seda no afagar da sede
Sede de sonhos no congeminar da prece
Se apareço pronto a perecer ao teu apreço
Sebe de estrelas na Via Láctea do sorriso
Em que me acoita em infinita coita
Que a gesta se na serena luz se afoita
Torna-se breve instante de urgência preciso
E conciso
Na fala
Na cor
No gesto
Na alva sofreguidão.

Soletra-me inteiro como te soletro plena
Que o corpo só é verdadeiro
Quando no sonho do próprio nome nos acena!

quarta-feira, julho 02, 2008

Sorrir Ao Ruído Alivia


Há ainda (h)era nos muros da nossa casa
Onde às vezes se nos prende uma asa
Põe o dizer ao "se calhar, talvez" reticente...
Mas quando as falas são o imo que repetes
Eis que o sonho vem e nele se nos escora
Enleado pelos caules o verde da demora
E participo em ti como futuro é estar presente.

É um verbo de partir, ir embora, voltar diferente
Igual não é a mesma coisa e recorrer à cor ausente
Porque inesquecível só a imagem que tens e prometes.

Eu sei quanta flor se abriu assim-assim menina
Acção da pele aberta ao beber a pétala contigo investes
O marfim do nosso castigo seminal onde germina
O gesto de sofrer um fingimento tão real e puro:
Enfim, que verdade sou eu, e não me digo (muro).

Ou se dito, traz consigo a capa do renascimento
Grito de juventude a ecoar nas páginas vestes
Sorrisos de aspergir os dias em cada momento:
Que quando se sorri contentamento aos ruídos
Eclodem ecos musicais dentro de todos os ouvidos!

terça-feira, julho 01, 2008

Poema Peremptório

Peremptória é a luz que nos contrai
Como se fôssemos apenas um vírus de languidez,
Estivéssemos à beira do suspiro que sucede ao ai
Ou andássemos a cruzar os tempos pelo seu entremez
Entre a segura vereda e aquela por que ninguém vai…


Peremptórios são teus olhos que me cosem linhas
Rasgam as vozes, abrem sulcos e caminhos
Na alma de ledos segredos em que o sonho se esvai!
Arte de Regressar Ao Sonho

Procuro os nossos filhos, ouço-os no corredor, em tropel
Sabendo-se poemas tão desatentos todo o cuidado é pouco
Para ressalvar-lhe a voz, não deixá-los tropeçar no cordel
Escorregar pelas escadas de sermos a espiral do pião louco
Aquele que desliza e lhe sabe dos olhos o seu travo de mel
O cotão da camisa, gestos de abrir as mãos sorrindo eternidade.

Procuro os nossos sonhos, escuto-os já quando respiras, serena
E tento quedar-me retendo-me na memória do preferir agora
Mesmo que houvesse chuva a fustigar e relâmpagos lá fora
Que ao acenderem-se nos apagassem dos ledos lábios a amena
Sofreguidão eléctrica em descer nas esquinas dos corpos crus
Sob o contínuo procurarem-se na ambiguidade dos trovões nus.

Procuro os nossos dedos, enxerto-os de flor, em rosa branca
Moldo-os tornando-os a voz do barro, bíblica argila e cuidados
A curva de teu nome a espraiar-se espuma ágil na líquida anca
E assim os deponho sobre a nuca de estreitar abraços apertados
No requerer dos lábios a proferirem-nos promessa de liberdade.

Porquanto nela os soubeste inventar traduzindo o sonho em voo
Como se da vida, se cumprida, nascesse directa a sã qualidade
E dela nada mais contasse, de tudo o que tenho, o quanto sou
E que sendo-o, para ser supremo, é ser só teu, em toda a verdade!

sábado, junho 28, 2008

Poema do Inviável

Inviável...
É quando um dia matar o amor que te tenho, por descrido
E houver o fugaz rasgar da memória numa imagem lacada
Pedacinhos de visão confluindo no caixote do tempo, caído
A desorganização de teu rosto inadiável por sulcos gretada...

É quando a voz rouca se arrastar colérica tecendo insultos
E invadir a cidade como um guincho de soletração vociferada
Entre os choros das crianças e as proferidas iras dos adultos
Numa promessa de esperança fedorenta quase morte consumada
Pelo carpir de nossos corpos desencontrados na voz dilacerada.

Como inviável é outro sentimento qualquer senão o nado destino
Cujo mister encerra a entrega total do homem à sua mulher
O deita no seu colo, lhe atura tudo, incluindo o maior desatino
Se acaso ele se enrede como nenhum outro velho menino
Que na ânsia perdeu o tino e já mal sabe o que da vida quer.

Porém, coisa inviável, é também
Esquecer teus olhos ou incrustá-los, por desdém
Noutros rostos, noutros seres vivos ou mais alguém
Ainda que ao vê-la, essa, esse outro ser, não se saiba bem
Do carisma e perfeição constatada, se é deusa, estrela ou mulher,
Pois que amar-te é um quase nada
Que põe em ti a grande diferença desejada,
Te eleva sobre todo o mundo, tenha ou dele se diga
Em toda a mulher igual rapariga,
Que ao gabá-la, dela mais alto suba e louvor consiga
Propalando dons dizendo de mais, no que se disser...

Porque até pode ser que a vida tenha
Ainda mil segredos para me contar,
Que nenhum haverá, que me convenha
Além do escondido no teu olhar!

sexta-feira, junho 27, 2008

Secretas Alianças Redobram Audácias

Dêem-me só mais um dia de solidão sólida líquida e profunda
E eu dar-vos-ei em troca a obra quase explícita circular rotunda
Deitado oito de ver o longínquo futuro emergente a cada aurora
Quase a eclodir como se fosse o nosso túnel de viver renascendo
A vertigem de ir ainda além da curva oblíqua do ser sem desânimo
Os frondosos arbustos onde se mexem máscaras fantasmagóricas
Forçadas ao exílio com que cada qual se vai prometendo na noite
Ou no canto absurdo de um embriagado camponês de passagem
Casual na cidade as esquinas pintadas com nomes supérfluos
Esquecidos e lembrados somos sempre que dobramos mais um cabo
As velas audazes a convocarem mais redondos ventres nos ventos
Mais uma boca, mais uma doca, mais um sonho e um sorriso doce
A erguer-nos na tarde tranquila mas sem hirtos e medievos padrões
Apenas lábios aflorando a cal de teu terno rosto de rosa branca
Adornado marfim da existência na porcelana real pelos salões
Onde vogam caravelas ao sabor de inocências várias gentilezas
Sim, são adjectivos, são rótulos nas garrafas mensageiras, símiles
Sem nada dentro te procuro ânsia de uma inscrição a fogo perpétuo
Violeta voadora num papel o inscrito significado da minha loucura
O incontido ardil de buscar a solidão profunda das águas mornas
No segredo manso todos somos iguais e preferidos da causa única
Diferente só o sol o é dito Arina sua deusa e véu de treze plumas
Cabelos libertos acompanhamo-nos e surges tu que és madrugada
Hálito ainda fumegante e húmido o olhar do último grito aos céus
A voz que se equilibra na corda entre o sonho e realidade teus seios
O equino das coxas vibrado rigor do (com)passo que marca o tempo
Uma torrada e sumo de laranja à espera na mesa de xadrez atoalhada
A marquise aberta para os primeiros pássaros, primeiros ritos e voos
Tão desprendidos os seus cantos te esperam nas brisas pétalas mansas
Enrolada sobre ti a toalha de banho insiste em desvendar os ombros
Mostrá-los polidos e níveos e rosáceos ao amanhecer dos sonhos
Escorrendo diurnos a noite na seiva túmida de soletrar teu nome
Que só quando o deslaço me nele desenrolo em sustenido abraço
Descruzo audaz destemida jus onde és tu Sempre tu A Repetir A luz.

Crê na entrega: estamos prontos, sabemos discernir as palavras gesto.
Quantas vezes aguardámos este momento cruel de acender as mãos?
Quantos se descobriram ao acordar tão simples como o chilrear do dia?
Só que ainda não estás sentada cruzando o jeito das marés sem retorno
Polegar e indicador segurando a torrada morna das searas férteis
O sangue da laranja escorrendo sobre meu peito a esperar-te convexo
O copo repleto de tua boca tão próxima e exígua onde me bebo e sorvo
Num grito cintilante da eternidade sob o eco cristalino das estrelas...


Que é em ti que flameja o nome: sou eu quem nele arde e se consome!

quinta-feira, junho 26, 2008

Sonho Acordado de Repetir Auroras

A mentira de estar presente é tão-só pensar ilusão
Mas em ti tudo é lindo e sobre posto estou ancorado
Ser consciente é preferir o dia escolhido da paixão
Esse feixe de cabelos castanhos-escuros à tona da testa
Os olhos que se afundam quase longínquos entre livros
Capazes de emergir no nevoeiro em sonhos sustentáveis
Ao cruzar de célticos traços me chamam os lábios prà Net
Quando sorrindo lhe avivas a palavra solta descontraída
E sobram da mentira de estar apenas aqui por ti perdido
À espera que teu nome seja o único responsável do encontro
Marcado e assuma o sinal aberto da paixão incontornável.

Podia dizer-te tantas coisas mas somente me lembro
A lembrar-te, há todavia uma fonte que não esqueço
Onde nasce a veia que desagua em teu silêncio secreto
Porquanto ele Sopra sempre a Ânsia e Reprime a Angústia
Que Amar Recolhe a Alegria na Sorte que conhecer(-te) repete
Observa o desejo do crime que a eternidade em nós comete:

E amo-te desde o entre o tudo ao por nada sem ter fim
Mesmo quando serena me perguntas "o que é que foi?"
E assim a quase calada dúvida que sinto e no sentido dói
Por não saberes serem somente teus olhos a raiz de mim...

Que são eles apenas quem me segura à vida e nela contam
Me balançam entre o sonho e a paixão, iluminam a manhã
Dos amanhãs fazem o laço, atam o passado ao futuro infinito
Fiam o presente, tecem do novelo enleado em que acredito
No linho a rosa branca que de vermelho as palavras pintam

Se tuas, que a gravitar à volta da verdade são os olhos duas luas
Apagando buracos negros no cosmos e acendendo eternidade!

quarta-feira, junho 11, 2008

O Zoom Kfakiano Que Zune

For Marlen, with a Kiss

Se ao zoom que zune sobre a janela
Se quebra a jarra no espelho da água,
Então, se se mergulha a ira na mágoa
Nasce dela o nu desejo despido nela

Cecília, aquela que pra ser o que em si havia
Se despiu ali perante o olhar motivado
Daquela que vendo só via o que queria
E não quanto na fonte ao Tritão era mostrado.

Que quando zune o zoom cru da fantasia
E assim vai de janela em janela aumentado
É quase certo haver algo, algum dia
Daquilo que visto certo estar também errado.

Porque ver é estar-se todo nu nessa visão
E pôr os olhos onde quem apenas pôs o coração!

About Atonement (Expiação), de Ian McEwan, na
ESECB – Escola Superior de Educação de Castelo Branco, in
Reading Circle Activity – Literary Wrinting, by Marlen Schachinger
06.06.2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Sala e Antecâmara de Retorno à Alma

Registo-me no espaço terno e morno de dizer teus lábios
Restrito ao respirar contrito com que me miras circunspecta
Os corpos arqueando-se mútuos numa interrogação aflita
O futuro nos olhos brilhando apenas indecisa esperança
O silêncio que as mãos sabem decifrar se as almas falam

Aqui, até as palavras são vãs prontas a perderem-se nos lagos
Onde os rios do amanhã é já ontem desaguam tensos mansos
Refreando a imperpetuação do perpétuo sentido das quedas
A ânsia soliquefeita dos lábios descobrindo a mulher verbo
O suor deslizando pelo vale vertebral até à enseada do dorso
A apropriação da esfíngica sombra quando ser tem luz própria
Diluindo-se submissa na forma que contém o abraço se devolve.

E contudo o apito longínquo da locomotiva lançada à desfilada
De rápido afoito nas linhas do corpo inundadas de sofreguidão
Os ombros a gritar libertação e feitos lava de aspergir o sonho
O queixo emergindo explosivo que nem quilha de quebrar gelo
Nervoso pulsar de espera a abarrotar de expectativa e milagre
Sala feita gesto de recolher-te plena em mim num só beijo
Única ponte ente dos rios que desaguam na mesmíssima foz
Ditos com igual verbo e verbalizados com a mesma voz:
ARinA!! Só tu sabes precipitar-me no abismo e planar no voo
Porque as palavras são saudações entre dois genes originais
Almas que se cruzam e se tocam cansadas de serem sós!

terça-feira, junho 03, 2008

Sonhar Acontecer Repete-se ao Acordar

Raiva perdida, caminho deserto
Sofreguidão dum futuro tão perto
Que é já ontem em vez de só amanhã
Numa imensa solidão da palavra chã,

Soluto de consciências ao desperto
Quase vivas de correr no tempo certo
A destruir o que é árido da meiga lã
E nascer na aurora de teus lábios de manhã.

Tempo de esgrimir o mal e o ninguém
Que são todos, por apenas o único bem
De refazer a sede no grito de ainda viver

E ter as mãos que procuram tão-só o encontrado
Na transformação do indiferente em amado,
Como se fosse desejado, o sonho de acontecer!

sábado, maio 31, 2008

Socar a Ânsia Retira Algemas

O vazio de uma floresta sem pássaros,
O restolho gretado sob o sol acutilante,
O esquisso do horizonte violeta e rosa,
O silêncio gritante dos sobreiros solitários
Estendal dos panos templários da prosa

E mais que isso, na penumbra do rés-do-chão
A linha de teus gestos que se desprendem
Pouco a pouco, tudo nada, cabelos desalinhados
Que estendem o sonho dos olhos escorrentes
Na lágrima sobre a alvura da face coitados
Os braços esticados na procura do tronco
Elástico, elegante, ágil, felino de ter-te urgente
Verbo preso na caixa da boca, túmido
Socalco da sílaba no crescente desejo
A tua liquidez desmaiada no ocaso
A estrela da alma prestes a rebentar em luz
Lá no alto onde apenas se chega por ânsia
Esmagamento absoluto de perpetuar-te em mim
– AaaSSSSSiiiiiiMMMM!!!!, meu Deus – até as veias romperem
Gretarem a frase pelos complementos directos
Direitos ao verbo eclodir a esgarrar a casca
Pô-la porta aberta a soltar os sons insurrectos
De teu grito ledo de estilhaçar o medo!

sexta-feira, maio 30, 2008

Abraços são Reservas Anímicas dos Sonhos

Desço a Serra, escorregando-lhe pelos flancos. Não me vês?
Eu sei que não... Também não é lá que estou. Nem tu.
É aqui, a ver-me descer os olhos sobre ti, ajoelhar-me
E com sucumbido arrebatamento beijar teu abdómen de luz.

Trago aos ombros o molhe de sonhos que os deuses esqueceram
De levar para o céu quando partiram sob as trombetas da alvorada
E os olhos cintilam das infinitas brincadeiras a aflorar dos lábios
Com que as crianças me depõem entre os sortilégios preferidos.

Logo, talvez mais tarde, virás buscar um, dos mais mágicos e potentes
Talvez aquele que consigo me acarreta sobre as espáduas olímpicas
E me leves, sem nunca chegar a saber, qual a sorte que ele te deitou
Nem como ela se cumpriu quando o meu, ao teu nome, se abraçou
Letra a letra jungido, numa sábia sílaba de salvação apertada
Até que entre cada fonema não coubesse, nem soasse mais nada!

quarta-feira, maio 28, 2008

Soneto da Cantarinha Verde

Saiba-se pois que este ramo de flores
Que o guerreiro Tiuí aqui plantou,
Se regadinhas, até matam as dores
Mesmo as que um dragão semeou.

Da cantarinha ganharam as cores
E às folhas, nenhum vento as levou,
Que grandes jardins são os Jamores
E as taças, de quem neles melhor jogou.

Que do jogo, com ou sem sorte, é igual
Desde que o resultado seja de justiça;
Aos vencedores, é a taça em rico metal
E a dos vencidos, nem sequer de cortiça.

Porque no futebol, todos golos são flores
E até as taças, uma beleza de hortaliça!
Parabéns Inês


Não posso dar-te as chaves da minha cidade
Porque é livre e de portas abertas, sem idade...
Mas de tanto nomeá-las, a todas as suas ruas
Se tornaram minhas – e que agora, são tuas!


Tuas, por direito e alegria de um Portus Alacer
Que aos portos só podem chamar-se da alegria
Se forem igualmente pertença daquela, que mulher
É também rainha e luz quotidiana, no seu dia a dia.


Portanto, se de quanto esta terra dos teus avós
É meritória do romance que o teu nome encerra,
Das muralhas de D. Dinis os Pedros somos nós
Pedras de afecto seguro que só por ti se esmera,
E cresce dando-lhe o peito como lho dá a Serra.


Que os montes das oliveiras, penhascos e sobreiros
Onde pascem os sonhos floridos das Maias este mês
Sabes, sem dúvida o fazem para serem os primeiros
A cantar-te os parabéns... – assim: PARABÉNS INÊS!

(17.05.2008)

segunda-feira, maio 26, 2008

Alvos Reflexos Aspergem-me Silentes

Poderemos nós resistir por mais quantas eras
Estações onde o acontecimento único são teus saltos
Altos batendo à porta entreaberta para o corredor
A tua alva mão pousada sobre a maçaneta da porta
Cachos de castanhos anéis descaídos da nuca
O traço felino do olhar que perscruta a penumbra
Os dedos hábeis acariciando sonhos e esquecimento
No afago do sorriso enigmático e periclitante
A camisa transparente de noite brilha nos contornos
A visão de teu corpo a escorregar desde os ombros...

Poderemos nós resistir à ânsia de gritar o silêncio
Deixar de beijar-te toda como faz o sol matutino
Não permitir a língua bandeirante aflorar cada poro
A púbica sombra num triângulo de carícia e verbo
O bago doce no recôndito lóbulo de tuas orelhas
O felino dorso prestes a desferir o salto detonador
Ombros e seios de polido mármore rompendo o tempo
A planície do ventre alqueivando a posse e a sede
Repletos gestos frementes de abraçar o teu nome
Todo, apertado, jungido ao meu até não caber mais
Incandescente e rubro de fogo na fusão do ser.

– É esta a órbita do silêncio de meus gritos à deriva
Uivo na galáxia de estrelas cintilantes do teu olhar!

terça-feira, maio 13, 2008

Soltam-se Alegrias em Raras Almas

Deixem-na ser simples assim como um dia de Julho
Transparecer a fala e dançar em cada letra breve
Soletrar a voz imensa do luar no límpido marinho
Do céu padrão oceânico à bolina vogando no azul
Borboleta de multicoloridas asas nas matizes das vozes
Um rouxinol à procura do eco em que possa pousar-se
Um canto em busca de sua gaiola, seu imperador eleito
Sua boca, vulcão túmido, apurado no silêncio do grito.

Deixem-na apenas ser simples, que é a brincar ecolalia
Que se começa a perpetuação do zero no redondo da voz
Na formação de tudo isso composto e somado que dá nós
Quando conjugação integrante de uma oração preciosa
A fala, o gesto, a tarde, a luz, o corrupio do trânsito citadino
A outra conjugação, copulativa no retrós do modelar figurino
A garganta implorando água, somente sede, só sequiosa de ti.

Deixem soltar-se nela a alegria vasta e redutora da ilusão
Que é seu destino ser sem destinatário a própria missiva
Breve mas secular, mapa genético nuclear ao DNA
Cratera de fogo na placidez falada do corpo que não resigna
Sôfrego encontro entre os passados e os futuros inauditos
Gesto inédito de embandeirar os cabelos ao vento são velas
Redondas de rumo, grávidas de remar adiante, adiante, adiante
Muito para além da vida, esta coisa irrequieta pequena e frágil
Que apenas por ser nossa tanto prezamos e ímpios defendemos.

Porque um dia haverá em que baixamos os braços e, nisso, a vida

Continuará a tua luta imperiosa, apenas por uma questão de hábito!...

sábado, maio 10, 2008

Subterrâneos Acessos Rigorosamente Acesos

O meu jogo é de lantejoulas, palavras subsarianas
Cintilantes, desérticas, vítreos grânulos dos areais
Caracolinhos de cabelo na madrepérola, botão de camisa…

O meu jogo não respira as leis de novos evangelhos
Porque se afia no esmeril da esperança ao desenhar-te
O gesto equino com que irrompes na noite das noites
Partes à desfilada nas asas selvagens do louco desejo.

Jogo que é mesmo jogo entre o jogo e as suas regras
Ao proferir-te verbo de conjugar o aceso rigor da brisa
Pomo de eclosão ao arrancar-te a luz para dispersar-me
Estilhaçado, distribuir-me por todos os cantos universais
Pedacinho de vidro bailando a tinir no espanta-espíritos
Por detrás da porta, ao cimo das escadas, socalco à solta
Solta e livre nos soslaios que cambaleiam em vésperas
A lágrima euclase do lusco-fusco na esmeralda dourada.

sexta-feira, maio 09, 2008

Alvos Reflexos da Alma Secreta

Só quando o silêncio da verdade, arde
É como pátria do corpo na língua amena
E serena a boca com que nos falamos;

Só quando teus olhos ternos aplacam
Apaziguam as tempestades da fria luz,
Esculpem a sombra do grito na espera da tarde;

Só quando nos dizemos ao de mansinho
Consumada é a passagem entre as folhas e ninho
Do cuidado das árvores na lida paisagem;

Só quando a descoberta da flor do outro em nós
No espelho que se não quebra, a decidida imagem
Será então a infinita certeza, de quando a sós
Não se apagarão nunca os dedos
Nos amuados degredos da voz.

Só quando tu queres
Sob o vermelho e o preto
És pétala de todas as mulheres,
Aquela que me acerta perto
Na raiz digital do grito secreto.

Porque só quando tu queres
Me quero cruzado do querer,
A crer que quanto disseres
É único espelho que reflecte o viver!

quinta-feira, maio 08, 2008

Instante Gótico

Desce devagar, rés ao silêncio na exígua voz
As vestes ondeando, cabelo lançado para trás
Voando, o sorriso compassado ao andar direito
A simplicidade é receita do equilíbrio ancestral.

Desce devagar a sinuosa via, íngreme colina de nós
Como se ambos fôssemos, na ânsia de ser capaz
O gesto ao ritmo do bater interno no totem do peito
A invenção pretérita do mais-que-fogo, alerta e sinal.

E ao descer assim, sem ilusão, escusa o fingimento
Escusa o submergir sob as redomas da crua defesa
Com o aval de pagar esquecer com o esquecimento.

Escusa a caveira do que não fomos, tange talvez
A pintura de uma campa, com uma só vela acesa
Porque o amor gritou seu brilho nesse entremez!

quarta-feira, maio 07, 2008

Acto Solidário

Dá-me a cor da oração
A prece de teus olhos maduros
Fruto suculento de vermelha doçura
Violeta perpétua desmaiada no azul do céu
Como qualquer pétala de mulher em flor.

Esse quadro... gostava de saber pintá-lo!

segunda-feira, maio 05, 2008

e- moções íntimas

Dizem que há um rosáceo espaço qualquer entre o aqui
E o agora, que é um produto copulativo mas desconheço
Até que ponto isso é verdade, cruel apenas sei, sei sim
Entre mim e ti há um e- que anula a sofrida distância
Que liga dois seres e os aperta em laço de afim recomeço
E a maior importância é mereceres-me tu quanto eu te mereço.

Portanto, diz-me de vez quantos pensaram
São mortíferos os teus olhos despidos
A mágoa para ao canto sem nada fazer
Abrir das pálpebras ao cristalino arco-íris
O cintilar acutilante das pupilas
O ruborescer das faces sedosas
A tumescência da flor dos lábios
A cascata esticada dos cabelos
Sombreados no desmansinho da voz
As arcadas desenhando incerta nitidez
Meiga solução para a surpresa de ser
Assim dançando à beira de um abismo
O infinito e secreto caminho de sorrir
E voltara ti em mergulho e salto imortal.

Portanto, diz-me de vez quantos voaram
Há insectos rodeando cada luz mais
É cisma saber a sombra do desejo
Aberto sou em perpetuar-te o grito
Ansiar esculpir no útero do amanhã
O sonho a expulsar o medo, a dúvida
Ousar-te expelente e equina e exigente
O corpo incontido na explosão da voz
O gesto de voar no grito da nova aurora
Albatroz de proferir o íntimo elixir
Silêncio a espraiar-se nuvem sobre azuis
Janelas que se desdobram infinitamente.

Portanto, diz-me de vez quantos caíram
São vestidos o que vejo a teus pés?
São cadáveres os nylons estampados?
Mesmo à porta a alcatifa manchada
A garrafa de champanhe abandonou-se
Ouviu-se um riso selvático e felino
Amanhecia, as cortinas baloiçavam
Tremeluzentes as réstias das estrelas
Esmoreciam mas crepitavam promessas
Havia imensas promessas a nascer
A infância era garrafa desarrolhada
O incendido vapor que se espraia
Incandescente a cama respira ainda
O lânguido abrir as coxas sob o olhar
Atento suspendo o tempo e eternizo
O instante atravessa o passado rasga
Penetra o futuro como lâmina mágica
Só aqui se traduz em luminoso agora
Se repete e repete em repetido voo
Ceifa reflexos nos mortiços brilhos
Lacrimeja cometas à suspensão do breu
Solicita os murmúrios que calada grita
Ambígua nos soletra e exorciza ímpia.

Portanto, diz-me de vez quantos voltaram
Do fundo mar ecoam címbalos e trombetas
Toques de à carga em líquidas campanhas
Trocadas foram elas ingratas estridentes
Vorazes me usufruíram o contínuo esperar
Os sustos são besouros orlando as flores
Lábios de mel se entreabrem as pétalas
Conquanto sejas eterna sobre a colcha
O franjado dos sonhos à volta do corpo
A boca recolhendo uvas cristalinas
Gotas de orvalho do cacho de teus cabelos
A dobrar-me num beijo sobre ti deposto
Mosto a fermentar a seiva cola inseparável
Num antes de partir voltarei aficar – de vez.

Havia um espaço e- quase copulativo entre o aqui
E agora há nossas mãos dadas no voo de um colibri
Que nos beija e acorda no esvoaçar que aflora!

domingo, abril 27, 2008

A Metáfora Tudo

A metáfora tudo transforma em poesia
Como se fora serena plástica a respiração
Sulcando o peito, cronómetro de qualquer dia
Gesto de suprimir as réstias da solidão;
O entrançado querer dos corpos selvagens
Disciplinada ousadia de ser entre as margens
A ambiguidade rosácea e terna, encruzilhadas
Cristalinos significados que se libertam contigo
Desnudos sóis, claves deste solfejo, esquinadas
Sombras atravessando as travessas do desejo,
Palavras trincheiras, falas de escorar doce abrigo...

Tento habitar o hábito dos rostos
Tento enunciar-lhe um caminho:
Quem sabe a serena voz que inquieta?
Que bagagem levar além das esquinas?
Tento habituar-me à tua transfiguração.
Diária é a metamorfose do permanecer
A teus pés escravo e sacerdote sou.
Pedes a boca e não a espiga?
Pedes a palavra e não o pão?
Escorre, pelos ombros procura os dedos
Penteia as mãos como se fossem sangue
Rasgos de cal branca em tua alva derme.

Eis tudo o que te encerra e profere
Gruta nos penhascos da serra habitável
Moradia a que não resisto de olhar
Ler do silêncio a expressão do grito
As arcadas que se vincam pra duvidar
Lavram o riso na surpresa de existir
Crua flor na segunda pessoa do singular.

sábado, abril 26, 2008

Arina Respira Aqui Sofregamente

Escrevi-te. A transfusão de fantasmas
Imediata é a tua presença quando me lês
E contudo ausente a voz quase sempre
Trago comigo a infância do esquecimento
E por esquecer é outro o verbo que se diz.

É total o amor que se refaz na escrita corpo
Nada daquilo que não presta se retém em mim
E tu de tão perto respiras, ofegas em sustenido
Sentida ingratidão dum amanhã sim estarei
Contigo frente à fonte o mais escorre como água...

Que o rio que escolhe a foz não abusa das margens
Desmargina-me da tortura da contenção diária
Espelha a sombra de pensar-te ilimitada em mim.

São avaros os meus olhos que te saqueiam
É a contornar os flancos que se aflora a seiva
Um corpo é uma flor que se perpetua verde hera
Nas pétalas da boca o sulco doce de tua língua.

E na devoração do ideal incandescente sequioso
O sangue a descobrir labaredas as faces níveas
Da boca entreaberta a gritar planícies de estevas
O dilatar das pupilas até descaberem-me os olhos
Os dedos trementes percorrendo a polpa de teu colo
O interior das coxas que se afastam sôfregas
As mãos naufragando sob a tensa e terna pressão
A febre intransigente dos dedos sobre o gomo túmido
A anelar fricção de descobrir o fogo inflamável verbo
A ânsia do corpo imaginado pleno na plana dimensão
Apertada ausência entre braços que libertam abraçando
A contracção do grito abre os lábios para os céus
Contornos próprios de suster silêncio e morder o sonho
Sulca a garganta no equino suspiro de cavalgar a noite.

Depois, depois a percepção do canto caótico nas ogivas
Góticas as janelas no vidro de existir entre barrocos vitrais
A árvore em frente com seus pássaros maduros coloridos
Plumas cujo chilreio esvoaça dentro de mim periclitante
Debica a saudade de teus olhos, colibris clandestinos.

sexta-feira, abril 25, 2008

Sagrada, a Aurora, Reflecte Alegrias

Demais sagrado apenas o subtil respirar teu
A profanação da alma perene e (in)temporária
A exorcizar a ignara e teimosa resistência
A matar-me os fantasmas mais profundos
Enraizados, recônditos, soletração da inocência
Exposição imediata, perpétuo, o teu gesto
Germinal abertura ao diálogo ledo e livre.

E do corpo aquela greta rubra da fala
A fenda dilacerante da língua vulcânica
O sorriso da palavra que prometes mágica
A recolha da pérola entre os teus dentes.

A da boca a fala, o rasgo anímico
A consumação do sagrado alquímico
O filtro, o elixir com que me prendes
Me prendes, surpreendes e suspendes
Entre os lábios de nos soletrarmos sós,
Únicos, na procura da explosão de nós!

quinta-feira, abril 24, 2008

Sono Aberto Recolhe Aliados

Finjo dormir
À procura do sonho
Para nele me surpreender;
Há embriaguez nos soluços bipartidos
Da suprema fortuna
Nas palavras profanas dos sete sentidos
Essenciais à dignidade humana.

– Alto! – Grito, caído
O corpo esticado no Xis da incógnita partitura
Labirinto de mim, que desenho na pauta
Flauta incandescente do solfejo dos lábios
Na procura daquela cujo nome é ferida que cura
Soprada brisa que sara a voz e sussurra:
São vermelhas as rosas e as palavras pétalas
À espera do cálice no coração que as torne perpétuas.

Mas acordo, e se recordo vejo
Desacordo no acordado solfejo
Com que mordo crendo que beijo!

quarta-feira, abril 23, 2008

BIG BANG


Há, com certeza uma forma simples de dizer
Onde se levantam as brumas o olhar se esconde,
O silêncio translúcido de apoucar a pequenez humana.
Há; eu sei. Os Antigos chamaram-lhe tempo
Outros, fonte
Em que o sagrado se corporiza no escorrer
Líquido pelo apelo de quem ama.


Há tudo quanto é possível nomear-se; tudo.
Mesmo o invisível e inexistente existem.
Ainda o medo de morrer, quedar-se mudo,
Ficar pedra, murchar fechado como os lábios
Que resistem.
Bloqueios de não desaguar em oceanos sábios
Dos rios que em si encerram e permitem.


Há – eu confio. É a tua voz,
Teu sorriso, teu andar liberto,
Teu corpo de mulher, menina no mar aberto
Quem mo diz, quando teus e meus olhos gritam “nós”
Mas pensam eu
A evoluir,
Na espiral, a subir
Cintilando para explodir
No infinito céu.

terça-feira, abril 15, 2008

Albatroz V

Tudo está no seu lugar: o PC, o Word, a Gramática,
A fantasia e uma necessidade infinita de dar vida e som
A um pedido do desejo e respeito pelo fraterno sonho
Para hipoteticamente resolver inicial fenómeno criador.

E venha a mim, na imaginação, a palavra simples e exacta,
Sem ensaio nuclear, sem Einstein nem Newton,
Sem morte nem razão, mas a fórmula primeira do habitat
Deste espírito inocente e tardo com que nasci,
Por entre as espigas de Redol que na labuta sego,
Em veneração ao amor antigo e verdadeiro
À Vénus, que tanto como Deusa, como Mãe, como Terra.

A que fez a luz e no arco-íris pintou a cor,
Que transformou o caos em prazer
E a que voltamos na busca do calor,
Do pólen que somos: apenas aquela flor
Nascida de si mesma como um suspiro qualquer
A quem invoco e nomeio de Geia, Musa e Mulher.

Porque grotesco é o verbo azul no breu do céu
Quando aspergidas as nuvens da fala se soltam
E breves vêm dessedentar-se nos ecos do murmúrio
Nas carícias de tua pele clandestinamente nívea,
Sob a polpa de meus dedos invasores selvagens e arruaceiros
Que açulam e incitam os enxames de silêncios
Magoados nós na conjugação do corpo a desferir o grito
Vivo de infinito rio que lava e desanuvia o espanto original,
Com requebros e pronúncia hitita amadurecidamente celta
Na ecolalia do ventre que dança ao tinir dos cristais universais,
Golpe de asa que baloiça na poeira cintilante das galáxias.

Onde a eleita subiu degrau a degrau a fortuna ventura
Para olhar ao de redor de si e ver. Estava só.

E um pouco mais ágil a solidão do verbo
Que a idade encaneceu lhe dobrou os ombros
Sob o manto púrpura para esquecer que outros socalcos
Degraus a degraus até ao cume da espiral infinita
Se desenrolavam na pedra muda e um a um se seguiam:
Cruzou cinco, sete e dez portas
Arrastando consigo nuvens de violetas silvestres
E as nuvens negras sucumbiram pálidas e mortas
Tilintando as trinta moedas da traição para fundo do poço
Do poço sem fundo do tempo como guizos de maldição.

Portanto cedo e cedo, logo, loguinho pela manhã
Te descubro o rosto por entre os ramos da casa,
Verdes de cipreste, amarelos de acácia, ranhando a vidraça
No felino ronronar do vento, os sonhos que nele partiram.

Não saber se aquele gesto de adeus o é, ocaso de acaso
A ignorar conjecturas acerca de como só partindo se chega,
Tudo sinais de continuação no mundo que nos liga,
Eis quanta da atrocidade da aurora do sem limites
Nos limita à felicidade de arrancar o dia ao grito do silêncio...

Mas é quando em ti me dissolvo que me salvo
E dedos nos dedos, olhos nos olhos, bocas coladas
Te percorro e me percorres as veias uma a uma
Tacteias o facto em realidade e me contas por fábula
E me recontas gesto próprio entre as falas que recebes
E emites entre as fábulas da idade única me percebes.

segunda-feira, abril 14, 2008

TRÊS GIRASSÓIS PARA TI

1.

Se Agora Resistir Amarguro

Ensina-me a aprender a falar de ti, secreta
Quando meiga percorres sôfrega a sede
A fome de meu corpo que te procura nu
A voz, a língua, os lábios que sabem unir.

Ensina-me a referir-te consumada e só
Unicamente leda e original como apenas tu
Assim à flor da pele tumescente, inquieta
Como equino nervoso na antecipação do salto.

Ensina-me a distância que vai do corpo à lua
Aquele brilho eléctrico, fluorescente de teus cabelos
Quando incontidos reflectem a pulsão de proferir.

Ensina-me a cor do credo, para não perder-te
Esquecida, a tecer-te, em meu puro segredo.

2.


Saber Amar é Renovar a Aurora

Falo de pôr o arco de teus lábios
À volta de mim a escrupulosa língua
Ciosa de explodir percorrendo meiga
A aurora de um sol tumescente.

E quando nem mais algo já houver
Que a Terra girando em louca vertigem
Os olhos cerrados, narinas alçadas
A quilha do queixo disparada ao céu,
As mãos esticadas acutilando o nada...

Então, acontecerás irremediavelmente
Adorada!

3.


Serena Aparição Respira Aqui

Primeira, é a pessoa que deambula a ver
Neste percurso incerto de afluir
A este pronome sem pretexto de ser
Que este limite sem escolha nem devir
Está na génese do que ainda há por dizer.

Por dizer quanto ainda restou calado,
Por dizer quando os corpos se exigem
Daqueles que ao amor gerou cuidado
Por mais recear que eles a vertigem,
A sã loucura de quanta esperança há
Na poética pequenez do "eu" que se dá.

Como dado simples, doce e belo de teu sorrir
Do musgo em teus olhos de querer (vi)ver,
Da rebeldia de teus soslaios de permitir
Cabelos de naufragar e em afagos renascer.

E cortar a morte tornando-se consorte
Ao possuir a certeza sorte do abraço tido,
Apertar desapertando para despertar sentido
Sabido do abraço, que o terno braço é o mais forte!

sábado, abril 12, 2008

Vegetal de Vaga e Mundo

1.

Se me recorro me confesso
Desfaleço e embriago na voz profunda,
Me recolho aos infinitos mitos
Passos inseparáveis da melodia
Oceânica.

Se confesso me prometo
E arremeto e jogo num corpo novo,
Renovo os anos abertos
Despertos os bolsos vazios
Aos cantos dos olhos a espuma
Das horas felizes.

E se me prometo me arranco
Tranco as raízes da língua viradas
Os verbos à tona das páginas vidradas
Os ombros rompendo a solidão escrita
Das algas.

2.

Desculpa cigana,
Teus lábios, gomos de laranja doce
Teus olhos (es)correntes de sumir na estrada
Teus beijos em sumo de pedir perdão
São – mas antes o não fosse! –
O brilho da noite enluarada
O desejo a explodir na paixão
Com que nos desvendámos num desvão
De escada.

Cheiravas a orégãos, giesta e milho
No patim do condomínio sem fim.
E agora é teu o meu trilho
E a planície um amplo caminho
De olhar rés e muito cuidadinho
Na procura de mim.

3.

Cigana, fala-me dessas vozes infindáveis
Do sol-pôr sobre a azinheira ao cimo da seara,
Fala-me do luar sobre o cabeço do monte.
Fala-me de tudo quanto eu te conte,
Fala-me dos cavalos nos vales verdejantes,
Fala-me de teu jeito de desenhar nichos
Losangos, quadrados, cubículos na simetria
Alçados manuelinos de exóticos frutos e bichos
Mas não deixes acordar a multidão do dia.

Cigana, fala-me em teus gestos de laranja e preto
Daquelas coisas distantes que nenhum de nós sabe,
Do grito da terra, da muralha onde o suspiro cabe;
Fala-me do silêncio no abraço de estar tão perto.

Cigana, fala-me do encontro das linhas de teu rosto
Entreposto da mala-posta aos murmúrios do sorriso
E diz, diz outra vez quanto do desejo é fogo posto
Na floresta comburente e ressequida do meu juízo.

Cigana, faúlha, pérola brilhante, luz de secreta chama
Queima minha dialectal voz com a tua língua profana.

4.

Se és espelho no jogo das palavras mortíferas,
Oca torrada na vermelha argila do sangue,
Esteva florida na noite rupestre, colibri de coníferas
Então, vem ousar como meus pintassilgos livres
E faz o ninho neste mangue, nas folhas deste cipreste!

sexta-feira, abril 11, 2008

Alternam Engenharias Fratricidas...

Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.

De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.

E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...

Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!

terça-feira, abril 01, 2008

Crime ao Lusco-Fusco

Aconchego o meu olhar sob o teu subtil véu
E adormeço com o eco da batida estranha
Sincopada, gema candente de teu coração
A pérola luminosa, asterisco de surtir ao céu.

Já quase asas por que liberto da insana sanha
Todo eu me prendo nas teias da leda solidão,
Naquele isolamento de ler, que jamais te acanha
No afagar da folha, virada página por tua mão.

Foi fórum de encontrar-te e perder-te também
Neste singelo segredo das rosas crucificadas
Agora, que só em teus olhos meus olhos se atêm
E a buscá-los ando em todas as flores cruzadas...

Porque se amar é crime, então, eu sou o réu
Que não se redime, sob o manto de teu céu!

terça-feira, março 25, 2008

Sede Arde na Redoma das Ausências

Creio que ainda há em ti todas as palavras não proferidas,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso das brumas
Inexactidões libertinas aos rigores dos verbos, estrofes
Contumazes imagens de salivar as noites consentidas.
Poemas a serpentear perdidos nas odes da seara de teu cabelo.
Lábios plenos de silêncio na aurora da luz prestes a romper.
Gestos soltos e decididos de quem conhece o que é querer.
Colinas de seios prontas a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a balouçar violetas primaveris.
Dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão da tarde
Digital convénio de abarcar o mundo num só clique da voz.
E as colunas das pernas sustentado o átrio do templo da vida
Arcadas em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho
E semente me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se sais, fica sempre outra onda a bater a espuma da leitura una
Dos dias em que os olhos te disseram frente de enfrentar aferente
Relógio de medir a felicidade de ver-te acto como o seu agente,
Clepsidra de contar os gestos no grão minuto da areia na duna.

São longos os fins-de-semana que te pronunciam longínqua
E me atiram para trás da memória a procurar-te na fé cruel
De pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira, ou qual abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser como um favo de fel…

A gritar protestos mudos e parados no desespero desta colmeia:
Meus domingos de Inferno, que apenas tua ausência incendeia.
Porque o amor, meu amor, dito cru e nu, na redoma de estar sós
Ou na multidão dos dias, é exclusivamente o sermos, apenas, nós!

quinta-feira, março 20, 2008

Ser Amado Regressa Ágil

Os olhos longínquos unidos no mesmo horizonte
Planeta tão distante que seu gritar é sempre aqui
As mãos dadas na esquina do tempo, a balancear
Qual vaivém de navegar a sofreguidão dos olhos

O gesto... Esse resiste único, pronto de prontidão
Argonauta do espaço-quando entre o passado e a ficção.

Há um tanto de vento e chuva, mas que importa
Se nenhuma é a luva na pele da palma que se toca.

Os olhos unidos despem o horizonte e gritam
Todos os planetas que te nasceram da voz,
Vaivéns ao balanço das mãos que se tocam
E dizem escrevendo o futuro com laços de nós.

Pontos da rede elástica do verbo prò salto feito voo
Regresso do rosto na tarde plástica, cotão de sonho
Nuvem esculpida, lavrada no olhar que agora tenho
Verbo com que desenho aquela que ao vê-la, é lenho
Madeiro, a que preso e crucificado, com alegria, estou.

E me dou, partido, entregue, transparente embrulho frágil
Quando me rasgas na serena ânsia de retornar-te ágil
Prestes e lesto que distante de ti sou pó e pouco presto

Nada do nada, dor de silêncio apagado e morto de meu resto!

terça-feira, março 11, 2008

Dia da Mulher Com Mulher Dentro

Ser família, crescer nas linhas da folha lida
Soletrar a alma nas bermas da página
Como quem lavra os prados da lágrima
Para nele plantar tapetes de vida,
Canteiros de tulipas, violetas, lilases
Voos de albatroz nas Flandres-coragens
De gerar a Europa à luz da mulher,
Que é destino, mas também retorno e partida
Do mundo, numa esperança que nos requer,
Em ser dia, arco de ternura no céu de giz...

Porque se até depois do arco-íris
À luz da cor, no brilho do Sete-Estrelo
Há o verbo, espelho das lides feminis
No virar das folhas, pétalas, jardins
Metáforas de ler novo dia no dia velho,
Então, soará ele mais ou menos assim:
Parabéns Mulheres! Parabéns Margarida
Arco de disparar a vida
, torná-la alegre festim
Entre os jograis da alfazema e coroas de alecrim!



Bibliotheek Tweebronner
Leuven, 8 de Março de 2008
B é l g i c a

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

1+1=2 e Sem Equívoco


Aquilo que os demais nem tentaram
Nós vamos conseguir, sim, conseguir
Unicamente com nossas mãos, dadas
O amanhã a brilhar no filtro do olhar
Os lábios tocando-se breves nas palavras
Soltas e livres, aves selvagens oceânicas.

Eu pressinto que é difícil desdizer algo
A réplica reside em libertarmos o medo
Em usufruir o desejo cósmico, explodido
Em gritar o Big Bang no pulsar do peito
Destruir a resistência interior à novidade
À diferente forma rebelde de segredar a vida
Cantar das gaivotas e sua alucinada visão do mar.

Elas sabem tanta coisa que jamais veremos
Tanta onda a fluir para a espuma da praia
Tanto sonho a morrer no areal, solidão sólida
Em costumes ultrajantes ao ser, à magia do coração
Condimentos de cimentar atitudes, sentimentos
Emoções, credos, necessidades de carinho e prazer.


Mas quando te procuro invento-te, real, premente
Asterisco, beijo devoto em teu misterioso ventre
E, sucumbido, desmaio ao penetrar-te urgente
De sermos dois, e em cada um o outro – para sempre!

Que essa contra natura da unidade, do um mais um
Igual a um, da conta que erra e está também errada
Não é Europa, não é diálogo, não é novo, não é nada...
É o medo e o ódio a decretar outro vil ultimatum
A amordaçar o "eu quero" com o sim de ficar calada.

Que ser dois na soma de tu e eu, amigos de eu e tu
É selar na Terra o terreno e leal e fiel amor intento
Despi-la dos castelos negros que houver no céu cru
Torná-la celeste e pura, estrela de ternura ou casamento!

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Soslaio Antigo de Reinventar Afectos

Perdoa-me, se te olho
Como quem não te quer ver...
É que se a vida me escolhe, eu escolho
A melhor parte dela, e do acontecer!

Porque aconteces, não só se quero ver-te...
Que vejo-te mesmo quando não és real,
Quando não estás em frente de mim,
Pois habitas o reino sem bem nem mal
Apagando, contudo, o assim-assim
Que há no medo perder-te, enfim.

Perdoa-me esta rasura
Que o acaso, de simples, entreteceu.
É que os dias perdem a candura
Se te não vir, terna, pequena mas segura
Cativando o cativo que era já teu.

E perdoa-me também, se puderes
Este fingido desdém, este arrogante jeito
De dizer-te, que entre as mulheres,
És a única que me habita no peito.

Fraca morada, por sinal...
Aquela que não serve para ninguém.
Onde querendo, até com o mal
De refilar, de discutir, de ferver plural
Se podem caiar sem fingir, as paredes do bem.

Grafitá-las com imagens e arabescos.
Com fotografias, livros e jornais.
Com gritos e poemas simiescos
E grades e cordas digitais,
Pinturas, legendas, frescos
De aprisionar quem delas não quer sair – jamais!

Que as janelas de ver e ouvir
São as mesmas daquelas, que ao partir
Regressas sempre colorindo nelas
Novas cores, de restaurar, antigos vitrais!

sábado, fevereiro 23, 2008

Sigma de Alfazema no Remanso da Aurora

Manhãzinha toda já e o sol supérfluo
Eis que o silencioso SOS do seu raiar
Em violeta e rosa de veludo manso
De quem acordou sem tempo
Para aquecer a penumbra púrpura do horizonte,
Numa sociedade à pressa
Me segreda que ainda não é tarde,
Que ainda é possível o sigilo de uma conversa
De escutar tua voz a ciciar sobre o frio matinal,
E me diga ela como é ser brisa no deserto,
Um dever ser também nada fácil
Neste exilado universo onde o sussurro arde,
Neste estar na soletração imperfeita de um idioma bíblico,
Mandatária do testamento ancestral
Entre tijolos de papel, paredes rebocadas de sibilante sínese.

Saberemos nós alguma vez a sábia aquiescência
De estar simplesmente na simplicidade do sonho?
Sem sequer outro querer que o súbito acaso
Desenhando em cada segundo as formas conjugais de acontecer?
Poderá a palavra apagar a cor do silêncio
Quando receosos soslaios se cruzam em nossos esgares
Rascunhando de oblíquas linhas a sofreguidão do sol?
Poderemos nós adivinhar os porquês nos nós dos gestos
Abertos e permissivos para a imperfeição de sermos tão-só humanos?
Teremos nós o direito de cismar e discutir a razão ancestral
Subtraindo a história dos genes ao sedimento do taciturno ser?

Mas sem, sobretudo, insistirmos no entrincheirar das indiferenças
Como se elas fossem a vanguarda da incerteza de nós
O sol sobe no céu e cedo à sede de escutar a tua voz...

Até quando?... Se assumirmos o soletrar do sol
Supérfluo será na manhãzinha já, que meu olhar
Sob o teu, rendido de estar, é secreta síntese do sentir,
Fala de crer a esculpir a brisa de teu rosto sobre minha noz,
Minha casca da voz, em versos de pedir
Teus lábios infantes inscritos na fonte dos dizeres
Que nunca sucumbem nem se calam
Que nunca se prostituem nem se fecham
Que nunca se amedrontam
Que nunca se secam
Se meus olhos viageiros lhe imploram prece.

Simples na devoção de rogar-te atenção
Me asperges sem favor, tal como o sol brilha
Se ergue largo e luminoso, e me lava com lavanda matinal,
Assim, o suco azul, rosa e violeta de teu gabão
Me sacode e acorda do soturno ler na ilusória solidão!

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Sítio de Adorar e Remover a Ânsia

No lá do lá, onde os ninhos são da cor da esperança
E o meu coração desfolha as páginas de Camilo,
De Eça, Aquilino, Torga, Natália ou Ilse Llosa
Rendido e à mercê da mulher-princesa, mulher-criança
Menina enorme dos meus dias vagabundos sem exílio...

No lá do lá, onde e quando o verde é cor todo o ano
E as mulheres carregam o ouro da liberdade
E escolhem o amor, e amam como escolhidas,
Depositando em cada sílaba de escrever saudade
Os infinitos minutos de dizer o eco de quem chamo
Sempre no silêncio das tardes mais cumpridas
E incendiadas
E inconsumidas
E incontornadas
Porque no sentir foram sentidas

Também como horas, de recordar o desejo adiado
Na ansiedade com que apagámos o beijo calado
De quantos não dados nas tardes alentejanas
Ou das repúblicas que não implantámos
Somente porque nossos verbos anarquistas
Não ousaram dar o tiro regicida ao medo,
Alvo de sermos simplesmente livres – ou apenas segredo.

No lá do lá, onde o verde floresce, até nas canas
Nos musgos, silvedos que não regámos
Nem pedimos, há uma vivenda onde reside a esperança
Como se ela fosse mulher
Menina
Astro qualquer
Lua pequenina
Mas enorme porque germina, e é semente de criança...
Ou inocência

Que flameja numa crença.

Então lá, no lado de lá do lá,
Na estrela ou lar de ser apenas teu
Sem mais nada sob o céu
Não terei outro deus nem demais papiro ou véu
Nem outro ser a quem pertença!
Secreto Adiar em Respostas Acabadas

Há sempre essa stressada coisa de decompor silêncios
Offs irrecuperáveis, metáforas de distâncias intransponíveis
Pequenos muros que limitam o aspirar aos céus infindáveis
Sofríveis, e derradeiros, e cruéis, e devastadores, e imensos...

Há sempre portas desenhadas em todas as masmorras
Ilusões para a liberdade, virtuais janelas do ser
Que se quer sequioso e faminto e imperioso e urgente até perecer
Como se fosse descartável na voz das bestas e suas patorras,
Centuriões da ignorância, ímpios algozes da frustração e do poder.

Há sempre esperas, infinitas no abrir da cova
Mortos que aguardam vez prà sepultura, que o medo renova
Por cada outro que caiu ao nosso lado, companheiros assim
Num dia "boa tarde", no
outro
ninguém fala
Os olhos para os não vermos estendidos ao comprido
Na vala,
Inteiriçados, incrédulos ainda, esperando enfim
O acordar para acordar, como quem cala o silêncio de mim
Sempre a escavar, a escavar, a escavar, a escavar nova
Sala.

Há sempre coisas que ninguém quer ver, não
Obstante a vida, o irremediável perder da razão
Seja o único parágrafo de uma Lei que Deus não decretou
Por impotência, abdicação, ignorância, desconhecimento de ser...

Quem somos? Quem és? Quem sou!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Alvo Relâmpago de Abrir Solidões

Não sei se é crime, mas somente faço versos
Quando estou escondido dos receios absurdos
Das palavras pueris, ou dos gestos perversos
Com que se enleiam gerações de narcisos surdos.

Sou um penitente. Uma dor mudada, apreendida
Feita do quase nada que me apagaste da vida.

Um dia foste, no outro já não estavas.
E quando naufraguei na solidão deixada
Vi como na brevidade das marés acostavas
Ao silêncio da promessa só por mim sonhada.

Eras o desencanto, um encontro adiado
Que no fundo do meu exíguo ser perdido
Se fez esperado. Porém, mal consentido
A transformar-me no dia antes do intolerado.

Contudo, sob a tempestade o raio brilhou
E ao trovejar ímpio e irritado da verdade
Deste-me a liberdade, de amar-te como sou!
Se Ainda Reparamos Aturamos

Conta-me o que sabes acerca de mim...
Gostava de saber. O que sabes ou vês
Quando me olhas do princípio ao fim
E ficas a dançar nos poemas que não lês.


Conta-me, por ao menos esta única vez
Quantos foram os olhares caídos no assim-
Assim, com que destruíste a vil altivez
Da arrogância e dor que havia em mim.

Eu sei que é difícil; conheço o tormento.
Mas não leves a mal por querer ser naquele tu
Aquilo que em toda a vida foste um só momento...

Conta-me; mas não contes apenas o sentido nu
Das palavras perdidas no (des)dizer dos dias,
Páginas de eu e tu; diz-me também o sorriso cru
Ao explodir no amanhã das infinitas alegrias!

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Secreto Apêndice de Recordar a Alma

Podia ser hilariante porém é quase óbvio por repetição
Analógico, mas às vezes torna-se absurdo senão trágico
Desenhar teus lábios, cabelos, rosto miúdo de mulher
Menina digital, sorriso pão da alma que o sonho requer
Apenas com a paleta ou lápis que me sobram das pupilas
Abertas, assombradas no espanto do arrebatamento ímpio.

Disseram-me que amanhã será o segundo dia do presente
E é possível, creio, haver algo inaudito nessa pítia predição
No desaforo, ingrato propósito de espera em cada esquina
De quem apenas quer ver-te surgir da multidão transeunte
A carteira de mão debaixo do braço, as compras comestíveis
Na outra, talvez um saco de plástico e dentro dele o lanche
Como se fossem adereços úteis e necessários à coreografia
Fatal condimento de quem atravessa o empedrado da rua...

Disseram-me isso; importa todavia registar neste momento
Que se me tivessem dito outra coisa, eu não a teria escrito,
Ou sequer a teria ouvido suficientemente claro, escutado
Posto em alerta verde sob o aspergido sentido dos afectos.

Não obstante cresceu dentro de mim esta fé em desacreditar
Da mesma forma que muitos acreditam e fiéis rendem culto
Eu me desoculto desacreditando não só no que não vejo, até
Isso eu quero, rir sem fugir de nada mas antes por prazer
De desvendar mistérios, olhar os enigmas como se o não fossem
Tão-só puzzles de reconstruir as tuas alvas faces, o soslaio
Num quadro fácil, de poucas peças, premissas maior e menor,
Conclusão e aventura e ousadia intuitiva, qualquer coisa assim
Numa moldura simples e directa ao ser perdido, perdição de mim
Cumprimento de destino em formato electrónico e design aprazível
Layout de quem se enxuga da solidão na janela do teu sorriso.

Embora as metáforas estejam a fermentar ainda nos cachos,
Muito antes de maduros e colhidos os frutos, até pisados
Liquefeitos a escorrerem-nos dos umbrais dos ombros, a boca
Vitral de dizer na fachada do rosto, equívoco desfraldado ao sol
Ao vento, à chuva, à voz, erguido como tocha de fogo olímpico
Num gesto, circuito integrado de integrar o verbo do teu andar
De quem pisa a morte, ou a tristeza dos dias ordinários, o tédio
O singular emolumento de quem compra vivenda na eternidade,
Um breve jardim antes da porta, sob o alpendre salomónico
Algumas notas musicais que se desprendem do labirinto de buxo,
Ruas e ruelas, becos e transversais, onde gatinham sobrinhos, filhos
Vizinhos chegados, vindo sabe-se lá de onde, a galáxia é pequena
Para caber-te toda no abraço em que tanto demoras a dar-me...
Sonhei-o debaixo da figueira onde dormiam mais de 001000 pardais
Arrumadinhos uns aos outros, quentes e protegidos e livres
De partir, mas preferindo ficar, ficar, ficar, tal como eu fico a ler
Até doer a hora da partida, úlcera na alma rósea de não ler mais!...

sábado, fevereiro 16, 2008

Até Ruir A Sede

Daqueles três pardais
Que comem as migalhas
Do teu sacudir de toalha,
Um há, a quem jamais
Perdoarei as igualhas
Da parte que na tarde lhe calha...

É um pior que todos, assim
Mais trigueiro no trajar,
Mais lampeiro no banquete;
Que está sempre a olhar
E faz tão pouco de mim
Que cantado vai pousar,
Na cadeira do bibliotecar
Como em qualquer ramalhete.

Dá-me ganas de o esganar...
Tirar-lhe a vida com ferrete,
Meter-lhe as tripas ao ar,
Chamar-lhe tão-só diabrete.

Sei que é grande canalha
E muito maior respondão;
É rara a tarde em que falha
Na espera de uma migalha
Do teu sorriso de pão...

Atrevido, arma confusão,
Nada está bem para ele,
Nada é brilho de ouro e mel
Como se a razão fosse só dele.
E até bloga que nem um cão
De sujo pêlo e tinha na pele.

Portanto, não estranhes o dia
Em que eu perder a calma
E lhe atirar com aquela fatia
Mais podre da minha alma!

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Sonho Antigo, Rio Aberto

Sabes quem nos comprou o silêncio a troco de uma palavra
Muda, a dor muda a lei, muda o corpo, muda a voz mundan(d)o
É adolescente esse querer ficar calado amuado, inundado de incerteza
No amor medido pelas vestes que nestes despes és outra
E estás – sabes?!... Eu não, nem ninguém mais
Muito menos tu e eu, e eu e tu do manual da Fonseca
Do amor, que o amor, meu amor, é o nu contra o nu
– Sabes?... Ou como escorrem os dias sem solução na amenidade
Do silêncio que se diz e não diz jogado como certeza fora
Uma pequena casca frutífera num olhar de viés, inseguro
– É ele! Tem que ser ele que procuro!... -- Eu? Não pode ser
Ainda ontem falámos, ainda soubemos que não tínhamos.
Esperar é uma tarefa de deuses chineses não judaicos como
Este pão que comemos, como esta sombra em que nos medimos.
Sabes eu ando sobre brasas que eu próprio assopro, incendeio
Quando chegares, chegas sem saber quem sou nem jamais terei
Outro estar é não esperar mas eu espero, porquê?
Porque quando esqueces a importância do tratamento,
Quando te descuidas e me tratas por tu
Ou nem reparas que igualmente o faço
Então viajamos em linha recta sem morse
Sem palavra silêncio, traço ponto traço.


Tu o dirás. Tu o explicarás. Tu exigirás perdão... Eu
Também não.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Eco de silêncio seco


Ouço uma voz. Não é tua, isso dói
Rasga o peito acelera o receio o medo
Inquieta, desinquieta, desacerta e manieta
E corrói em segredo, apontado como um dedo
Ao pomar de rocha fria, que no coração se constrói

Cada qual sabe porquê eu sei de mim sei bem
Nada nas mãos, nada nas mangas, nada mesmo
Quando espero e tu não vens, sou ainda mais ninguém
Do que sempre fôra, fora o feito do peito frito em torresmo
A alma ao rubro de tanto doer, o sangue
Que mais espesso e grosso retarda o gesto langue:


Eis o silêncio. Eis o homem perdido – eis
A procura incansável de quem ferido
Se busca e se encontra sem ter crido,
O único plebeu desta república de reis!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

SONETO DA NOVA ERA


Quando na linha aberta das mãos a voz
A palavra acto de infligir o verbo ser
É a circunstância circunstancial de nós
E os ombros antes vértices do gesto o dizer


Então, já descobrir é pouco ainda amanhã
Silêncio onde poluídas as intenções
De ruidar em estar no aqui é coisa vã
Como o agora parado das estações


Do ano, como do tempo, e neste duas só
Há: a de quando estás e és e a de quando
Vindo a caminho chegando sopras o pó
De ser em sendo pouco a pouco amando...


E esperado e dito e imaginado e feito
Luta por um lugar dentro do mesmo peito!...
DN azinho Estranho

1.

Já nos tempos antigos havia antiguidades
Casas cavernas repletas delas preciosas coisas
Que os homens mais prósperos protegiam cidades
Regalos jardins estátuas ídolos telas e lousas.


Já das antiguidades falam com’os antigos homens
Sendo rústicos e impuros amavam a beleza lida
No algo que a representar sabia dos símbolos as imagens
Cujo arrebatamento mais estragos e tempos roubava à vida.


Já das raridades que o tempo esquecendo consumou falam
Os sanscritos quotidianos decorativos nas lápides rupestres
Mas a vida passa a morte perdura mais quando os corpos calam
A fímbria germina nos astros interiores e rios silvestres.


Porque estas veias desaguam todas num oceano de saudade
E escrevem e desenham e esboçam e resumem milénios de ansiedade
Expectativa excitação orgasmo da semente cósmica explodida
Para inventarem só com quatro letras a maior das palavras: vida!


2.


Se julgas que não vou esperar por ti desengana-te que vou esperar
Por ti é sempre por quem espero até porque ninguém mais sabia
Que estar aqui era o quanto por ti unicamente esperar podia.


Tu havias de passar e então tudo floresceria
Enquanto fosses a passar,
E eu diria:
Que bom estares a chegar,
É que por tanto esperar
Eu esperei passares um dia.

sábado, fevereiro 09, 2008

OUVE QUERO DIZER-TE


Olha, ainda não disse tudo naquela tarde
De sábado, se ‘tás lembrada eu estava
No auditório central esse, enfim, teatro
Alarde de vaidades diaporamas ambientais
E tu vieste olhar compenetrado na subida
Degrau a degrau passaste e eu não soube
Porquê nem como dizer-te estou aqui ouve
Estou aqui – espero por ti – houve aqui
Hesitação não indiferença isso nunca nunca
(Os nomes são pessoas só pessoas nada mais)
Quero dizer: tu também estavas era tudo
Tudo quanto eu queria saber, sentir era isso
Era pedir ensina-me a tua terra outra, eu já estou
Esquecido de mim mas quero saber de novo o mar, o nevoeiro
As manhãs de pão quente, o fumo sobre o fumo se confunde
Matinal odor connosco a ver a ressaca da noite no despertar
Sabido dos galos que cantam à névoa dos valados os caniços
Das vinhas, das cepas, às folhas sobre a carpete de praga-má
Mas tão verde e amarela e acre vestindo o chão por amanhar
Há poesia nela como no caneco azul de abastecer o sulfatador
Como nos barretes negros de lã na cabeça dos jogadores de chinquilho
Como na descida sóbria à adega num domingo ébrio de ócio
Como o pudor das folhas das pereiras em fila protegendo o fruto
Do sol na praia o vento do grito da gaivota que fere a ilha
Do ser na indesculpável solidão dos postais ilustrados.


Ouve, eu ainda não disse tudo, espera mais um pouco
Que quero dizer-te... Senão fico hirto e seco e louco.
Estrela Polar

Teu olhar é o meu Ocidente mais puro
Ocaso no acaso de quem lê incluindo este Este
A Nordeste portanto peço-te dá-me um Oeste
Sempre verde escondido na bruma inseguro
Qual atlândida dum sonho novo ao Sul aberto
Que dentro de mim és o recanto do canto certo.


Há nele o esquisso esgarçado dos caniçais
Mas também há as flores duma acácia sumida
Como há o que não há em mim cujos vitrais
São maneiras, são fugas, são vidros ou cristais
Despedidos brilhos perpendiculares aos trilhos
Da vida
Essa gota de espelhos em que translúcido desmaio
E sou Abril e Fevereiro e Julho ou Maio.


Todo o ano até a constância dum facto é
Em si, em mim, em ti outro facto – de facto – até.
SEMENTE EM FLOR


É indissolúvel a esperança no espaço-
Quando dos teus lábios ao contemplar
O que os instantes são para o tempo o lugar
Que os arrebata e fixa em ritmo e compasso
De tu a seres eu e eu tanto nada de tão pouco
Como desejar-te ser viver e não te ter ficar louco.


É intransmissível a plenitude da palavra
Aberta como polpa suculenta a brotar riso
A gemer significados de polir doçura brava
Bebíveis em incontáveis tragos que a sede trava
Mas a ousadia cava e amanha e escalavra e desbrava
Onde o não te ter é ser sensato
E não obstante eu constato

Que prefiro perder o juízo.


Seja loucura, seja. Seja infinita demência
Seja ainda assim séria peleja
Onde não haja nem se veja

A mínima violência.


Mas enfim um encontrar-se a gente
No fundo da flor que canta e encanta
Porque entre esta loucura pronta e tanta
A pétala veludosa carmim da rosa
Além de flor
Amor
Também seja formosa
Semente.
Palavra.
Em teus lábios fulgente.
AS MÃOS


De quanta esperança florida aqui se faz crónica
És a minha semântica, a minha rima e a minha tónica.

Teus dedos são o decassílabo da minha inocência
Mas as mãos, essas, de tão pequenas e carinhosas
São uma estrofe cujos gestos podem ser glosas
A esta minha única demência:
Beijar a tua unha curta
Sobre um tecto de salva e murta.

As mãos que mais que minhas são tuas
Podem também ser as ruas
Duma cidade por moldar... E nelas eu creio
Como se fossem satélites, luas
Utopias de sonho e enleio
De sorrir e de acenar, de pedir e de criar
O seu próprio fim, princípio e meio.


Porque embora sendo o que são
E tu não gostes delas
Se as pousares sobre o coração
Verás como são audazes
Subtis e belas
Queridas pequenas capazes
De sobre o mundo abrir novas janelas.
ANISOSSILABISMO PRIMÁRIO



Tu és linda de verdade
E pousaste na minha alma como uma borboleta,
Portanto sê contra o efémero, a perenidade
E deposita em mim a crisálida do poeta.


Metamorfoseia a escuridão em doce claridade
E faz do meu amor um desejo que te respeita.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Bom Dia, Noite


Esta vida é uma grande berlaitada de incertezas
Quase todas elas calculadas como metáforas vis
Encandeadas na tentativa de a transformarmos
Noutra coisa mas umas vezes mexe-se outras queda-se
Noutras ainda movimenta-se à toa sem percebermos
Porquê, «sim, porquê?» perguntamos a estranhar
É fenómeno dizem pra não nos responderem, sossegar
Por isso busca-se, infatigáveis de livro em livro
À procura de sinais dela pelas vielas da metáfora
Metáforas que nos atiram para outras metáforas
Como caminho para ficar dentro, ali pessoa
Entre pessoas, saltar os fossos que circunscrevem
Protegem as muralhas mais de quem mora nelas
Do quem cavalga em liberdade, balança no ramo
Frágil, tão frágil que se ouvem os estalidos dele
Até aprender a cair antes da queda, se partidos
Acontecem pouquinho antes largamos os braços
Antecipando o destino permitindo-lhe a resiliência
O restabelecer da sua elasticidade por nós eleita
Pois alteramos tudo quanto preferimos e escolhemos.

Nem tudo o dito é verdade, porém não é mentira
Tal como Fernão Magalhães o plano redondo se fez
À volta do mundo atirou corda mas a âncora é aqui
Onde se fica sob as figueiras a imaginar ilhas avulsas
Ligadas pelo não ser terra num imenso arquipélago
Raiado no vulcão de teus olhos a gritar incandescentes
Esponja dura, coral das crostas escarpadas e íngremes
De descer a gruta húmida dos lábios até à lenda, mito
Sonho dependurado do céu, ligação que nos sustém
Segurança líquida para o adormecer fetal à boca, porta
Do templo que apenas se abre com a metáfora do grito
Do mesmo dito ainda que com palavras diferentes
Díspares mas que sob o abraço esclarecem igual voz.

Tu estavas lá quando morri e ressuscitaste-me
Puseste teu seio em cada palavra dilucida e bebi

Até que a luz cedeu e livre de mim, ao sol amanheci!

sábado, janeiro 19, 2008

Prova dos Noves


Tens o holocausto da esperança nessa aliança
De sempre e eterna e frugal noiva comprometida
Posta em desassossego à esquina entre a criança
E a mulher, entre o passado e a fantasia tida
Entre a História e a ficção que há na vida...

Saturno de outra galáxia hipotecas contigo
As luas e anéis de quantos planetas te orbitam,
Para desceres múltipla mas reunida ao abrigo
Do humano direito à felicidade, e nele castigam
Quem também quer ser feliz, sem demais castigo
Que o de ter sido petiz, onde os adultos brigam.

Portanto, é imprescindível que percorras sozinha
O inferno que me queres dar, caminhos, veredas
Que caminhando se fazem na seara, risca miudinha
Sapatos que nos pés não cabem, enfaixados de gueixas
Ledas, de sofridas, vontades que só emparedas
Nas muralhas secretas de loas idas (e endechas).

E em todos os ciclos lunares, porém engravidas
Da alegria de ser apenas mulher, madura, menstruada
Que a vida tampouco quer, jogando contigo às escondidas
Inchando-te o ventre mas de onde nasce nada...

Zero bíblico, ponto abúlico, de cruz tapete de lã
Que quando grita traça calado, o caminho tapado
Obscuras nuvens que ensombram o sol da manhã
Nascido em ventre ao lado, feito luz, mas de vela vã.

Vá, adora o menino... Que de pequenino
Se torce o destino, em fazer-te o fado, o cadinho
De aquecer o chumbo da guerra em ouro marado
Prà talha dourada da capela romana, denominada

Também mesquita, no sol-pôr de Eva, da Era cristã.
Rojo Requebro em Concierto Madrigal

Placidamente ouço Los Romeros, as castanholas de Angelita
A irreverência feminina que rompe os sonidos das guitarras
Mãe rebelde que não se sujeita sem luta aos acordes clássicos
E a faz parecer mais nova ainda que seus próprios filhos
E voa-me o pensamento no salero flamenco de tuas vestes,
Mas interrogo-me por ti romeira dos meus sonhos ímpares
Dou comigo a reflectir como alguma vez conseguirás ser
Se ser não é nunca por acaso senão o ter sido recuperado
Polido pelas nuvens que nos aspergem a esperança da alma
No digital binário, carregadas da tempestade que nos corre
Intempestivo segredo do sangue vermelho, pétala de rosa
Roja a requerer o querer do requebro e roubar-te até de mim
Sentir ciúmes de mim mesmo quando te possuo pra te soltar
A desprender-me das amarras do sainete, engodo de falcões
Donaire e graciosidade com que me domesticas as noites
Para executar sucumbido voltear à corda no picadeiro dos dias
Como ponteiro que não se cansa de girar sob o centro da mão
O pulso a ondear sentido ao estalar dos dedos, palmas, conchas
De Botticelli que te transportam do mar, sobre espuma na praia
A morrer que ressuscitas em terra fertilizada de renovada vida
Aspergida Terra por triliões de gotas quando sacodes os cabelos
Chuva de teu ventre em teu ventre gerada, gestação do verbo
Que de nove em nove meses volta e solta e requebra até nada
Mandorla do dez no aceso ou apagado dos semáforos do desejo
Halo de teus lábios com que falo preso na gruta do teu beijo.

Missing link insuspeitável que me antecede na sofreguidão
Intemporal da semântica bipolar desfeita em lava perfeita
Luar como espelho que reflecte o fogo das rosas carmins
E me ardo e consumo água do rio nos galácticos confins
Contramina das nascentes, gruta de encantos, teias e lendas
Jota do alfabeto nos pilares do templo onde te venero plena
Adoro como deus expulso do Olimpo por negação da ordem
Arina eleita com saias ciganas a bailar meus quartos crescentes
Caules germinados durante uma renovada Odisseia da luz
Teus olhos de ferir mortalmente a mortalidade das sombras
Trevas do breu do mundo lavado com o vaivém das ondas
Vermelhas das menstruações imaculadas, seivas da concepção
Sede de ser, pulsar constante, ritmo do teu sapateado e requebros
Com que inflamas o lar, palco de todos os madrigais e concertos
Que nos consertam e afinam para o cante da planície, oscilar
Candente ombrear da espiga pela brisa com que respiras e afagas
Enraízas e susténs nas colinas dos teus seios gritados aos céus
Atirados ao sol, generosos e maduros, corrupio de mel e sonho
Espiral que se alarga até evolar-se na unidade e voz dos corpos
Gesto de partir à desfilada nas nebulosas e outras vias lácteas
Caminhos iluminados, leque de auto-estradas na eterna liberdade...

Devolvida do mar e senhora dele, por te amar estou perdido
Que nunca haverá um encontrar, sem antes (me) haver partido!

sábado, janeiro 12, 2008

Empatia

Numa nova Odisseia, muito apenas expectável
Ao canto das sereias, do que dizem, ninguém no sabe
Só ainda nenhum homem lhe deveras resistiu
No uso próprio do termo, com significativo êxito…

Se diz de mim quem nada sabe,
Que perigosa é minha fala, e sou
Por ter um coração onde cabe
A minha asa, minha casa e meu voo...

Então, que diria se meu amor confessasse
O muito bem que deveras lhe quero,
Não havendo outrem nisso que a igualasse
Desde o superlativo ao apenas vero?

Assim diria... Diria que do mundo, o real
É este sentir profundo, imenso de alegria
Em sermos dois, mas cada um, em si, especial
Mas tão comuns, que igualmente cada um
Ao olhar o outro, a si mesmo se via!

terça-feira, janeiro 08, 2008

Abraço Recôndito na Ansa Silenciosa

Havemos de, em Árasa sem arestas nem aparas
Esconder, crestar as frestas, com lâminas raras
De recortar os talhos em retalhos menores
Pontos de agrupar os nós das urbes interiores
Redes de prédios, caixotes apertados, estores
De ocultar o presente com futuros passados
E passados pelo porvir cerzidos e desenhados.

Então, das célticas iguarias no cadinho liquefeito
Evolará lava livre de irrigar-nos os canais do peito!

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Moção de Confiança


Tão-só confesso que não sei abdicar de teus olhos
Mesmo quando eles são fresta de raiva amordaçada
Emanam a rispidez dos dias, alicerçam o esquecimento
Desalinhavam o trabalho pelas costuras do dizer
Se alcantilam na infrutífera ocadura do desmaiado
Dilatam a pequenez dos horizontes marginais
Adiada sepultura deste sonhar irreverente e silencioso
Congeminar dos gestos de abandono ao sôfrego pulsar
À emergência de um acto de partir o mundo ao meio
Tu e eu de um lado, o resto ousadia e aventura, grito
Reinos a descobrir, anexos abertos ao sorriso pleno
Desmagoado em si, atrevimento de quem atira os seios
Pequenos gomos de comungar a matriz estética da vida
No que ela tem de encantamento e nela me sucumbo
E derivo, até à infinita partilha num big-bang interior.


Mas também que o meu caminho foi marcado, tendido
Massa compacta de segurar os pés entre as bermas
Não descambar para lá dos limites, o corpo como via
Rápida de emergir na imperiosidade do requerer mútuo
Sempre insaciado de retornar ao tempo que te cabe
Por inteiro sou quando em ti me afundo e me perco
Apenas teus olhos me chamam em labareda ardo neles
Folha ressequida, papiro incendiado, página secreta
Que contamina todos os conteúdos com teu nome
Fazendo dele metáfora imprescindível ao supremo valor
Eco perpétuo para qualquer fala em que me descavo
Retiro a ganga imprópria, lapido o rubi que me lapida
Aveluda o desejo, o querer, a vontade solta de gritar
O beijo incandescente no frémito simples dos mamilos
Determinantes absolutos, imperativas preces dos lábios
Que te soletram deliciados como palavra morna e doce.

Mesmo em literatura nenhum navegador experiente
Sabedor dos impulsos imprevistos das profundas águas
Deita ao mar a sua carga mais preciosa, que salvar-se
Mais depende de igualmente salvá-la, que perdê-la
Pois que assim seria perder o fito à sua navegação
Ao seu eclodir para lá das barreiras do rumar constante
Remar às rimas inauditas ainda mas já lava eruptiva
De teu corpo gritado na dominada devoção ao nome.

Confio-me a ti, nada além sei que dar-me a tuas mãos
Se arrebatadas me arrebatam sofreguindo todos os verbos
Me enleiam na teia, névoa de despertar para o essencial
Condomínio fechado, rosto acerado na têmpera do prazer.

E eis que morrer não amedronta, é como virar à direita
Num cruzamento de sentido único – tudo fica dito assim
Ao sentir teu abraço possuindo-me, possuindo-te enfim!

Porque ainda se lâminas afiadas teus olhos me rasguem
As entranhas não rasgam, lavram e semeiam, aspergem
Com centelhas a ânsia de realidade onde sonhar é concreto
Tão real, que o sonho é só o corpo da alma que aperto...

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Se Ainda Recuperamos Alvoradas

Então tu, detective dos sentimentos camuflados
E das palavras crivadas pelo parágrafo oculto,
Zoom à semântica prisioneira em vésperas de indulto,
Porque te escondes de mim e me transportas e transformas
Em simples atracção circense dos palcos digitalizados
Electrónicos socalcos do estar aqui, hirto de leis e normas
Falho de certezas à luz das controversas e versadas formas?

Simplesmente pretendo recuperar os sonhos perdidos
Nas esferas do teu olhar em oblíquas ogivas sepultados,
Esquecidos tão à flor do não-ser brancos de cal, caiados
Como se fossem danças étnicas multimilenares, ancestrais
Rodapés, esquissos em oca por aguadas aguarelas cerzidos
De artesãos caçadores de éclogas nos remansos escondidos
Do vivaz rupestre encontro para decifrar o beijo dos vitrais.

O puzzle, juntar as peças do naufrágio nas correntes da vida
Em que suposta é a esperança e a dignidade de navegar,
Qual balancé do tempo, preso na teia de malha entretecida
Com as tempestades, os vendavais vigorosos, os jeitos de falar
E incentivar a descida, aos pergaminhos que nos hão-de registar
Como ponte entre o passado e o futuro, por sonhos suspendida.
E sustentada

Na escalada
Ousada
Desejada
Recuperada
Aliada – neste quase abraço de invenção com ternura desmedida...

Sim, porque a alvorada, se eleita em profundidade
Sara a ferida, domina o nevoeiro como muralha ensolarada
E dita desertos nos areais vitrinários da cristandade,
Abrindo caminhos sobre espirais à propulsão de quase nada
Nas apenas bermas do jungido e estreitado afecto da liberdade!