A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quarta-feira, janeiro 16, 2013


INSTANTE DERRADEIRO



Acordou-me hoje demasiado tarde o olhar
E quando reparei, já tinhas passado…
Que este instante só é eterno se ficar
Preso ao querer com durar ilimitado.



O que importa jamais perde significado
Mesmo após o seu tempo e o prazo expirar,
Porque o mundo ganha o seu sentido cruzado
Entre o real e o que o coração consegue imaginar.

Depois, esperei que voltasses de igual modo…
Serias outra do raro que nos é constante,
Daquilo que fomos e seremos, desse mesmo todo,
Ou que somente a vida nos traz de rompante.



Voltaste. E foste exatamente como eras outrora,
Quando o sentir te clicou nesta foto de agora!

segunda-feira, janeiro 14, 2013


REGRA DE PARÁGRAFO ÚNICO



Arrisco o gesto até ao lusco-fusco…
Sou radical na fuga prò outro lado,
E neste intento de esconder-me me busco
Eu de mim, por mim próprio abandonado.

Não tenho proposta de futuro nenhum,
Nem me acalentam valores ímpares…
Quero apenas o sono do sonho comum
A perspetiva de nele tu entrares.

Esta é a parada, e dela não abro mão,
Num tudo ou nada para seres feliz,
Que no jogo da vida a única condição
É só ganhar se quiseres o que eu quis!

domingo, janeiro 13, 2013


OUSAR COMO TEMPO NO VERBO



Pedir ao tempo seu mister
Dado à flor sem procuração,
É ter caprichos no aluguer
E muitas culpas por razão.

É dar hipoteca por aval
Dum bem que ainda se não tem,
Meter anúncio no jornal
Do que se quer não o saiba ninguém.



É descer o rogo, pedido,
Às profundas emocionais,
Dar à voz o medo sentido
Por si mesmo e plos demais.



O que ao tempo pertence,
Seu mister, e sabedoria,
Ninguém jamais o merece
Sem o criar com ousadia!

sexta-feira, janeiro 11, 2013


ESPECTRO NO NEVOEIRO DA HISTÓRIA



Acordar em Portalegre
Numa manhã de nevoeiro,
É espreguiçar de almocreve
Num chistar de carreteiro,
Que enxota do sono leve
A espertina do dia inteiro

Prà surdina dos rodados
No caminho das caravanas,
Que o sal do povo e soldados
Trouxeram idas semanas,
Em pó e pisos esburacados
– Pobre rancho e duras camas!

quinta-feira, janeiro 10, 2013


DA INEGÁVEL IDENTIDADE



É na correnteza das horas
Que ligam os dias aos dias
Os meses aos anos, e as alegrias
Que nos damos aos puros agoras
De sermos ainda quanto fomos
Como nos dizemos ser – e somos.

Nada nos acode, nem limita;
Nada nos obriga, nem liberta.
Mas se a dúvida desperta
E a curiosidade incita,
Eis que de pronto nos erguemos
A crer em quanto queremos.



Queremos o sol na réstia da alma
E o brilho da flor na clara voz:
A linha da vida a correr na palma
Da mão, que o carinho somos nós!

sexta-feira, janeiro 04, 2013


SONETO DOS LÁBIOS FECHADOS



Dizem ser legítima a maior das dores
Se causada pela distância entre seres...
Em mim foram, porém, outros causadores
Que do silêncio fizeram seus pareceres.

Não "ouvi" nos recatados bastidores
A doce voz que me motiva os afazeres,
Nem do ocaso eclodiram vivazes cores
Antes tão prontas aos entardeceres.

Quis-me o vil e cruel destino assim testar
Esquecendo que nada pode contra mim,
Que tua foto, sereno, posso sempre olhar

E ver o carinho brilhar no desktop aceso
Tão perto que me dita cada verso, enfim
Seres da poesia o carmim que me tem preso.

quinta-feira, janeiro 03, 2013


AFLORAR DESCENDENTE



Detalhe oblíquo a teus lábios
Este beijo discreto, descreve
Na sede, dos poemas sábios
A fonte, a cascata de seda leve
Que breve, ao teu colo aflora.

São cachos de sonho caindo
Sobre as colinas dos ombros,
E que ante o querer infindo
Quebram receios e escombros.
Abatem ânsias à demora... 

Tocá-los com o olhar, assim
Tão plenos de sedoso agora,
É penteá-los com o marfim
Deste sentir que nos escora!    

quarta-feira, janeiro 02, 2013


SOBRE A ÁRVORE, OS MADUROS VOOS



Voar para o sul como onda,
Cruzar o destino inventado
Num cruzeiro que nos sonda,
É como o soletrar descuidado
Na ecolalia dos tempos idos,
Em que o passado nos ronda
Com os futuros prometidos.

De sua gesta o grito ao alto
Não tem qualquer contramão,
Que a distância é só um salto
Entre a cor, o sonho e a visão:
Pontos na luz em linha aberta
De Portus Alacer a Portimão
Frente ao ocaso que desperta.

Sua direção, fi-la por minha;  
Seu destino, pra mim o quero.
Que ao voo que se acarinha
É dado ledo sentido (e vero),
Nessa linha curva dos ideais
Onde o querer é pouco austero
E se quer sempre, e sempre mais!

terça-feira, janeiro 01, 2013


DA PERMANÊNCIA DO INSTANTE



Só nas vésperas do segundo, o dia se faz instante.
Porém, no caminho colhe aqui e acolá décimos de cor
Com que possa refazer a saudade no breu cessante
Dormente, e siar nos sonhos com asas de condor.

Não leva mais nada na bagagem, senão a cortante
Aragem dum frio que promete. Ei-lo assim, ante a dor
De descrer em mim, este humano, simples figurante
De coreografia, cujo espetáculo não tem dura de valor…

Os olhos, me sobreviveram para além daquilo visto
Incapazes contudo, de reter o colorido do céu em si
Nem da memória outro arquivo mais justo me registo.

Mas soube a voz que ecoa sobre tudo quanto eu vi
Dizer-me que ser é um cógito (vejo-te logo existo)
Pelo qual nunca me separo – nunca me separo de ti! 

domingo, dezembro 16, 2012


ÀS BESTAS O QUE É DAS BESTAS



Ó estupores da nação, senhores do dolce fare niente
E da mediocridade dos cafés com que ganhais o pão
Na maledicência e imitação dos gestos desta gente,
Tendes toda a liberdade para roubar e humilhar, não

Podeis, porém, é convencer-me ser afinal o indigente
Quem estuda e se valoriza, quem trabalha na solidão
E dá os textos do seu pensar àqueles que impunemente
Os vendem, lucrando, até estatuto de benfeitor cidadão.

Sois a escória mais apodrecida de qualquer sociedade
E não é por terdes dinheiro a rodos que melhorareis…
Porque ninguém, a quem sujais o nome e a dignidade

Enganais, nem as porcas mentiras que sobre nós dizeis
Alguma vez hão de ser mais que o espelho da falsidade
E a ignorância que vos cristaliza o cérebro de corcéis!   



domingo, dezembro 09, 2012


NEBULOSAS DO ACASO



Os grandiosos gestos acompanham voos inesquecíveis
Se a sede de conhecer os liquefaz etéreos e sublimes…
Porém, as grandes emoções, como as maiores ondas
Apenas por breves instantes mantêm a sua forma pura.

Portanto, se ao ver o imo inalcançável da ideia simples
Lograres que a beleza só se mostra em gestos perecíveis,
É o caminho definitivamente traçado sob signo da aventura
Cujo destino se perde nas galáxias que nunca vês, nem sondas.

DIZER-TE .COM ME TE DIGO



Chicoteio-te com o nome
De alto a baixo és
A minha dissemelhança
Concreta, por não pertença.

E ante a certeza disforme
Sobre a qual assentas os pés
Me calcas na forma intensa
Conjugação exata do homem
Que só quando é proferido
Se avença, se consome…
– E de cardo apelido se alcança! 


quarta-feira, dezembro 05, 2012


CINCO SOLUÇÕES (rápidas) PARA UMA CRISE (len-ta)


1.   Faça empréstimos. Coisa séria
E sigilo absoluto. Taxa anal 3%.

2.   Lave seu capital periodicamente. Se o povo falar
Não se importe. O que é preciso é deixá-lo
Entre Tide.

3.   Mais vale um dedo na mão que fora
Dela. Depois passe bem por água tépida
E ponha o anel.

4.   Seja empreendedor. Uma empresa fica-lhe bem;
Se não servir a mais ninguém, a culpa é da TROIKA
E pode sempre mandá-la
A
Jus
Tar.

5.   Quando entrar em algum banco ou repartição pública
Faça-o com o pé direito, mas saia com o esquerdo
Que o mercado interno está atento – e é muito diz.com
Fiado.

domingo, dezembro 02, 2012


PROSA RIMADA COMO SUCEDÂNEO DE SONETO




Amar só é verdadeiramente bom para quem ama
Que quem é amado nem sempre se dá tão bem:
É apenas quem ao abrir as asas as queima na chama
Dum fogo que arde sem se ver nem saber por que vem.

Sua vida de pouca monta é se outro coração a reclama
A pulsar com o ritmo da acérrima fertilidade de outrem,
Posto que a viver não se aposta mas antes aquece a cama
De quem por sentimento a hipotecou e o fez seu refém. 

Dito de outro modo, quem ama é o predador do ser amado
Cuja virtude está em consentir que assim seja vida adiante
Porque se não for será vil e cruel criminoso, bem culpado…

Couteiro da reserva do desamor com licença de comediante
Para representar o que podia ter sido se seu doentio estado
Lhe permitisse ir além da serventia de ocasional amante!

sábado, dezembro 01, 2012


O SELO DO SONHO E DA SAUDADE



Nasceu-me dentro aind'agora
Uma luz que não soube que era:
Não tinha nada do que por fora
Brilha, mesmo sendo primavera...

Seu rosto sorria, com demora
Durante a manhã, leda e vera;
Que ternura também é espora
Se se cavalga uma Quimera.

Porém, não partiu à desfilada,
Nem adormeceu no desejo;
Que se fecho a luz à mirada,
É seu sorriso que logo vejo...

Aceso dentro de mim, alada
Pelo alor sem fim – de um beijo!
   

terça-feira, novembro 20, 2012


DO ANTES E DO DEPOIS



A solução do mundo é
Qualquer coisa de irreal,
Que onde se interpõe a fé
Tudo que não é bem, é mal.

Dois opostos se completam,
Duas faces da mesma moeda:
Uma, são os olhos que pecam;
A outra, os que o pecado azeda.

E da luta entre estes dois
Só sai quem cega de vez,
Que antes do pecado, o depois
Se chama desejo e languidez.

Tanto peca o são como o impuro,
Que a culpa não tem fastio;
Se alimenta tanto do inseguro
Como do afoito, do tolo e arredio.

É senhora de casa e mesa posta,
E por prazer tem toda a virtude;
Aos doentes a saúde mostra
E aos sãos esconde a saúde.

Por isso se crê que a ilusão
Tem o papel de muito importar:
Dá ao mundo a solução
Pra ninguém o querer mudar!

sábado, novembro 17, 2012


ÁGUA ACESA



É, esta, a terceira tarde de chuva
Quase contínua, a fria humidade,
Assenta-nos na alma como uma luva
Feita por medida – e brinde da idade.

Ninguém poderá alterar os destinos
Perante tão implacável natureza…
Porém, ao cruzarem a luz os pingos finos
De chuva semelham estrelas de água acesa!


sábado, novembro 10, 2012


AMAR E VER TÊM A MESMA MEDIDA



Que pode um homem pensar, assim direi,
Quando a voz se lhe embarga no ocaso
E o sol, ao esconder a luz, como sua lei
É outra agora, outro o seu desembaraço?
Nada nos aprouve tanto, plebeu ou rei
Me vi ante ela, sujeito em seu duro laço
Nó de apertado rigor e formatado me sei
Como vassalo fiel que só teu sou e faço
Pertencer é um verbo de registo vincado
A que nenhum pretenso ser tem acesso,
Que aquele que bem ama melhor é amado
Sendo também verdade o contrário avesso…
Pois de mim para mim próprio me vejo atirado
Em teu amor, que é todo quanto do meu mereço!

quarta-feira, novembro 07, 2012


NA VOZ DAS MÃOS


Enquanto na orla dos anseios inquietos
A horda de pétalas silvestres reluz,
Reflexos dispersos, raios de alva jus
Traçam tangentes aos primordiais afetos



Esses, que tidos por puros e sãos
Se nos cruzam como apelos secretos
Nos lúcidos trajetos…



– Da palma das mãos!

domingo, novembro 04, 2012

Do coração, sua essência nos acarta... O sangue, o DNA, a família e seu afeto!