Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
domingo, fevereiro 03, 2013
terça-feira, janeiro 29, 2013
LUCIDEZ
Desvenda os receios que te vedam o ver
E desce a venda que nos cresta a alegria:
A regra do rigor é a exata cor do crer
Querendo na alma a querência que sia.
Não hesites nunca perante o incontingente
Porque este medita o êxito ante a ousadia,
Põe a nu o anseio melhor, o fulgente,
Quebra os instantes retinentes no dia.
Depois, cresce como qualquer outra flor
E alivia o ser do peso da vontade
Que entre a desmedida sede, a dor
Retesa o arco, aponta a ansiedade
Qual seta venenosa, mortal, ao amor,
Obliterando-lhe a sua maior qualidade!
sexta-feira, janeiro 25, 2013
SILHUETA NO NEVOEIRO
Vejo-te, a subir, na avenida
Esguia, falando ao telemóvel,
E as galochas brilham na lida
De tornar o destino possível.
Assertiva, de cabeça inclinada
Parece discutires com alguém;
Todavia, pla firmeza da passada
Pressinto estar tudo muito bem.
Umas vezes soletras, ergues a voz,
Repetes, reiteras determinada;
Outras, anuis quase calada
Como quando estávamos sós.
Com quem estarás a falar assim?
Creio ouvir o que dizes, distante
Do terraço alto, ser dissonante
Perante o ver-te, sem me veres a mim!
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quarta-feira, janeiro 23, 2013
PRISAO CABOCLA
Pouco a pouco ante a colina dos gestos
Perco o olhar sob o querer da luz e cor,
Que na mansa coxilha do verde fazedor
O fungu nada pode com seus molestos,
Seus torpores, seus azedos gargosos
De cerdear as asas ao são desejo,
Pois o flete do sonho tem por gostosos
Os galopes no ventre vivaz e benfazejo.
Então, macanudos braços jungidores
Manuteiam com macota intenção
Meu ser prendido nos meigos favores
Dessa leda e brava alma de chinocão.
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terça-feira, janeiro 22, 2013
SEREI(A) ETERNA
O desgaste não ensombra o ser
Nem o declive empurra a vontade,
Que o ângulo que consolida o querer
Está aí, na confluência da liberdade
Com o conhecimento de si, do meio e dos
demais
– Que o invento do progresso é sermos iguais.
Burlequeando assim pela cidade
Com os valores apontados na esquina,
Jamais os defeitos serão idade
Para quem nunca deixa de ser menina…
Porém, o mar a chama, insinuante
E lhe declara devoção, ante a negra terra;
Contudo o destino, fatal, determinante,
E sem pudor, a janela da vida lhe encerra!
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quarta-feira, janeiro 16, 2013
INSTANTE
DERRADEIRO
Acordou-me
hoje demasiado tarde o olhar
E quando
reparei, já tinhas passado…
Que este
instante só é eterno se ficar
Preso
ao querer com durar ilimitado.
O que
importa jamais perde significado
Mesmo
após o seu tempo e o prazo expirar,
Porque
o mundo ganha o seu sentido cruzado
Entre
o real e o que o coração consegue imaginar.
Depois,
esperei que voltasses de igual modo…
Serias
outra do raro que nos é constante,
Daquilo
que fomos e seremos, desse mesmo todo,
Ou que
somente a vida nos traz de rompante.
Voltaste.
E foste exatamente como eras outrora,
Quando
o sentir te clicou nesta foto de agora!
segunda-feira, janeiro 14, 2013
REGRA DE PARÁGRAFO ÚNICO
Arrisco o gesto até ao lusco-fusco…
Sou radical na fuga prò outro lado,
E neste intento de esconder-me me busco
Eu de mim, por mim próprio abandonado.
Não tenho proposta de futuro nenhum,
Nem me acalentam valores ímpares…
Quero apenas o sono do sonho comum
A perspetiva de nele tu entrares.
Esta é a parada, e dela não abro mão,
Num tudo ou nada para seres feliz,
Que no jogo da vida a única condição
É só ganhar se quiseres o que eu quis!
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domingo, janeiro 13, 2013
OUSAR COMO TEMPO NO VERBO
Pedir ao tempo seu mister
Dado à flor sem procuração,
É ter caprichos no aluguer
E muitas culpas por razão.
É dar hipoteca por aval
Dum bem que ainda se não tem,
Meter anúncio no jornal
Do que se quer não o saiba ninguém.
É descer o rogo, pedido,
Às profundas emocionais,
Dar à voz o medo sentido
Por si mesmo e plos demais.
O que ao tempo pertence,
Seu mister, e sabedoria,
Ninguém jamais o merece
Sem o criar com ousadia!
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sexta-feira, janeiro 11, 2013
ESPECTRO
NO NEVOEIRO DA HISTÓRIA
Acordar
em Portalegre
Numa manhã
de nevoeiro,
É espreguiçar
de almocreve
Num chistar
de carreteiro,
Que enxota
do sono leve
A espertina
do dia inteiro
Prà surdina
dos rodados
No caminho
das caravanas,
Que o
sal do povo e soldados
Trouxeram
idas semanas,
Em pó
e pisos esburacados
–
Pobre rancho e duras camas!
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quinta-feira, janeiro 10, 2013
DA INEGÁVEL IDENTIDADE
É na correnteza das horas
Que ligam os dias aos dias
Os meses aos anos, e as alegrias
Que nos damos aos puros agoras
De sermos ainda quanto fomos
Como nos dizemos ser – e somos.
Nada nos acode, nem limita;
Nada nos obriga, nem liberta.
Mas se a dúvida desperta
E a curiosidade incita,
Eis que de pronto nos erguemos
A crer em quanto queremos.
Queremos o sol na réstia da alma
E o brilho da flor na clara voz:
A linha da vida a correr na palma
Da mão, que o carinho somos nós!
sexta-feira, janeiro 04, 2013
SONETO
DOS LÁBIOS FECHADOS
Dizem
ser legítima a maior das dores
Se
causada pela distância entre seres...
Em
mim foram, porém, outros causadores
Que
do silêncio fizeram seus pareceres.
Não
"ouvi" nos recatados bastidores
A
doce voz que me motiva os afazeres,
Nem
do ocaso eclodiram vivazes cores
Antes
tão prontas aos entardeceres.
Quis-me
o vil e cruel destino assim testar
Esquecendo
que nada pode contra mim,
Que
tua foto, sereno, posso sempre olhar
E
ver o carinho brilhar no desktop aceso
Tão
perto que me dita cada verso, enfim
Seres
da poesia o carmim que me tem preso.
quinta-feira, janeiro 03, 2013
AFLORAR
DESCENDENTE
Detalhe
oblíquo a teus lábios
Este
beijo discreto, descreve
Na
sede, dos poemas sábios
A
fonte, a cascata de seda leve
Que
breve, ao teu colo aflora.
São
cachos de sonho caindo
Sobre
as colinas dos ombros,
E que
ante o querer infindo
Quebram
receios e escombros.
Abatem
ânsias à demora...
Tocá-los
com o olhar, assim
Tão
plenos de sedoso agora,
É
penteá-los com o marfim
Deste
sentir que nos escora!
quarta-feira, janeiro 02, 2013
SOBRE
A ÁRVORE, OS MADUROS VOOS
Voar
para o sul como onda,
Cruzar
o destino inventado
Num
cruzeiro que nos sonda,
É
como o soletrar descuidado
Na
ecolalia dos tempos idos,
Em
que o passado nos ronda
Com
os futuros prometidos.
De
sua gesta o grito ao alto
Não
tem qualquer contramão,
Que a
distância é só um salto
Entre
a cor, o sonho e a visão:
Pontos
na luz em linha aberta
De
Portus Alacer a Portimão
Frente
ao ocaso que desperta.
Sua
direção, fi-la por minha;
Seu destino,
pra mim o quero.
Que ao
voo que se acarinha
É dado
ledo sentido (e vero),
Nessa
linha curva dos ideais
Onde o
querer é pouco austero
E se
quer sempre, e sempre mais!
terça-feira, janeiro 01, 2013
DA
PERMANÊNCIA DO INSTANTE
Só nas
vésperas do segundo, o dia se faz instante.
Porém,
no caminho colhe aqui e acolá décimos de cor
Com
que possa refazer a saudade no breu cessante
Dormente,
e siar nos sonhos com asas de condor.
Não
leva mais nada na bagagem, senão a cortante
Aragem
dum frio que promete. Ei-lo assim, ante a dor
De
descrer em mim, este humano, simples figurante
De
coreografia, cujo espetáculo não tem dura de valor…
Os
olhos, me sobreviveram para além daquilo visto
Incapazes
contudo, de reter o colorido do céu em si
Nem
da memória outro arquivo mais justo me registo.
Mas
soube a voz que ecoa sobre tudo quanto eu vi
Dizer-me
que ser é um cógito (vejo-te logo existo)
Pelo qual
nunca me separo – nunca me separo de ti!
domingo, dezembro 16, 2012
ÀS
BESTAS O QUE É DAS BESTAS
Ó estupores
da nação, senhores do dolce fare niente
E da
mediocridade dos cafés com que ganhais o pão
Na maledicência
e imitação dos gestos desta gente,
Tendes
toda a liberdade para roubar e humilhar, não
Podeis,
porém, é convencer-me ser afinal o indigente
Quem estuda
e se valoriza, quem trabalha na solidão
E dá
os textos do seu pensar àqueles que impunemente
Os vendem,
lucrando, até estatuto de benfeitor cidadão.
Sois a
escória mais apodrecida de qualquer sociedade
E não
é por terdes dinheiro a rodos que melhorareis…
Porque
ninguém, a quem sujais o nome e a dignidade
Enganais,
nem as porcas mentiras que sobre nós dizeis
Alguma
vez hão de ser mais que o espelho da falsidade
E a ignorância
que vos cristaliza o cérebro de corcéis!
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domingo, dezembro 09, 2012
NEBULOSAS DO ACASO
Os grandiosos gestos acompanham voos inesquecíveis
Se a sede de conhecer os liquefaz etéreos e sublimes…
Porém, as grandes emoções, como as maiores ondas
Apenas por breves instantes mantêm a sua forma pura.
Portanto, se ao ver o imo inalcançável da ideia simples
Lograres que a beleza só se mostra em gestos perecíveis,
É o caminho definitivamente traçado sob signo da aventura
Cujo destino se perde nas galáxias que nunca vês, nem
sondas.
DIZER-TE .COM ME TE DIGO
Chicoteio-te com o nome
De alto a baixo és
A minha dissemelhança
Concreta, por não pertença.
E ante a certeza disforme
Sobre a qual assentas os pés
Me calcas na forma intensa
Conjugação exata do homem
Que só quando é proferido
Se avença, se consome…
– E de cardo apelido se alcança!
quarta-feira, dezembro 05, 2012
CINCO SOLUÇÕES (rápidas) PARA UMA CRISE (len-ta)
1.
Faça
empréstimos. Coisa séria
E sigilo absoluto. Taxa anal 3%.
2.
Lave
seu capital periodicamente. Se o povo falar
Não se importe. O que é preciso é deixá-lo
Entre Tide.
3.
Mais
vale um dedo na mão que fora
Dela. Depois passe bem por água tépida
E ponha o anel.
4.
Seja
empreendedor. Uma empresa fica-lhe bem;
Se não servir a mais ninguém, a culpa é da TROIKA
E pode sempre mandá-la
A
Jus
Tar.
5.
Quando
entrar em algum banco ou repartição pública
Faça-o com o pé direito, mas saia com o esquerdo
Que o mercado interno está atento – e é muito diz.com
Fiado.
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Solução NOVE,
SoluSolução 101
domingo, dezembro 02, 2012
PROSA
RIMADA COMO SUCEDÂNEO DE SONETO
Amar só
é verdadeiramente bom para quem ama
Que quem
é amado nem sempre se dá tão bem:
É apenas
quem ao abrir as asas as queima na chama
Dum
fogo que arde sem se ver nem saber por que vem.
Sua vida
de pouca monta é se outro coração a reclama
A pulsar
com o ritmo da acérrima fertilidade de outrem,
Posto
que a viver não se aposta mas antes aquece a cama
De quem
por sentimento a hipotecou e o fez seu refém.
Dito de
outro modo, quem ama é o predador do ser amado
Cuja virtude
está em consentir que assim seja vida adiante
Porque
se não for será vil e cruel criminoso, bem culpado…
Couteiro
da reserva do desamor com licença de comediante
Para representar
o que podia ter sido se seu doentio estado
Lhe permitisse
ir além da serventia de ocasional amante!
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sábado, dezembro 01, 2012
O
SELO DO SONHO E DA SAUDADE
Nasceu-me
dentro aind'agora
Uma
luz que não soube que era:
Não
tinha nada do que por fora
Brilha,
mesmo sendo primavera...
Seu
rosto sorria, com demora
Durante
a manhã, leda e vera;
Que
ternura também é espora
Se se
cavalga uma Quimera.
Porém,
não partiu à desfilada,
Nem
adormeceu no desejo;
Que
se fecho a luz à mirada,
É seu
sorriso que logo vejo...
Aceso
dentro de mim, alada
Pelo
alor sem fim – de um beijo!
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