Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
sexta-feira, junho 26, 2009
Construir a cidade acarreta seus rigores e exigências
É preciso que se queira viver nela e não custe ser feliz
Não esteja somente ao alcance de alguns ou seja Utopia
Que essa de tão sonhada amargurou pendente entre ideais
Suspensa entre vivos nunca se consumiu, nunca se cumpriu
Nem nunca foi, só oásis na visão dos perdidos nos desertos
Que entretanto caminha entrapada, zombie político das Eras
Entre os escombros, as tumbas esventradas ao deus-dará.
Mas olha, faz de conta que ainda sou quem sou e tu também...
Faz de conta que ainda és Arina rainha do Sol a solfejar luz
Faz de conta que ainda sou o escriba do teu celeiro de amoras
Faz de conta que ainda sinto o edículo aperto de teus braços
Faz de conta que ainda sentes meus lábios sobre o teu colo
E peito faz de conta que ainda somos capazes e totais a eito
Faz de conta que és prenome e eu sujeito, dupla sem esporas
A saltar obstáculos no hipódromo da cultura aos socalcos
Labirintos de encosta, nas arribas do vento olhando o mar.
Que a fazer de conta há a História que ainda ninguém contou!
Sabes?, quando os olhos se levantam na ária dos corpos entoam
Quando o vento canta o sussurro da sombra morena na pele
Quando as horas passam rápidas em bando voam consigo os dias
Quando os lábios se encontram rés das estrelas e dos oceanos
A areia esguia se furta ao tempo e cristaliza vítrea a lente doce,
Quando a solidão pesa tanto que nos sentimos multidão anónima
Quando os ramos das árvores soltas soam e tilintam iridescentes
Quando nos escondemos e procuramos no silêncio dos templos
Quando nos cruzamos nas escadas e elevadores do Sul ocaso
Quando nos abatemos no leito como aves abatidas em pleno voo
Quando a nossa loucura ultrapassa os limites da loucura possível
Quando tudo nos acontece sempre pela primeira vez estamos
Preparados, definitivamente preparados prò que der e vier
Cais de chegada como de partida, portas do sonho como da vida
Nenhum impedimento existe quando deveras se é homem e mulher.
terça-feira, junho 16, 2009
Junto às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos pubianos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.
Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?
Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.
Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!
sexta-feira, junho 12, 2009
Antes da palavra o nome, o verbo, o verso despido e nu
Não a intenção, sim primeiro ela, e só muito depois nós
Assim espontânea cerzida azul universo estrelado e cru
Aberto para o futuro e mirante, janela dos egrégios avós
Momento feito aqui, feito de agora, pleno de mim e de ti
Onde a saudade nos dói, explode, implora, racha, tritura
Tortura, e não mata, põe na cela a sela e sela, monta a sós
Doma a espera, pica, incita, espora, a incendeia ideia pura.
Antes da palavra, ecolalia, anagrama circundante, o afago
Nascido do princípio ao fim, em si de imaculada loucura
A eito de mim, fogo me arde e chama, aura no céu largo!
sábado, junho 06, 2009
Na aldeia, consta que Abrãao tirava vantagem nos negócios...
Apresentava sua esposa por irmã, tamanha beleza a sua era
Que aqueles que consigo cambiavam ouviam sonhos e ócios
Esquecendo os contratados, trocando os lucros pela quimera.
Também Madalena outrora perdida por iguais equinócios
À sua filha, por tão bela a ver, enfim o mesmo nome dera
Princesa herdeira do trono de Deus na Terra entre os sócios
De uma irmandade por cujo cálice seu tinto sangue bebera.
Porém, tenho muito mais sorte que a mulher de Jesus Cristo
E que o Patriarca dos tempos ancestrais, que a amá-la existo
Além do nome a pessoa também: ela me domina e escraviza,
Porém, incandescente exerce a magia de simples pitonisa
Talvez musa, ninfa, se da fantasia Maia a tristeza suaviza
Só de vê-la troiana lucro ternura onde antes havia quisto!
sexta-feira, junho 05, 2009
Desexilado sou agora que me nomeaste aqui
Entroncamento de sentidos alerta na esquina
Adorno andrino no dorso da cidade imo de si
Estatueta breve em marfim ao Sol de Arina.
Da água a seiva húmida de coligir a pele senti
Sede sob a concha o corpo aos membros ensina
Que no frio é casa ou no estio o meio que escolhi
De guardar a asa do lento voo pelos rios acima.
Até à nascente do inclinado sol, o raio, a luz, a seta
Que a estrela que busco entra pela janel@ abert@
E torna cada segundo contigo mais que a hora certa.
Porém, o melhor da desibernação é este asterisco
Por cuja mão cresce o astro ou se clarifica a meta
E sacia o vício dando-me na boca precioso marisco!
Breve mordisco o lóbulo e sopro teus cabelos de seda doce
Acendo a sede e cobro dízimo ancorar na curva do pescoço
Onde deponho murmúrios de sofreguidão vulcânico alvoroço
Baía fosse apagava o fosso do gesto ao som, da cor ao morse:
Descansa o olhar aqui na voz branca dos terraços sobre o mar
Tece a rede que nos impede a nós de vogar à deriva, naufragar
Entre a luz do silêncio diurno estrelado sob o peso do ser as mós
De soletrar os verbos acesos rolados na ponta da língua luminosa
Cruzada rosa entre operários sorrisos em turno os dentes da prosa
Trituram taciturnos tácitos fadários nos ermos as naus nós após nós
Milhas feitas sobre as fragas correntes entre as gentes estas ilhas
Cujas mulheres entretanto mães também são igualmente filhas.
E adorna quem te adora da ré à proa como uma labareda cristalina
Sonho e alma na marina onde aproa Arina que só a beijos abalroa!
sexta-feira, maio 22, 2009
Pois para lá das pequenas coisas controversas e risíveis
Tristeza de estar ou não presente e aquele livro na mesa
Às horas fúteis da sesta morna sob a sombra da incerteza
Há um querer que não ousamos por ângulos plausíveis
Escorregar, deixarmo-nos escorrer livremente, a natureza
Da entrega o salto áspero que antecede o voo, o rasgo vil
Dum diagnóstico envenenado cujo antídoto se chama Abril.
Mas fazemos mal, não por mal, antes o medo temos por bem
De sentir acorrentados a segurada esperança em poder cair
Só quando houver rede por baixo, embora feita por ninguém
Essa certeza perdida que nos impede de seguir a própria vida.
Que aos pormenores é dada consequência de modo primaveril...
Tu, essa luz isadelfa do feixe de estames que tece o firmamento
Entretece também ledo fio sin@l de enfeixar-me a cada momento
Que a lisa luz que ao azul rompe e tece a frecha da flor da voz
Ata a exacta quantidade dos dois feixes no feixe nascido de nós!
quarta-feira, maio 20, 2009
O nome é a alma dos seres, das coisas, das gentes
Das flores, das aves, estrelas, árvores, rios e do luar
Dos seres luminescentes e presente de todos os ausentes
Risca o firmamento e apaga o incógnito algures ao lugar
Onde o infinito Xis se cansa de ser ruptura e se torna chão
Laje que piso, pegada sobre o lodo liso da velada imensidão.
O nome é a voz que soletrada ecoa a fugaz essência da luz
A chama que chama da cega iluminação em quão justa é a jus;
Que o nome é o gesto que se insurge ante a escuridão e breu
Traço fosforescente eléctrico da tangida fala nos minaretes do "eu"!
terça-feira, maio 12, 2009
Falo da morte – desta morte acontecida sorte na gesta
Daquela morte, desde outra morte na entretecida corte
Atesta se nunca a morte da morte é consorte nesta vida
Doutra morte universal, absoluta, resoluta causa perdida.
Falo da morte, navalha afilada, e pontiaguda apontada
Cigana malvadez do corte na escarpada aresta desta malha
Cabo tumefacto profere o acto incesto sob o texto destapada
Pérola húmida tua boca de irmã rainha no sol alado anunciada
Esguias pernas de mulher doce em cuja junção a língua encalha
Nos seios com que cinges os cisnes do sonho no desejo da escrita
Rosa na cripta devota os dedos são segredos que o escriba atalha
Razões por que não tresmalha da lura aflita a mão sobre navalha.
Falo da morte, falo que fala como quem ao soletrar mais cala
Penetração contínua no medo do só que dedo a dedo traça o nó
Amuleto salvador na estrada de permanecer o silente enredo exala
Escala fiel linha entre forte, fraco, primo, segundo grão na mesma mó
Do moinho o vento sopra o pó que acalenta a sede e cobre a vala.
Falo da morte, na madrepérola do cabo a mão sagaz, veloz
Mão preciosa de luar em uivos descendentes sobre os ombros
Rentes caídos nos escarpados do ser, atados escombros da voz
Rolada pérola sobre o atroz temor sem dizer o albatroz no condor
Que a voar ergue a sombra que ilumina o amor que raia entre nós.
terça-feira, maio 05, 2009
"Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos seus tomentos.
Porém, não busqueis poder no amor...
Que só quem da sua lei se sente escravo
É, de facto, finalmente livre."
Ibn 'Ammãr
(Silves, século XI)
É lógico, ó solitárias companhas pescadoras nas arribas silentes
Que não nos venhamos a compreender perfeitamente, em definitivo
Se vós quereis subir na vida, provisoriamente soletrada entredentes
Mas eu quero apenas descer ao que de mais íntimo nela há, dela cativo
Sou, que tão infinitamente voo, através das asas, que somente ela me dá.
Por conseguinte peço, sem qualquer retórica e eufémica relutância
Que não reprimam meu canto nem o resguardem das correntes de ar
Eloquentes adormecidas na substância ímpar do sufixo desta vida
E muito menos recalquem as palavras insurrectas, flechas directas
Dos poemas que te fiz, Arina a que dança na solidão das ervas e regatos
Envolta em tules e sedas, braceletes de prata e diademas de ouro e cristal,
Porque a Liberdade nunca esquece que existimos antes do bem e do mal.
No horizonte, quiçá o fio de prumo paralelo nível do olhar deslumbrado
Em que as ondas aprisionam a espuma nas correntes dos altos fundos
Onde o zelo condicionado da luz refractada pinta ternas ilusões coloridas
No azul celestial como se este apenas fora o signo avesso dos mundos
Enquanto o albatroz cruza as vagas aéreas na quadrícula margem boreal
Traçando vigas imaginárias com suas ícaras trajectórias a pentear o globo
Tracejados de união que sustêm a abóbada no xadrez das cumplicidades
Das regras inerentes às elipses na órbita das estações do clássico pórtico
Ancestral cais onde as duas colunas suportam todo o peso da eternidade,
Eis que nos conhecemos no anonimato dos @@ sob clave de Sol em pauta
Em tratamento de desintoxicação dos efluídos da espiritualidade ilusionista
Charlatã dos vendilhões de essências marginais andróginas nos concílios
De misóginas estirpes para esterilidade da espécie e destruição planetária,
Eis que esquecemos o tempo em que fomos olhos nos olhos sem o temor
O medo abrupto da reincidência o trauma da experiência falhada, soluto
Amargo, demorada resiliência em recuperar o fôlego para a folgada linha
Essa onde dançam os papelotes e lâmpadas pintadas no terreiro do baile
Romarias suis generis das preces missionárias e casamenteiras de acreditar
Sem ver na obscuridade pejorativa da perfeição divina és só capítulo nulo
Somos apenas púlpito para vociferações intestinas da morte acesa central
Diploma de enredo na satisfação do capricho da cruz que no nicho do medo
Acende a morte e a opressão e a mentira e o flagelo e a ira e a dor como luz.
Apagai os sorrisos, ó cínicos, que tensa a linha do horizonte na tez marinha
Arina se rende ao culto de seus adoradores ocultos e anónimos e sem capa
Nem a duplicidade equívoca dos verbos mal conjugados do vil impropério
Que a navegante das conchas alinha e marca as fronteiras do Novo Império!
Surpreendo-me a ver-me nu, despido de mim
Rasgo as entranhas deste animal clandestino
E soluço. Bebo-me sem rebuço e busco-me fim
Entre adulto ser pra também poder ser menino.
Que nisto de ser sério como no parecer assim
De com tudo brincar até perder o pé ou o tino,
Há mais de homem que de descarado querubim;
Mais de querer ser, do que de rendido ao destino!
Quem ainda se lembra do que afinal é ser criança?
Quem? Pois se saiba que esse sabe o que é estar além
A discernir entre o logro, o aval, o voto e a fiança...
E mais ainda sabe, se acaso o escuro da noite vem
Que fusão é despirmo-nos de tudo, não só lembrança
E ser capaz de dizer, sem dor nem medo: VOO TAMBÉM.
quarta-feira, abril 29, 2009
terça-feira, abril 28, 2009
No jardim das azáleas negoceio-me entrega à divina pérola e-
Regateio. Regateio. Regateio a sombra, o eco de teus passos
E adormeço no centeio enquanto estremeço enleios e- laços
Baraços de jungir os caules decepados sob as áureas espigas
Posta entre as demais raparigas pareces ser apenas estandarte
Brisa dos sonhos apegados nas vigas de todas e qualquer arte
Eis-me reduto de secretos sinais cruzados na volúpia da voz
Babel em espiral de saber que não vives em vão faz-me nascer
Tal como renascem os faróis incandescentes do lodoso chão
Tal como da semente do ser brota o grito da dúvida e da razão
Tal como o «sim» em mim exige enfim até a própria exaustão
Anuência plena no afago da seara que ondeia ante as sombras
A nuvem do gesto segador de teus braços nus em meu redor
O arco poro a poro, dígito a dígito, flexível de desferir audácia
Em raios de infindáveis luminescências que aspergem a noite
O breu das ignaras portas nos socalcos empedernidos do medo
Escarpas da angústia ao azedo acre que aflora a glote no silêncio
Aglutinante se diz tão-só estilhaçado pelo teu sereno dizer a luz
Suas réstias como lâminas que cortam a penumbra das tardes
Raios laser branco incisivo trasbordantes das frinchas do soalho
Digo, deste chão onde adormeço de ventre colado à terra solta
Brava e esfarelada por meus dedos que tentam segurar-se nela
Fundir-te em mim, prender-te até doer na vocifera ardida posse:
Sega ceifeira o cego nó, que ser é abraçar até doer sem rede e dó.
Regateio. Regateio. De ti somente me satisfaz o demasiado dado
O quanto precioso cujo preço é sempre uma honra impagável
A exigência irremediável da entrega que afinal é só um princípio
Uno sem-fim que à vida implora sua pétala de rosto bravo, digo eu!
quinta-feira, abril 23, 2009
Que aspergida e matizada a pérola com a bruma de Tróia,
Entre o papiro das páginas meigas corolas abertas à História
Havia tanto de memória acesa breve quanto lúcido desejo
Nas ninfas do Tejo em cujas margens a sereia etrusca bóia
Nos enleia e entorpece na submissão que nunca se esquece,
Foste, dizes ainda, a entretecida sombra das cores da ousadia
Silvestres esgares nas aras com que a curiosidade me seduzia
E ditava guerras a raptos em segundo nome por hípicas vozes
Armadilhadas celebrações a helénicas sibilas no voo dos albatrozes.
terça-feira, abril 07, 2009
Tive azar com os meus pintassilgos...
Parece que um deles me saiu escritor!
E para este, todos os dias são domingos
Que da semana, é aquele em que canta a dobrado fervor.
Ali fica, parado em qualquer galho
Horas a fio a contar, em árias mexidinhas
Trinados estridentes, e até Jazz ou Bossa Nova,
Se calhar comentando quanto foi o trabalho
Que entrementes, teriam feito as pintassilguinhas
Que seu canto enaltece num refrão que se renova.
Tive azar com estas duas crias:
É que uma delas, extraviou.
Canta que conta, traz-me arrelias
E obriga-me a ser quem apenas sou!
quinta-feira, março 26, 2009
Através da noite e neblina
Os gansos selvagens ao sul emigram
E com voz dolente guincham.
Sinto desejo de escrever uma
Triste história:
Que consigo eles levam
Sobre duas asas brancas,
Algo querido da minha alma
Não sei onde
E nem sei o quê.
(Aves de Arribação, de Desanka Maksimovic, em tradução de Asanovic Sonja)
No versátil rigor da esfaimada cratera a doce ferida aberta
Sôfrega nos voláteis suspiros em espirais de vénias soltas
Quanto nuvens áridas e poeirentas cinzas descem apagadas
Soprando as teias das crostas das mãos anteriormente ágeis
Sob os Invernos os gansos solitários em cunha no voo solar
Rasgam a sombra à procura das famílias abatidas pelos ecos
Pólvora sonora retumbante rasura de abafar os gestos à sede
Profícuos os sonhos candentes insistem-se vulcões de sangue
Como lava imperativa de renovadas esperanças acodem em nós
Eis que destingo os teus passos das batidas nas bigornas acesas
Iluminando o nevoeiro que à desfilada desemboca nas esquinas
E de freio nos dentes se recusa a obedecer ao silêncio fúnebre
Ouço os teus saltos altos sobre o soalho soalheiro dos tempos
Absoluta reportagem cifrada no FM sôfrego intenso da audácia
Porém enxaguado na seiva da serra o tafetá dos deuses dança
Sob a leda brisa suave dos soslaios incandescentes os lábios
Estremecem perante a dívida contraída por mim em teus seios
Cisterna láctea de onde bebo viciado o néctar de tuas pálpebras
Gota a gota me rendo até trôpego e ébrio naufragar aprisionado
Sucumbo na tenaz de tuas coxas o dorso revulsionado convulso
Amplexo centrípeto da vertigem que me suga prò fogo nuclear
E ardo e expludo e broto-me só em lava do teu entretecido dizer!
segunda-feira, março 09, 2009
Creio haver enlevados mistérios de figos e mel em teu sorriso
Resina láctea de espuma sobre que navega a concha ancestral
Íman de vulcanizar o leito de fogo e acender o cadinho do céu
Súbdito teu sou e o azul ao crepuscular manto de tuas ordens
Tulha de Hefesto onde cintilam ainda faúlhas no pó das cinzas
Istmos de solidão que recusam apagar-se aos faróis navegantes
Naves silvestres balançados vaivéns das ondas nas clepsidras
Areias intemporais aspergidas de seiva oceânica se afirmam...
Chegaste sobre praia e tens a voz de Júpiter em tua meiga mão
Vinda do infinito das águas ao desconhecido mundo liquefazes;
Não obstante, entre as pérolas dos lustres das noites sem noite
"Che is my leader" canta outro Sinatra nas clareiras das florestas
Cimento entre cimento quase tudo e algumas janelas iluminadas
Filhas da revolução erguendo seu direito punho aperrado ao Sol!
sábado, janeiro 24, 2009
"Foi esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que em 25 de Abril
Fez Portugal renascer!"
Esses dias, meu filho
Recordá-los-ei sempre, sempre
Pois que mudaram o trilho
A quem sonhou vida diferente,
Com vontade tenaz e coerente
Entre a força do povo e o poder
Nascia uma força viril
De antes quebrar que torcer,
Fazendo o 25 de Abril
Pra Portugal renascer!
Os soldados e povo de então
Criaram um novo estilo
De rimar esperança com pão
Acendo com suor fértil brilho,
Igualdade e razão, aquilo
Que com unidade e saber
Viria a ser força viril
De antes quebrar que torcer
Tida no 25 de Abril
Pra Portugal renascer!
Houve alegria nos campos
Em flor a Reforma Agrária
Colheu dos figos lampos
A semente da classe operária,
Cantada em maneira vária
Contra a fome de enriquecer
Com essa força viril
De antes quebrar que torcer
Feita 25 de Abril
Até Portugal renascer!
Onda de independência
A favor da causa humana
Dava aos povos a regência
De cá e lá da Taprobana
Consolidando o seu querer
Na grande força viril
De antes quebrar que torcer,
Fez um 25 de Abril,
Fez Portugal renascer!
Conquistou-se a liberdade
De falar, votar e exigir
Criando no suor da lealdade
A fórmula de os repartir,
Conta-corrente a não-esquecer
Como esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que há do 25 de Abril
E faz Portugal renascer!
quinta-feira, janeiro 08, 2009
E escorro entre as margens do sonho como lilases à deriva
Como luminescências do olhar que navega consentimento
Aberto ao sigilo angular no xadrez do silêncio aspergido
Onde o dito se desdobra denotando breve tranquilidade
Onde a fala se toca entrecruzada aos dedos as mãos dadas
Onde podemos ficar a ver crescer a praia que se espraia
Grão a grão, onda a onda, passo a passo, o vaivém marginal
Deste pluriaquiescido murmúrio no terno cicio dos afagos
Saber-me-ei sempre pouco face à tua urgência intenso ser
Madrigal de palavras evadidas ao seu significado sustenido
Soluto destemperado de mim nas escarpas da Ilha Tseu diz
Teu nome invoca a sombra das tardes ao sol mediterrânico
Sonâmbulo ensimesmado o enredo silente na saliva doce
Gesto de ameigar a voz no equino roer do freio soltas crinas
Sinal ao vento nas dunas relapsas das violetas as avenidas
Artérias pulsantes o ritmo sincopado do bombear sanguíneo
Cresces-me dentro cerzindo a cripta onde sacrifico as ânsias
Deduzo a sede e me ergo escorrente em teu seio o grito líquido
Liberdade soletrada a meia voz no sussurro do verbo me és cravada!
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Sonhar é apenas um constante precisar do outro
Invejar o que lhe acontece, o que felicidade lhe dá
Correr à solta pelos vales e prados como um poldro
E estar sempre presente, mesmo quando ainda se não está.
Pode ser só um libelo de bronze em oásis morto
Ou o cinzento das nuvens de Bombaim a Calcutá,
Ou o frio glaciar do ensimesmado eu, olhar absorto
Em que esporadicamente o semblante se me queda e quedará.
Pode ser tudo, e também pode igualmente nada ser
Como uma simples ideia a que sem cessar nos damos;
Pode estar inscrita no próprio corpo e todavia esquecer
A prenda prò outro no nosso aniversário ou no seu dia de anos.
E isso, a qualquer um pode acontecer!
E isso, a-qual-quer-um-pode-acon-tecer!
Mas eu, eu que fui abandonado pela mulher que me pariu
Como afugenta uma teia, um limo o apressado nadador
Nunca minto,
Porque mesmo quando afirmo por verdadeiro
O fluxo de irrealidade que somente sinto,
Me é solicito ser esse ser primeiro
De entre a realidade que há muito me fugiu
O conjectural e urgente inventor
Daquilo que me falta por abundância – o amor.
Eu, que cruzo a multidão batalhando (n)a indiferença
Como se combatem as possessões perpétuas ou bruxarias,
Nunca escondo;
Sei subir a cada outeiro
Como se o mundo todo redondo
Escoasse adiando o momento derradeiro
Do nuclear selvagem e pershings dos med(i)os-dias,
Ao ser homem sem licença das hierarquias,
Ou cão rafeiro, dono de incautas estrofes – as heresias!
E no fundo, que ou quem serei eu?
Nada! Filho da terra, amante da água,
Onda esbatida contra a quilha do progresso,
Parto de silêncio entre o mar e o céu,
Restos ressequidos da niquelada mágoa,
Ponto de partido para qualquer regresso
Ou chegada.
Tal e qual, como no fundo também sois vós...
Nada. Igualmente nada, meus irmãos. Regatos desaguantes
Talvez leitores, energia motivadora de vontades inquebrantáveis
Nos sonhos de solidariedade de pais e avós
Pequenos entorses do querer no crer renováveis
Memórias prontas para empratadas iguarias do esquecer
Que o único pronome que vem antes e depois nome
É o Homem – e esse, somos nós!