A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

sexta-feira, setembro 30, 2016

LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR/DE COR/DE COR




LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR

Se debico e osculo essa seda
Pura fragrância, ó elixir 
Que pelos doces sonhos se enreda
Abrindo sulcos, caminho, vereda
Por que já sobes sorrindo ao porvir; 
Então desamor se desfaz (pla tua mão)
Que traz a paz e a luz do sim e do não,
E escreve e serve o sobre e o entre
O profundo grito de teu ventre. 

O dia esplende. E o dorso flete. 
Complexo se aninha, ou estende, 
Ou balança, na rede do amplexo… 

– E o corpo aprende s’a alma repete! 

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, setembro 29, 2016

À JANELA, COM SHAKESPEARE




À JANELA, COM SHAKESPEARE 

A conta lançou abanão 
No orçamento da pobreza, 
Ond’o Dr., indabenão 
Põe máscaras à despesa. 

Pra uns, é investimento; 
Pra outros, necessidade. 
Contudo, eu argumento
Ser só fuga à verdade. 

Porque isto de pôr nome
A que muito bem se sabe,   
Até dá fomes à fome 
Antes ca taxa s’acabe. 

Joaquim Maria Castanho

CLIC




CLIC 

Quero esfregar minha casca
Na tua casca, minha pele
Na tua pele se atasca
O beijo arrasta, à alma zele. 

E dito assim tão calado
O grito no sangue ferve, 
Que o olhar no teu colado
Faz a eternidade breve. 

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, setembro 28, 2016

SE ME ALIMENTO






SE ME ALIMENTO 
(quarta-feira, 28 de setembro de 2016
15:23)

Quando a voz no ser indistinto
Abre sulcos quase indizivéis, 
Os sonhos no vaivém do instinto
Aproveitam os seus caminhos, e eis
Que sentem o que jamais sinto
Ou se derramam por esses papéis
Pintados com tudo o que não pinto... 
Folhas avulso, ou restos dos dias
Feitos e desfeitos, descartáveis
Nas linhas que desvendam poesias; 
Nos poemas que ocultam sentimentos. 

Então, exceto o pão, por endurecer, 
Quanto como passou pela tua mão
Certo dia que não consigo esquecer, 
O que lhe concede essa dimensão
Que ninguém dará aos alimentos! 

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, setembro 27, 2016

A IDADE DO SENTIR





A IDADE DO SENTIR 

No sufrágio odorado da espera
A fala presa, esgar retraído, 
O silêncio que adora e venera
Estende-se plo dia, consumido. 
A brisa, ao tocar-lhe, recorda-te
Tal que passando por mim novamente
Te visse (outra vez!) plena de arte
Vendo o telemóvel, indiferente… 
Passo cadenciado, trança prà frente
– Exatamente do lado que me prende –, 
Sentindo tod’esse bem que ascende
Quando a esperança se faz praxe
E pulsa e ilumina, ou desmente
Que o amor só aos novos é que nasce! 

Joaquim Maria Castanho 

segunda-feira, setembro 26, 2016

O RITUAL DA LEITURA




O RITUAL DA LEITURA 


Regressar é rever-te (mentalmente), 
Eterno retorno feito ritual, 
Repetição de instante eficiente
Pra que se repita também o real
Cotodiano (sagrado) docemente
Inspirado na Poesia e Ideal, 
Em rotina que alia o crer da gente
Ao querer que a tornará assim plural… 

Os dias são as montras dos sentidos
Tidos e somados que a nossa alma tem, 
Sendo nesse calendário vertidos
Aonde o sol só do coração nos vem. 
E vindo, põe-nos o ser amado tão perto
Que o mundo se faz um livro aberto!

Joaquim Maria Castanho

domingo, setembro 25, 2016

PRECE AO DIA DE HOJE




PRECE AO DIA DE HOJE 

Definitivamente amargo e triste
O sol, como quem a si mesmo resiste, 
Insiste em continuar na jornada; 
Não sei se acredita que a lua existe
Mas ainda que triste traz luz em riste
E persiste iluminar a tão marcada
Saudade em meu rosto abatido... 

Pedir-lhe que prossiga sem euforia
Cuidadoso nas badaladas e atento
Aos minutos que no Tempo afia
E espeta um a um no coração sofrido
De quem os conta por afastamento, 
É empresa de sacrifício doído
Até pra ele que não é dado sentir
O que o homem sofre neste momento. 

Todavia, eu vou rogar-lhe, implorar
Que se mantenha sútil e sem sorrir, 
Seja solidário a quem lho ‘tá a pedir, 
Tão-somente e apenas pra não chorar! 

Joaquim Maria Castanho 

sábado, setembro 24, 2016

O SINAL




O SINAL 

Prenúncio do que irá acontecer
(Plantar de figueira no caminho, 
Queda, trepidar que deita ao chão…), 
Foi anúncio do que não quero crer
Feito às portas de meu destino; 
Aviso de que ficarei sem te ver
No preenchimento duma previsão, 
Só acontecida por demais temer
O que me é contrário ao coração. 

Por vezes, infligem-nos os deuses
Sofrer superior às capacidades
Que temos, em cruéis entremezes 
Onde se divertem com as verdades
Que tornam as almas animadas, 
Demonstrando serem ínfimos nadas
Os humanos anseios (felicidades), 
Obrigando-nos a contínua provação. 

Porém lhes digo: Só quem sabe dar a mão
E nos ajuda a erguer a fronte aos céus, 
Reconhece o amor nos súbditos seus, 
Merece da humanidade absolvição… 
Seja ou não, pelo Olimpo, um deus!   

Joaquim Maria Castanho

sexta-feira, setembro 23, 2016

BBBHHHAAA!!!




BBHHHAAA!!!  

Almejam os ignaros decidir 
O que os poetas devem escrever, 
Para assim, talvez, se prostituir
A fim de que alguém os queira ler… 

Ó pacóvios, contem-me outra, 
Qu’essa história já está gasta, 
Pois nenhum poema será montra
Das aldrabices da vossa casta! 

Joaquim Maria Castanho  

quinta-feira, setembro 22, 2016

TROVA DO SENTIR PERENE




TROVA DO SENTIR PERENE 

Tenho poema a periquitar
Plos olhos que há pouco vi, 
Tão lindos, que ‘tou a pensar
Que foi por eles que nasci. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Prós ver e neles acreditar; 
E sonhar vê-los agora aqui, 
Num poema quase a chegar
Tão-só por me lembrar de ti. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Numa tão nobre perdição
Que não se vêem sozinhos, 
Tendo feito do coração 
Seus próprios caminhos. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Rotas ou descobrimentos
No alinhado meridiano, 
Plo qual os sentimentos 
Dum dia valem todo ano. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Joaquim Maria Castanho 

quarta-feira, setembro 21, 2016

SEMENTE LUMINOSA




SEMENTE LUMINOSA 

Teu olhar acende estrelinhas
No meu sangue, cintilantes
Prà apagar flamas daninhas
Onde o ser me ardia antes; 
Marc’os verbos destas linhas
E planta versos ofegantes; 
Elege Musas em Rainhas
De poemas perto – e distantes. 
É avelã doce mas pleno
Sentido sonho de magia, 
A brotar puro e sereno
Dos nevoeiros sem poesia. 

É luz no amanhã incolor… 
Cujo brilho vai além da flor! 

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, setembro 20, 2016

VISÃO EXATA




VISÃO EXATA 

A pele do poema (cetim nacarado)
Gema perlado com gotas de cristal, 
Dança a cada passo teu, assim dado
Sob fulgor felino (quase) austral; 
Estremece, bruxuleia cintilado
Por alucinações afro, porém real
Deixando meu olhar em si colado, 
Sucumbido pla beleza magistral… 
Tem a sensualidade dum soneto. 
É flexível com’um S de sedução. 
E emite esse perfumado trejeito
Dum ápice, no clímax (perfeito)
De exalar, nesse instante secreto
Em que eclode, a própria perfeição. 

Joaquim Maria Castanho 

segunda-feira, setembro 19, 2016

CONSCIÊNCIA DE SI MESMO


ABSORTO TE ABSORVO




ABSORTO TE ABSORVO 

Há um Império de lonjura
Entre nós Pessoa chamou-lhe O Quinto
Mas, mesmo assim, na candura 
Dos dias procuro o mar entrançado, e sinto
As vagas encaracoladas do ser
A enlear-me em sonhos que não sei dizer. 

És o segredo de cada passada
O verbo aflora rimas ancestrais
E, na manhã da manhã, esperada
Sobre xis de cromossomas maternais, 
Ditas poesias pelos céus diamantinos…

O sol empurra-te para o outro lado;
Porém, seguro-te, estendendo-te o olhar
Descuidado, para te guardar (ensimesmado). 

Joaquim Maria Castanho 

sábado, setembro 17, 2016

AS QUATRO PENAS DE LEI




AS QUATRO PENAS DE LEI 

Tantos há contra a pura transparência 
Tornando turvas as águas da consciência 
– Sendo as verdades de tão amargo custo
Pra quem não é sério, honesto e justo… –,
Que se nos atrofia a pena da poesia
E cresce a pena do penar plo dia-a-dia. 

Mas a mim – que não sou sábio nem rico, 
Nem o douto tido por inteligente –, 
Basta-me contar a pena com que fico
Por rever nestas estrofes tanta gente! 

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, setembro 15, 2016

A TUA AUSÊNCIA II


VIDA REFRATÁRIA




VIDA REFRATÁRIA

Repito os gestos, os caminhos pisados
Como s'eles tivessem o condão de repetir-te, 
De tornar-te presente (novamente). 

Insisto neles. Insisto em mim. Insisto
Como quem se atravessa na linha
Antes da existência passar (arbitrária). 

Porque a minha vida jamais será minha... 
E se o for – por hipótese! – será também refratária. 

Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, setembro 14, 2016

À FLOR DO OLHAR II


A TUA AUSÊNCIA




A TUA AUSÊNCIA 

É como se a poesia nos tivesse morrido
De uma síncope qualquer, 
E a palavra, o verbo assim suprimido
Caísse ao túmulo abatido
Sem conseguir chorar, sequer…

Como se o vento vergastasse seu choro
Pelo chão sujo de palha ressequida, 
Para despir as árvores, sem decoro, 
Das verdes folhas que lhe foram vida. 

É como se nos doesse o doer, até 
Não haver hoje, nem amanhã, 
Noites, dias, imagens, nota, rodapé; 
E os poemas sangrassem sem fé, 
E numa esperança vã. 

Como se a voz ácida corroesse
A alma no seu íntimo mais puro, 
E o mundo todo inteiro tremesse
Nos picos de um gráfico (inseguro). 

É como se perdêssemos o nosso ser
Minuto a minuto esvaído, 
E nos doesse pelo próprio dizer
Até ver o não-ver por temer
Ser o perder-se esquecido. 

Joaquim Maria Castanho