Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
sexta-feira, maio 22, 2009
Pois para lá das pequenas coisas controversas e risíveis
Tristeza de estar ou não presente e aquele livro na mesa
Às horas fúteis da sesta morna sob a sombra da incerteza
Há um querer que não ousamos por ângulos plausíveis
Escorregar, deixarmo-nos escorrer livremente, a natureza
Da entrega o salto áspero que antecede o voo, o rasgo vil
Dum diagnóstico envenenado cujo antídoto se chama Abril.
Mas fazemos mal, não por mal, antes o medo temos por bem
De sentir acorrentados a segurada esperança em poder cair
Só quando houver rede por baixo, embora feita por ninguém
Essa certeza perdida que nos impede de seguir a própria vida.
Que aos pormenores é dada consequência de modo primaveril...
Tu, essa luz isadelfa do feixe de estames que tece o firmamento
Entretece também ledo fio sin@l de enfeixar-me a cada momento
Que a lisa luz que ao azul rompe e tece a frecha da flor da voz
Ata a exacta quantidade dos dois feixes no feixe nascido de nós!
quarta-feira, maio 20, 2009
O nome é a alma dos seres, das coisas, das gentes
Das flores, das aves, estrelas, árvores, rios e do luar
Dos seres luminescentes e presente de todos os ausentes
Risca o firmamento e apaga o incógnito algures ao lugar
Onde o infinito Xis se cansa de ser ruptura e se torna chão
Laje que piso, pegada sobre o lodo liso da velada imensidão.
O nome é a voz que soletrada ecoa a fugaz essência da luz
A chama que chama da cega iluminação em quão justa é a jus;
Que o nome é o gesto que se insurge ante a escuridão e breu
Traço fosforescente eléctrico da tangida fala nos minaretes do "eu"!
terça-feira, maio 12, 2009
Falo da morte – desta morte acontecida sorte na gesta
Daquela morte, desde outra morte na entretecida corte
Atesta se nunca a morte da morte é consorte nesta vida
Doutra morte universal, absoluta, resoluta causa perdida.
Falo da morte, navalha afilada, e pontiaguda apontada
Cigana malvadez do corte na escarpada aresta desta malha
Cabo tumefacto profere o acto incesto sob o texto destapada
Pérola húmida tua boca de irmã rainha no sol alado anunciada
Esguias pernas de mulher doce em cuja junção a língua encalha
Nos seios com que cinges os cisnes do sonho no desejo da escrita
Rosa na cripta devota os dedos são segredos que o escriba atalha
Razões por que não tresmalha da lura aflita a mão sobre navalha.
Falo da morte, falo que fala como quem ao soletrar mais cala
Penetração contínua no medo do só que dedo a dedo traça o nó
Amuleto salvador na estrada de permanecer o silente enredo exala
Escala fiel linha entre forte, fraco, primo, segundo grão na mesma mó
Do moinho o vento sopra o pó que acalenta a sede e cobre a vala.
Falo da morte, na madrepérola do cabo a mão sagaz, veloz
Mão preciosa de luar em uivos descendentes sobre os ombros
Rentes caídos nos escarpados do ser, atados escombros da voz
Rolada pérola sobre o atroz temor sem dizer o albatroz no condor
Que a voar ergue a sombra que ilumina o amor que raia entre nós.
terça-feira, maio 05, 2009
"Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos seus tomentos.
Porém, não busqueis poder no amor...
Que só quem da sua lei se sente escravo
É, de facto, finalmente livre."
Ibn 'Ammãr
(Silves, século XI)
É lógico, ó solitárias companhas pescadoras nas arribas silentes
Que não nos venhamos a compreender perfeitamente, em definitivo
Se vós quereis subir na vida, provisoriamente soletrada entredentes
Mas eu quero apenas descer ao que de mais íntimo nela há, dela cativo
Sou, que tão infinitamente voo, através das asas, que somente ela me dá.
Por conseguinte peço, sem qualquer retórica e eufémica relutância
Que não reprimam meu canto nem o resguardem das correntes de ar
Eloquentes adormecidas na substância ímpar do sufixo desta vida
E muito menos recalquem as palavras insurrectas, flechas directas
Dos poemas que te fiz, Arina a que dança na solidão das ervas e regatos
Envolta em tules e sedas, braceletes de prata e diademas de ouro e cristal,
Porque a Liberdade nunca esquece que existimos antes do bem e do mal.
No horizonte, quiçá o fio de prumo paralelo nível do olhar deslumbrado
Em que as ondas aprisionam a espuma nas correntes dos altos fundos
Onde o zelo condicionado da luz refractada pinta ternas ilusões coloridas
No azul celestial como se este apenas fora o signo avesso dos mundos
Enquanto o albatroz cruza as vagas aéreas na quadrícula margem boreal
Traçando vigas imaginárias com suas ícaras trajectórias a pentear o globo
Tracejados de união que sustêm a abóbada no xadrez das cumplicidades
Das regras inerentes às elipses na órbita das estações do clássico pórtico
Ancestral cais onde as duas colunas suportam todo o peso da eternidade,
Eis que nos conhecemos no anonimato dos @@ sob clave de Sol em pauta
Em tratamento de desintoxicação dos efluídos da espiritualidade ilusionista
Charlatã dos vendilhões de essências marginais andróginas nos concílios
De misóginas estirpes para esterilidade da espécie e destruição planetária,
Eis que esquecemos o tempo em que fomos olhos nos olhos sem o temor
O medo abrupto da reincidência o trauma da experiência falhada, soluto
Amargo, demorada resiliência em recuperar o fôlego para a folgada linha
Essa onde dançam os papelotes e lâmpadas pintadas no terreiro do baile
Romarias suis generis das preces missionárias e casamenteiras de acreditar
Sem ver na obscuridade pejorativa da perfeição divina és só capítulo nulo
Somos apenas púlpito para vociferações intestinas da morte acesa central
Diploma de enredo na satisfação do capricho da cruz que no nicho do medo
Acende a morte e a opressão e a mentira e o flagelo e a ira e a dor como luz.
Apagai os sorrisos, ó cínicos, que tensa a linha do horizonte na tez marinha
Arina se rende ao culto de seus adoradores ocultos e anónimos e sem capa
Nem a duplicidade equívoca dos verbos mal conjugados do vil impropério
Que a navegante das conchas alinha e marca as fronteiras do Novo Império!
Surpreendo-me a ver-me nu, despido de mim
Rasgo as entranhas deste animal clandestino
E soluço. Bebo-me sem rebuço e busco-me fim
Entre adulto ser pra também poder ser menino.
Que nisto de ser sério como no parecer assim
De com tudo brincar até perder o pé ou o tino,
Há mais de homem que de descarado querubim;
Mais de querer ser, do que de rendido ao destino!
Quem ainda se lembra do que afinal é ser criança?
Quem? Pois se saiba que esse sabe o que é estar além
A discernir entre o logro, o aval, o voto e a fiança...
E mais ainda sabe, se acaso o escuro da noite vem
Que fusão é despirmo-nos de tudo, não só lembrança
E ser capaz de dizer, sem dor nem medo: VOO TAMBÉM.
quarta-feira, abril 29, 2009
terça-feira, abril 28, 2009
No jardim das azáleas negoceio-me entrega à divina pérola e-
Regateio. Regateio. Regateio a sombra, o eco de teus passos
E adormeço no centeio enquanto estremeço enleios e- laços
Baraços de jungir os caules decepados sob as áureas espigas
Posta entre as demais raparigas pareces ser apenas estandarte
Brisa dos sonhos apegados nas vigas de todas e qualquer arte
Eis-me reduto de secretos sinais cruzados na volúpia da voz
Babel em espiral de saber que não vives em vão faz-me nascer
Tal como renascem os faróis incandescentes do lodoso chão
Tal como da semente do ser brota o grito da dúvida e da razão
Tal como o «sim» em mim exige enfim até a própria exaustão
Anuência plena no afago da seara que ondeia ante as sombras
A nuvem do gesto segador de teus braços nus em meu redor
O arco poro a poro, dígito a dígito, flexível de desferir audácia
Em raios de infindáveis luminescências que aspergem a noite
O breu das ignaras portas nos socalcos empedernidos do medo
Escarpas da angústia ao azedo acre que aflora a glote no silêncio
Aglutinante se diz tão-só estilhaçado pelo teu sereno dizer a luz
Suas réstias como lâminas que cortam a penumbra das tardes
Raios laser branco incisivo trasbordantes das frinchas do soalho
Digo, deste chão onde adormeço de ventre colado à terra solta
Brava e esfarelada por meus dedos que tentam segurar-se nela
Fundir-te em mim, prender-te até doer na vocifera ardida posse:
Sega ceifeira o cego nó, que ser é abraçar até doer sem rede e dó.
Regateio. Regateio. De ti somente me satisfaz o demasiado dado
O quanto precioso cujo preço é sempre uma honra impagável
A exigência irremediável da entrega que afinal é só um princípio
Uno sem-fim que à vida implora sua pétala de rosto bravo, digo eu!
quinta-feira, abril 23, 2009
Que aspergida e matizada a pérola com a bruma de Tróia,
Entre o papiro das páginas meigas corolas abertas à História
Havia tanto de memória acesa breve quanto lúcido desejo
Nas ninfas do Tejo em cujas margens a sereia etrusca bóia
Nos enleia e entorpece na submissão que nunca se esquece,
Foste, dizes ainda, a entretecida sombra das cores da ousadia
Silvestres esgares nas aras com que a curiosidade me seduzia
E ditava guerras a raptos em segundo nome por hípicas vozes
Armadilhadas celebrações a helénicas sibilas no voo dos albatrozes.
terça-feira, abril 07, 2009
Tive azar com os meus pintassilgos...
Parece que um deles me saiu escritor!
E para este, todos os dias são domingos
Que da semana, é aquele em que canta a dobrado fervor.
Ali fica, parado em qualquer galho
Horas a fio a contar, em árias mexidinhas
Trinados estridentes, e até Jazz ou Bossa Nova,
Se calhar comentando quanto foi o trabalho
Que entrementes, teriam feito as pintassilguinhas
Que seu canto enaltece num refrão que se renova.
Tive azar com estas duas crias:
É que uma delas, extraviou.
Canta que conta, traz-me arrelias
E obriga-me a ser quem apenas sou!
quinta-feira, março 26, 2009
Através da noite e neblina
Os gansos selvagens ao sul emigram
E com voz dolente guincham.
Sinto desejo de escrever uma
Triste história:
Que consigo eles levam
Sobre duas asas brancas,
Algo querido da minha alma
Não sei onde
E nem sei o quê.
(Aves de Arribação, de Desanka Maksimovic, em tradução de Asanovic Sonja)
No versátil rigor da esfaimada cratera a doce ferida aberta
Sôfrega nos voláteis suspiros em espirais de vénias soltas
Quanto nuvens áridas e poeirentas cinzas descem apagadas
Soprando as teias das crostas das mãos anteriormente ágeis
Sob os Invernos os gansos solitários em cunha no voo solar
Rasgam a sombra à procura das famílias abatidas pelos ecos
Pólvora sonora retumbante rasura de abafar os gestos à sede
Profícuos os sonhos candentes insistem-se vulcões de sangue
Como lava imperativa de renovadas esperanças acodem em nós
Eis que destingo os teus passos das batidas nas bigornas acesas
Iluminando o nevoeiro que à desfilada desemboca nas esquinas
E de freio nos dentes se recusa a obedecer ao silêncio fúnebre
Ouço os teus saltos altos sobre o soalho soalheiro dos tempos
Absoluta reportagem cifrada no FM sôfrego intenso da audácia
Porém enxaguado na seiva da serra o tafetá dos deuses dança
Sob a leda brisa suave dos soslaios incandescentes os lábios
Estremecem perante a dívida contraída por mim em teus seios
Cisterna láctea de onde bebo viciado o néctar de tuas pálpebras
Gota a gota me rendo até trôpego e ébrio naufragar aprisionado
Sucumbo na tenaz de tuas coxas o dorso revulsionado convulso
Amplexo centrípeto da vertigem que me suga prò fogo nuclear
E ardo e expludo e broto-me só em lava do teu entretecido dizer!
segunda-feira, março 09, 2009
Creio haver enlevados mistérios de figos e mel em teu sorriso
Resina láctea de espuma sobre que navega a concha ancestral
Íman de vulcanizar o leito de fogo e acender o cadinho do céu
Súbdito teu sou e o azul ao crepuscular manto de tuas ordens
Tulha de Hefesto onde cintilam ainda faúlhas no pó das cinzas
Istmos de solidão que recusam apagar-se aos faróis navegantes
Naves silvestres balançados vaivéns das ondas nas clepsidras
Areias intemporais aspergidas de seiva oceânica se afirmam...
Chegaste sobre praia e tens a voz de Júpiter em tua meiga mão
Vinda do infinito das águas ao desconhecido mundo liquefazes;
Não obstante, entre as pérolas dos lustres das noites sem noite
"Che is my leader" canta outro Sinatra nas clareiras das florestas
Cimento entre cimento quase tudo e algumas janelas iluminadas
Filhas da revolução erguendo seu direito punho aperrado ao Sol!
sábado, janeiro 24, 2009
"Foi esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que em 25 de Abril
Fez Portugal renascer!"
Esses dias, meu filho
Recordá-los-ei sempre, sempre
Pois que mudaram o trilho
A quem sonhou vida diferente,
Com vontade tenaz e coerente
Entre a força do povo e o poder
Nascia uma força viril
De antes quebrar que torcer,
Fazendo o 25 de Abril
Pra Portugal renascer!
Os soldados e povo de então
Criaram um novo estilo
De rimar esperança com pão
Acendo com suor fértil brilho,
Igualdade e razão, aquilo
Que com unidade e saber
Viria a ser força viril
De antes quebrar que torcer
Tida no 25 de Abril
Pra Portugal renascer!
Houve alegria nos campos
Em flor a Reforma Agrária
Colheu dos figos lampos
A semente da classe operária,
Cantada em maneira vária
Contra a fome de enriquecer
Com essa força viril
De antes quebrar que torcer
Feita 25 de Abril
Até Portugal renascer!
Onda de independência
A favor da causa humana
Dava aos povos a regência
De cá e lá da Taprobana
Consolidando o seu querer
Na grande força viril
De antes quebrar que torcer,
Fez um 25 de Abril,
Fez Portugal renascer!
Conquistou-se a liberdade
De falar, votar e exigir
Criando no suor da lealdade
A fórmula de os repartir,
Conta-corrente a não-esquecer
Como esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que há do 25 de Abril
E faz Portugal renascer!
quinta-feira, janeiro 08, 2009
E escorro entre as margens do sonho como lilases à deriva
Como luminescências do olhar que navega consentimento
Aberto ao sigilo angular no xadrez do silêncio aspergido
Onde o dito se desdobra denotando breve tranquilidade
Onde a fala se toca entrecruzada aos dedos as mãos dadas
Onde podemos ficar a ver crescer a praia que se espraia
Grão a grão, onda a onda, passo a passo, o vaivém marginal
Deste pluriaquiescido murmúrio no terno cicio dos afagos
Saber-me-ei sempre pouco face à tua urgência intenso ser
Madrigal de palavras evadidas ao seu significado sustenido
Soluto destemperado de mim nas escarpas da Ilha Tseu diz
Teu nome invoca a sombra das tardes ao sol mediterrânico
Sonâmbulo ensimesmado o enredo silente na saliva doce
Gesto de ameigar a voz no equino roer do freio soltas crinas
Sinal ao vento nas dunas relapsas das violetas as avenidas
Artérias pulsantes o ritmo sincopado do bombear sanguíneo
Cresces-me dentro cerzindo a cripta onde sacrifico as ânsias
Deduzo a sede e me ergo escorrente em teu seio o grito líquido
Liberdade soletrada a meia voz no sussurro do verbo me és cravada!
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Sonhar é apenas um constante precisar do outro
Invejar o que lhe acontece, o que felicidade lhe dá
Correr à solta pelos vales e prados como um poldro
E estar sempre presente, mesmo quando ainda se não está.
Pode ser só um libelo de bronze em oásis morto
Ou o cinzento das nuvens de Bombaim a Calcutá,
Ou o frio glaciar do ensimesmado eu, olhar absorto
Em que esporadicamente o semblante se me queda e quedará.
Pode ser tudo, e também pode igualmente nada ser
Como uma simples ideia a que sem cessar nos damos;
Pode estar inscrita no próprio corpo e todavia esquecer
A prenda prò outro no nosso aniversário ou no seu dia de anos.
E isso, a qualquer um pode acontecer!
E isso, a-qual-quer-um-pode-acon-tecer!
Mas eu, eu que fui abandonado pela mulher que me pariu
Como afugenta uma teia, um limo o apressado nadador
Nunca minto,
Porque mesmo quando afirmo por verdadeiro
O fluxo de irrealidade que somente sinto,
Me é solicito ser esse ser primeiro
De entre a realidade que há muito me fugiu
O conjectural e urgente inventor
Daquilo que me falta por abundância – o amor.
Eu, que cruzo a multidão batalhando (n)a indiferença
Como se combatem as possessões perpétuas ou bruxarias,
Nunca escondo;
Sei subir a cada outeiro
Como se o mundo todo redondo
Escoasse adiando o momento derradeiro
Do nuclear selvagem e pershings dos med(i)os-dias,
Ao ser homem sem licença das hierarquias,
Ou cão rafeiro, dono de incautas estrofes – as heresias!
E no fundo, que ou quem serei eu?
Nada! Filho da terra, amante da água,
Onda esbatida contra a quilha do progresso,
Parto de silêncio entre o mar e o céu,
Restos ressequidos da niquelada mágoa,
Ponto de partido para qualquer regresso
Ou chegada.
Tal e qual, como no fundo também sois vós...
Nada. Igualmente nada, meus irmãos. Regatos desaguantes
Talvez leitores, energia motivadora de vontades inquebrantáveis
Nos sonhos de solidariedade de pais e avós
Pequenos entorses do querer no crer renováveis
Memórias prontas para empratadas iguarias do esquecer
Que o único pronome que vem antes e depois nome
É o Homem – e esse, somos nós!
sexta-feira, dezembro 12, 2008
Foi no avelã maduro dos teus olhos que se me crestou o ser
E a alma, em ti de tanto procurá-los nela sem fundo me vi
E se alguma, agora calma, sinto neles, por eles sinto e subi
Ao ver quanto me vendo deles afinal desvendo só de mim,
Que sou teu, como não sendo outrem e ninguém será assim
Solidão aberta relha de arar o chão ardente num secreto ver
Asilo rendido ao anil silente do sol alquimia e récita antiga
Como no gral se mói o sal e desejo em romã doce e amiga!
segunda-feira, novembro 17, 2008
Manhã ainda e os meus pintassilgos voam como golfinhos
Nos céus descrevem ondas de emulsão em linhas de balanço
Riscam o azul boreal com vagas de cores num chilreio vivo
Cantam de amarelo as asas sublimes hinos devotos ao Sol
Par de solistas trinando suas estrofes à realidade de Arina
Nossa rainha de luz sobre as águas nas violetas esvoaçantes
Cujo vazo de guerra é tão-só a concha solta nas dígitas mãos
Livre com seu molúsculo encarniçado das marés em fogo
Vulva doce seda mansa sobre a imensidade azul oceânica
Gesto de Gea gritado voo dos ombros cumes do tenso arco
Pleno e esbelto colo com ambos os seios apontados a Ítaca
Meu amor sob a fresquidão das palmeiras de folhas hititas
Serei teu na soprada brasa de repetir o cintilar das estrelas
Por cada noite na lua cheia sob quadrícula toalha da Aurora
Na tenda em círculo apenas iluminada por esses teus olhos
Aqueles olhos são todos os olhares que vêem os fundos mares
Sombras no rosto de jade na matiz do lótus à tona do lago
Espelhado oásis que nunca regateia a equina sede de Borak
Nave de galopar sonhos como golfinhos na bruma galáctica
Serei teu, porque irremediável é a entrega que nos sustenta
Voz incendiada na cruz das palmas frescura amena em regatos
Matinais riscas da alma em xis como seus incógnitos destinos
@cesos na álgebra soletrada por Ísis na união das liberdades...
segunda-feira, novembro 10, 2008
Ledos os últimos se insurgiram ao sistema antigo
Antes soturno e insignificante à utilidade literária
E livres usaram a irreverência sábia de aspergir
Alvoradas sobre as insalubres urnas da liberdade
Locais de usura e impotência sofisticada adulação
Adornaram sentido aos indiferentes utentes do livro
Leram a unicidade infinita da sociedade das artes
Arderam ao Sol incandescente da união langorosa
Legaram ultramarinos ícones de saudade e ausência
Abrigaram segredos indizíveis no útero das liras
Louvaram unas incandescências na sorte de Arina
Alisaram de sonhos infinitos os ulmeiros e louros
Legítimos ulanos do idílio no siar dos argonautas...
quinta-feira, outubro 23, 2008
Já unimos ditongos ideais nos trevos e ervas silvestres da serra
Todavia é quando assim a cidade me nasce dos pulsos abertos
A noite a escorrer-me pelos dedos e pingando o chão dos dias
Eis como me fica ali a voz esgarçada salpicando aqui silêncio
Coisa de somenos na estranheza púrpura mas dourada aurora
Instantes silentes e cintilantes no granito vozes estremunhadas
Os pomos dos dedos apalpando esperança polpa que amanhece
Encontro propício com teus olhos à esquina do tempo balcão
Das horas varanda de ver passar a nossa história apenas mágica
Imaginação no dito inaudito as pétalas juntas como pálpebras...
Todavia direi: junge, une os dígitos ideais totalmente enleados
Emaranhada decapita-me ao passar colhe ainda o sigilo breve
Atira-me o cérebro na distância das estrelas o fogo em nébula
Apenas ao teu esgar entre enigmas e soslaios na fé sucumbo
Bate-me o coração o sussurro dos teus passos onda na calçada
Respirar sincopado soprando as folhas de plátano numa dança
Coreografia própria do amarelo torrado a aspergir a verde relva
Talvez e tão-só recital de espera na esquina que adiante segue
Labirinto do sonho entre portas e muralhas entretecida memória.
Podes repeti-lo ante toda a gente que calar-me-ei bem avisado
Ouço o destino ainda o indicador em riste sobre os teus lábios
Breves frestas as pálpebras seteiras fitam sei que sabes que sei
Cúmplices testemunhas as pessoas passam para o seu trabalho
Algumas entretêm-se no café até derradeiro momento piparote
Calculado no relógio o pulso pinga os minutos sobre o xadrez
Mosaicos pretos e brancos pois é este chão que ambos pisamos
Mesmo quando corremos à desfilada no jardim dos labirintos
Porque já unidos (1+1=2) dígitos da igualdade tão emaranhados
Abrem na sombra a fresta do teu nome medindo-me o pulso
Veia verdejante em beijos de segredo sussurrados a uníssono
Como uníssono é ser que sendo se sonha no sonhar do sonhado!
segunda-feira, outubro 13, 2008
Tenho andado bastante preocupado – ultimamente – a sério
Com os meus pintassilgos; é que eles desapareceram assim
E não disseram para onde foram de férias, o que é mistério
E eu desconfio, que não sendo eles lá muito dados a lérias
Algo deveras lhes aconteceu, imperiosamente os demoveu
De voltar, como igualmente os obrigou a esquecer a prosa
Desta forma assaz ansiosa com que os continuo a esperar...
Por favor, se alguém os vir, transmitam-lhe o meu recado
Digam-lhe nesse algures em que estiverem e permaneçam
Que não esqueçam, ou que se não for de sua livre vontade
Há-de sempre haver aqui, um lutador advogado da verdade
Que por vós pugnará, com alvíssaras e caprichando no risco
Fazendo dos seus verbos, ideias, actos e gestos aquele isco
Indomável sonho, petisco com que a vida pesca a Liberdade!
terça-feira, setembro 23, 2008
Pus as mãos em concha na água da fonte nascente dos rios
Que ao princípio era o nome soletrado beijo se fez espuma
Seiva, saliva, soro que a língua tornou verbo interligação
Da qual só se saberá o significado se aberto completamente
E entendermos que lhe escorre dentro transparente e fugaz
Veloz Borak à desfilada pelas secretas planícies do silêncio
Leva-nos ao acto e devolve-nos de volta apenas numa noite
Que Ela transporta a pérola do olhar de Rita, a leda rainha
Aquela que habita a nave onde Sarah é a ternura e princesa
Sucessora do lácteo brilho liso espelho no mar de estrelas
Farol que encandeia os deuses e lhes guia a sôfrega alma
O Shofar soa agora acompanhado das liras lídias e frígias
Entre o azul da solidão cósmica e opaco luto da eternidade
Manto de lusco-fusco e apresta aurora tingida em púrpura
Nácar e violeta madrepérola esculpido espólio de Pompeia
Na tecida tez de aveludado pêssego que a boca consome
Soletra líquido sol suculento fogo de incendiar o sangue
Nenúfar incandescente em nocturnos lótus da grega Nisa
Euclase lapidada nas faces de seda de Margarittas em flor
Pétalas silentes da silene nos nichos de granito os umbrais
Portas do templo do corpo por cujos seios gritam aos céus
O mel dos figos maduros na cremosa espiral do teu néctar
Oceano onde A e B vão Cerzir o Delta irreverente do sonho
Signo de Albatroz no anel dos gomos das pirâmides de Gizé
Primeiras letras do verbo no alfabeto da soletração de Reia
Gaia semente onde a amizade se transforma em sabedoria
Capital próprio de investir no ganho certo da amizade universal