TRÊS GIRASSÓIS PARA TI
1.
Se Agora Resistir Amarguro
Ensina-me a aprender a falar de ti, secreta
Quando meiga percorres sôfrega a sede
A fome de meu corpo que te procura nu
A voz, a língua, os lábios que sabem unir.
Ensina-me a referir-te consumada e só
Unicamente leda e original como apenas tu
Assim à flor da pele tumescente, inquieta
Como equino nervoso na antecipação do salto.
Ensina-me a distância que vai do corpo à lua
Aquele brilho eléctrico, fluorescente de teus cabelos
Quando incontidos reflectem a pulsão de proferir.
Ensina-me a cor do credo, para não perder-te
Esquecida, a tecer-te, em meu puro segredo.
2.
Saber Amar é Renovar a Aurora
Falo de pôr o arco de teus lábios
À volta de mim a escrupulosa língua
Ciosa de explodir percorrendo meiga
A aurora de um sol tumescente.
E quando nem mais algo já houver
Que a Terra girando em louca vertigem
Os olhos cerrados, narinas alçadas
A quilha do queixo disparada ao céu,
As mãos esticadas acutilando o nada...
Então, acontecerás irremediavelmente
Adorada!
3.
Serena Aparição Respira Aqui
Primeira, é a pessoa que deambula a ver
Neste percurso incerto de afluir
A este pronome sem pretexto de ser
Que este limite sem escolha nem devir
Está na génese do que ainda há por dizer.
Por dizer quanto ainda restou calado,
Por dizer quando os corpos se exigem
Daqueles que ao amor gerou cuidado
Por mais recear que eles a vertigem,
A sã loucura de quanta esperança há
Na poética pequenez do "eu" que se dá.
Como dado simples, doce e belo de teu sorrir
Do musgo em teus olhos de querer (vi)ver,
Da rebeldia de teus soslaios de permitir
Cabelos de naufragar e em afagos renascer.
E cortar a morte tornando-se consorte
Ao possuir a certeza sorte do abraço tido,
Apertar desapertando para despertar sentido
Sabido do abraço, que o terno braço é o mais forte!
Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
segunda-feira, abril 14, 2008
sábado, abril 12, 2008
Vegetal de Vaga e Mundo
1.
Se me recorro me confesso
Desfaleço e embriago na voz profunda,
Me recolho aos infinitos mitos
Passos inseparáveis da melodia
Oceânica.
Se confesso me prometo
E arremeto e jogo num corpo novo,
Renovo os anos abertos
Despertos os bolsos vazios
Aos cantos dos olhos a espuma
Das horas felizes.
E se me prometo me arranco
Tranco as raízes da língua viradas
Os verbos à tona das páginas vidradas
Os ombros rompendo a solidão escrita
Das algas.
2.
Desculpa cigana,
Teus lábios, gomos de laranja doce
Teus olhos (es)correntes de sumir na estrada
Teus beijos em sumo de pedir perdão
São – mas antes o não fosse! –
O brilho da noite enluarada
O desejo a explodir na paixão
Com que nos desvendámos num desvão
De escada.
Cheiravas a orégãos, giesta e milho
No patim do condomínio sem fim.
E agora é teu o meu trilho
E a planície um amplo caminho
De olhar rés e muito cuidadinho
Na procura de mim.
3.
Cigana, fala-me dessas vozes infindáveis
Do sol-pôr sobre a azinheira ao cimo da seara,
Fala-me do luar sobre o cabeço do monte.
Fala-me de tudo quanto eu te conte,
Fala-me dos cavalos nos vales verdejantes,
Fala-me de teu jeito de desenhar nichos
Losangos, quadrados, cubículos na simetria
Alçados manuelinos de exóticos frutos e bichos
Mas não deixes acordar a multidão do dia.
Cigana, fala-me em teus gestos de laranja e preto
Daquelas coisas distantes que nenhum de nós sabe,
Do grito da terra, da muralha onde o suspiro cabe;
Fala-me do silêncio no abraço de estar tão perto.
Cigana, fala-me do encontro das linhas de teu rosto
Entreposto da mala-posta aos murmúrios do sorriso
E diz, diz outra vez quanto do desejo é fogo posto
Na floresta comburente e ressequida do meu juízo.
Cigana, faúlha, pérola brilhante, luz de secreta chama
Queima minha dialectal voz com a tua língua profana.
4.
Se és espelho no jogo das palavras mortíferas,
Oca torrada na vermelha argila do sangue,
Esteva florida na noite rupestre, colibri de coníferas
Então, vem ousar como meus pintassilgos livres
E faz o ninho neste mangue, nas folhas deste cipreste!
1.
Se me recorro me confesso
Desfaleço e embriago na voz profunda,
Me recolho aos infinitos mitos
Passos inseparáveis da melodia
Oceânica.
Se confesso me prometo
E arremeto e jogo num corpo novo,
Renovo os anos abertos
Despertos os bolsos vazios
Aos cantos dos olhos a espuma
Das horas felizes.
E se me prometo me arranco
Tranco as raízes da língua viradas
Os verbos à tona das páginas vidradas
Os ombros rompendo a solidão escrita
Das algas.
2.
Desculpa cigana,
Teus lábios, gomos de laranja doce
Teus olhos (es)correntes de sumir na estrada
Teus beijos em sumo de pedir perdão
São – mas antes o não fosse! –
O brilho da noite enluarada
O desejo a explodir na paixão
Com que nos desvendámos num desvão
De escada.
Cheiravas a orégãos, giesta e milho
No patim do condomínio sem fim.
E agora é teu o meu trilho
E a planície um amplo caminho
De olhar rés e muito cuidadinho
Na procura de mim.
3.
Cigana, fala-me dessas vozes infindáveis
Do sol-pôr sobre a azinheira ao cimo da seara,
Fala-me do luar sobre o cabeço do monte.
Fala-me de tudo quanto eu te conte,
Fala-me dos cavalos nos vales verdejantes,
Fala-me de teu jeito de desenhar nichos
Losangos, quadrados, cubículos na simetria
Alçados manuelinos de exóticos frutos e bichos
Mas não deixes acordar a multidão do dia.
Cigana, fala-me em teus gestos de laranja e preto
Daquelas coisas distantes que nenhum de nós sabe,
Do grito da terra, da muralha onde o suspiro cabe;
Fala-me do silêncio no abraço de estar tão perto.
Cigana, fala-me do encontro das linhas de teu rosto
Entreposto da mala-posta aos murmúrios do sorriso
E diz, diz outra vez quanto do desejo é fogo posto
Na floresta comburente e ressequida do meu juízo.
Cigana, faúlha, pérola brilhante, luz de secreta chama
Queima minha dialectal voz com a tua língua profana.
4.
Se és espelho no jogo das palavras mortíferas,
Oca torrada na vermelha argila do sangue,
Esteva florida na noite rupestre, colibri de coníferas
Então, vem ousar como meus pintassilgos livres
E faz o ninho neste mangue, nas folhas deste cipreste!
sexta-feira, abril 11, 2008
Alternam Engenharias Fratricidas...
Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.
De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.
E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...
Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!
Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.
De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.
E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...
Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!
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Solução SETENTA E SETE
terça-feira, abril 01, 2008
Crime ao Lusco-Fusco
Aconchego o meu olhar sob o teu subtil véu
E adormeço com o eco da batida estranha
Sincopada, gema candente de teu coração
A pérola luminosa, asterisco de surtir ao céu.
Já quase asas por que liberto da insana sanha
Todo eu me prendo nas teias da leda solidão,
Naquele isolamento de ler, que jamais te acanha
No afagar da folha, virada página por tua mão.
Foi fórum de encontrar-te e perder-te também
Neste singelo segredo das rosas crucificadas
Agora, que só em teus olhos meus olhos se atêm
E a buscá-los ando em todas as flores cruzadas...
Porque se amar é crime, então, eu sou o réu
Que não se redime, sob o manto de teu céu!
Aconchego o meu olhar sob o teu subtil véu
E adormeço com o eco da batida estranha
Sincopada, gema candente de teu coração
A pérola luminosa, asterisco de surtir ao céu.
Já quase asas por que liberto da insana sanha
Todo eu me prendo nas teias da leda solidão,
Naquele isolamento de ler, que jamais te acanha
No afagar da folha, virada página por tua mão.
Foi fórum de encontrar-te e perder-te também
Neste singelo segredo das rosas crucificadas
Agora, que só em teus olhos meus olhos se atêm
E a buscá-los ando em todas as flores cruzadas...
Porque se amar é crime, então, eu sou o réu
Que não se redime, sob o manto de teu céu!
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Solução SETENTA E SETE
terça-feira, março 25, 2008
Sede Arde na Redoma das Ausências
Creio que ainda há em ti todas as palavras não proferidas,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso das brumas
Inexactidões libertinas aos rigores dos verbos, estrofes
Contumazes imagens de salivar as noites consentidas.
Poemas a serpentear perdidos nas odes da seara de teu cabelo.
Lábios plenos de silêncio na aurora da luz prestes a romper.
Gestos soltos e decididos de quem conhece o que é querer.
Colinas de seios prontas a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a balouçar violetas primaveris.
Dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão da tarde
Digital convénio de abarcar o mundo num só clique da voz.
E as colunas das pernas sustentado o átrio do templo da vida
Arcadas em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho
E semente me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.
Se sais, fica sempre outra onda a bater a espuma da leitura una
Dos dias em que os olhos te disseram frente de enfrentar aferente
Relógio de medir a felicidade de ver-te acto como o seu agente,
Clepsidra de contar os gestos no grão minuto da areia na duna.
São longos os fins-de-semana que te pronunciam longínqua
E me atiram para trás da memória a procurar-te na fé cruel
De pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira, ou qual abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser como um favo de fel…
A gritar protestos mudos e parados no desespero desta colmeia:
Meus domingos de Inferno, que apenas tua ausência incendeia.
Porque o amor, meu amor, dito cru e nu, na redoma de estar sós
Ou na multidão dos dias, é exclusivamente o sermos, apenas, nós!
Creio que ainda há em ti todas as palavras não proferidas,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso das brumas
Inexactidões libertinas aos rigores dos verbos, estrofes
Contumazes imagens de salivar as noites consentidas.
Poemas a serpentear perdidos nas odes da seara de teu cabelo.
Lábios plenos de silêncio na aurora da luz prestes a romper.
Gestos soltos e decididos de quem conhece o que é querer.
Colinas de seios prontas a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a balouçar violetas primaveris.
Dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão da tarde
Digital convénio de abarcar o mundo num só clique da voz.
E as colunas das pernas sustentado o átrio do templo da vida
Arcadas em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho
E semente me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.
Se sais, fica sempre outra onda a bater a espuma da leitura una
Dos dias em que os olhos te disseram frente de enfrentar aferente
Relógio de medir a felicidade de ver-te acto como o seu agente,
Clepsidra de contar os gestos no grão minuto da areia na duna.
São longos os fins-de-semana que te pronunciam longínqua
E me atiram para trás da memória a procurar-te na fé cruel
De pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira, ou qual abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser como um favo de fel…
A gritar protestos mudos e parados no desespero desta colmeia:
Meus domingos de Inferno, que apenas tua ausência incendeia.
Porque o amor, meu amor, dito cru e nu, na redoma de estar sós
Ou na multidão dos dias, é exclusivamente o sermos, apenas, nós!
quinta-feira, março 20, 2008
Ser Amado Regressa Ágil
Os olhos longínquos unidos no mesmo horizonte
Planeta tão distante que seu gritar é sempre aqui
As mãos dadas na esquina do tempo, a balancear
Qual vaivém de navegar a sofreguidão dos olhos
O gesto... Esse resiste único, pronto de prontidão
Argonauta do espaço-quando entre o passado e a ficção.
Há um tanto de vento e chuva, mas que importa
Se nenhuma é a luva na pele da palma que se toca.
Os olhos unidos despem o horizonte e gritam
Todos os planetas que te nasceram da voz,
Vaivéns ao balanço das mãos que se tocam
E dizem escrevendo o futuro com laços de nós.
Pontos da rede elástica do verbo prò salto feito voo
Regresso do rosto na tarde plástica, cotão de sonho
Nuvem esculpida, lavrada no olhar que agora tenho
Verbo com que desenho aquela que ao vê-la, é lenho
Madeiro, a que preso e crucificado, com alegria, estou.
E me dou, partido, entregue, transparente embrulho frágil
Quando me rasgas na serena ânsia de retornar-te ágil
Prestes e lesto que distante de ti sou pó e pouco presto
Nada do nada, dor de silêncio apagado e morto de meu resto!
Os olhos longínquos unidos no mesmo horizonte
Planeta tão distante que seu gritar é sempre aqui
As mãos dadas na esquina do tempo, a balancear
Qual vaivém de navegar a sofreguidão dos olhos
O gesto... Esse resiste único, pronto de prontidão
Argonauta do espaço-quando entre o passado e a ficção.
Há um tanto de vento e chuva, mas que importa
Se nenhuma é a luva na pele da palma que se toca.
Os olhos unidos despem o horizonte e gritam
Todos os planetas que te nasceram da voz,
Vaivéns ao balanço das mãos que se tocam
E dizem escrevendo o futuro com laços de nós.
Pontos da rede elástica do verbo prò salto feito voo
Regresso do rosto na tarde plástica, cotão de sonho
Nuvem esculpida, lavrada no olhar que agora tenho
Verbo com que desenho aquela que ao vê-la, é lenho
Madeiro, a que preso e crucificado, com alegria, estou.
E me dou, partido, entregue, transparente embrulho frágil
Quando me rasgas na serena ânsia de retornar-te ágil
Prestes e lesto que distante de ti sou pó e pouco presto
Nada do nada, dor de silêncio apagado e morto de meu resto!
terça-feira, março 11, 2008
Dia da Mulher Com Mulher Dentro
Ser família, crescer nas linhas da folha lida
Soletrar a alma nas bermas da página
Como quem lavra os prados da lágrima
Para nele plantar tapetes de vida,
Canteiros de tulipas, violetas, lilases
Voos de albatroz nas Flandres-coragens
De gerar a Europa à luz da mulher,
Que é destino, mas também retorno e partida
Do mundo, numa esperança que nos requer,
Em ser dia, arco de ternura no céu de giz...
Porque se até depois do arco-íris
À luz da cor, no brilho do Sete-Estrelo
Há o verbo, espelho das lides feminis
No virar das folhas, pétalas, jardins
Metáforas de ler novo dia no dia velho,
Então, soará ele mais ou menos assim:
Parabéns Mulheres! Parabéns Margarida
Arco de disparar a vida, torná-la alegre festim
Entre os jograis da alfazema e coroas de alecrim!
Bibliotheek Tweebronner
Leuven, 8 de Março de 2008
B é l g i c a
Ser família, crescer nas linhas da folha lida
Soletrar a alma nas bermas da página
Como quem lavra os prados da lágrima
Para nele plantar tapetes de vida,
Canteiros de tulipas, violetas, lilases
Voos de albatroz nas Flandres-coragens
De gerar a Europa à luz da mulher,
Que é destino, mas também retorno e partida
Do mundo, numa esperança que nos requer,
Em ser dia, arco de ternura no céu de giz...
Porque se até depois do arco-íris
À luz da cor, no brilho do Sete-Estrelo
Há o verbo, espelho das lides feminis
No virar das folhas, pétalas, jardins
Metáforas de ler novo dia no dia velho,
Então, soará ele mais ou menos assim:
Parabéns Mulheres! Parabéns Margarida
Arco de disparar a vida, torná-la alegre festim
Entre os jograis da alfazema e coroas de alecrim!
Bibliotheek Tweebronner
Leuven, 8 de Março de 2008
B é l g i c a
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
1+1=2 e Sem Equívoco
Aquilo que os demais nem tentaram
Nós vamos conseguir, sim, conseguir
Unicamente com nossas mãos, dadas
O amanhã a brilhar no filtro do olhar
Os lábios tocando-se breves nas palavras
Soltas e livres, aves selvagens oceânicas.
Eu pressinto que é difícil desdizer algo
A réplica reside em libertarmos o medo
Em usufruir o desejo cósmico, explodido
Em gritar o Big Bang no pulsar do peito
Destruir a resistência interior à novidade
À diferente forma rebelde de segredar a vida
Cantar das gaivotas e sua alucinada visão do mar.
Elas sabem tanta coisa que jamais veremos
Tanta onda a fluir para a espuma da praia
Tanto sonho a morrer no areal, solidão sólida
Em costumes ultrajantes ao ser, à magia do coração
Condimentos de cimentar atitudes, sentimentos
Emoções, credos, necessidades de carinho e prazer.
Mas quando te procuro invento-te, real, premente
Asterisco, beijo devoto em teu misterioso ventre
E, sucumbido, desmaio ao penetrar-te urgente
De sermos dois, e em cada um o outro – para sempre!
Que essa contra natura da unidade, do um mais um
Igual a um, da conta que erra e está também errada
Não é Europa, não é diálogo, não é novo, não é nada...
É o medo e o ódio a decretar outro vil ultimatum
A amordaçar o "eu quero" com o sim de ficar calada.
Que ser dois na soma de tu e eu, amigos de eu e tu
É selar na Terra o terreno e leal e fiel amor intento
Despi-la dos castelos negros que houver no céu cru
Torná-la celeste e pura, estrela de ternura ou casamento!
Aquilo que os demais nem tentaram
Nós vamos conseguir, sim, conseguir
Unicamente com nossas mãos, dadas
O amanhã a brilhar no filtro do olhar
Os lábios tocando-se breves nas palavras
Soltas e livres, aves selvagens oceânicas.
Eu pressinto que é difícil desdizer algo
A réplica reside em libertarmos o medo
Em usufruir o desejo cósmico, explodido
Em gritar o Big Bang no pulsar do peito
Destruir a resistência interior à novidade
À diferente forma rebelde de segredar a vida
Cantar das gaivotas e sua alucinada visão do mar.
Elas sabem tanta coisa que jamais veremos
Tanta onda a fluir para a espuma da praia
Tanto sonho a morrer no areal, solidão sólida
Em costumes ultrajantes ao ser, à magia do coração
Condimentos de cimentar atitudes, sentimentos
Emoções, credos, necessidades de carinho e prazer.
Mas quando te procuro invento-te, real, premente
Asterisco, beijo devoto em teu misterioso ventre
E, sucumbido, desmaio ao penetrar-te urgente
De sermos dois, e em cada um o outro – para sempre!
Que essa contra natura da unidade, do um mais um
Igual a um, da conta que erra e está também errada
Não é Europa, não é diálogo, não é novo, não é nada...
É o medo e o ódio a decretar outro vil ultimatum
A amordaçar o "eu quero" com o sim de ficar calada.
Que ser dois na soma de tu e eu, amigos de eu e tu
É selar na Terra o terreno e leal e fiel amor intento
Despi-la dos castelos negros que houver no céu cru
Torná-la celeste e pura, estrela de ternura ou casamento!
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Soslaio Antigo de Reinventar Afectos
Perdoa-me, se te olho
Como quem não te quer ver...
É que se a vida me escolhe, eu escolho
A melhor parte dela, e do acontecer!
Porque aconteces, não só se quero ver-te...
Que vejo-te mesmo quando não és real,
Quando não estás em frente de mim,
Pois habitas o reino sem bem nem mal
Apagando, contudo, o assim-assim
Que há no medo perder-te, enfim.
Perdoa-me esta rasura
Que o acaso, de simples, entreteceu.
É que os dias perdem a candura
Se te não vir, terna, pequena mas segura
Cativando o cativo que era já teu.
E perdoa-me também, se puderes
Este fingido desdém, este arrogante jeito
De dizer-te, que entre as mulheres,
És a única que me habita no peito.
Fraca morada, por sinal...
Aquela que não serve para ninguém.
Onde querendo, até com o mal
De refilar, de discutir, de ferver plural
Se podem caiar sem fingir, as paredes do bem.
Grafitá-las com imagens e arabescos.
Com fotografias, livros e jornais.
Com gritos e poemas simiescos
E grades e cordas digitais,
Pinturas, legendas, frescos
De aprisionar quem delas não quer sair – jamais!
Que as janelas de ver e ouvir
São as mesmas daquelas, que ao partir
Regressas sempre colorindo nelas
Novas cores, de restaurar, antigos vitrais!
Perdoa-me, se te olho
Como quem não te quer ver...
É que se a vida me escolhe, eu escolho
A melhor parte dela, e do acontecer!
Porque aconteces, não só se quero ver-te...
Que vejo-te mesmo quando não és real,
Quando não estás em frente de mim,
Pois habitas o reino sem bem nem mal
Apagando, contudo, o assim-assim
Que há no medo perder-te, enfim.
Perdoa-me esta rasura
Que o acaso, de simples, entreteceu.
É que os dias perdem a candura
Se te não vir, terna, pequena mas segura
Cativando o cativo que era já teu.
E perdoa-me também, se puderes
Este fingido desdém, este arrogante jeito
De dizer-te, que entre as mulheres,
És a única que me habita no peito.
Fraca morada, por sinal...
Aquela que não serve para ninguém.
Onde querendo, até com o mal
De refilar, de discutir, de ferver plural
Se podem caiar sem fingir, as paredes do bem.
Grafitá-las com imagens e arabescos.
Com fotografias, livros e jornais.
Com gritos e poemas simiescos
E grades e cordas digitais,
Pinturas, legendas, frescos
De aprisionar quem delas não quer sair – jamais!
Que as janelas de ver e ouvir
São as mesmas daquelas, que ao partir
Regressas sempre colorindo nelas
Novas cores, de restaurar, antigos vitrais!
sábado, fevereiro 23, 2008
Sigma de Alfazema no Remanso da Aurora
Manhãzinha toda já e o sol supérfluo
Eis que o silencioso SOS do seu raiar
Em violeta e rosa de veludo manso
De quem acordou sem tempo
Para aquecer a penumbra púrpura do horizonte,
Numa sociedade à pressa
Me segreda que ainda não é tarde,
Que ainda é possível o sigilo de uma conversa
De escutar tua voz a ciciar sobre o frio matinal,
E me diga ela como é ser brisa no deserto,
Um dever ser também nada fácil
Neste exilado universo onde o sussurro arde,
Neste estar na soletração imperfeita de um idioma bíblico,
Mandatária do testamento ancestral
Entre tijolos de papel, paredes rebocadas de sibilante sínese.
Saberemos nós alguma vez a sábia aquiescência
De estar simplesmente na simplicidade do sonho?
Sem sequer outro querer que o súbito acaso
Desenhando em cada segundo as formas conjugais de acontecer?
Poderá a palavra apagar a cor do silêncio
Quando receosos soslaios se cruzam em nossos esgares
Rascunhando de oblíquas linhas a sofreguidão do sol?
Poderemos nós adivinhar os porquês nos nós dos gestos
Abertos e permissivos para a imperfeição de sermos tão-só humanos?
Teremos nós o direito de cismar e discutir a razão ancestral
Subtraindo a história dos genes ao sedimento do taciturno ser?
Mas sem, sobretudo, insistirmos no entrincheirar das indiferenças
Como se elas fossem a vanguarda da incerteza de nós
O sol sobe no céu e cedo à sede de escutar a tua voz...
Até quando?... Se assumirmos o soletrar do sol
Supérfluo será na manhãzinha já, que meu olhar
Sob o teu, rendido de estar, é secreta síntese do sentir,
Fala de crer a esculpir a brisa de teu rosto sobre minha noz,
Minha casca da voz, em versos de pedir
Teus lábios infantes inscritos na fonte dos dizeres
Que nunca sucumbem nem se calam
Que nunca se prostituem nem se fecham
Que nunca se amedrontam
Que nunca se secam
Se meus olhos viageiros lhe imploram prece.
Simples na devoção de rogar-te atenção
Me asperges sem favor, tal como o sol brilha
Se ergue largo e luminoso, e me lava com lavanda matinal,
Assim, o suco azul, rosa e violeta de teu gabão
Me sacode e acorda do soturno ler na ilusória solidão!
Manhãzinha toda já e o sol supérfluo
Eis que o silencioso SOS do seu raiar
Em violeta e rosa de veludo manso
De quem acordou sem tempo
Para aquecer a penumbra púrpura do horizonte,
Numa sociedade à pressa
Me segreda que ainda não é tarde,
Que ainda é possível o sigilo de uma conversa
De escutar tua voz a ciciar sobre o frio matinal,
E me diga ela como é ser brisa no deserto,
Um dever ser também nada fácil
Neste exilado universo onde o sussurro arde,
Neste estar na soletração imperfeita de um idioma bíblico,
Mandatária do testamento ancestral
Entre tijolos de papel, paredes rebocadas de sibilante sínese.
Saberemos nós alguma vez a sábia aquiescência
De estar simplesmente na simplicidade do sonho?
Sem sequer outro querer que o súbito acaso
Desenhando em cada segundo as formas conjugais de acontecer?
Poderá a palavra apagar a cor do silêncio
Quando receosos soslaios se cruzam em nossos esgares
Rascunhando de oblíquas linhas a sofreguidão do sol?
Poderemos nós adivinhar os porquês nos nós dos gestos
Abertos e permissivos para a imperfeição de sermos tão-só humanos?
Teremos nós o direito de cismar e discutir a razão ancestral
Subtraindo a história dos genes ao sedimento do taciturno ser?
Mas sem, sobretudo, insistirmos no entrincheirar das indiferenças
Como se elas fossem a vanguarda da incerteza de nós
O sol sobe no céu e cedo à sede de escutar a tua voz...
Até quando?... Se assumirmos o soletrar do sol
Supérfluo será na manhãzinha já, que meu olhar
Sob o teu, rendido de estar, é secreta síntese do sentir,
Fala de crer a esculpir a brisa de teu rosto sobre minha noz,
Minha casca da voz, em versos de pedir
Teus lábios infantes inscritos na fonte dos dizeres
Que nunca sucumbem nem se calam
Que nunca se prostituem nem se fecham
Que nunca se amedrontam
Que nunca se secam
Se meus olhos viageiros lhe imploram prece.
Simples na devoção de rogar-te atenção
Me asperges sem favor, tal como o sol brilha
Se ergue largo e luminoso, e me lava com lavanda matinal,
Assim, o suco azul, rosa e violeta de teu gabão
Me sacode e acorda do soturno ler na ilusória solidão!
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Sítio de Adorar e Remover a Ânsia
No lá do lá, onde os ninhos são da cor da esperança
E o meu coração desfolha as páginas de Camilo,
De Eça, Aquilino, Torga, Natália ou Ilse Llosa
Rendido e à mercê da mulher-princesa, mulher-criança
Menina enorme dos meus dias vagabundos sem exílio...
No lá do lá, onde e quando o verde é cor todo o ano
E as mulheres carregam o ouro da liberdade
E escolhem o amor, e amam como escolhidas,
Depositando em cada sílaba de escrever saudade
Os infinitos minutos de dizer o eco de quem chamo
Sempre no silêncio das tardes mais cumpridas
E incendiadas
E inconsumidas
E incontornadas
Porque no sentir foram sentidas
Também como horas, de recordar o desejo adiado
Na ansiedade com que apagámos o beijo calado
De quantos não dados nas tardes alentejanas
Ou das repúblicas que não implantámos
Somente porque nossos verbos anarquistas
Não ousaram dar o tiro regicida ao medo,
Alvo de sermos simplesmente livres – ou apenas segredo.
No lá do lá, onde o verde floresce, até nas canas
Nos musgos, silvedos que não regámos
Nem pedimos, há uma vivenda onde reside a esperança
Como se ela fosse mulher
Menina
Astro qualquer
Lua pequenina
Mas enorme porque germina, e é semente de criança...
Ou inocência
Que flameja numa crença.
Então lá, no lado de lá do lá,
Na estrela ou lar de ser apenas teu
Sem mais nada sob o céu
Não terei outro deus nem demais papiro ou véu
Nem outro ser a quem pertença!
No lá do lá, onde os ninhos são da cor da esperança
E o meu coração desfolha as páginas de Camilo,
De Eça, Aquilino, Torga, Natália ou Ilse Llosa
Rendido e à mercê da mulher-princesa, mulher-criança
Menina enorme dos meus dias vagabundos sem exílio...
No lá do lá, onde e quando o verde é cor todo o ano
E as mulheres carregam o ouro da liberdade
E escolhem o amor, e amam como escolhidas,
Depositando em cada sílaba de escrever saudade
Os infinitos minutos de dizer o eco de quem chamo
Sempre no silêncio das tardes mais cumpridas
E incendiadas
E inconsumidas
E incontornadas
Porque no sentir foram sentidas
Também como horas, de recordar o desejo adiado
Na ansiedade com que apagámos o beijo calado
De quantos não dados nas tardes alentejanas
Ou das repúblicas que não implantámos
Somente porque nossos verbos anarquistas
Não ousaram dar o tiro regicida ao medo,
Alvo de sermos simplesmente livres – ou apenas segredo.
No lá do lá, onde o verde floresce, até nas canas
Nos musgos, silvedos que não regámos
Nem pedimos, há uma vivenda onde reside a esperança
Como se ela fosse mulher
Menina
Astro qualquer
Lua pequenina
Mas enorme porque germina, e é semente de criança...
Ou inocência
Que flameja numa crença.
Então lá, no lado de lá do lá,
Na estrela ou lar de ser apenas teu
Sem mais nada sob o céu
Não terei outro deus nem demais papiro ou véu
Nem outro ser a quem pertença!
Secreto Adiar em Respostas Acabadas
Há sempre essa stressada coisa de decompor silêncios
Offs irrecuperáveis, metáforas de distâncias intransponíveis
Pequenos muros que limitam o aspirar aos céus infindáveis
Sofríveis, e derradeiros, e cruéis, e devastadores, e imensos...
Há sempre portas desenhadas em todas as masmorras
Ilusões para a liberdade, virtuais janelas do ser
Que se quer sequioso e faminto e imperioso e urgente até perecer
Como se fosse descartável na voz das bestas e suas patorras,
Centuriões da ignorância, ímpios algozes da frustração e do poder.
Há sempre esperas, infinitas no abrir da cova
Mortos que aguardam vez prà sepultura, que o medo renova
Por cada outro que caiu ao nosso lado, companheiros assim
Num dia "boa tarde", no outro ninguém fala
Os olhos para os não vermos estendidos ao comprido
Na vala,
Inteiriçados, incrédulos ainda, esperando enfim
O acordar para acordar, como quem cala o silêncio de mim
Sempre a escavar, a escavar, a escavar, a escavar nova
Sala.
Há sempre coisas que ninguém quer ver, não
Obstante a vida, o irremediável perder da razão
Seja o único parágrafo de uma Lei que Deus não decretou
Por impotência, abdicação, ignorância, desconhecimento de ser...
Quem somos? Quem és? Quem sou!
Há sempre essa stressada coisa de decompor silêncios
Offs irrecuperáveis, metáforas de distâncias intransponíveis
Pequenos muros que limitam o aspirar aos céus infindáveis
Sofríveis, e derradeiros, e cruéis, e devastadores, e imensos...
Há sempre portas desenhadas em todas as masmorras
Ilusões para a liberdade, virtuais janelas do ser
Que se quer sequioso e faminto e imperioso e urgente até perecer
Como se fosse descartável na voz das bestas e suas patorras,
Centuriões da ignorância, ímpios algozes da frustração e do poder.
Há sempre esperas, infinitas no abrir da cova
Mortos que aguardam vez prà sepultura, que o medo renova
Por cada outro que caiu ao nosso lado, companheiros assim
Num dia "boa tarde", no outro ninguém fala
Os olhos para os não vermos estendidos ao comprido
Na vala,
Inteiriçados, incrédulos ainda, esperando enfim
O acordar para acordar, como quem cala o silêncio de mim
Sempre a escavar, a escavar, a escavar, a escavar nova
Sala.
Há sempre coisas que ninguém quer ver, não
Obstante a vida, o irremediável perder da razão
Seja o único parágrafo de uma Lei que Deus não decretou
Por impotência, abdicação, ignorância, desconhecimento de ser...
Quem somos? Quem és? Quem sou!
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Solução SESSENTA E QUATRO
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Alvo Relâmpago de Abrir Solidões
Não sei se é crime, mas somente faço versos
Quando estou escondido dos receios absurdos
Das palavras pueris, ou dos gestos perversos
Com que se enleiam gerações de narcisos surdos.
Sou um penitente. Uma dor mudada, apreendida
Feita do quase nada que me apagaste da vida.
Um dia foste, no outro já não estavas.
E quando naufraguei na solidão deixada
Vi como na brevidade das marés acostavas
Ao silêncio da promessa só por mim sonhada.
Eras o desencanto, um encontro adiado
Que no fundo do meu exíguo ser perdido
Se fez esperado. Porém, mal consentido
A transformar-me no dia antes do intolerado.
Contudo, sob a tempestade o raio brilhou
E ao trovejar ímpio e irritado da verdade
Deste-me a liberdade, de amar-te como sou!
Não sei se é crime, mas somente faço versos
Quando estou escondido dos receios absurdos
Das palavras pueris, ou dos gestos perversos
Com que se enleiam gerações de narcisos surdos.
Sou um penitente. Uma dor mudada, apreendida
Feita do quase nada que me apagaste da vida.
Um dia foste, no outro já não estavas.
E quando naufraguei na solidão deixada
Vi como na brevidade das marés acostavas
Ao silêncio da promessa só por mim sonhada.
Eras o desencanto, um encontro adiado
Que no fundo do meu exíguo ser perdido
Se fez esperado. Porém, mal consentido
A transformar-me no dia antes do intolerado.
Contudo, sob a tempestade o raio brilhou
E ao trovejar ímpio e irritado da verdade
Deste-me a liberdade, de amar-te como sou!
Se Ainda Reparamos Aturamos
Conta-me o que sabes acerca de mim...
Gostava de saber. O que sabes ou vês
Quando me olhas do princípio ao fim
E ficas a dançar nos poemas que não lês.
Conta-me, por ao menos esta única vez
Quantos foram os olhares caídos no assim-
Assim, com que destruíste a vil altivez
Da arrogância e dor que havia em mim.
Eu sei que é difícil; conheço o tormento.
Mas não leves a mal por querer ser naquele tu
Aquilo que em toda a vida foste um só momento...
Conta-me; mas não contes apenas o sentido nu
Das palavras perdidas no (des)dizer dos dias,
Páginas de eu e tu; diz-me também o sorriso cru
Ao explodir no amanhã das infinitas alegrias!
Conta-me o que sabes acerca de mim...
Gostava de saber. O que sabes ou vês
Quando me olhas do princípio ao fim
E ficas a dançar nos poemas que não lês.
Conta-me, por ao menos esta única vez
Quantos foram os olhares caídos no assim-
Assim, com que destruíste a vil altivez
Da arrogância e dor que havia em mim.
Eu sei que é difícil; conheço o tormento.
Mas não leves a mal por querer ser naquele tu
Aquilo que em toda a vida foste um só momento...
Conta-me; mas não contes apenas o sentido nu
Das palavras perdidas no (des)dizer dos dias,
Páginas de eu e tu; diz-me também o sorriso cru
Ao explodir no amanhã das infinitas alegrias!
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Secreto Apêndice de Recordar a Alma
Podia ser hilariante porém é quase óbvio por repetição
Analógico, mas às vezes torna-se absurdo senão trágico
Desenhar teus lábios, cabelos, rosto miúdo de mulher
Menina digital, sorriso pão da alma que o sonho requer
Apenas com a paleta ou lápis que me sobram das pupilas
Abertas, assombradas no espanto do arrebatamento ímpio.
Disseram-me que amanhã será o segundo dia do presente
E é possível, creio, haver algo inaudito nessa pítia predição
No desaforo, ingrato propósito de espera em cada esquina
De quem apenas quer ver-te surgir da multidão transeunte
A carteira de mão debaixo do braço, as compras comestíveis
Na outra, talvez um saco de plástico e dentro dele o lanche
Como se fossem adereços úteis e necessários à coreografia
Fatal condimento de quem atravessa o empedrado da rua...
Disseram-me isso; importa todavia registar neste momento
Que se me tivessem dito outra coisa, eu não a teria escrito,
Ou sequer a teria ouvido suficientemente claro, escutado
Posto em alerta verde sob o aspergido sentido dos afectos.
Não obstante cresceu dentro de mim esta fé em desacreditar
Da mesma forma que muitos acreditam e fiéis rendem culto
Eu me desoculto desacreditando não só no que não vejo, até
Isso eu quero, rir sem fugir de nada mas antes por prazer
De desvendar mistérios, olhar os enigmas como se o não fossem
Tão-só puzzles de reconstruir as tuas alvas faces, o soslaio
Num quadro fácil, de poucas peças, premissas maior e menor,
Conclusão e aventura e ousadia intuitiva, qualquer coisa assim
Numa moldura simples e directa ao ser perdido, perdição de mim
Cumprimento de destino em formato electrónico e design aprazível
Layout de quem se enxuga da solidão na janela do teu sorriso.
Embora as metáforas estejam a fermentar ainda nos cachos,
Muito antes de maduros e colhidos os frutos, até pisados
Liquefeitos a escorrerem-nos dos umbrais dos ombros, a boca
Vitral de dizer na fachada do rosto, equívoco desfraldado ao sol
Ao vento, à chuva, à voz, erguido como tocha de fogo olímpico
Num gesto, circuito integrado de integrar o verbo do teu andar
De quem pisa a morte, ou a tristeza dos dias ordinários, o tédio
O singular emolumento de quem compra vivenda na eternidade,
Um breve jardim antes da porta, sob o alpendre salomónico
Algumas notas musicais que se desprendem do labirinto de buxo,
Ruas e ruelas, becos e transversais, onde gatinham sobrinhos, filhos
Vizinhos chegados, vindo sabe-se lá de onde, a galáxia é pequena
Para caber-te toda no abraço em que tanto demoras a dar-me...
Sonhei-o debaixo da figueira onde dormiam mais de 001000 pardais
Arrumadinhos uns aos outros, quentes e protegidos e livres
De partir, mas preferindo ficar, ficar, ficar, tal como eu fico a ler
Até doer a hora da partida, úlcera na alma rósea de não ler mais!...
Podia ser hilariante porém é quase óbvio por repetição
Analógico, mas às vezes torna-se absurdo senão trágico
Desenhar teus lábios, cabelos, rosto miúdo de mulher
Menina digital, sorriso pão da alma que o sonho requer
Apenas com a paleta ou lápis que me sobram das pupilas
Abertas, assombradas no espanto do arrebatamento ímpio.
Disseram-me que amanhã será o segundo dia do presente
E é possível, creio, haver algo inaudito nessa pítia predição
No desaforo, ingrato propósito de espera em cada esquina
De quem apenas quer ver-te surgir da multidão transeunte
A carteira de mão debaixo do braço, as compras comestíveis
Na outra, talvez um saco de plástico e dentro dele o lanche
Como se fossem adereços úteis e necessários à coreografia
Fatal condimento de quem atravessa o empedrado da rua...
Disseram-me isso; importa todavia registar neste momento
Que se me tivessem dito outra coisa, eu não a teria escrito,
Ou sequer a teria ouvido suficientemente claro, escutado
Posto em alerta verde sob o aspergido sentido dos afectos.
Não obstante cresceu dentro de mim esta fé em desacreditar
Da mesma forma que muitos acreditam e fiéis rendem culto
Eu me desoculto desacreditando não só no que não vejo, até
Isso eu quero, rir sem fugir de nada mas antes por prazer
De desvendar mistérios, olhar os enigmas como se o não fossem
Tão-só puzzles de reconstruir as tuas alvas faces, o soslaio
Num quadro fácil, de poucas peças, premissas maior e menor,
Conclusão e aventura e ousadia intuitiva, qualquer coisa assim
Numa moldura simples e directa ao ser perdido, perdição de mim
Cumprimento de destino em formato electrónico e design aprazível
Layout de quem se enxuga da solidão na janela do teu sorriso.
Embora as metáforas estejam a fermentar ainda nos cachos,
Muito antes de maduros e colhidos os frutos, até pisados
Liquefeitos a escorrerem-nos dos umbrais dos ombros, a boca
Vitral de dizer na fachada do rosto, equívoco desfraldado ao sol
Ao vento, à chuva, à voz, erguido como tocha de fogo olímpico
Num gesto, circuito integrado de integrar o verbo do teu andar
De quem pisa a morte, ou a tristeza dos dias ordinários, o tédio
O singular emolumento de quem compra vivenda na eternidade,
Um breve jardim antes da porta, sob o alpendre salomónico
Algumas notas musicais que se desprendem do labirinto de buxo,
Ruas e ruelas, becos e transversais, onde gatinham sobrinhos, filhos
Vizinhos chegados, vindo sabe-se lá de onde, a galáxia é pequena
Para caber-te toda no abraço em que tanto demoras a dar-me...
Sonhei-o debaixo da figueira onde dormiam mais de 001000 pardais
Arrumadinhos uns aos outros, quentes e protegidos e livres
De partir, mas preferindo ficar, ficar, ficar, tal como eu fico a ler
Até doer a hora da partida, úlcera na alma rósea de não ler mais!...
sábado, fevereiro 16, 2008
Até Ruir A Sede
Daqueles três pardais
Que comem as migalhas
Do teu sacudir de toalha,
Um há, a quem jamais
Perdoarei as igualhas
Da parte que na tarde lhe calha...
É um pior que todos, assim
Mais trigueiro no trajar,
Mais lampeiro no banquete;
Que está sempre a olhar
E faz tão pouco de mim
Que cantado vai pousar,
Na cadeira do bibliotecar
Como em qualquer ramalhete.
Dá-me ganas de o esganar...
Tirar-lhe a vida com ferrete,
Meter-lhe as tripas ao ar,
Chamar-lhe tão-só diabrete.
Sei que é grande canalha
E muito maior respondão;
É rara a tarde em que falha
Na espera de uma migalha
Do teu sorriso de pão...
Atrevido, arma confusão,
Nada está bem para ele,
Nada é brilho de ouro e mel
Como se a razão fosse só dele.
E até bloga que nem um cão
De sujo pêlo e tinha na pele.
Portanto, não estranhes o dia
Em que eu perder a calma
E lhe atirar com aquela fatia
Mais podre da minha alma!
Daqueles três pardais
Que comem as migalhas
Do teu sacudir de toalha,
Um há, a quem jamais
Perdoarei as igualhas
Da parte que na tarde lhe calha...
É um pior que todos, assim
Mais trigueiro no trajar,
Mais lampeiro no banquete;
Que está sempre a olhar
E faz tão pouco de mim
Que cantado vai pousar,
Na cadeira do bibliotecar
Como em qualquer ramalhete.
Dá-me ganas de o esganar...
Tirar-lhe a vida com ferrete,
Meter-lhe as tripas ao ar,
Chamar-lhe tão-só diabrete.
Sei que é grande canalha
E muito maior respondão;
É rara a tarde em que falha
Na espera de uma migalha
Do teu sorriso de pão...
Atrevido, arma confusão,
Nada está bem para ele,
Nada é brilho de ouro e mel
Como se a razão fosse só dele.
E até bloga que nem um cão
De sujo pêlo e tinha na pele.
Portanto, não estranhes o dia
Em que eu perder a calma
E lhe atirar com aquela fatia
Mais podre da minha alma!
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Sonho Antigo, Rio Aberto
Sabes quem nos comprou o silêncio a troco de uma palavra
Muda, a dor muda a lei, muda o corpo, muda a voz mundan(d)o
É adolescente esse querer ficar calado amuado, inundado de incerteza
No amor medido pelas vestes que nestes despes és outra
E estás – sabes?!... Eu não, nem ninguém mais
Muito menos tu e eu, e eu e tu do manual da Fonseca
Do amor, que o amor, meu amor, é o nu contra o nu
– Sabes?... Ou como escorrem os dias sem solução na amenidade
Do silêncio que se diz e não diz jogado como certeza fora
Uma pequena casca frutífera num olhar de viés, inseguro
– É ele! Tem que ser ele que procuro!... -- Eu? Não pode ser
Ainda ontem falámos, ainda soubemos que não tínhamos.
Esperar é uma tarefa de deuses chineses não judaicos como
Este pão que comemos, como esta sombra em que nos medimos.
Sabes eu ando sobre brasas que eu próprio assopro, incendeio
Quando chegares, chegas sem saber quem sou nem jamais terei
Outro estar é não esperar mas eu espero, porquê?
Porque quando esqueces a importância do tratamento,
Quando te descuidas e me tratas por tu
Ou nem reparas que igualmente o faço
Então viajamos em linha recta sem morse
Sem palavra silêncio, traço ponto traço.
Tu o dirás. Tu o explicarás. Tu exigirás perdão... Eu
Também não.
Sabes quem nos comprou o silêncio a troco de uma palavra
Muda, a dor muda a lei, muda o corpo, muda a voz mundan(d)o
É adolescente esse querer ficar calado amuado, inundado de incerteza
No amor medido pelas vestes que nestes despes és outra
E estás – sabes?!... Eu não, nem ninguém mais
Muito menos tu e eu, e eu e tu do manual da Fonseca
Do amor, que o amor, meu amor, é o nu contra o nu
– Sabes?... Ou como escorrem os dias sem solução na amenidade
Do silêncio que se diz e não diz jogado como certeza fora
Uma pequena casca frutífera num olhar de viés, inseguro
– É ele! Tem que ser ele que procuro!... -- Eu? Não pode ser
Ainda ontem falámos, ainda soubemos que não tínhamos.
Esperar é uma tarefa de deuses chineses não judaicos como
Este pão que comemos, como esta sombra em que nos medimos.
Sabes eu ando sobre brasas que eu próprio assopro, incendeio
Quando chegares, chegas sem saber quem sou nem jamais terei
Outro estar é não esperar mas eu espero, porquê?
Porque quando esqueces a importância do tratamento,
Quando te descuidas e me tratas por tu
Ou nem reparas que igualmente o faço
Então viajamos em linha recta sem morse
Sem palavra silêncio, traço ponto traço.
Tu o dirás. Tu o explicarás. Tu exigirás perdão... Eu
Também não.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Eco de silêncio seco
Ouço uma voz. Não é tua, isso dói
Rasga o peito acelera o receio o medo
Inquieta, desinquieta, desacerta e manieta
E corrói em segredo, apontado como um dedo
Ao pomar de rocha fria, que no coração se constrói
Cada qual sabe porquê eu sei de mim sei bem
Nada nas mãos, nada nas mangas, nada mesmo
Quando espero e tu não vens, sou ainda mais ninguém
Do que sempre fôra, fora o feito do peito frito em torresmo
A alma ao rubro de tanto doer, o sangue
Que mais espesso e grosso retarda o gesto langue:
Eis o silêncio. Eis o homem perdido – eis
A procura incansável de quem ferido
Se busca e se encontra sem ter crido,
O único plebeu desta república de reis!
Ouço uma voz. Não é tua, isso dói
Rasga o peito acelera o receio o medo
Inquieta, desinquieta, desacerta e manieta
E corrói em segredo, apontado como um dedo
Ao pomar de rocha fria, que no coração se constrói
Cada qual sabe porquê eu sei de mim sei bem
Nada nas mãos, nada nas mangas, nada mesmo
Quando espero e tu não vens, sou ainda mais ninguém
Do que sempre fôra, fora o feito do peito frito em torresmo
A alma ao rubro de tanto doer, o sangue
Que mais espesso e grosso retarda o gesto langue:
Eis o silêncio. Eis o homem perdido – eis
A procura incansável de quem ferido
Se busca e se encontra sem ter crido,
O único plebeu desta república de reis!
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
SONETO DA NOVA ERA
Quando na linha aberta das mãos a voz
A palavra acto de infligir o verbo ser
É a circunstância circunstancial de nós
E os ombros antes vértices do gesto o dizer
Então, já descobrir é pouco ainda amanhã
Silêncio onde poluídas as intenções
De ruidar em estar no aqui é coisa vã
Como o agora parado das estações
Do ano, como do tempo, e neste duas só
Há: a de quando estás e és e a de quando
Vindo a caminho chegando sopras o pó
De ser em sendo pouco a pouco amando...
E esperado e dito e imaginado e feito
Luta por um lugar dentro do mesmo peito!...
Quando na linha aberta das mãos a voz
A palavra acto de infligir o verbo ser
É a circunstância circunstancial de nós
E os ombros antes vértices do gesto o dizer
Então, já descobrir é pouco ainda amanhã
Silêncio onde poluídas as intenções
De ruidar em estar no aqui é coisa vã
Como o agora parado das estações
Do ano, como do tempo, e neste duas só
Há: a de quando estás e és e a de quando
Vindo a caminho chegando sopras o pó
De ser em sendo pouco a pouco amando...
E esperado e dito e imaginado e feito
Luta por um lugar dentro do mesmo peito!...
DN azinho Estranho
1.
Já nos tempos antigos havia antiguidades
Casas cavernas repletas delas preciosas coisas
Que os homens mais prósperos protegiam cidades
Regalos jardins estátuas ídolos telas e lousas.
Já das antiguidades falam com’os antigos homens
Sendo rústicos e impuros amavam a beleza lida
No algo que a representar sabia dos símbolos as imagens
Cujo arrebatamento mais estragos e tempos roubava à vida.
Já das raridades que o tempo esquecendo consumou falam
Os sanscritos quotidianos decorativos nas lápides rupestres
Mas a vida passa a morte perdura mais quando os corpos calam
A fímbria germina nos astros interiores e rios silvestres.
Porque estas veias desaguam todas num oceano de saudade
E escrevem e desenham e esboçam e resumem milénios de ansiedade
Expectativa excitação orgasmo da semente cósmica explodida
Para inventarem só com quatro letras a maior das palavras: vida!
2.
Se julgas que não vou esperar por ti desengana-te que vou esperar
Por ti é sempre por quem espero até porque ninguém mais sabia
Que estar aqui era o quanto por ti unicamente esperar podia.
Tu havias de passar e então tudo floresceria
Enquanto fosses a passar,
E eu diria:
Que bom estares a chegar,
É que por tanto esperar
Eu esperei passares um dia.
1.
Já nos tempos antigos havia antiguidades
Casas cavernas repletas delas preciosas coisas
Que os homens mais prósperos protegiam cidades
Regalos jardins estátuas ídolos telas e lousas.
Já das antiguidades falam com’os antigos homens
Sendo rústicos e impuros amavam a beleza lida
No algo que a representar sabia dos símbolos as imagens
Cujo arrebatamento mais estragos e tempos roubava à vida.
Já das raridades que o tempo esquecendo consumou falam
Os sanscritos quotidianos decorativos nas lápides rupestres
Mas a vida passa a morte perdura mais quando os corpos calam
A fímbria germina nos astros interiores e rios silvestres.
Porque estas veias desaguam todas num oceano de saudade
E escrevem e desenham e esboçam e resumem milénios de ansiedade
Expectativa excitação orgasmo da semente cósmica explodida
Para inventarem só com quatro letras a maior das palavras: vida!
2.
Se julgas que não vou esperar por ti desengana-te que vou esperar
Por ti é sempre por quem espero até porque ninguém mais sabia
Que estar aqui era o quanto por ti unicamente esperar podia.
Tu havias de passar e então tudo floresceria
Enquanto fosses a passar,
E eu diria:
Que bom estares a chegar,
É que por tanto esperar
Eu esperei passares um dia.
sábado, fevereiro 09, 2008
OUVE QUERO DIZER-TE
Olha, ainda não disse tudo naquela tarde
De sábado, se ‘tás lembrada eu estava
No auditório central esse, enfim, teatro
Alarde de vaidades diaporamas ambientais
E tu vieste olhar compenetrado na subida
Degrau a degrau passaste e eu não soube
Porquê nem como dizer-te estou aqui ouve
Estou aqui – espero por ti – houve aqui
Hesitação não indiferença isso nunca nunca
(Os nomes são pessoas só pessoas nada mais)
Quero dizer: tu também estavas era tudo
Tudo quanto eu queria saber, sentir era isso
Era pedir ensina-me a tua terra outra, eu já estou
Esquecido de mim mas quero saber de novo o mar, o nevoeiro
As manhãs de pão quente, o fumo sobre o fumo se confunde
Matinal odor connosco a ver a ressaca da noite no despertar
Sabido dos galos que cantam à névoa dos valados os caniços
Das vinhas, das cepas, às folhas sobre a carpete de praga-má
Mas tão verde e amarela e acre vestindo o chão por amanhar
Há poesia nela como no caneco azul de abastecer o sulfatador
Como nos barretes negros de lã na cabeça dos jogadores de chinquilho
Como na descida sóbria à adega num domingo ébrio de ócio
Como o pudor das folhas das pereiras em fila protegendo o fruto
Do sol na praia o vento do grito da gaivota que fere a ilha
Do ser na indesculpável solidão dos postais ilustrados.
Ouve, eu ainda não disse tudo, espera mais um pouco
Que quero dizer-te... Senão fico hirto e seco e louco.
Olha, ainda não disse tudo naquela tarde
De sábado, se ‘tás lembrada eu estava
No auditório central esse, enfim, teatro
Alarde de vaidades diaporamas ambientais
E tu vieste olhar compenetrado na subida
Degrau a degrau passaste e eu não soube
Porquê nem como dizer-te estou aqui ouve
Estou aqui – espero por ti – houve aqui
Hesitação não indiferença isso nunca nunca
(Os nomes são pessoas só pessoas nada mais)
Quero dizer: tu também estavas era tudo
Tudo quanto eu queria saber, sentir era isso
Era pedir ensina-me a tua terra outra, eu já estou
Esquecido de mim mas quero saber de novo o mar, o nevoeiro
As manhãs de pão quente, o fumo sobre o fumo se confunde
Matinal odor connosco a ver a ressaca da noite no despertar
Sabido dos galos que cantam à névoa dos valados os caniços
Das vinhas, das cepas, às folhas sobre a carpete de praga-má
Mas tão verde e amarela e acre vestindo o chão por amanhar
Há poesia nela como no caneco azul de abastecer o sulfatador
Como nos barretes negros de lã na cabeça dos jogadores de chinquilho
Como na descida sóbria à adega num domingo ébrio de ócio
Como o pudor das folhas das pereiras em fila protegendo o fruto
Do sol na praia o vento do grito da gaivota que fere a ilha
Do ser na indesculpável solidão dos postais ilustrados.
Ouve, eu ainda não disse tudo, espera mais um pouco
Que quero dizer-te... Senão fico hirto e seco e louco.
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Solução SETENTA E SETE
Estrela Polar
Teu olhar é o meu Ocidente mais puro
Ocaso no acaso de quem lê incluindo este Este
A Nordeste portanto peço-te dá-me um Oeste
Sempre verde escondido na bruma inseguro
Qual atlândida dum sonho novo ao Sul aberto
Que dentro de mim és o recanto do canto certo.
Há nele o esquisso esgarçado dos caniçais
Mas também há as flores duma acácia sumida
Como há o que não há em mim cujos vitrais
São maneiras, são fugas, são vidros ou cristais
Despedidos brilhos perpendiculares aos trilhos
Da vida
Essa gota de espelhos em que translúcido desmaio
E sou Abril e Fevereiro e Julho ou Maio.
Todo o ano até a constância dum facto é
Em si, em mim, em ti outro facto – de facto – até.
Teu olhar é o meu Ocidente mais puro
Ocaso no acaso de quem lê incluindo este Este
A Nordeste portanto peço-te dá-me um Oeste
Sempre verde escondido na bruma inseguro
Qual atlândida dum sonho novo ao Sul aberto
Que dentro de mim és o recanto do canto certo.
Há nele o esquisso esgarçado dos caniçais
Mas também há as flores duma acácia sumida
Como há o que não há em mim cujos vitrais
São maneiras, são fugas, são vidros ou cristais
Despedidos brilhos perpendiculares aos trilhos
Da vida
Essa gota de espelhos em que translúcido desmaio
E sou Abril e Fevereiro e Julho ou Maio.
Todo o ano até a constância dum facto é
Em si, em mim, em ti outro facto – de facto – até.
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Solução SESSENTA E QUATRO
SEMENTE EM FLOR
É indissolúvel a esperança no espaço-
Quando dos teus lábios ao contemplar
O que os instantes são para o tempo o lugar
Que os arrebata e fixa em ritmo e compasso
De tu a seres eu e eu tanto nada de tão pouco
Como desejar-te ser viver e não te ter ficar louco.
É intransmissível a plenitude da palavra
Aberta como polpa suculenta a brotar riso
A gemer significados de polir doçura brava
Bebíveis em incontáveis tragos que a sede trava
Mas a ousadia cava e amanha e escalavra e desbrava
Onde o não te ter é ser sensato
E não obstante eu constato
Que prefiro perder o juízo.
Seja loucura, seja. Seja infinita demência
Seja ainda assim séria peleja
Onde não haja nem se veja
A mínima violência.
Mas enfim um encontrar-se a gente
No fundo da flor que canta e encanta
Porque entre esta loucura pronta e tanta
A pétala veludosa carmim da rosa
Além de flor
Amor
Também seja formosa
Semente.
Palavra.
Em teus lábios fulgente.
É indissolúvel a esperança no espaço-
Quando dos teus lábios ao contemplar
O que os instantes são para o tempo o lugar
Que os arrebata e fixa em ritmo e compasso
De tu a seres eu e eu tanto nada de tão pouco
Como desejar-te ser viver e não te ter ficar louco.
É intransmissível a plenitude da palavra
Aberta como polpa suculenta a brotar riso
A gemer significados de polir doçura brava
Bebíveis em incontáveis tragos que a sede trava
Mas a ousadia cava e amanha e escalavra e desbrava
Onde o não te ter é ser sensato
E não obstante eu constato
Que prefiro perder o juízo.
Seja loucura, seja. Seja infinita demência
Seja ainda assim séria peleja
Onde não haja nem se veja
A mínima violência.
Mas enfim um encontrar-se a gente
No fundo da flor que canta e encanta
Porque entre esta loucura pronta e tanta
A pétala veludosa carmim da rosa
Além de flor
Amor
Também seja formosa
Semente.
Palavra.
Em teus lábios fulgente.
AS MÃOS
De quanta esperança florida aqui se faz crónica
És a minha semântica, a minha rima e a minha tónica.
Teus dedos são o decassílabo da minha inocência
Mas as mãos, essas, de tão pequenas e carinhosas
São uma estrofe cujos gestos podem ser glosas
A esta minha única demência:
Beijar a tua unha curta
Sobre um tecto de salva e murta.
As mãos que mais que minhas são tuas
Podem também ser as ruas
Duma cidade por moldar... E nelas eu creio
Como se fossem satélites, luas
Utopias de sonho e enleio
De sorrir e de acenar, de pedir e de criar
O seu próprio fim, princípio e meio.
Porque embora sendo o que são
E tu não gostes delas
Se as pousares sobre o coração
Verás como são audazes
Subtis e belas
Queridas pequenas capazes
De sobre o mundo abrir novas janelas.
De quanta esperança florida aqui se faz crónica
És a minha semântica, a minha rima e a minha tónica.
Teus dedos são o decassílabo da minha inocência
Mas as mãos, essas, de tão pequenas e carinhosas
São uma estrofe cujos gestos podem ser glosas
A esta minha única demência:
Beijar a tua unha curta
Sobre um tecto de salva e murta.
As mãos que mais que minhas são tuas
Podem também ser as ruas
Duma cidade por moldar... E nelas eu creio
Como se fossem satélites, luas
Utopias de sonho e enleio
De sorrir e de acenar, de pedir e de criar
O seu próprio fim, princípio e meio.
Porque embora sendo o que são
E tu não gostes delas
Se as pousares sobre o coração
Verás como são audazes
Subtis e belas
Queridas pequenas capazes
De sobre o mundo abrir novas janelas.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Bom Dia, Noite
Esta vida é uma grande berlaitada de incertezas
Quase todas elas calculadas como metáforas vis
Encandeadas na tentativa de a transformarmos
Noutra coisa mas umas vezes mexe-se outras queda-se
Noutras ainda movimenta-se à toa sem percebermos
Porquê, «sim, porquê?» perguntamos a estranhar
É fenómeno dizem pra não nos responderem, sossegar
Por isso busca-se, infatigáveis de livro em livro
À procura de sinais dela pelas vielas da metáfora
Metáforas que nos atiram para outras metáforas
Como caminho para ficar dentro, ali pessoa
Entre pessoas, saltar os fossos que circunscrevem
Protegem as muralhas mais de quem mora nelas
Do quem cavalga em liberdade, balança no ramo
Frágil, tão frágil que se ouvem os estalidos dele
Até aprender a cair antes da queda, se partidos
Acontecem pouquinho antes largamos os braços
Antecipando o destino permitindo-lhe a resiliência
O restabelecer da sua elasticidade por nós eleita
Pois alteramos tudo quanto preferimos e escolhemos.
Nem tudo o dito é verdade, porém não é mentira
Tal como Fernão Magalhães o plano redondo se fez
À volta do mundo atirou corda mas a âncora é aqui
Onde se fica sob as figueiras a imaginar ilhas avulsas
Ligadas pelo não ser terra num imenso arquipélago
Raiado no vulcão de teus olhos a gritar incandescentes
Esponja dura, coral das crostas escarpadas e íngremes
De descer a gruta húmida dos lábios até à lenda, mito
Sonho dependurado do céu, ligação que nos sustém
Segurança líquida para o adormecer fetal à boca, porta
Do templo que apenas se abre com a metáfora do grito
Do mesmo dito ainda que com palavras diferentes
Díspares mas que sob o abraço esclarecem igual voz.
Tu estavas lá quando morri e ressuscitaste-me
Puseste teu seio em cada palavra dilucida e bebi
Até que a luz cedeu e livre de mim, ao sol amanheci!
Esta vida é uma grande berlaitada de incertezas
Quase todas elas calculadas como metáforas vis
Encandeadas na tentativa de a transformarmos
Noutra coisa mas umas vezes mexe-se outras queda-se
Noutras ainda movimenta-se à toa sem percebermos
Porquê, «sim, porquê?» perguntamos a estranhar
É fenómeno dizem pra não nos responderem, sossegar
Por isso busca-se, infatigáveis de livro em livro
À procura de sinais dela pelas vielas da metáfora
Metáforas que nos atiram para outras metáforas
Como caminho para ficar dentro, ali pessoa
Entre pessoas, saltar os fossos que circunscrevem
Protegem as muralhas mais de quem mora nelas
Do quem cavalga em liberdade, balança no ramo
Frágil, tão frágil que se ouvem os estalidos dele
Até aprender a cair antes da queda, se partidos
Acontecem pouquinho antes largamos os braços
Antecipando o destino permitindo-lhe a resiliência
O restabelecer da sua elasticidade por nós eleita
Pois alteramos tudo quanto preferimos e escolhemos.
Nem tudo o dito é verdade, porém não é mentira
Tal como Fernão Magalhães o plano redondo se fez
À volta do mundo atirou corda mas a âncora é aqui
Onde se fica sob as figueiras a imaginar ilhas avulsas
Ligadas pelo não ser terra num imenso arquipélago
Raiado no vulcão de teus olhos a gritar incandescentes
Esponja dura, coral das crostas escarpadas e íngremes
De descer a gruta húmida dos lábios até à lenda, mito
Sonho dependurado do céu, ligação que nos sustém
Segurança líquida para o adormecer fetal à boca, porta
Do templo que apenas se abre com a metáfora do grito
Do mesmo dito ainda que com palavras diferentes
Díspares mas que sob o abraço esclarecem igual voz.
Tu estavas lá quando morri e ressuscitaste-me
Puseste teu seio em cada palavra dilucida e bebi
Até que a luz cedeu e livre de mim, ao sol amanheci!
sábado, janeiro 19, 2008
Prova dos Noves
Tens o holocausto da esperança nessa aliança
De sempre e eterna e frugal noiva comprometida
Posta em desassossego à esquina entre a criança
E a mulher, entre o passado e a fantasia tida
Entre a História e a ficção que há na vida...
Saturno de outra galáxia hipotecas contigo
As luas e anéis de quantos planetas te orbitam,
Para desceres múltipla mas reunida ao abrigo
Do humano direito à felicidade, e nele castigam
Quem também quer ser feliz, sem demais castigo
Que o de ter sido petiz, onde os adultos brigam.
Portanto, é imprescindível que percorras sozinha
O inferno que me queres dar, caminhos, veredas
Que caminhando se fazem na seara, risca miudinha
Sapatos que nos pés não cabem, enfaixados de gueixas
Ledas, de sofridas, vontades que só emparedas
Nas muralhas secretas de loas idas (e endechas).
E em todos os ciclos lunares, porém engravidas
Da alegria de ser apenas mulher, madura, menstruada
Que a vida tampouco quer, jogando contigo às escondidas
Inchando-te o ventre mas de onde nasce nada...
Zero bíblico, ponto abúlico, de cruz tapete de lã
Que quando grita traça calado, o caminho tapado
Obscuras nuvens que ensombram o sol da manhã
Nascido em ventre ao lado, feito luz, mas de vela vã.
Vá, adora o menino... Que de pequenino
Se torce o destino, em fazer-te o fado, o cadinho
De aquecer o chumbo da guerra em ouro marado
Prà talha dourada da capela romana, denominada
Também mesquita, no sol-pôr de Eva, da Era cristã.
Tens o holocausto da esperança nessa aliança
De sempre e eterna e frugal noiva comprometida
Posta em desassossego à esquina entre a criança
E a mulher, entre o passado e a fantasia tida
Entre a História e a ficção que há na vida...
Saturno de outra galáxia hipotecas contigo
As luas e anéis de quantos planetas te orbitam,
Para desceres múltipla mas reunida ao abrigo
Do humano direito à felicidade, e nele castigam
Quem também quer ser feliz, sem demais castigo
Que o de ter sido petiz, onde os adultos brigam.
Portanto, é imprescindível que percorras sozinha
O inferno que me queres dar, caminhos, veredas
Que caminhando se fazem na seara, risca miudinha
Sapatos que nos pés não cabem, enfaixados de gueixas
Ledas, de sofridas, vontades que só emparedas
Nas muralhas secretas de loas idas (e endechas).
E em todos os ciclos lunares, porém engravidas
Da alegria de ser apenas mulher, madura, menstruada
Que a vida tampouco quer, jogando contigo às escondidas
Inchando-te o ventre mas de onde nasce nada...
Zero bíblico, ponto abúlico, de cruz tapete de lã
Que quando grita traça calado, o caminho tapado
Obscuras nuvens que ensombram o sol da manhã
Nascido em ventre ao lado, feito luz, mas de vela vã.
Vá, adora o menino... Que de pequenino
Se torce o destino, em fazer-te o fado, o cadinho
De aquecer o chumbo da guerra em ouro marado
Prà talha dourada da capela romana, denominada
Também mesquita, no sol-pôr de Eva, da Era cristã.
Rojo Requebro em Concierto Madrigal
Placidamente ouço Los Romeros, as castanholas de Angelita
A irreverência feminina que rompe os sonidos das guitarras
Mãe rebelde que não se sujeita sem luta aos acordes clássicos
E a faz parecer mais nova ainda que seus próprios filhos
E voa-me o pensamento no salero flamenco de tuas vestes,
Mas interrogo-me por ti romeira dos meus sonhos ímpares
Dou comigo a reflectir como alguma vez conseguirás ser
Se ser não é nunca por acaso senão o ter sido recuperado
Polido pelas nuvens que nos aspergem a esperança da alma
No digital binário, carregadas da tempestade que nos corre
Intempestivo segredo do sangue vermelho, pétala de rosa
Roja a requerer o querer do requebro e roubar-te até de mim
Sentir ciúmes de mim mesmo quando te possuo pra te soltar
A desprender-me das amarras do sainete, engodo de falcões
Donaire e graciosidade com que me domesticas as noites
Para executar sucumbido voltear à corda no picadeiro dos dias
Como ponteiro que não se cansa de girar sob o centro da mão
O pulso a ondear sentido ao estalar dos dedos, palmas, conchas
De Botticelli que te transportam do mar, sobre espuma na praia
A morrer que ressuscitas em terra fertilizada de renovada vida
Aspergida Terra por triliões de gotas quando sacodes os cabelos
Chuva de teu ventre em teu ventre gerada, gestação do verbo
Que de nove em nove meses volta e solta e requebra até nada
Mandorla do dez no aceso ou apagado dos semáforos do desejo
Halo de teus lábios com que falo preso na gruta do teu beijo.
Missing link insuspeitável que me antecede na sofreguidão
Intemporal da semântica bipolar desfeita em lava perfeita
Luar como espelho que reflecte o fogo das rosas carmins
E me ardo e consumo água do rio nos galácticos confins
Contramina das nascentes, gruta de encantos, teias e lendas
Jota do alfabeto nos pilares do templo onde te venero plena
Adoro como deus expulso do Olimpo por negação da ordem
Arina eleita com saias ciganas a bailar meus quartos crescentes
Caules germinados durante uma renovada Odisseia da luz
Teus olhos de ferir mortalmente a mortalidade das sombras
Trevas do breu do mundo lavado com o vaivém das ondas
Vermelhas das menstruações imaculadas, seivas da concepção
Sede de ser, pulsar constante, ritmo do teu sapateado e requebros
Com que inflamas o lar, palco de todos os madrigais e concertos
Que nos consertam e afinam para o cante da planície, oscilar
Candente ombrear da espiga pela brisa com que respiras e afagas
Enraízas e susténs nas colinas dos teus seios gritados aos céus
Atirados ao sol, generosos e maduros, corrupio de mel e sonho
Espiral que se alarga até evolar-se na unidade e voz dos corpos
Gesto de partir à desfilada nas nebulosas e outras vias lácteas
Caminhos iluminados, leque de auto-estradas na eterna liberdade...
Devolvida do mar e senhora dele, por te amar estou perdido
Que nunca haverá um encontrar, sem antes (me) haver partido!
Placidamente ouço Los Romeros, as castanholas de Angelita
A irreverência feminina que rompe os sonidos das guitarras
Mãe rebelde que não se sujeita sem luta aos acordes clássicos
E a faz parecer mais nova ainda que seus próprios filhos
E voa-me o pensamento no salero flamenco de tuas vestes,
Mas interrogo-me por ti romeira dos meus sonhos ímpares
Dou comigo a reflectir como alguma vez conseguirás ser
Se ser não é nunca por acaso senão o ter sido recuperado
Polido pelas nuvens que nos aspergem a esperança da alma
No digital binário, carregadas da tempestade que nos corre
Intempestivo segredo do sangue vermelho, pétala de rosa
Roja a requerer o querer do requebro e roubar-te até de mim
Sentir ciúmes de mim mesmo quando te possuo pra te soltar
A desprender-me das amarras do sainete, engodo de falcões
Donaire e graciosidade com que me domesticas as noites
Para executar sucumbido voltear à corda no picadeiro dos dias
Como ponteiro que não se cansa de girar sob o centro da mão
O pulso a ondear sentido ao estalar dos dedos, palmas, conchas
De Botticelli que te transportam do mar, sobre espuma na praia
A morrer que ressuscitas em terra fertilizada de renovada vida
Aspergida Terra por triliões de gotas quando sacodes os cabelos
Chuva de teu ventre em teu ventre gerada, gestação do verbo
Que de nove em nove meses volta e solta e requebra até nada
Mandorla do dez no aceso ou apagado dos semáforos do desejo
Halo de teus lábios com que falo preso na gruta do teu beijo.
Missing link insuspeitável que me antecede na sofreguidão
Intemporal da semântica bipolar desfeita em lava perfeita
Luar como espelho que reflecte o fogo das rosas carmins
E me ardo e consumo água do rio nos galácticos confins
Contramina das nascentes, gruta de encantos, teias e lendas
Jota do alfabeto nos pilares do templo onde te venero plena
Adoro como deus expulso do Olimpo por negação da ordem
Arina eleita com saias ciganas a bailar meus quartos crescentes
Caules germinados durante uma renovada Odisseia da luz
Teus olhos de ferir mortalmente a mortalidade das sombras
Trevas do breu do mundo lavado com o vaivém das ondas
Vermelhas das menstruações imaculadas, seivas da concepção
Sede de ser, pulsar constante, ritmo do teu sapateado e requebros
Com que inflamas o lar, palco de todos os madrigais e concertos
Que nos consertam e afinam para o cante da planície, oscilar
Candente ombrear da espiga pela brisa com que respiras e afagas
Enraízas e susténs nas colinas dos teus seios gritados aos céus
Atirados ao sol, generosos e maduros, corrupio de mel e sonho
Espiral que se alarga até evolar-se na unidade e voz dos corpos
Gesto de partir à desfilada nas nebulosas e outras vias lácteas
Caminhos iluminados, leque de auto-estradas na eterna liberdade...
Devolvida do mar e senhora dele, por te amar estou perdido
Que nunca haverá um encontrar, sem antes (me) haver partido!
sábado, janeiro 12, 2008
Empatia
Numa nova Odisseia, muito apenas expectável
Ao canto das sereias, do que dizem, ninguém no sabe
Só ainda nenhum homem lhe deveras resistiu
No uso próprio do termo, com significativo êxito…
Se diz de mim quem nada sabe,
Que perigosa é minha fala, e sou
Por ter um coração onde cabe
A minha asa, minha casa e meu voo...
Então, que diria se meu amor confessasse
O muito bem que deveras lhe quero,
Não havendo outrem nisso que a igualasse
Desde o superlativo ao apenas vero?
Assim diria... Diria que do mundo, o real
É este sentir profundo, imenso de alegria
Em sermos dois, mas cada um, em si, especial
Mas tão comuns, que igualmente cada um
Ao olhar o outro, a si mesmo se via!
Numa nova Odisseia, muito apenas expectável
Ao canto das sereias, do que dizem, ninguém no sabe
Só ainda nenhum homem lhe deveras resistiu
No uso próprio do termo, com significativo êxito…
Se diz de mim quem nada sabe,
Que perigosa é minha fala, e sou
Por ter um coração onde cabe
A minha asa, minha casa e meu voo...
Então, que diria se meu amor confessasse
O muito bem que deveras lhe quero,
Não havendo outrem nisso que a igualasse
Desde o superlativo ao apenas vero?
Assim diria... Diria que do mundo, o real
É este sentir profundo, imenso de alegria
Em sermos dois, mas cada um, em si, especial
Mas tão comuns, que igualmente cada um
Ao olhar o outro, a si mesmo se via!
terça-feira, janeiro 08, 2008
Abraço Recôndito na Ansa Silenciosa
Havemos de, em Árasa sem arestas nem aparas
Esconder, crestar as frestas, com lâminas raras
De recortar os talhos em retalhos menores
Pontos de agrupar os nós das urbes interiores
Redes de prédios, caixotes apertados, estores
De ocultar o presente com futuros passados
E passados pelo porvir cerzidos e desenhados.
Então, das célticas iguarias no cadinho liquefeito
Evolará lava livre de irrigar-nos os canais do peito!
Havemos de, em Árasa sem arestas nem aparas
Esconder, crestar as frestas, com lâminas raras
De recortar os talhos em retalhos menores
Pontos de agrupar os nós das urbes interiores
Redes de prédios, caixotes apertados, estores
De ocultar o presente com futuros passados
E passados pelo porvir cerzidos e desenhados.
Então, das célticas iguarias no cadinho liquefeito
Evolará lava livre de irrigar-nos os canais do peito!
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Solução SETENTA E SETE
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Moção de Confiança
Tão-só confesso que não sei abdicar de teus olhos
Mesmo quando eles são fresta de raiva amordaçada
Emanam a rispidez dos dias, alicerçam o esquecimento
Desalinhavam o trabalho pelas costuras do dizer
Se alcantilam na infrutífera ocadura do desmaiado
Dilatam a pequenez dos horizontes marginais
Adiada sepultura deste sonhar irreverente e silencioso
Congeminar dos gestos de abandono ao sôfrego pulsar
À emergência de um acto de partir o mundo ao meio
Tu e eu de um lado, o resto ousadia e aventura, grito
Reinos a descobrir, anexos abertos ao sorriso pleno
Desmagoado em si, atrevimento de quem atira os seios
Pequenos gomos de comungar a matriz estética da vida
No que ela tem de encantamento e nela me sucumbo
E derivo, até à infinita partilha num big-bang interior.
Mas também que o meu caminho foi marcado, tendido
Massa compacta de segurar os pés entre as bermas
Não descambar para lá dos limites, o corpo como via
Rápida de emergir na imperiosidade do requerer mútuo
Sempre insaciado de retornar ao tempo que te cabe
Por inteiro sou quando em ti me afundo e me perco
Apenas teus olhos me chamam em labareda ardo neles
Folha ressequida, papiro incendiado, página secreta
Que contamina todos os conteúdos com teu nome
Fazendo dele metáfora imprescindível ao supremo valor
Eco perpétuo para qualquer fala em que me descavo
Retiro a ganga imprópria, lapido o rubi que me lapida
Aveluda o desejo, o querer, a vontade solta de gritar
O beijo incandescente no frémito simples dos mamilos
Determinantes absolutos, imperativas preces dos lábios
Que te soletram deliciados como palavra morna e doce.
Mesmo em literatura nenhum navegador experiente
Sabedor dos impulsos imprevistos das profundas águas
Deita ao mar a sua carga mais preciosa, que salvar-se
Mais depende de igualmente salvá-la, que perdê-la
Pois que assim seria perder o fito à sua navegação
Ao seu eclodir para lá das barreiras do rumar constante
Remar às rimas inauditas ainda mas já lava eruptiva
De teu corpo gritado na dominada devoção ao nome.
Confio-me a ti, nada além sei que dar-me a tuas mãos
Se arrebatadas me arrebatam sofreguindo todos os verbos
Me enleiam na teia, névoa de despertar para o essencial
Condomínio fechado, rosto acerado na têmpera do prazer.
E eis que morrer não amedronta, é como virar à direita
Num cruzamento de sentido único – tudo fica dito assim
Ao sentir teu abraço possuindo-me, possuindo-te enfim!
Porque ainda se lâminas afiadas teus olhos me rasguem
As entranhas não rasgam, lavram e semeiam, aspergem
Com centelhas a ânsia de realidade onde sonhar é concreto
Tão real, que o sonho é só o corpo da alma que aperto...
Tão-só confesso que não sei abdicar de teus olhos
Mesmo quando eles são fresta de raiva amordaçada
Emanam a rispidez dos dias, alicerçam o esquecimento
Desalinhavam o trabalho pelas costuras do dizer
Se alcantilam na infrutífera ocadura do desmaiado
Dilatam a pequenez dos horizontes marginais
Adiada sepultura deste sonhar irreverente e silencioso
Congeminar dos gestos de abandono ao sôfrego pulsar
À emergência de um acto de partir o mundo ao meio
Tu e eu de um lado, o resto ousadia e aventura, grito
Reinos a descobrir, anexos abertos ao sorriso pleno
Desmagoado em si, atrevimento de quem atira os seios
Pequenos gomos de comungar a matriz estética da vida
No que ela tem de encantamento e nela me sucumbo
E derivo, até à infinita partilha num big-bang interior.
Mas também que o meu caminho foi marcado, tendido
Massa compacta de segurar os pés entre as bermas
Não descambar para lá dos limites, o corpo como via
Rápida de emergir na imperiosidade do requerer mútuo
Sempre insaciado de retornar ao tempo que te cabe
Por inteiro sou quando em ti me afundo e me perco
Apenas teus olhos me chamam em labareda ardo neles
Folha ressequida, papiro incendiado, página secreta
Que contamina todos os conteúdos com teu nome
Fazendo dele metáfora imprescindível ao supremo valor
Eco perpétuo para qualquer fala em que me descavo
Retiro a ganga imprópria, lapido o rubi que me lapida
Aveluda o desejo, o querer, a vontade solta de gritar
O beijo incandescente no frémito simples dos mamilos
Determinantes absolutos, imperativas preces dos lábios
Que te soletram deliciados como palavra morna e doce.
Mesmo em literatura nenhum navegador experiente
Sabedor dos impulsos imprevistos das profundas águas
Deita ao mar a sua carga mais preciosa, que salvar-se
Mais depende de igualmente salvá-la, que perdê-la
Pois que assim seria perder o fito à sua navegação
Ao seu eclodir para lá das barreiras do rumar constante
Remar às rimas inauditas ainda mas já lava eruptiva
De teu corpo gritado na dominada devoção ao nome.
Confio-me a ti, nada além sei que dar-me a tuas mãos
Se arrebatadas me arrebatam sofreguindo todos os verbos
Me enleiam na teia, névoa de despertar para o essencial
Condomínio fechado, rosto acerado na têmpera do prazer.
E eis que morrer não amedronta, é como virar à direita
Num cruzamento de sentido único – tudo fica dito assim
Ao sentir teu abraço possuindo-me, possuindo-te enfim!
Porque ainda se lâminas afiadas teus olhos me rasguem
As entranhas não rasgam, lavram e semeiam, aspergem
Com centelhas a ânsia de realidade onde sonhar é concreto
Tão real, que o sonho é só o corpo da alma que aperto...
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Se Ainda Recuperamos Alvoradas
Então tu, detective dos sentimentos camuflados
E das palavras crivadas pelo parágrafo oculto,
Zoom à semântica prisioneira em vésperas de indulto,
Porque te escondes de mim e me transportas e transformas
Em simples atracção circense dos palcos digitalizados
Electrónicos socalcos do estar aqui, hirto de leis e normas
Falho de certezas à luz das controversas e versadas formas?
Simplesmente pretendo recuperar os sonhos perdidos
Nas esferas do teu olhar em oblíquas ogivas sepultados,
Esquecidos tão à flor do não-ser brancos de cal, caiados
Como se fossem danças étnicas multimilenares, ancestrais
Rodapés, esquissos em oca por aguadas aguarelas cerzidos
De artesãos caçadores de éclogas nos remansos escondidos
Do vivaz rupestre encontro para decifrar o beijo dos vitrais.
O puzzle, juntar as peças do naufrágio nas correntes da vida
Em que suposta é a esperança e a dignidade de navegar,
Qual balancé do tempo, preso na teia de malha entretecida
Com as tempestades, os vendavais vigorosos, os jeitos de falar
E incentivar a descida, aos pergaminhos que nos hão-de registar
Como ponte entre o passado e o futuro, por sonhos suspendida.
E sustentada
Na escalada
Ousada
Desejada
Recuperada
Aliada – neste quase abraço de invenção com ternura desmedida...
Sim, porque a alvorada, se eleita em profundidade
Sara a ferida, domina o nevoeiro como muralha ensolarada
E dita desertos nos areais vitrinários da cristandade,
Abrindo caminhos sobre espirais à propulsão de quase nada
Nas apenas bermas do jungido e estreitado afecto da liberdade!
Então tu, detective dos sentimentos camuflados
E das palavras crivadas pelo parágrafo oculto,
Zoom à semântica prisioneira em vésperas de indulto,
Porque te escondes de mim e me transportas e transformas
Em simples atracção circense dos palcos digitalizados
Electrónicos socalcos do estar aqui, hirto de leis e normas
Falho de certezas à luz das controversas e versadas formas?
Simplesmente pretendo recuperar os sonhos perdidos
Nas esferas do teu olhar em oblíquas ogivas sepultados,
Esquecidos tão à flor do não-ser brancos de cal, caiados
Como se fossem danças étnicas multimilenares, ancestrais
Rodapés, esquissos em oca por aguadas aguarelas cerzidos
De artesãos caçadores de éclogas nos remansos escondidos
Do vivaz rupestre encontro para decifrar o beijo dos vitrais.
O puzzle, juntar as peças do naufrágio nas correntes da vida
Em que suposta é a esperança e a dignidade de navegar,
Qual balancé do tempo, preso na teia de malha entretecida
Com as tempestades, os vendavais vigorosos, os jeitos de falar
E incentivar a descida, aos pergaminhos que nos hão-de registar
Como ponte entre o passado e o futuro, por sonhos suspendida.
E sustentada
Na escalada
Ousada
Desejada
Recuperada
Aliada – neste quase abraço de invenção com ternura desmedida...
Sim, porque a alvorada, se eleita em profundidade
Sara a ferida, domina o nevoeiro como muralha ensolarada
E dita desertos nos areais vitrinários da cristandade,
Abrindo caminhos sobre espirais à propulsão de quase nada
Nas apenas bermas do jungido e estreitado afecto da liberdade!
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Opa de Egito
Hoje, precisamente hoje,
Convido-te para dançar.
Na minha casa, fora de lama.
Traz o xaile, bagagem de quem foge
E o corpo pronto pra gritar
O grito de quem por ti clama.
Hoje, precisamente hoje.
Mais ainda: não te esqueças
Que na linda de um o outro se diz,
Sem limites mas sem promessas,
Que a rosa também tem raiz
Além de espinhos, cor, cheiro, forma
Espécie de sonho sem lei nem norma
Entre as pálpebras do guerreiro monge.
Hoje, precisamente, hoje
Convido-te a entrar pela fresta
De onde ser é ser, o corpo festa
Do perto que encarna o longe,
Com as malhas da humana gesta
Do aqui e agora, precisamente hoje...
Mas se vieres, vem como quem foge!
Hoje, precisamente hoje,
Convido-te para dançar.
Na minha casa, fora de lama.
Traz o xaile, bagagem de quem foge
E o corpo pronto pra gritar
O grito de quem por ti clama.
Hoje, precisamente hoje.
Mais ainda: não te esqueças
Que na linda de um o outro se diz,
Sem limites mas sem promessas,
Que a rosa também tem raiz
Além de espinhos, cor, cheiro, forma
Espécie de sonho sem lei nem norma
Entre as pálpebras do guerreiro monge.
Hoje, precisamente, hoje
Convido-te a entrar pela fresta
De onde ser é ser, o corpo festa
Do perto que encarna o longe,
Com as malhas da humana gesta
Do aqui e agora, precisamente hoje...
Mas se vieres, vem como quem foge!
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Nicho de Apelo
Eleita descendente em sufrágios milenares
És a fresta entre as nuvens deste Dezembro,
Que vogam para o Norte em Vapores do Sul
Transmigram a água, transbordam o corpo
Digamos dele a alma à falta melhor termo.
Aparte algum Acaso nos embutidos em Álvaro de
Campos e campos que calcorreio caçador de rubis
É procurando-te até nas esmeraldas que te encontro
Em ti a safira dos olhos fulminando-me a ousadia
Quando entro no quarto crescente do teu sorriso
Que vem aspergir-me de luz, clarificar-me os dias
Exigir-me temperança e tranquilidade nos afagos,
Inclusive naqueles inventados e assim por dizer
Que se ditos invocam a realização, nomear é isso
Chamamento a que acorre o significado mais premente
Aquele que é irrevogável em qualquer significante
Por mais insignificante que seja, fonema menor
Morfema viciado na morfina da fala até à pronúncia
Dialecto de quem arrasta consigo o verbo donde eclodiu.
Nascido o teu verbo como nasceram todos os demais
Eis que nenhum ouço, mas se acaso murmuras e cicias
Ou com olhar aventas a emoção profunda das fantasias,
A mim que o escuto e amplio, até me parece que gritais!
Eleita descendente em sufrágios milenares
És a fresta entre as nuvens deste Dezembro,
Que vogam para o Norte em Vapores do Sul
Transmigram a água, transbordam o corpo
Digamos dele a alma à falta melhor termo.
Aparte algum Acaso nos embutidos em Álvaro de
Campos e campos que calcorreio caçador de rubis
É procurando-te até nas esmeraldas que te encontro
Em ti a safira dos olhos fulminando-me a ousadia
Quando entro no quarto crescente do teu sorriso
Que vem aspergir-me de luz, clarificar-me os dias
Exigir-me temperança e tranquilidade nos afagos,
Inclusive naqueles inventados e assim por dizer
Que se ditos invocam a realização, nomear é isso
Chamamento a que acorre o significado mais premente
Aquele que é irrevogável em qualquer significante
Por mais insignificante que seja, fonema menor
Morfema viciado na morfina da fala até à pronúncia
Dialecto de quem arrasta consigo o verbo donde eclodiu.
Nascido o teu verbo como nasceram todos os demais
Eis que nenhum ouço, mas se acaso murmuras e cicias
Ou com olhar aventas a emoção profunda das fantasias,
A mim que o escuto e amplio, até me parece que gritais!
quarta-feira, dezembro 05, 2007
A Gravata do Escriba
(Da mesa de Café, junto à janela)
Sentado no lancil, há cinco mil anos que o escriba ali está
O papiro sobre a prancheta, esta apoiada sobre os joelhos,
Os dedos sujos de tinta; tem ao lado a argila dos conselhos
E as folhas são mais de trinta, dos colhidos que não deu.
Portanto, é sabido, que para qualquer outra esquina que vá
Nada diferente disso fará, e nunca, por isso, alcançará o céu.
Alucinados os que sonham, querendo ou sem querer
Pois deles será o mundo que quiserem, se o quiserem ver.
Perco-me subitamente das visões próximas
Imediata é outra vez a outra cidade
E numa outra rua outra rapariga passa.
Que grande vantagem me assiste poder recordá-la
Quando afinal é a primeira vez que comigo se cruza
E nem parecida é com quantas outras me cruzei...
Mesmo aquelas que me puseram as bainhas da alma
À mostra, os alinhavos de querer e o seu avesso.
Sei de fonte segura que nunca antes a vi nem contactei
No entanto, recordo-a quando passa por mim
O olhar esquecido do presente, os gestos soltos
O andar desobrigado ao caminho, a fronte despida
De murais, faixas e slogans necessários à afirmação do ser.
Dirige-se ao invés do retrógrado para se não prender
Ao que decerto nunca foi e sabe todas as falácias das fotos
Onde jamais figurou como manequim cadenciado.
Escolhe das montras o espelhado reflexo da decoração
E não a ansiada posse da peça avulsa que se oferece.
Tem o destino traçado mas considera que esse destino
Se quer ser o destino dela, então também ele tem que fazer
Qualquer coisa definitiva e derradeira para que ela o assuma
Lhe seja fiel, a convença, se disponha a protagonizá-lo.
Ninguém lucra com o facto de ela por ali ter passado
Mas ao menos escrevem-se alguns versos, sinais pontuados
Placas informativas, correcções ao trânsito vulgar das vírgulas.
Sei que nunca a vi antes porque reconheço a falta que me fez
O significado ausente que de repente a sua realidade detonou,
O como foi possível nunca tal nos ter acontecido, se mês
A mês, dia a dia, ano a ano, da esquina onde agora estou
A tenho procurado com eléctrico fulgor enlouquecido!
Talvez não tenha procurado bem... Se calhar, distraído
Com as demais que ali passaram, ou outro motivo qualquer
Não a vira a ela mas, em seu lugar, apenas outra mulher...
Até pode ter sido, que as montras ali paradas, a olharam
E em si mesmas se viram, que ela nem as mirara sequer.
Porque ela ao passar, bem vincara a pegada da passagem
Vincando bem que o real só é real, se também for miragem!
Ia dizendo, que ao menos escrevem-se versos... Mal menor
À luz de quem passa se da passada ao final passado é,
Que quando se passa para ficar, é ficando que muda a cor
O matiz, a paleta, o sabor das torradas, o aroma do café
Seja durante a tarde, durante a noite ou seja pela manhã,
Que a alma quando arde, nos andará sempre enrolada
Ao pescoço, assim, bem dobrada, como um cachecol de lã.
(Da mesa de Café, junto à janela)
Sentado no lancil, há cinco mil anos que o escriba ali está
O papiro sobre a prancheta, esta apoiada sobre os joelhos,
Os dedos sujos de tinta; tem ao lado a argila dos conselhos
E as folhas são mais de trinta, dos colhidos que não deu.
Portanto, é sabido, que para qualquer outra esquina que vá
Nada diferente disso fará, e nunca, por isso, alcançará o céu.
Alucinados os que sonham, querendo ou sem querer
Pois deles será o mundo que quiserem, se o quiserem ver.
Perco-me subitamente das visões próximas
Imediata é outra vez a outra cidade
E numa outra rua outra rapariga passa.
Que grande vantagem me assiste poder recordá-la
Quando afinal é a primeira vez que comigo se cruza
E nem parecida é com quantas outras me cruzei...
Mesmo aquelas que me puseram as bainhas da alma
À mostra, os alinhavos de querer e o seu avesso.
Sei de fonte segura que nunca antes a vi nem contactei
No entanto, recordo-a quando passa por mim
O olhar esquecido do presente, os gestos soltos
O andar desobrigado ao caminho, a fronte despida
De murais, faixas e slogans necessários à afirmação do ser.
Dirige-se ao invés do retrógrado para se não prender
Ao que decerto nunca foi e sabe todas as falácias das fotos
Onde jamais figurou como manequim cadenciado.
Escolhe das montras o espelhado reflexo da decoração
E não a ansiada posse da peça avulsa que se oferece.
Tem o destino traçado mas considera que esse destino
Se quer ser o destino dela, então também ele tem que fazer
Qualquer coisa definitiva e derradeira para que ela o assuma
Lhe seja fiel, a convença, se disponha a protagonizá-lo.
Ninguém lucra com o facto de ela por ali ter passado
Mas ao menos escrevem-se alguns versos, sinais pontuados
Placas informativas, correcções ao trânsito vulgar das vírgulas.
Sei que nunca a vi antes porque reconheço a falta que me fez
O significado ausente que de repente a sua realidade detonou,
O como foi possível nunca tal nos ter acontecido, se mês
A mês, dia a dia, ano a ano, da esquina onde agora estou
A tenho procurado com eléctrico fulgor enlouquecido!
Talvez não tenha procurado bem... Se calhar, distraído
Com as demais que ali passaram, ou outro motivo qualquer
Não a vira a ela mas, em seu lugar, apenas outra mulher...
Até pode ter sido, que as montras ali paradas, a olharam
E em si mesmas se viram, que ela nem as mirara sequer.
Porque ela ao passar, bem vincara a pegada da passagem
Vincando bem que o real só é real, se também for miragem!
Ia dizendo, que ao menos escrevem-se versos... Mal menor
À luz de quem passa se da passada ao final passado é,
Que quando se passa para ficar, é ficando que muda a cor
O matiz, a paleta, o sabor das torradas, o aroma do café
Seja durante a tarde, durante a noite ou seja pela manhã,
Que a alma quando arde, nos andará sempre enrolada
Ao pescoço, assim, bem dobrada, como um cachecol de lã.
terça-feira, dezembro 04, 2007
Terra: A Nave Especial
Foi inconsistente a vossa acção de liquidar o eu.
Quando roubaram o passado, devolveram o futuro
E se me abandonaram aqui, me recupero agora,
Como se tudo fosse tão assim à tona das palavras
Noemas plásticos feitos lagos interiores, margens
Insurrectas de escorropichar o imo, espremer o suco
Vida que nos banha por dentro em voz sustenida
E me define o existir como uma metáfora líquida
Corrente e impetuosa e cristalina a deitar por fora.
Por tal gostava de discutir contigo todos os pontos
Alíneas, artigos e anexos da nossa comum acção,
Pois são eles as balizas do golo, farol de evolução
Referência qualificativa do fruto inerente nos gomos
Intrínseca a cada um da qualidade que todos somos.
Negociar o próximo passo, a estratégia conveniente
Para a revolução exigível de sermos apenas gente.
Que diz que sim, que diz que não e mesmo talvez
Quando não só precisa nem teme o pior como revés
Conduta de esquecer o caminho que lhe são os pés
Ordenados minguados que não chegam ao fim do mês,
Braços cruzados, diplomas armados, bocas de arnês.
Acabar pois com a dicotomia entre o mim e o outro
Por sabermos que também um dia seremos apenas pó
Entre o muito pó que também um dia foi apenas corpo.
Saber que não há diferença entre realidade e percepção,
Entre facto e valor, entre masculino e feminino, entre dó
E compaixão, entre riqueza e pobreza, entre realização
E fantasia, entre objectividade e subjectividade, além
Daquela que é visível entre o assim, o mas e o também.
Consentimento na adversidade, adversivo tom de anuir
Por saber que a humanidade é tão-só mais uma parcela
Dessa enorme passarela que a Terra é, também para ela
Parte dessa eternidade que a vida insiste em construir!
Foi inconsistente a vossa acção de liquidar o eu.
Quando roubaram o passado, devolveram o futuro
E se me abandonaram aqui, me recupero agora,
Como se tudo fosse tão assim à tona das palavras
Noemas plásticos feitos lagos interiores, margens
Insurrectas de escorropichar o imo, espremer o suco
Vida que nos banha por dentro em voz sustenida
E me define o existir como uma metáfora líquida
Corrente e impetuosa e cristalina a deitar por fora.
Por tal gostava de discutir contigo todos os pontos
Alíneas, artigos e anexos da nossa comum acção,
Pois são eles as balizas do golo, farol de evolução
Referência qualificativa do fruto inerente nos gomos
Intrínseca a cada um da qualidade que todos somos.
Negociar o próximo passo, a estratégia conveniente
Para a revolução exigível de sermos apenas gente.
Que diz que sim, que diz que não e mesmo talvez
Quando não só precisa nem teme o pior como revés
Conduta de esquecer o caminho que lhe são os pés
Ordenados minguados que não chegam ao fim do mês,
Braços cruzados, diplomas armados, bocas de arnês.
Acabar pois com a dicotomia entre o mim e o outro
Por sabermos que também um dia seremos apenas pó
Entre o muito pó que também um dia foi apenas corpo.
Saber que não há diferença entre realidade e percepção,
Entre facto e valor, entre masculino e feminino, entre dó
E compaixão, entre riqueza e pobreza, entre realização
E fantasia, entre objectividade e subjectividade, além
Daquela que é visível entre o assim, o mas e o também.
Consentimento na adversidade, adversivo tom de anuir
Por saber que a humanidade é tão-só mais uma parcela
Dessa enorme passarela que a Terra é, também para ela
Parte dessa eternidade que a vida insiste em construir!
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Solução SESSENTA E QUATRO
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Acaso
No ocaso da rua
A acaso da rapariga.
Mas não, não é aquela.
A outra era de outra rua
No acaso de outro ocaso
Em outra cidade por acaso
E ao caso todos éramos outros.
Ouço Vozes de Ver-te
Fala-me de ti...
Procura o meu espaço no teu passo
E não te importes com a cor da bandeira
Na maneira desfraldada,
No mastro da nossa armada.
Fala-me de ti.
Diz o silêncio quando apagadas são
As cintilantes esperanças do teu olhar
Quando mão na mão e entrelaçados dedos
Ouvimos os segredos que conta a terra ao mar.
Fala-me de ti
Quando os limites da procura são a fronteira
Do corpo não apagues a janela, a seteira
O disparo da palavra conquistada
Que isso de acertar à primeira
É apenas sorte de quem não quis nada.
Fala-me de ti.
Procuro o meu tempo, procuro a procura,
Mas eles falam-me de ti
E eu sei que não será loucura!
No ocaso da rua
A acaso da rapariga.
Mas não, não é aquela.
A outra era de outra rua
No acaso de outro ocaso
Em outra cidade por acaso
E ao caso todos éramos outros.
Ouço Vozes de Ver-te
Fala-me de ti...
Procura o meu espaço no teu passo
E não te importes com a cor da bandeira
Na maneira desfraldada,
No mastro da nossa armada.
Fala-me de ti.
Diz o silêncio quando apagadas são
As cintilantes esperanças do teu olhar
Quando mão na mão e entrelaçados dedos
Ouvimos os segredos que conta a terra ao mar.
Fala-me de ti
Quando os limites da procura são a fronteira
Do corpo não apagues a janela, a seteira
O disparo da palavra conquistada
Que isso de acertar à primeira
É apenas sorte de quem não quis nada.
Fala-me de ti.
Procuro o meu tempo, procuro a procura,
Mas eles falam-me de ti
E eu sei que não será loucura!
sexta-feira, novembro 30, 2007
Respirar em Sustenido
É difícil não te abordar
Com o sucumbido olhar desmedido
Dos jograis,
Rendido até doer
De não poder suportar mais.
É difícil corresponder com a voz imediata
Estar na posse do constante em partir
Bilhete de saída e contudo ficar quedo;
É difícil esconder as mãos dos olhos
Ficar atento à próxima esquina
E esquecer o futuro que se aproxima.
É difícil corrigir o leito dos rios
Rasgar janelas nas muralhas da manhã
Dizer "bom dia, Sol", segar a luz
Pretendendo ter feito apenas nada
Ou nada ter dito e gerar sismos de lã
Simples abalos nos corações vazios.
É difícil a calma sorridente do teu esgar
O semicerrado das pálpebras no prazer
O olhar que vicia em querer adivinhar
Sem desejar ser o segredo que estão a esconder,
Sem desejar ser a chave dos vermelhos ladrilhos
Em que os ombros te descansam e entalhas
Os seios se suspeitam sob as riscadas malhas
O pescoço resguarda a voz para novos trilhos.
É difícil não querer soltar os cabelos
Libertá-los da rubra e negra bandelette,
Moldá-los em abandonados novelos
Sobre o quadriculado chão que os repete.
É difícil não quedar-me ceifado
Sob o sorriso ao sol expelido,
Sem querer ser o raio iluminado
Que asperge o rosto de vítreo sentido.
É difícil tão-só respirar, com receio
De apagar com a surpresa o enleio
A mágica valsa entre a luz e o parêntesis lido
Para te adornar em onda, o pulsar sustenido.
É difícil não te abordar
Com o sucumbido olhar desmedido
Dos jograis,
Rendido até doer
De não poder suportar mais.
É difícil corresponder com a voz imediata
Estar na posse do constante em partir
Bilhete de saída e contudo ficar quedo;
É difícil esconder as mãos dos olhos
Ficar atento à próxima esquina
E esquecer o futuro que se aproxima.
É difícil corrigir o leito dos rios
Rasgar janelas nas muralhas da manhã
Dizer "bom dia, Sol", segar a luz
Pretendendo ter feito apenas nada
Ou nada ter dito e gerar sismos de lã
Simples abalos nos corações vazios.
É difícil a calma sorridente do teu esgar
O semicerrado das pálpebras no prazer
O olhar que vicia em querer adivinhar
Sem desejar ser o segredo que estão a esconder,
Sem desejar ser a chave dos vermelhos ladrilhos
Em que os ombros te descansam e entalhas
Os seios se suspeitam sob as riscadas malhas
O pescoço resguarda a voz para novos trilhos.
É difícil não querer soltar os cabelos
Libertá-los da rubra e negra bandelette,
Moldá-los em abandonados novelos
Sobre o quadriculado chão que os repete.
É difícil não quedar-me ceifado
Sob o sorriso ao sol expelido,
Sem querer ser o raio iluminado
Que asperge o rosto de vítreo sentido.
É difícil tão-só respirar, com receio
De apagar com a surpresa o enleio
A mágica valsa entre a luz e o parêntesis lido
Para te adornar em onda, o pulsar sustenido.
quinta-feira, novembro 29, 2007
Lúcido Recreio
A lógica é uma doença contagiante
Na lucidez opaca da realidade,
Transmitindo transparência, transitando
De boca em boca, de mãos em mãos
Mesmo quando abertas, os bolsos vazios
O sonho à flor da fala, o dito instante
No ontem de amanhã vertido,
Os dias sem adiamento da verdade
Que a vida sem ti nunca terá sentido
Se ao partires quebro sem querer,
Se quando partes fico igualmente partido.
Portanto escolhe. Abre os taipais
E diz quanto é ainda possível fazer
Para libertar o crescendo no crescer
No lugar da espera o prosperar mais.
Sinceramente, é esse o melhor poema que te faço...
Diabrura mansa que se aconchega no teu regaço
Gata que se desenrola e espreguiça o ventre,
Condomínio de quem a querer se quer bem
Teu espaço de correr livre entre mais ninguém!
A lógica é uma doença contagiante
Na lucidez opaca da realidade,
Transmitindo transparência, transitando
De boca em boca, de mãos em mãos
Mesmo quando abertas, os bolsos vazios
O sonho à flor da fala, o dito instante
No ontem de amanhã vertido,
Os dias sem adiamento da verdade
Que a vida sem ti nunca terá sentido
Se ao partires quebro sem querer,
Se quando partes fico igualmente partido.
Portanto escolhe. Abre os taipais
E diz quanto é ainda possível fazer
Para libertar o crescendo no crescer
No lugar da espera o prosperar mais.
Sinceramente, é esse o melhor poema que te faço...
Diabrura mansa que se aconchega no teu regaço
Gata que se desenrola e espreguiça o ventre,
Condomínio de quem a querer se quer bem
Teu espaço de correr livre entre mais ninguém!
quarta-feira, novembro 28, 2007
Farol de Vermelho Incandescente
"Rosa, oh contradição pura! Prazer de sermos
O sonho de ninguém entre tantas pálpebras."
Rainer Maria Rilke
Viver é sonhar-te os olhos em mim,
No fogo de soletrar-te poro a poro.
Porque nasce desse beijo sem fim
A ternura, em que me dou e devoro.
Quando partes, se me parte o ser
E daquilo que era só metade me fica,
Mas sendo metade é dobrado o doer
Que no amor, o dividir multiplica.
Fogo Amigo
Se quiseres, o meu poema pode arder...
Pode eclodir dele o vulcão de lava pura,
E ser aquela gota, rubi de brasa a tecer
A luz que desbrava a alma, quando escura.
O Riso de Arlequim
Loucura é como estar presente
Quando nada mais nos consente
E assim, de repente, voamos
Para lá do lá em que estamos.
Loucura é estar aqui e saber
Quebrar a rotina que recomeça
Quando à ânsia de ainda viver
Nos equilibramos na voz que tropeça.
E faz com que a mão
Seja parte entre sim e não,
Entre não e sim,
Sobre o rio sem fim
Fogo de líquida intenção
Cruzando os limites de mim
Assim, no cuidado da confissão
De fingir sentir o que deveras sinta.
Opala de várias cores, mágica cera
Molde dos dedos borrados de tinta,
Bochechas lambuzadas, farripas na testa
Com o mundo a pregar-nos a finta
Dos Outonos que são Primavera
Lengalenga da Serra no "era não-era"
Do era uma vez uma festa
De festejo sorriso que em ti se apresta!
"Rosa, oh contradição pura! Prazer de sermos
O sonho de ninguém entre tantas pálpebras."
Rainer Maria Rilke
Viver é sonhar-te os olhos em mim,
No fogo de soletrar-te poro a poro.
Porque nasce desse beijo sem fim
A ternura, em que me dou e devoro.
Quando partes, se me parte o ser
E daquilo que era só metade me fica,
Mas sendo metade é dobrado o doer
Que no amor, o dividir multiplica.
Fogo Amigo
Se quiseres, o meu poema pode arder...
Pode eclodir dele o vulcão de lava pura,
E ser aquela gota, rubi de brasa a tecer
A luz que desbrava a alma, quando escura.
O Riso de Arlequim
Loucura é como estar presente
Quando nada mais nos consente
E assim, de repente, voamos
Para lá do lá em que estamos.
Loucura é estar aqui e saber
Quebrar a rotina que recomeça
Quando à ânsia de ainda viver
Nos equilibramos na voz que tropeça.
E faz com que a mão
Seja parte entre sim e não,
Entre não e sim,
Sobre o rio sem fim
Fogo de líquida intenção
Cruzando os limites de mim
Assim, no cuidado da confissão
De fingir sentir o que deveras sinta.
Opala de várias cores, mágica cera
Molde dos dedos borrados de tinta,
Bochechas lambuzadas, farripas na testa
Com o mundo a pregar-nos a finta
Dos Outonos que são Primavera
Lengalenga da Serra no "era não-era"
Do era uma vez uma festa
De festejo sorriso que em ti se apresta!
sexta-feira, novembro 23, 2007
Regra de Trânsito
Se conduzires, dominando os sentidos, conduz com vagar
Divaga na luz rubra e verde colorida que apenas apaga
Os restos soltos, os mastros íngremes que sobram do mar
Nos braços que aos remos as galés das ondas o sonho traga
Engula, preso em linhas, redes, algas, sargaços de sonhar.
Se conduzires, atira o verbo ao ar, a voz às brisas, ao vento
Deixa-a rolar o ventre, dançar como bola de fogo no céu azul
E admite que a cada curva surge o caminho, aquele momento
De nos cruzarmos com as aves dos estuários, os vermes do paul,
Os pântanos, ossos de dinossauros, fogos fátuos de tágide taful.
Se conduzires – quem não conduz? –, fá-lo de olhos abertos
E condiz com o que disseres, porque faças aquilo que fizeres
O que jamais poderás fazer, sem atender aos sinais concretos
Puros, evidentemente evidentes, é gerar mais e maiores desertos.
Se conduzires, cuidado, que os filhos dos homens estão despertos!
Se conduzires, dominando os sentidos, conduz com vagar
Divaga na luz rubra e verde colorida que apenas apaga
Os restos soltos, os mastros íngremes que sobram do mar
Nos braços que aos remos as galés das ondas o sonho traga
Engula, preso em linhas, redes, algas, sargaços de sonhar.
Se conduzires, atira o verbo ao ar, a voz às brisas, ao vento
Deixa-a rolar o ventre, dançar como bola de fogo no céu azul
E admite que a cada curva surge o caminho, aquele momento
De nos cruzarmos com as aves dos estuários, os vermes do paul,
Os pântanos, ossos de dinossauros, fogos fátuos de tágide taful.
Se conduzires – quem não conduz? –, fá-lo de olhos abertos
E condiz com o que disseres, porque faças aquilo que fizeres
O que jamais poderás fazer, sem atender aos sinais concretos
Puros, evidentemente evidentes, é gerar mais e maiores desertos.
Se conduzires, cuidado, que os filhos dos homens estão despertos!
terça-feira, novembro 13, 2007
Minerva doutorada
Quando te conheci, tinhas um sol em cada mão.
De um lado, emanava a luz do conhecido e alcançado;
Do outro, as réstias cintilantes da ousadia e do tentado.
E o sorriso transparecido de quem traz na língua o coração.
Mas ao toque de vésperas, que antecede a dor e a escuridão
Se então na noite a Lua nem Vénus se vislumbram sob o breu,
Puseste sobre as níveas faces as máscaras coloridas da ilusão
E ficaste repartida entre o que deveras eras e te imaginava eu...
Há quem diga, que acreditas ser esse o teu principal condão:
Acabar com todos os sonhos e demais esperanças infinitas
Só para reteres as pepitas e temeres perdê-las ao abrir a mão.
No fundo, queres subir ao céu embora penses, faças e repitas
Tudo bento e com requinte igual aos que no inferno estão
Fizeram, pensaram, disseram, e calando pagaram por salvação!
Quando te conheci, tinhas um sol em cada mão.
De um lado, emanava a luz do conhecido e alcançado;
Do outro, as réstias cintilantes da ousadia e do tentado.
E o sorriso transparecido de quem traz na língua o coração.
Mas ao toque de vésperas, que antecede a dor e a escuridão
Se então na noite a Lua nem Vénus se vislumbram sob o breu,
Puseste sobre as níveas faces as máscaras coloridas da ilusão
E ficaste repartida entre o que deveras eras e te imaginava eu...
Há quem diga, que acreditas ser esse o teu principal condão:
Acabar com todos os sonhos e demais esperanças infinitas
Só para reteres as pepitas e temeres perdê-las ao abrir a mão.
No fundo, queres subir ao céu embora penses, faças e repitas
Tudo bento e com requinte igual aos que no inferno estão
Fizeram, pensaram, disseram, e calando pagaram por salvação!
sábado, novembro 10, 2007
Mulher-a-Dias
É de Verão, o Novembro mês.
E as formigas, foram-me ao açúcar...
Não lhe gabo o feito:
Foram só uma ou três
Mas morreram a eito.
Sem a ajuda de São Vicente,
Nem rezas a Santa Bárbara Bendita.
Apenas com o detergente
Al Gore de crer em nada
Como quem em muito acredita.
Era só delas a peregrinação...
Em fila, felizes, alegres e contentes
Nas carreiras de forte combustão.
Mas chegou Fátima, entrementes
E passou-lhe com o esfregão!
É de Verão, o Novembro mês.
E as formigas, foram-me ao açúcar...
Não lhe gabo o feito:
Foram só uma ou três
Mas morreram a eito.
Sem a ajuda de São Vicente,
Nem rezas a Santa Bárbara Bendita.
Apenas com o detergente
Al Gore de crer em nada
Como quem em muito acredita.
Era só delas a peregrinação...
Em fila, felizes, alegres e contentes
Nas carreiras de forte combustão.
Mas chegou Fátima, entrementes
E passou-lhe com o esfregão!
Da Conjugação no (Com)Participativo
Ler, traduzir este gesto de gestas por outros gestos
Saudar a crescente e infinita legião de mortos,
Socorrer-me do fogo no vulcão labiríntico do ser
E estar sempre pronto que nem recruta disciplinado...
Sofrer a plástica das paisagens e montes alentejanos,
Passar os dedos pelos índices dos desesperos alheios,
Ouvir ruídos arrastados nas catacumbas correntes fluviais
Deste quadro como se ele fosse fosso de castelos medievais...
Ansiar que a lebre se não atravesse na vereda ao cavalo,
Zunir como jacto que besoura e debica a crosta terrestre
E querer chegar mais depressa ao local do crime proposto
Sem anexar os membros e vísceras de meu íntimo clã...
Escutar amenas confissões ao lusco-fusco enamorado
Por saber que nem todos os amores são lícitos e puros
Mesmo quando três rimas os adocicam de laranjeira
E labaredas flores de incêndio na floresta ao lado...
Para quê? Quem fez o eterno favor desta imagética
Se os deuses não nos exigiram adulterar-lhe o segredo
Nem pediram a outros deuses seu concílio de inconciliação?
Todavia, cúmplices até na voz dos gestos desta gesta
A brisa contorna-nos, se retidos, e acaricia-nos o olhar!
Ler, traduzir este gesto de gestas por outros gestos
Saudar a crescente e infinita legião de mortos,
Socorrer-me do fogo no vulcão labiríntico do ser
E estar sempre pronto que nem recruta disciplinado...
Sofrer a plástica das paisagens e montes alentejanos,
Passar os dedos pelos índices dos desesperos alheios,
Ouvir ruídos arrastados nas catacumbas correntes fluviais
Deste quadro como se ele fosse fosso de castelos medievais...
Ansiar que a lebre se não atravesse na vereda ao cavalo,
Zunir como jacto que besoura e debica a crosta terrestre
E querer chegar mais depressa ao local do crime proposto
Sem anexar os membros e vísceras de meu íntimo clã...
Escutar amenas confissões ao lusco-fusco enamorado
Por saber que nem todos os amores são lícitos e puros
Mesmo quando três rimas os adocicam de laranjeira
E labaredas flores de incêndio na floresta ao lado...
Para quê? Quem fez o eterno favor desta imagética
Se os deuses não nos exigiram adulterar-lhe o segredo
Nem pediram a outros deuses seu concílio de inconciliação?
Todavia, cúmplices até na voz dos gestos desta gesta
A brisa contorna-nos, se retidos, e acaricia-nos o olhar!
sexta-feira, novembro 09, 2007
Capital de Risco
À noite, esvaziada de sentido, a cidade
É uma discoteca, algumas tascas, pouco mais...
Tem o soluço dos arrependidos da idade
E a solidão dos sem-família sazonais.
A euforia do álcool e da erva clandestina,
Alguém que vomita no ondeado da calçada
Da marrafa, que já não é de ouro aquela mina,
Nem a obra mealheiro prà pepita arquitectada.
Se foi sonho de engenheiro, hoje é quase nada
Que se basta em Onan muito bem celebrada
Pelas históricas muralhas e beatos florais...
Que da gesta, se houver grata sinceridade
De Alacer apenas lhe resta essa saudade
Em ser Porto inseguro de comércio – e capitais!
À noite, esvaziada de sentido, a cidade
É uma discoteca, algumas tascas, pouco mais...
Tem o soluço dos arrependidos da idade
E a solidão dos sem-família sazonais.
A euforia do álcool e da erva clandestina,
Alguém que vomita no ondeado da calçada
Da marrafa, que já não é de ouro aquela mina,
Nem a obra mealheiro prà pepita arquitectada.
Se foi sonho de engenheiro, hoje é quase nada
Que se basta em Onan muito bem celebrada
Pelas históricas muralhas e beatos florais...
Que da gesta, se houver grata sinceridade
De Alacer apenas lhe resta essa saudade
Em ser Porto inseguro de comércio – e capitais!
quinta-feira, novembro 08, 2007
Discreta por Sinistro Decreto
Sabe-se muito pouco acerca dela... Sim, consta que, acasos...
Às vezes aparece. Os olhos pestanejam-lhe como bonecas,
Tipo semáforos de intermitente amarelo para filtrar ocasos
Ou flertar entre cervejas e até dançar com as surrobecas...
Mas... Que mais dela se pode dizer? Se tem família? Que faz
Ninguém confirma. E se do talento lhe assiste alguma rima
Ou pendor para explorar conceitos... Apenas se sabe que traz
Nesgas de mistério, visgos onde caem os carentes e atreitos.
Rumores, quiçá rara palavra comedida entre sonoras batidas
Silêncios de house tantam entre gestos de ritmo robotizado,
Máquina de curtir o momento sem momento futuro adivinhado...
Que se basta em ser indiferente ou nada mostrar e menos sentir
Que o inferno são os outros e só trazem à vida dobradas lidas
Para quem viver é vedar, fugir, correr para que jamais o permitir
Viver seja o misturar a sua, sendo nada, com as demais vidas!
Sabe-se muito pouco acerca dela... Sim, consta que, acasos...
Às vezes aparece. Os olhos pestanejam-lhe como bonecas,
Tipo semáforos de intermitente amarelo para filtrar ocasos
Ou flertar entre cervejas e até dançar com as surrobecas...
Mas... Que mais dela se pode dizer? Se tem família? Que faz
Ninguém confirma. E se do talento lhe assiste alguma rima
Ou pendor para explorar conceitos... Apenas se sabe que traz
Nesgas de mistério, visgos onde caem os carentes e atreitos.
Rumores, quiçá rara palavra comedida entre sonoras batidas
Silêncios de house tantam entre gestos de ritmo robotizado,
Máquina de curtir o momento sem momento futuro adivinhado...
Que se basta em ser indiferente ou nada mostrar e menos sentir
Que o inferno são os outros e só trazem à vida dobradas lidas
Para quem viver é vedar, fugir, correr para que jamais o permitir
Viver seja o misturar a sua, sendo nada, com as demais vidas!
quarta-feira, novembro 07, 2007
Sáfico Conluio
Não regateei o preço que impuseste ao meu silêncio.
Nunca discuto quando me compras apenas obedeço
E pago-te sentindo infinito prazer pelo prazer que sentes
Se me dominas e manietas, que é ao penetrar-te que me penetras.
Sou a tua prostituta de mão, aquela mulher de falo erecto
Que se deixa possuir e sucumbe fatalmente ao teu desejo
E frui imensa e docemente a fruição que de mim tens,
Me rendo quando te rendes, te prendo quando me prendes
Me solto quando te soltas, me venho quando te vens!
Não regateei o preço que impuseste ao meu silêncio.
Nunca discuto quando me compras apenas obedeço
E pago-te sentindo infinito prazer pelo prazer que sentes
Se me dominas e manietas, que é ao penetrar-te que me penetras.
Sou a tua prostituta de mão, aquela mulher de falo erecto
Que se deixa possuir e sucumbe fatalmente ao teu desejo
E frui imensa e docemente a fruição que de mim tens,
Me rendo quando te rendes, te prendo quando me prendes
Me solto quando te soltas, me venho quando te vens!
quarta-feira, outubro 31, 2007
A épica audiência
A traição pedida a perder-se nos olhos vítreos
A flor aberta dos lábios a dizer que não dizem
A dispersão calada das vontades que se apagam
A promíscua expectativa infligida a quem espera
Este querer sem querer que receia denunciar-se
Que mais que tudo teme o medo de não conseguir
E abrevia o actor para um acto de peça de facto.
De partida, de jogada na rasteira apenas equilibrada
Condomínio comum aos que menos esperam nada.
Podia crer-se na crueldade do não haver ali ninguém
Para quem ouvir fosse importante mesmo o banal
O corriqueiro da conversa fiada para boi dormir
A saudação de circunstância, o fazer tempo, sala
Despejar de lugares comuns entre os comuns da vala
Gente que aguarda morrer sem sacrifício, apagar-se
Esvair-se como se esvai uma já vazia e esvaída mala.
Podia ainda contar-se uma anedota de brejeira índole
Onde aplauso e riso fácil demonstrassem à audiência dócil
Quão sagaz é a fala em que pega a deixa que desleixa
E nos resguarda para que nada nem ninguém nos mexa
Naquilo que melhor escondido e por vergonha escondemos
E damos por não havido se demais o não virem, nem vemos.
Que somos uma aldeia que onera e publicita a pior ideia
Vinda de fora, se à superficialidade ela nos incendeia
Nas passarelles o voyeurismo às vedetas do parque snobe
Das afectações de estilo e esqueletos que se pavoneiam
Em transparências entrapadas e cerimoniais asas de grilo.
Aldeia de aldeões prontos e prestáveis ao que for labrego
Tiver a artística e suma qualidade do pregar de um prego
Desde que ele não tenha utilidade qualquer, e nenhuma
Seja a moldura que daí se dependura para admirar a bruma.
Ao arrotar empanturrado de enchidos, tortulhos e cerveja
Para que ninguém veja quem somos e, se vir... calado esteja!
A traição pedida a perder-se nos olhos vítreos
A flor aberta dos lábios a dizer que não dizem
A dispersão calada das vontades que se apagam
A promíscua expectativa infligida a quem espera
Este querer sem querer que receia denunciar-se
Que mais que tudo teme o medo de não conseguir
E abrevia o actor para um acto de peça de facto.
De partida, de jogada na rasteira apenas equilibrada
Condomínio comum aos que menos esperam nada.
Podia crer-se na crueldade do não haver ali ninguém
Para quem ouvir fosse importante mesmo o banal
O corriqueiro da conversa fiada para boi dormir
A saudação de circunstância, o fazer tempo, sala
Despejar de lugares comuns entre os comuns da vala
Gente que aguarda morrer sem sacrifício, apagar-se
Esvair-se como se esvai uma já vazia e esvaída mala.
Podia ainda contar-se uma anedota de brejeira índole
Onde aplauso e riso fácil demonstrassem à audiência dócil
Quão sagaz é a fala em que pega a deixa que desleixa
E nos resguarda para que nada nem ninguém nos mexa
Naquilo que melhor escondido e por vergonha escondemos
E damos por não havido se demais o não virem, nem vemos.
Que somos uma aldeia que onera e publicita a pior ideia
Vinda de fora, se à superficialidade ela nos incendeia
Nas passarelles o voyeurismo às vedetas do parque snobe
Das afectações de estilo e esqueletos que se pavoneiam
Em transparências entrapadas e cerimoniais asas de grilo.
Aldeia de aldeões prontos e prestáveis ao que for labrego
Tiver a artística e suma qualidade do pregar de um prego
Desde que ele não tenha utilidade qualquer, e nenhuma
Seja a moldura que daí se dependura para admirar a bruma.
Ao arrotar empanturrado de enchidos, tortulhos e cerveja
Para que ninguém veja quem somos e, se vir... calado esteja!
terça-feira, outubro 30, 2007
Testamento
É provável... Mas digam o que disserem
Não há ninguém de quem queira, enfim
Na vida despedir-me:
Quando eu morrer, rasguem os meus poemas.
Todos! Que não quero e abomino a imortalidade.
Nem lágrimas de lástima, que das duras penas
Já me bastam as quantas em vida sofri.
Quando eu morrer, digam tão-só que morri.
Nem mais! Não quero da incerteza, a dor
Chega-me saber que foi num dia assim.
Quando eu morrer, seja a que horas for
Se algum amigo ainda por aí houver,
Então, que beba um copo por mim!
Aliteração climática
Eu persisto. Tu persistes. Ela ou ele persiste.
Nós persistimos, mas ainda não chegamos.
Falta como que o detonar dessa imagem inaudita
(Re)mata-nos a voz na metáfora de existir.
Artesianos olhos pedem queda embora impossível
Como a descrição da água em que se mergulha
Ao nela mergulhar ondulantes sedas exigem frota
Mas os dedos já longe de partir deixam-na escoar-se
Soltos de silêncio nas ravinas da sólida ansiedade
Metálicos sorrisos de rasgar a sombra, em cutelo
Ecos interiores das grutas abrigadas deste ocaso
Não outro mas o de hoje, dia das quimeras mil
Feito quadro pintado no verniz equidistante de Abril.
Onde se reflectem, sem qualquer ordem no dispor,
Flashs outonais de um resto de fogo no ocidente
Da cor de um frio próximo que se quer quente!
Chapéu Preto
Fechado o círculo das aparições difíceis,
Hoje Catarina não vai à fonte.
A guarda, concentra-se no passado ido
E próximos ambos em seu jeito de grito
Afloram a corrente das sedes que matam
A água da angústia nas gargantas secas dos segadores
Na opinião fútil do ondeado mas oblíquo oceano amarelo
Que resta restolho sob a brisa das lágrimas.
Mortal, mortal, somente a semente do esquecimento
Se dito o sino ditado que às lebres quando lado a lado
Correm o sexo não lho sabe ninguém,
Como na luta por uma vida melhor também.
O que é o homem? O que é a mulher? Tanto chapéu
Que se levanta e acena negro ao luto azul do céu...
Havia uma fotografia lá na casa da minha casa
Da casa que tinha uma casa dentro da casa
Que tinha outra casa dentro da casa com que se casa,
E nessa fotografia o olhar dentro de um olhar vindo de dentro
Como da alma da casa quando no olhar da casa entro,
Que sorria, como sorri qualquer vitória
Com ironia, num claro oxímoro da História
Feita um dia memória que se apaga de repente
De onde se escolhe a escória atirando fora gente.
Foi como ver as espigas levantarem-se do oceano.
Foi como ouvir o murmúrio do Zeca baladeiro.
Foi notar no preto chapéu do mar o mar de chapéus,
A baloiçar como naus numa dança moura de véus,
Lanternas de vermelho mágico incandescente
Partindo águas fora lançando luz de pobre braseiro
Noutras margens, noutros portos, noutros feltros
Apagando em suma a bruma dos caminhos neutros
Derramados pela queda palavrosa do tinteiro
Sobre a folha branca das letras caladas, a voz tremente
A recitar que outros tantos nadas são apenas gente.
Coisas de abrir e fechar, latas de atirar fora,
Que enquanto navegar for igualmente esperar
Dificilmente a experiência da vida nos melhora!
Quadros de olhares na demora de outros olhares
À espera que o olhar diga o que só a alma implora,
Que quem deveras quer, grita sem esperas, não chora!
Alcatruz de Esmeraldas
Havia um mundo dentro do mundo
E dentro desse mundo um jardim
E dentro desse jardim um canteiro
E dentro desse canteiro uma planta
E no cimo dessa planta uma flor
E dentro dessa flor um nome
E dentro desse nome um espelho
E dentro desse espelho o teu rosto.
Primeiro, parecia um sonho.
De seguida, uma urgência.
Agora é toda a vida
Numa salutar demência.
Do fim, ninguém o saberá,
Incluindo eu e tu somos acaso
Euclase que do ouro o brilho dá,
Cristal de lágrima onde me desfaço
E ouso, em carne viva até ao osso!
É provável... Mas digam o que disserem
Não há ninguém de quem queira, enfim
Na vida despedir-me:
Quando eu morrer, rasguem os meus poemas.
Todos! Que não quero e abomino a imortalidade.
Nem lágrimas de lástima, que das duras penas
Já me bastam as quantas em vida sofri.
Quando eu morrer, digam tão-só que morri.
Nem mais! Não quero da incerteza, a dor
Chega-me saber que foi num dia assim.
Quando eu morrer, seja a que horas for
Se algum amigo ainda por aí houver,
Então, que beba um copo por mim!
Aliteração climática
Eu persisto. Tu persistes. Ela ou ele persiste.
Nós persistimos, mas ainda não chegamos.
Falta como que o detonar dessa imagem inaudita
(Re)mata-nos a voz na metáfora de existir.
Artesianos olhos pedem queda embora impossível
Como a descrição da água em que se mergulha
Ao nela mergulhar ondulantes sedas exigem frota
Mas os dedos já longe de partir deixam-na escoar-se
Soltos de silêncio nas ravinas da sólida ansiedade
Metálicos sorrisos de rasgar a sombra, em cutelo
Ecos interiores das grutas abrigadas deste ocaso
Não outro mas o de hoje, dia das quimeras mil
Feito quadro pintado no verniz equidistante de Abril.
Onde se reflectem, sem qualquer ordem no dispor,
Flashs outonais de um resto de fogo no ocidente
Da cor de um frio próximo que se quer quente!
Chapéu Preto
Fechado o círculo das aparições difíceis,
Hoje Catarina não vai à fonte.
A guarda, concentra-se no passado ido
E próximos ambos em seu jeito de grito
Afloram a corrente das sedes que matam
A água da angústia nas gargantas secas dos segadores
Na opinião fútil do ondeado mas oblíquo oceano amarelo
Que resta restolho sob a brisa das lágrimas.
Mortal, mortal, somente a semente do esquecimento
Se dito o sino ditado que às lebres quando lado a lado
Correm o sexo não lho sabe ninguém,
Como na luta por uma vida melhor também.
O que é o homem? O que é a mulher? Tanto chapéu
Que se levanta e acena negro ao luto azul do céu...
Havia uma fotografia lá na casa da minha casa
Da casa que tinha uma casa dentro da casa
Que tinha outra casa dentro da casa com que se casa,
E nessa fotografia o olhar dentro de um olhar vindo de dentro
Como da alma da casa quando no olhar da casa entro,
Que sorria, como sorri qualquer vitória
Com ironia, num claro oxímoro da História
Feita um dia memória que se apaga de repente
De onde se escolhe a escória atirando fora gente.
Foi como ver as espigas levantarem-se do oceano.
Foi como ouvir o murmúrio do Zeca baladeiro.
Foi notar no preto chapéu do mar o mar de chapéus,
A baloiçar como naus numa dança moura de véus,
Lanternas de vermelho mágico incandescente
Partindo águas fora lançando luz de pobre braseiro
Noutras margens, noutros portos, noutros feltros
Apagando em suma a bruma dos caminhos neutros
Derramados pela queda palavrosa do tinteiro
Sobre a folha branca das letras caladas, a voz tremente
A recitar que outros tantos nadas são apenas gente.
Coisas de abrir e fechar, latas de atirar fora,
Que enquanto navegar for igualmente esperar
Dificilmente a experiência da vida nos melhora!
Quadros de olhares na demora de outros olhares
À espera que o olhar diga o que só a alma implora,
Que quem deveras quer, grita sem esperas, não chora!
Alcatruz de Esmeraldas
Havia um mundo dentro do mundo
E dentro desse mundo um jardim
E dentro desse jardim um canteiro
E dentro desse canteiro uma planta
E no cimo dessa planta uma flor
E dentro dessa flor um nome
E dentro desse nome um espelho
E dentro desse espelho o teu rosto.
Primeiro, parecia um sonho.
De seguida, uma urgência.
Agora é toda a vida
Numa salutar demência.
Do fim, ninguém o saberá,
Incluindo eu e tu somos acaso
Euclase que do ouro o brilho dá,
Cristal de lágrima onde me desfaço
E ouso, em carne viva até ao osso!
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Solução SESSENTA E QUATRO
sábado, outubro 27, 2007
O Argonauta do Sonho
Que ninguém pergunte quem sou eu
Nem como se chama aquilo que me anima,
Que sou apenas mais um marinheiro do céu
Que é o nosso mar de cima.
Ponto de rima na liça lida
Do amanhã de manhã,
Na manhã do amanhã
Moeda de troca perdida,
Perdição de não ser hoje
Que é quase de repente vida
Quanto mais de repente nos foge.
E se cedo cedi à sede de seda ser ao nu
Em teu desejo de seiva viva, alva e sã
Caminho côdea de cuidar o corpo cru,
Foi porque na roca fiei as nuvens de lã
Os novelos de enleio entre o mim e o tu,
Porquanto do sinal sugerido na sina leda
Cada estrela é por assim uma vereda
Diamante de brilho no lusco-manto violeta e malva
A ditar o sonho como única luz que deveras salva.
Que o saber é pois pura e realmente isso
Um cintilar do sentido sentir, um almejo
A incendiar a palha seca, o frágil chamiço
No fogo de ver-te, mesmo quando te não vejo!
Que ninguém pergunte quem sou eu
Nem como se chama aquilo que me anima,
Que sou apenas mais um marinheiro do céu
Que é o nosso mar de cima.
Ponto de rima na liça lida
Do amanhã de manhã,
Na manhã do amanhã
Moeda de troca perdida,
Perdição de não ser hoje
Que é quase de repente vida
Quanto mais de repente nos foge.
E se cedo cedi à sede de seda ser ao nu
Em teu desejo de seiva viva, alva e sã
Caminho côdea de cuidar o corpo cru,
Foi porque na roca fiei as nuvens de lã
Os novelos de enleio entre o mim e o tu,
Porquanto do sinal sugerido na sina leda
Cada estrela é por assim uma vereda
Diamante de brilho no lusco-manto violeta e malva
A ditar o sonho como única luz que deveras salva.
Que o saber é pois pura e realmente isso
Um cintilar do sentido sentir, um almejo
A incendiar a palha seca, o frágil chamiço
No fogo de ver-te, mesmo quando te não vejo!
terça-feira, outubro 16, 2007
Adeus
Tu que viajas no gesto indeciso
De quem parte em busca do amanhã,
Crê que o mais do mundo é o teu sorriso
Que faz com que a vida se não torne vã.
Porque eu, que já não estou aqui
Sou aquele que contigo vai (e fica);
Sou aquele que contigo também parti
E só partido ama e se multiplica.
Porque esperar é ficar, no encanto
De quanto se quer – muito, sempre... e tanto!
Casca de Nós
Há dentro de cada um, assim o outro mundo
Repleto de outros outros, diferentes, iguais...
E que ao reconhecê-lo repovoam o ser profundo
Comum a todos os seres humanos, comuns mortais.
Por isso, na concha do que somos
A pérola do que seremos mais,
Nasce, robustece, brilha do que fomos
Em reflexos vivos, cintilações de puros cristais.
Sem esgares moralistas de bem e de mal,
Mas com os olhos vítreos vertidos no sentido plural!
De Norte em Ursula (K. LeGuin)
Liberdade que posta estás no corpo da alma sem dono
E adornas o grito das flores nas ravinas da esperança,
Eu te imploro sem receios nem máscaras de adorno
Que leves meu beijo de sonho e pétalas de criança
Àquela que em desejo apenas meu crer a luz alcança,
Como se fora um dia na noite a aurora do futuro aberto,
E diz-lhe que, às vezes, o mais longe dos longes, é o perto!
Entre Utopia e Inquietação
Onde estou?
Que fizeram à caixa negra
Do meu voo?
Se tudo é norma, excepção e regra
Então porque sou
O sem-sentido perdido,
O esquecido de mim
Que caminha desmedido
Numa estrada sem fim?
As arestas dos sonhos me ferem
Me raspam a carne viva da alma...
Que enquanto fizermos o que querem
Nunca dentro de nós teremos calma.
Sonhar é isso mesmo:
Fritar o ser, pô-lo como torresmo
Ressequido a que tiraram todo o sumo,
Estaladiço, quebrado por consumo
A consumir-se estralejante e esmo.
Onde estou?
Que fizeram à caixa negra
Do meu voo?
Se aquela que era
Da era grega
Já não sou,
Então porque vou
No grito que ecoou
Como pura regra que agrega
Quem de si partiu e partindo-se voou
E se uniu até que soou?
Sonhar é isso:
Perder qualquer perdão...
Hipotecar o esboço, o esquisso,
Pondo a sinédoque ao seu serviço,
Trocando o todo pelo quinhão.
É a simples máscara da Utopia
A inventar que somos originais
Na multidão dos comuns do dia a dia,
Quando afinal só na ilusão somos mais
Que em tudo o resto somos iguais
Num mundo real e despido de fantasia!
Tu que viajas no gesto indeciso
De quem parte em busca do amanhã,
Crê que o mais do mundo é o teu sorriso
Que faz com que a vida se não torne vã.
Porque eu, que já não estou aqui
Sou aquele que contigo vai (e fica);
Sou aquele que contigo também parti
E só partido ama e se multiplica.
Porque esperar é ficar, no encanto
De quanto se quer – muito, sempre... e tanto!
Casca de Nós
Há dentro de cada um, assim o outro mundo
Repleto de outros outros, diferentes, iguais...
E que ao reconhecê-lo repovoam o ser profundo
Comum a todos os seres humanos, comuns mortais.
Por isso, na concha do que somos
A pérola do que seremos mais,
Nasce, robustece, brilha do que fomos
Em reflexos vivos, cintilações de puros cristais.
Sem esgares moralistas de bem e de mal,
Mas com os olhos vítreos vertidos no sentido plural!
De Norte em Ursula (K. LeGuin)
Liberdade que posta estás no corpo da alma sem dono
E adornas o grito das flores nas ravinas da esperança,
Eu te imploro sem receios nem máscaras de adorno
Que leves meu beijo de sonho e pétalas de criança
Àquela que em desejo apenas meu crer a luz alcança,
Como se fora um dia na noite a aurora do futuro aberto,
E diz-lhe que, às vezes, o mais longe dos longes, é o perto!
Entre Utopia e Inquietação
Onde estou?
Que fizeram à caixa negra
Do meu voo?
Se tudo é norma, excepção e regra
Então porque sou
O sem-sentido perdido,
O esquecido de mim
Que caminha desmedido
Numa estrada sem fim?
As arestas dos sonhos me ferem
Me raspam a carne viva da alma...
Que enquanto fizermos o que querem
Nunca dentro de nós teremos calma.
Sonhar é isso mesmo:
Fritar o ser, pô-lo como torresmo
Ressequido a que tiraram todo o sumo,
Estaladiço, quebrado por consumo
A consumir-se estralejante e esmo.
Onde estou?
Que fizeram à caixa negra
Do meu voo?
Se aquela que era
Da era grega
Já não sou,
Então porque vou
No grito que ecoou
Como pura regra que agrega
Quem de si partiu e partindo-se voou
E se uniu até que soou?
Sonhar é isso:
Perder qualquer perdão...
Hipotecar o esboço, o esquisso,
Pondo a sinédoque ao seu serviço,
Trocando o todo pelo quinhão.
É a simples máscara da Utopia
A inventar que somos originais
Na multidão dos comuns do dia a dia,
Quando afinal só na ilusão somos mais
Que em tudo o resto somos iguais
Num mundo real e despido de fantasia!
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Solução SETENTA E SETE
terça-feira, outubro 09, 2007
Grito escutado gritando
Não... Não quero mais ser pintor
De sonhos
Quero parte activa em teu corpo
Inacabado estou e ele está
Estará
Estaremos sempre se sós
Pusermos aqui
Os fantasmas... Sim os fantasmas morrem
Quando abrimos a boca
Na boca das coxas delirantes e trementes
Exultantes de sôfrego espasmo
Do sonhado, ostra quente
Grito gritado e fulgente.
Não esqueças nunca quem somos
Somos a génese do mito
E gritamos o estertor convulso
De inventar o abismo no corpo desejado
Que deseja a revulsão de ser inventado
Na tumescência viva dos lábios que o percorrem
E desvendam
Os olhos vendados pelo sonho
Persigo cada poro da tua cútis como um cego
Rendido escravo que implora a morte
Que se imola no fogo que nos arde.
Escuta-me escorrente de auroras liquefeitas
Abraços que doem parar
Descomandado de mim
Apenas sei o caminho da tua vontade
Que regresso a casa sempre que me chamas
Em chamas perdido por perder-me.
Não, já não sei ser pintor de teu corpo
Mas antes tinta lava que lhe pertence
Se lhe submete possesso e desenfreado
Cavalo incandescente que nos transporta
Para lá da planície derretendo o vermelho barro.
Sucumbo. Sucumbo e tombo varrido
Pelo sopro do teu grito no incêndio da voz
Que me estraçalha a ânfora dos restos ancestrais
O vaso que guarda o princípio do tempo
Que o tempo infindo dos séculos foi pouco para apagar
Brasa que acende o fogo da eternidade nos teus olhos
Mergulhados nos meus até perder-me de quem sou
Esquecido de ser no assim explodido do fim renascido.
Quero a brutalidade de não querer nada
Além de entregar-me todo ao teu querer
O suplício húmido de teu sofreguido verbo
Que me conjuga e envolve e manieta e diz
A pulsar a selvagem imensidão do para lá do lá.
Não, não quero mais ser o pintor
De teu corpo na inconquista apagado,
Que prefiro ser dele o que lhe brota em amor
No gesto inequívoco de um conquistador
Conquistado.
Sei que enquanto houver esperança na esperança,
Enquanto houver um sei que sabes que sei qualquer,
Enquanto a fé gerar a magia do adorador adorado,
O sedutor seduzido, nunca deixarás de ser a criança
Retouça irreverente que adiou ser gente em ser mulher.
Não, não quero mais ter-te inerte ao fim do dia,
Como coisa sem vontade, sem desejo, que crê haver mal
Em possuir o beijo da ousadia, em plantar plural
Onde apenas na aridez do género um existia.
Quero-te aqui por imposição a querer-me
Que vencer-te é um saber que me venci
Tendo-me a querer-te quando me queres dentro de ti.
Quero-te aqui, como tu apenas sabes estar
A inventar o mundo por inventar
Proferindo o grito infinito de nascer,
Que o futuro é um presente a gritar
Que amanhã também quer e pode viver.
Quero-te aqui possível no impossível imenso
Batalhando o corpo até raiar o nome, no grito
De rasgar como raio o nevoeiro denso
Partindo muro sobre muro e chegar ao infinito.
A escrever teu gesto, na areia do tempo
No mar da lua
Na pressa da rua
Na multidão do ar
No átimo do poder
No ouro do olhar
No fito de vencer
No rito de viver
No possuir sem crer
Querendo para ter
Em aqui e agora
Sem sempre nem nunca
Num hoje vida fora.
Quero-te para te querer
Como quem tem para crer
E ao ter crê que tem
Um ser por ser teu também
Sendo os dois de ninguém!
Mãos nas mãos, grito no grito
Como corpo no corpo possuído,
Que a salvação é estar aflito
E no gritar do outro ser ouvido!
Não... Não quero mais ser pintor
De sonhos
Quero parte activa em teu corpo
Inacabado estou e ele está
Estará
Estaremos sempre se sós
Pusermos aqui
Os fantasmas... Sim os fantasmas morrem
Quando abrimos a boca
Na boca das coxas delirantes e trementes
Exultantes de sôfrego espasmo
Do sonhado, ostra quente
Grito gritado e fulgente.
Não esqueças nunca quem somos
Somos a génese do mito
E gritamos o estertor convulso
De inventar o abismo no corpo desejado
Que deseja a revulsão de ser inventado
Na tumescência viva dos lábios que o percorrem
E desvendam
Os olhos vendados pelo sonho
Persigo cada poro da tua cútis como um cego
Rendido escravo que implora a morte
Que se imola no fogo que nos arde.
Escuta-me escorrente de auroras liquefeitas
Abraços que doem parar
Descomandado de mim
Apenas sei o caminho da tua vontade
Que regresso a casa sempre que me chamas
Em chamas perdido por perder-me.
Não, já não sei ser pintor de teu corpo
Mas antes tinta lava que lhe pertence
Se lhe submete possesso e desenfreado
Cavalo incandescente que nos transporta
Para lá da planície derretendo o vermelho barro.
Sucumbo. Sucumbo e tombo varrido
Pelo sopro do teu grito no incêndio da voz
Que me estraçalha a ânfora dos restos ancestrais
O vaso que guarda o princípio do tempo
Que o tempo infindo dos séculos foi pouco para apagar
Brasa que acende o fogo da eternidade nos teus olhos
Mergulhados nos meus até perder-me de quem sou
Esquecido de ser no assim explodido do fim renascido.
Quero a brutalidade de não querer nada
Além de entregar-me todo ao teu querer
O suplício húmido de teu sofreguido verbo
Que me conjuga e envolve e manieta e diz
A pulsar a selvagem imensidão do para lá do lá.
Não, não quero mais ser o pintor
De teu corpo na inconquista apagado,
Que prefiro ser dele o que lhe brota em amor
No gesto inequívoco de um conquistador
Conquistado.
Sei que enquanto houver esperança na esperança,
Enquanto houver um sei que sabes que sei qualquer,
Enquanto a fé gerar a magia do adorador adorado,
O sedutor seduzido, nunca deixarás de ser a criança
Retouça irreverente que adiou ser gente em ser mulher.
Não, não quero mais ter-te inerte ao fim do dia,
Como coisa sem vontade, sem desejo, que crê haver mal
Em possuir o beijo da ousadia, em plantar plural
Onde apenas na aridez do género um existia.
Quero-te aqui por imposição a querer-me
Que vencer-te é um saber que me venci
Tendo-me a querer-te quando me queres dentro de ti.
Quero-te aqui, como tu apenas sabes estar
A inventar o mundo por inventar
Proferindo o grito infinito de nascer,
Que o futuro é um presente a gritar
Que amanhã também quer e pode viver.
Quero-te aqui possível no impossível imenso
Batalhando o corpo até raiar o nome, no grito
De rasgar como raio o nevoeiro denso
Partindo muro sobre muro e chegar ao infinito.
A escrever teu gesto, na areia do tempo
No mar da lua
Na pressa da rua
Na multidão do ar
No átimo do poder
No ouro do olhar
No fito de vencer
No rito de viver
No possuir sem crer
Querendo para ter
Em aqui e agora
Sem sempre nem nunca
Num hoje vida fora.
Quero-te para te querer
Como quem tem para crer
E ao ter crê que tem
Um ser por ser teu também
Sendo os dois de ninguém!
Mãos nas mãos, grito no grito
Como corpo no corpo possuído,
Que a salvação é estar aflito
E no gritar do outro ser ouvido!
quinta-feira, outubro 04, 2007
Nascimento de Vénus
O silêncio desperta, a noite calada avança...
No fundo, no íntimo de cada um
A força irrefutável de estar presente: só
Apenas gesto, silhueta que se apaga ao cair
Morrão de cinza entre dedos que se esquecem,
Olhar perdido entre as nuvens e a planície
Andorinha em voo que cruza a moldura da janela
«Vhuuummm!!...» de carro que passa na estrada
A esconder-se no silêncio que fica depois.
O catarro do vizinho no subir das escadas
Recorda que as convulsões do corpo de vãs
Somente têm a indiferença que lhe votamos;
Resfolegante o prédio como um paquiderme
Cansado exala os odores do jantar prestes.
O indicativo do telejornal apaga a ausência
A campainha do terceiro andar besoura e retine
Uma formiga de asa deambula no peitoril da janela.
Batem os saltos de alguém que passeia o cão
Sem pressa num compasso de espera incerta.
Mas do alto desta quietude de borracha fria
Que raspa e desvanece as impressões do dia,
Silenciado nos ecos da memória de ninguém,
Do escurecer nasce a estrela que antes não via
Lembrado-me que quem se não dá, nunca se tem!
O silêncio desperta, a noite calada avança...
No fundo, no íntimo de cada um
A força irrefutável de estar presente: só
Apenas gesto, silhueta que se apaga ao cair
Morrão de cinza entre dedos que se esquecem,
Olhar perdido entre as nuvens e a planície
Andorinha em voo que cruza a moldura da janela
«Vhuuummm!!...» de carro que passa na estrada
A esconder-se no silêncio que fica depois.
O catarro do vizinho no subir das escadas
Recorda que as convulsões do corpo de vãs
Somente têm a indiferença que lhe votamos;
Resfolegante o prédio como um paquiderme
Cansado exala os odores do jantar prestes.
O indicativo do telejornal apaga a ausência
A campainha do terceiro andar besoura e retine
Uma formiga de asa deambula no peitoril da janela.
Batem os saltos de alguém que passeia o cão
Sem pressa num compasso de espera incerta.
Mas do alto desta quietude de borracha fria
Que raspa e desvanece as impressões do dia,
Silenciado nos ecos da memória de ninguém,
Do escurecer nasce a estrela que antes não via
Lembrado-me que quem se não dá, nunca se tem!
sábado, setembro 29, 2007
Mito do Eterno Retorno
Retomo o amor. Um passo atrás – ou à frente –, um gesto rápido, um olhar de viés. Percorro o mesmo mundo que tu: todos os mares são masculinos, e toda a terra é feminina. Pacífico, Vermelho, Índico, Atlântico, Mediterrâneo, Negro, Egeu – esses sou eu. Tu és Europa, Ásia, Oceania, América, África. Sou água, tu és terra. Fizemos um acordo há mais de 50 000 anos – lembras-te?... Andávamos nós nas cavernas: éramos dois seres que caminhavam em sentido convexo, trazendo cada um seu lobo/a enjaulados nas grades do tórax, um animal impulsivo que constantemente se nos atirava às costelas, nos rasgava as entranhas com suas unhas de fogo, e se acaso nos encontrávamos, estacando frente a frente, saltavam, quais feras de lascívia felina, copulavam a nossos pés, enquanto nós ficávamos estáticos, como se nada estivesse a acontecer-nos; depois, voltavam a entrar nas suas (nossas) jaulas e partíamos, sem que tampouco nos houvéssemos tocado... Lembras-te? – de nos não deixarmos ferir pela redundância do pó, do esquecimento, da cinza ou do fogo. Desse contrato nasceram cidades, leis e telas, algumas dulcissimamente cruéis, e marés.
E fomos tudo. Tudo!
Agora, eis-nos resumidos ao átomo ebuliente e abúlico da infinita espiral...
Voltemos atrás: retomemos o amor.
***** ***** *****
Penso numa criança. Tem a idade das flores primaveris, e os gestos simples do vaguear por aí. Usa as mãos como se fossem olhos, e trauteia sílabas sem nexo de uma canção de jazz. Conta os dedos pelos dias e anda sempre, sempre, sempre, sempre. Já sabe dizer verdade, e às vezes deita-se no colo do nome, que nem estivesse no convés de alguma nau, para viajar à tona do real, e quer haja luar, breu, bonança ou tempestade, os gestos mantêm a expressão do vaguear por aí. Quando se chateia, sopra o sol e adormece. É a única altura em que me é permitido aproximar-me dela... Ela não me pode ver, porque ainda não crê que há morte, necessidade, luta, poder, ironia, drama, tragédia, ciência, trabalho, dinheiro, sabedoria, liberdade, igualdade, segurança, álcool, tabaco, história, ciência, arte, quotidiano e matemática. Por isso, enquanto dorme, fio perto dela, quedo, silencioso, e a observá-la – digo, bebê-la. Se casualmente mexe ou suspira, inquieto-me, sobressalto-me. Se noto que vai despertar, afasto-me sem ruidar.
Ontem, estava ela a dormir, mexeu-se, o tronco em revulsão, os braços erguidos, e balbuciou:
– A... MO... TE...
Pensei em ti. Achei que era magia, e que ela adivinhava o pensamento alheio. Então, afastei-me, não fosse ela acordar...
Retomo o amor. Um passo atrás – ou à frente –, um gesto rápido, um olhar de viés. Percorro o mesmo mundo que tu: todos os mares são masculinos, e toda a terra é feminina. Pacífico, Vermelho, Índico, Atlântico, Mediterrâneo, Negro, Egeu – esses sou eu. Tu és Europa, Ásia, Oceania, América, África. Sou água, tu és terra. Fizemos um acordo há mais de 50 000 anos – lembras-te?... Andávamos nós nas cavernas: éramos dois seres que caminhavam em sentido convexo, trazendo cada um seu lobo/a enjaulados nas grades do tórax, um animal impulsivo que constantemente se nos atirava às costelas, nos rasgava as entranhas com suas unhas de fogo, e se acaso nos encontrávamos, estacando frente a frente, saltavam, quais feras de lascívia felina, copulavam a nossos pés, enquanto nós ficávamos estáticos, como se nada estivesse a acontecer-nos; depois, voltavam a entrar nas suas (nossas) jaulas e partíamos, sem que tampouco nos houvéssemos tocado... Lembras-te? – de nos não deixarmos ferir pela redundância do pó, do esquecimento, da cinza ou do fogo. Desse contrato nasceram cidades, leis e telas, algumas dulcissimamente cruéis, e marés.
E fomos tudo. Tudo!
Agora, eis-nos resumidos ao átomo ebuliente e abúlico da infinita espiral...
Voltemos atrás: retomemos o amor.
***** ***** *****
Penso numa criança. Tem a idade das flores primaveris, e os gestos simples do vaguear por aí. Usa as mãos como se fossem olhos, e trauteia sílabas sem nexo de uma canção de jazz. Conta os dedos pelos dias e anda sempre, sempre, sempre, sempre. Já sabe dizer verdade, e às vezes deita-se no colo do nome, que nem estivesse no convés de alguma nau, para viajar à tona do real, e quer haja luar, breu, bonança ou tempestade, os gestos mantêm a expressão do vaguear por aí. Quando se chateia, sopra o sol e adormece. É a única altura em que me é permitido aproximar-me dela... Ela não me pode ver, porque ainda não crê que há morte, necessidade, luta, poder, ironia, drama, tragédia, ciência, trabalho, dinheiro, sabedoria, liberdade, igualdade, segurança, álcool, tabaco, história, ciência, arte, quotidiano e matemática. Por isso, enquanto dorme, fio perto dela, quedo, silencioso, e a observá-la – digo, bebê-la. Se casualmente mexe ou suspira, inquieto-me, sobressalto-me. Se noto que vai despertar, afasto-me sem ruidar.
Ontem, estava ela a dormir, mexeu-se, o tronco em revulsão, os braços erguidos, e balbuciou:
– A... MO... TE...
Pensei em ti. Achei que era magia, e que ela adivinhava o pensamento alheio. Então, afastei-me, não fosse ela acordar...
quinta-feira, setembro 27, 2007
Lançamento germinal
Vê. É o Verão saudoso da Primavera,
Um Outono de "ainda não"
Enleado na teia dos (a)braços da quimera;
Na invenção da sinestesia salutar
Caos dessa sinfonia de cor sobre a terra
Ocupando os (es)pa(ç)ssos de amar.
É uma forma oval e morena.
É um odor a Algarve serrano.
É um ritmo de esteva no desengano
Do vento que agita a silhueta pequena
Da gestora em fim de curso (e ano).
E sobre ela a névoa descai
Da incerteza no futuro presente.
Tremem-lhe as folhas onde a brisa vai
Derrubar ao chão a sua semente.
Gota de orvalho que mareja os olhos
Irriga as faces com a água dos sonhos.
Abraço teu rosto, meto-o peito adentro
Para te guardar, na certeza de quem gosto
Há-de ser semente a germinar
Num celeiro em que só eu entro!
Quero-me chão de pousio inocente
Onde nunca avele pelo frio
Nem lhe queime o estio
Teu jeito simples de lutar – e ser gente.
Sustenido verbo a soletrar mansinho
O patrício cicio que sustenta meu ninho.
Meu ínfimo lar, pensamento rimado
De poeta sem ânsia de muito ser
A não ser este desejo de dentro de si ter
Teu ser em mim, no coração marcado.
Para te poder rever
Sempre que saudades tiver
De quem por mais desejei ser desejado.
Janela virada para o sul da brisa calma
Por onde entrará a certeza esperança,
Que ser adulto é abrir, e entregar a alma
À capacidade de amar que nem criança!
Vê. É o Verão saudoso da Primavera,
Um Outono de "ainda não"
Enleado na teia dos (a)braços da quimera;
Na invenção da sinestesia salutar
Caos dessa sinfonia de cor sobre a terra
Ocupando os (es)pa(ç)ssos de amar.
É uma forma oval e morena.
É um odor a Algarve serrano.
É um ritmo de esteva no desengano
Do vento que agita a silhueta pequena
Da gestora em fim de curso (e ano).
E sobre ela a névoa descai
Da incerteza no futuro presente.
Tremem-lhe as folhas onde a brisa vai
Derrubar ao chão a sua semente.
Gota de orvalho que mareja os olhos
Irriga as faces com a água dos sonhos.
Abraço teu rosto, meto-o peito adentro
Para te guardar, na certeza de quem gosto
Há-de ser semente a germinar
Num celeiro em que só eu entro!
Quero-me chão de pousio inocente
Onde nunca avele pelo frio
Nem lhe queime o estio
Teu jeito simples de lutar – e ser gente.
Sustenido verbo a soletrar mansinho
O patrício cicio que sustenta meu ninho.
Meu ínfimo lar, pensamento rimado
De poeta sem ânsia de muito ser
A não ser este desejo de dentro de si ter
Teu ser em mim, no coração marcado.
Para te poder rever
Sempre que saudades tiver
De quem por mais desejei ser desejado.
Janela virada para o sul da brisa calma
Por onde entrará a certeza esperança,
Que ser adulto é abrir, e entregar a alma
À capacidade de amar que nem criança!
quarta-feira, setembro 26, 2007
Soneto da Abelhinha
Na atmosfera matinal e resplandecente
Deambulava com seu zumbido constante,
Uma abelha cor de ouro frio, cortante,
Mas de límpido bater de asas, transparente.
Voava livre, pura, sensata, mas de repente
Avistou no campo flor de cor berrante.
Então, sem deixar morrer minuto, instante
Desceu do astral reino, tendo em mente
Sugar-lhe o onírico pólen, de perlas melado
Em repasto para o seu sempre insatisfeito
Desejo de voar-lhe, em pirueta, dentro do peito.
Enfim, nas pétalas jungidas, em abraço rodeado
O açúcar silvestre em líquido mel transformou,
Até ficar cheia. Depois... – depois voou!...
Na atmosfera matinal e resplandecente
Deambulava com seu zumbido constante,
Uma abelha cor de ouro frio, cortante,
Mas de límpido bater de asas, transparente.
Voava livre, pura, sensata, mas de repente
Avistou no campo flor de cor berrante.
Então, sem deixar morrer minuto, instante
Desceu do astral reino, tendo em mente
Sugar-lhe o onírico pólen, de perlas melado
Em repasto para o seu sempre insatisfeito
Desejo de voar-lhe, em pirueta, dentro do peito.
Enfim, nas pétalas jungidas, em abraço rodeado
O açúcar silvestre em líquido mel transformou,
Até ficar cheia. Depois... – depois voou!...
Mito da Conjugação Conseguinte
Para além de ti e de mim
Dos sonhos que não fomos
Dos gritos que não soubemos murmurar
Há um mundo esfarrapado de lata-dor-morte.
Para além de ti e de mim
Há o baile de más/caras e papéis
Há a guerra e paz dos locais públicos e cafés.
Mas, muito para além, de ti e de mim,
Das coisas, das cruzes e da sorte
Há o verbo nós
... A palavra –
Eu-nós somos
Tu-nós queremos
Ela/Ele-nós podemos
Nós-nós fazemos
Vós-nós temos
Elas/Eles-nós vamos – infinitamente
Conjugada nas mãos do sangue que nos corre livremente.
Mãos dadas porque dados nos demos
Não nos vendemos nem nos trocámos
E, então, assim tomados, conseguimos!
Para além de ti e de mim
Dos sonhos que não fomos
Dos gritos que não soubemos murmurar
Há um mundo esfarrapado de lata-dor-morte.
Para além de ti e de mim
Há o baile de más/caras e papéis
Há a guerra e paz dos locais públicos e cafés.
Mas, muito para além, de ti e de mim,
Das coisas, das cruzes e da sorte
Há o verbo nós
... A palavra –
Eu-nós somos
Tu-nós queremos
Ela/Ele-nós podemos
Nós-nós fazemos
Vós-nós temos
Elas/Eles-nós vamos – infinitamente
Conjugada nas mãos do sangue que nos corre livremente.
Mãos dadas porque dados nos demos
Não nos vendemos nem nos trocámos
E, então, assim tomados, conseguimos!
terça-feira, setembro 25, 2007
Diapausa poética (obrigatória)
Beijei-te como se beija tudo de madrugada.
Com esperança. Com a esperança intuitiva, crida
Fé, e o determinismo arreigado das gentes da terra.
Foste-me cara. Portanto autoridade no assunto dos corpos
Que se entrelaçam dependurados da certeza e do erro
Como cachos de ignorância madura no Setembro vindimado
Preconceito a preconceito. Mas tive que abandonar-te
Perder o meu amor de juventude pintado em verde tolhido.
Agora sei que o teu caminho não é o meu caminho quando
Caminho e expectativas nunca serão as mesmas em nós
Tudo é contrário desde a lógica ao processamento mental.
Descobri que a autocrítica está em cada um dos meus passos
Vacilante é este saber conjectural que me ultrapassa
Em que os erros são escaladas importantes pra conseguir algo
Que nem eu sei mas é precisamente por eles e neles que aprendo
A ser quem sou, me provoco aberto e diferente,
Inequívoco resultado de mutação e escolha sem escolher.
Não acredito, nem nada sei por projecção do particular no geral,
Em leis imutáveis derivadas dos astrolábios estatísticos.
E as minhas teorias, hipóteses, insinuações, poderão ser falsas
Ou verdadeiras mas sempre autênticas provas da impulsão
Não compulsiva, não dádivas dos deuses ou da experiência
Breves arranha-céus na arquitectura do sonho lesto. E ledo.
A priori serei tão responsável e emancipado como a posteriori
Porque tudo o que em mim foi assimilado deixou de ser pertença
Exteriores são em mim as declarações com que produzo a verdade
A minha verdade objectiva, rigorosa, intransmissível, postular
Manifesto dos sentidos para melhor saber
O combate profícuo ao conhecimento seguro
À intolerância
Ao sofisma
À petulância
À desonestidade
À arrogância
Ao preconceito
Às vacas sagradas
Aos intitulados titulares
À percepção motivada
E à presunção intelectual.
Pois jamais me permitirei imperar sobre os três reinos
Paxá do espírito, califa do verbo, general da matéria
Mas sempre o escriba copista, aritmético e agrimensor
Astrólogo das cheias e do sonho no granito das esfinges,
Contabilista de oferendas e guardião de celeiros
Humilde e incansável que se refaz do inundado delta
Foz de teu corpo em que desaguo como vocifero cesto de luz.
Ver é ser – e ser é tudo quanto se vê
Cada silêncio é mais silêncio
Se nele houver a reserva tímida
De quem por réstias espigas de senso
Deseja aprender a desfolhar a dúvida.
E eu, aqui duvido, num retiro imenso
Refulgir de fulgor irremediável e intenso
De nova crença mais perto da vida...
Duvido que aqui não estejas dividida
Pelo écran, na jorro de luz que da janela vem,
Pelo clicar da escrita e da razão também.
Duvido que tuas não sejam as formas que vejo.
Duvido porque te conheço, me conheço e reconheço,
Como quem sabe onde é seu fim e seu começo,
Porque saber é ver como és, e ser teu (no desejo).
Beijei-te como se beija tudo de madrugada.
Com esperança. Com a esperança intuitiva, crida
Fé, e o determinismo arreigado das gentes da terra.
Foste-me cara. Portanto autoridade no assunto dos corpos
Que se entrelaçam dependurados da certeza e do erro
Como cachos de ignorância madura no Setembro vindimado
Preconceito a preconceito. Mas tive que abandonar-te
Perder o meu amor de juventude pintado em verde tolhido.
Agora sei que o teu caminho não é o meu caminho quando
Caminho e expectativas nunca serão as mesmas em nós
Tudo é contrário desde a lógica ao processamento mental.
Descobri que a autocrítica está em cada um dos meus passos
Vacilante é este saber conjectural que me ultrapassa
Em que os erros são escaladas importantes pra conseguir algo
Que nem eu sei mas é precisamente por eles e neles que aprendo
A ser quem sou, me provoco aberto e diferente,
Inequívoco resultado de mutação e escolha sem escolher.
Não acredito, nem nada sei por projecção do particular no geral,
Em leis imutáveis derivadas dos astrolábios estatísticos.
E as minhas teorias, hipóteses, insinuações, poderão ser falsas
Ou verdadeiras mas sempre autênticas provas da impulsão
Não compulsiva, não dádivas dos deuses ou da experiência
Breves arranha-céus na arquitectura do sonho lesto. E ledo.
A priori serei tão responsável e emancipado como a posteriori
Porque tudo o que em mim foi assimilado deixou de ser pertença
Exteriores são em mim as declarações com que produzo a verdade
A minha verdade objectiva, rigorosa, intransmissível, postular
Manifesto dos sentidos para melhor saber
O combate profícuo ao conhecimento seguro
À intolerância
Ao sofisma
À petulância
À desonestidade
À arrogância
Ao preconceito
Às vacas sagradas
Aos intitulados titulares
À percepção motivada
E à presunção intelectual.
Pois jamais me permitirei imperar sobre os três reinos
Paxá do espírito, califa do verbo, general da matéria
Mas sempre o escriba copista, aritmético e agrimensor
Astrólogo das cheias e do sonho no granito das esfinges,
Contabilista de oferendas e guardião de celeiros
Humilde e incansável que se refaz do inundado delta
Foz de teu corpo em que desaguo como vocifero cesto de luz.
Ver é ser – e ser é tudo quanto se vê
Cada silêncio é mais silêncio
Se nele houver a reserva tímida
De quem por réstias espigas de senso
Deseja aprender a desfolhar a dúvida.
E eu, aqui duvido, num retiro imenso
Refulgir de fulgor irremediável e intenso
De nova crença mais perto da vida...
Duvido que aqui não estejas dividida
Pelo écran, na jorro de luz que da janela vem,
Pelo clicar da escrita e da razão também.
Duvido que tuas não sejam as formas que vejo.
Duvido porque te conheço, me conheço e reconheço,
Como quem sabe onde é seu fim e seu começo,
Porque saber é ver como és, e ser teu (no desejo).
sexta-feira, setembro 07, 2007
Oferenda
Ontem, paguei trinta maidins pelo teu colar
Na loja do artesão Maïa ao lado do templo,
Arina emana agora a luz do teu pescoço de gazela
Descem raios como plumas no vale dos teus seios
Brilha-te o sorriso quando altiva fitas o ocaso
Despes o violeta ao lusco-fusco e ensinas o ventre
Às gotículas de água cristalina que te perlam a derme,
Mulher lei de ler cada verso de teus cabelos nos ombros
Descidos, o desalinhado solto a rimar-te no dorso
Quando flectes o tronco içando os lábios aos céus
O queixo entre espasmos de gritar a nobreza sôfrega
Soberana dum grito que nos explode dentro do pulsar
Revulsão de entrega no rigor do gesto anunciador
Grito gritado de implorar o sonho febril e sequioso.
As cinco partes de nós reunidas ao toque da alvorada
Nascente planície da carícia líquido mel de tua púbis
Emaranhada mata de mistério e frescura ensolarada!
Ontem, paguei trinta maidins pelo teu colar
Na loja do artesão Maïa ao lado do templo,
Arina emana agora a luz do teu pescoço de gazela
Descem raios como plumas no vale dos teus seios
Brilha-te o sorriso quando altiva fitas o ocaso
Despes o violeta ao lusco-fusco e ensinas o ventre
Às gotículas de água cristalina que te perlam a derme,
Mulher lei de ler cada verso de teus cabelos nos ombros
Descidos, o desalinhado solto a rimar-te no dorso
Quando flectes o tronco içando os lábios aos céus
O queixo entre espasmos de gritar a nobreza sôfrega
Soberana dum grito que nos explode dentro do pulsar
Revulsão de entrega no rigor do gesto anunciador
Grito gritado de implorar o sonho febril e sequioso.
As cinco partes de nós reunidas ao toque da alvorada
Nascente planície da carícia líquido mel de tua púbis
Emaranhada mata de mistério e frescura ensolarada!
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