A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

terça-feira, novembro 17, 2009



Neste sorriso juvenil e pacato
Existe um olhar triste de gaiato
Que me rasga e me desfralda
A vontade de viver e de vencer;


Por baixo deste véu alegre
Com que não deixo transparecer
A mágoa, a incerteza e a febre
Que me vai na alma inconformada,

Há um acto de abandonado ser
A construir a última sólida solidão.


Como foi que o encontrei? Sem querer
À custa de responsabilidade e repressão.
E tudo isso, porque apenas quis ser o ver
A instantânea fresta de um grão e outro grão
Numa película do sonho sem negativo
A revelar tua face de estrela intemporal
Curva de acontecido brilho sensitivo
Com que voo para além do bem e do mal!

sábado, novembro 14, 2009


(Esboço de Fotografia)


Há muita gente a quem...
A infância já morreu!
E do S O S dos olhos
Partem mãos dum sonho
O revés duma imagem que se esgueira.


Mas em nós nunca ela!
Sucumbirá. Um virar de página
Um sorriso, uma recusa
Uma vela que se apaga:


Mas nunca! Nunca perderemos o ar...
Sermos inocentes é um vento
Uma aguarela que nos envolve.


A morte cai-nos aos pés...
Como se chama aquela árvore
Ali, seca quase fogo?


É que no fundo, não posso perder-te
E eu sei: resoluta era a sombra
Porque não sabia esquecer a forma.

sexta-feira, novembro 13, 2009



O meu sentir tem o cheiro das brisas do mar azul indomesticável
E os trejeitos simples das papoilas silvestres das searas trigueiras
De quando o vento sussurra intrigas à planície luminosa e fértil
Plena de maresia e sôfrega de meus olhos em si derretidos e desmaiados


E veste os mantos do negro estudantil em que esvoaça liberta
Afinando as horas pelo Abril de balada que ao fado acerta.
E joga comigo ao esconde-esconde de janela em janela, estar e ir,
Essa que eu mil vezes fixo nos fins-de-semana e feriados longos
Como se ela fosse a resolução de todos os meus problemas e hiatos.
Qualquer coisa como a moldura única de todas as minhas narrativas.
Universo ilimitado para o jogo de todas as minhas metáforas e elipses.
Campo de batalha para todas as minhas alegorias, imagens e sinédoques.
E comparações e prosopopeias e metonímias e ironias e alucinações.


Que nem ela fosse a revelação dos sonhos nas milhares de galáxias
Por descobrir e desvendar à plenitude dos corpos e das planícies
Ao infinito brilho de estrela que há em seus olhos de medir o céu.


Porque transporta consigo a esperança e fulgor dos ancestrais
Os genes que me faltavam para eu resumir a história da humanidade
Num só capítulo, todo ele de ir à escola e brincar pelas veredas
Correr pelas estradas à desfilada com o vento, voando sobre as estepes
Acendendo aqui e ali pequenos nenúfares de estames solfejados
Assobios de canoras aves ao despique com a madrugada que vestes
Mantos de violetas bravas sobre as muralhas de qualquer colina.

Vê a manhã colorida pelas casas
Duma rua de sol, cães vagabundos,
Bolas aos hexágonos escorrendo nas valetas
E bicicletas estacionadas sem ordem nem zelo.

É aí que eu resido e me demoro
Quando tudo aquilo que tenho
A fazer é deveras mais importante.

Nunca obedeço aos imperativos da disciplina
Numa manhã assim sou anarquista
Para almoçar como um nobre burguês
E deitar-me pouco depois de descambar
Na crítica materialista e no socialismo.

Ao adormecer sou sempre comunista
Para que os sonhos madrugadores me libertem
Da opressão de Estado e possa erguer-me
Sem mácula, arrependimento, saudades.

Finalmente kitsch, na manhã soalheira
Os olhos condoídos mas a alma limpa.

quinta-feira, novembro 12, 2009



A descoberto da sombra a luz
Procura teu corpo de mar e sol
Percorrendo o negro de uns olhos nus
Com que te vejo sob o lençol
Branco de minhas velas empoladas
Ao vento das vozes desejadas.


Tens no teu corpo o crioulo invencível
Que transforma o chumbo em ouro
E no leito de teus sonhos o louro
Das vitórias sobre o impossível;
E alcanças até com teus medos
Aquilo que outros querem sôfregos
Com o poder e raiva de seus dedos...



Mas não só quando altiva desfilas
Entre as demais se nota o queixume,
Diferente é também o perfume
Solitário dos beijos que destilas
Em vapor de subir ainda além
Do céu, do sonho e do amor
: ÁMEN!!


És prece pagã, noite bárbara
África morena em pleno dia
Escorrendo música do andar,
Ritmo da terra, beijo de mar,
Incêndio lúdico na tártara
Obrigação de ser a poesia.


E talvez por isso sempre também
Quando da noite procuro a luz
Sejam teus olhos que de longe vêm
Dar-me a esperança pela cruz
Que te dei no tempo do ainda
Pura do pecado que nos finda.

quarta-feira, novembro 11, 2009



Há sempre livros possíveis de abrir
Entre nossas mãos aperradas
Um sorriso jovial, um sei-lá! no esquecimento da rua
Roubado sou quando me lembras o computador
Distante, sobre a mesa apenas a luz a vazar dos claustros


Podia minha voz sussurrar-te outros longes
A distância transponível na versatilidade de um pergaminho
A minha cabeça entre papiros foscos o teu colo convergente
Alinhavadas pérolas frescas em gotas orvalhadas.



Mas há sempre um MAS
Que a vida tece
Com as linhas que nos pede emprestadas
E tu não me escutas, nem eu repouso...


Por isso, nas horas vagas
Em que me alinhavo e descoso
Continuamente visando o mar e as vagas
Em que vou e venho
Um rumo me impele, e ouso...


E sonho...
... E tenho.





É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanha-escura escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.



É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.



Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “podes ser tu a tocar”
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano,
thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.




Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.



É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
«Eu vou voltar!...» -- A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.

terça-feira, novembro 10, 2009

(Sobre tela, um óleo de rapariga subindo a escadaria de entrada duma
Escola Secundária, a fim de ir fazer exames.)



Nos degraus das escadas os olhos postos
Sobem lestos e azulíneos através dos rostos
Cínzeos de bronze e pedra lacerados cedo.
Tão de repente demasiados dos sustos
Há órbitas sôfregas em ausentes custos
E rangem os granitos sob os pés do medo.


Fitam-se ângulos rasantes à íngreme escalada
Horizontes tangentes chocando estrelas no vértice
Só de humano nos esgares perpendiculares da escada.
Raios disparam-se em traços de ícones formas em hélice
Ferindo plásticas portas encimando telas
Feitas das lonas tostadas nos mastros das velas.


Fendem-se os gestos no cinzento dos gritos!
Gemem lágrimas dos ângulos aflitos!
Gladiam-se os exteriores em espólia conquista.
Esvoaçam tecidos frémitos adolescentes; crista
De onda em plúmbeo orgasmo de atritos!...
VER É SENTIR


Procura o silêncio. É aí que reside
A profundidade das coisas simples;
É como estar na berma que divide
O ser pela fronteira das arestas.


Sejamos breves na luz que incide.
Acutilante é estar no raio das frestas
E vogar como fumo em espirais deslizes

Assim se podem aspirar imortalidades,
Não por diatribes do som que desdiz;
Que quanto mais simples, mais são verdades
No perfeito do verbo que ousa
E diz,


Calado, mudo, incauto dum sereno olhar
Ao saber que ver é sentir sem esperar.
Secretas Insignificâncias,
Omissões Breves, Fortunas Vãs



Há os segredos que segredam
E calados dizem certos indizíveis
Jamais possíveis aos que se quedam
Perante a penumbra oculta dos sinais,
Na rubra resistência aos signos credíveis.


São a indumentária dos serenos murmúrios,
Dos rituais na ternura das noites sigilosas
Discretas, profanas, amantes e pecaminosas;
Mas também as leigas preces nos subúrbios
Das mães solteiras ao filho que tarda fora
Madrugada adiante na boémia noite, a demora.


E que como um luxo do coração no dizer
Imperam ainda além das palavras reais
Dos nomes, das pessoas, das coisas, do ser;


Que vistas à lupa dos factos que tais
Participam em tudo que é por acontecer
Sendo quanto não foram... E muito mais!
Instante Instantâneo



Quando a sombra desliza protuberante
Entre as frestas da penumbra secular,
É a fantasia concubina em sonho distante
Esboçada promessa de ser, em lesto chegar.

É a magia do desejo traçando a secante
Ao interno novelo que enleia as preces,
Transformando o longe num instante
Em que te fazes autêntica... E apareces.

É o fulgor aceso do flashback desejado
A enobrecer a realidade, pondo amor
Inesperado no acaso, tornado áurea cor.


E também é o verde semáforo sincopado
Frente à zebra que nos queremos transpor
Em que à ousadia sempre incita outro Condor!

sexta-feira, novembro 06, 2009



l.
Guardas a avareza de Israel
A luxúria de Roma – bebe neste sol... bebe!
Vives na aspereza da morte
Da sorte
Em gestos lentos de quem passaja tempo
– Bebe neste sol... Bebe!
A planície lá ao fundo respira (ainda)
Como quadro crispado se
Sobre sendo.
As horas rompem másculas
O silêncio
Em separata e cuidados.
Receias-te e recompões-te sequencialmente
Sem notar que há mar e fogo e sede.
Sonhas e sondas o hemisfério

Pela sinédoque do arco do arco-íris
– Bebe neste sol... Bebe!



2.

A alva lava está entre mim e ti.
Com ela mergulho – pertenço-te.

Quando se parte somos distância que se concretiza em nós como se fosse órgão vital
Vísceras, úlcera, soro, sangue ácido a corroer-nos por dentro forjando esquecimento
Quase incandescente a soletrar-nos solidão, ponto agreste e difuso na planura do ser
Mancha de fogo na planície que abarca horizontes desencontrados, sonhos daninhos
Na monda dos riscos e das formas, intempéries de medo que assolam a seara submissa.


Não me ponhas nos gestos sentimentos que não tive nem nas noites pessoas que não houveram
Quando no silêncio das madrugadas perscruto as ansiedades de outros silêncios fugitivos
Quais felinos domésticos caçando soturnidade e mistério pela calada dos tempos pueris.


Permite apenas que perdure o suficiente para não querer morrer sem choro e voz e canto
No vegetal suspiro de ficar alerta, a palavra à flor da pele, os olhos inquietos
De pardal assustadiço espiado bebendo a água das fontes dos caçadores furtivos e implacáveis.



Tenho na boca a salinidade das ervas de uma açorda que não quis, o aroma dos poejos
Bravos, o judaico amargor no alho duma esperança amassada em alquímico almofariz.
Sou aquele que não pretende, mas pretérito conjugado por mais uma dúvida a amadurecer
Sob a brusquidão de todas as imagens apagadas, de todas as fotografias perdidas.


Cada vez que partes é de mim que te escondes, outra rocha sob a espuma das marés quotidianas
Vaivém ensurdecedor, casquinado, ósseo, terrífico, por todos os fantasmas que não foram
O sentimento de busca no abraço do vento envolvendo teu colo de planície dourada musical
Ondulante, adolescente dançarina, entregando seu ventre ao orvalho das madrugadas de Junho
Num grito de acordar universos, porque se nos mantivermos vigilantes, Deus não adormece...


Rosas sem fim. Flores caídas
Num chão amassado por rodas,
Sem outras forças para lidas
Que não as que nos restam, tidas
Como perdidas, quase todas.


Trabalhar e comer, duas partidas
Para um só princípio: cordas
Que nos aprisionam as vidas,
Mas nos estimulam e dão forças.


Alimentas a vontade criadora
Com subtis plumas de prazer,
Qual forja para o pensamento.
No entanto, eu, aqui intento
Que do mundo serás senhora
Se no corpo fores também mulher!




quinta-feira, novembro 05, 2009


QUANTAS SÃO AS VOZES que proliferam
No nosso encontro há fantasmas
Inoportunos como as folhas caídas
À sombra de memórias célticas
Copadas no tinto da sofreguidão dúbia
Recôndita, ancestral, milenar, esguia
Escorreita de teus gestos de divina
Deslocada pela ausência semente
Da saudade imperfeita do futuro
Por que lutas e estudas e antecipas
Em cada gesto esquecido de mim
De nós.


És uma porta a que não sei bater
Sem tremer nos intentos punhos
Uma impotência interrompida no olhar.
Ninguém saberá este silêncio infrutífero
Por cada palavra em dizer calada
À força do medo e insegurança e solidão
E anos infindos a sofreguir expectativa
Ansiedade púrpura lívida de morte
Como esperança hipotecada de querer ser
Estar em minutos repartido segundo a décimo
Em ti, nos olhos, nos lábios, no sexo
Na aspiração contínua do dia a dia
Do sentir apagado das palavras...
... a pronunciar.


A tua alma é o teu corpo todo. De lés a lés
Não peças refúgio; não te impliques na lógica.
Aproveita o ar que te toca não só para respirar,
E deixa a diferença caminhar a teu lado
Como se ela fosse o teu par de dança, a tua paixão.
Mas sempre que o sol ofuscar o teu olhar
Com seu brilho de frente em laranja crepitante
Admite-o como teu igual e concede-lhe a graça de nascer amanhã
Outra vez, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra, e outra
Até ao clímax final que é a morte de cada um.


Quando morreres a morte morre contigo também.
É imprescindível que assim aconteça para que a terra continue a girar,
Os peixes subam os rios na procura de águas límpidas em que desovar,
Ou os homens ganhem a certeza de que as estrelas existem
Ainda que a noite urbana seja clara como quase nunca o dia.



Mas se no ingresso do mar ouvires de vozes profanas
Que te esperam a indiferença e solidão de não teres partido
E o eco amorfo dum abdicar que faz escola,
Não desesperes: que és mais que o produto da reunião das partes,
E teu corpo merece sem sombra de dúvida a alma que o constitui,
Porque a vida não é aquela linha paralela ao comboio que tomámos
Em que outra carruagem segue sempre à nossa frente,
Mas sim a alma que te acompanha para onde quer que vás.

terça-feira, novembro 03, 2009


Sabes como é isso, de quando a gente se vira
Contra a ansiedade e angústia e desespero
... E luta!
Deve ser-te fácil pois resististe
Sobreviveste
À tua infância tanto quanto eu
Que nada sou além
Este produto do sonho pela verdade, emigração e vero exílio.


E que faz a dor ser pequeno insecto
À volta da vela luz de descobrir sempre
Outro caminho mais sereno e seguro de queimar as asas,
Ou a simplicidade dum girassol fixando o rei
De igual para igual exalando aroma e sementes
Por mais sequiosas que sinta suas raízes.


Pois bem: é mesmo assim que se aprende.
Reconhecer é pelo menos saber;
Duas vezes é mais importante que um só experiência,
Como se fôssemos eu e tu numa curva
Contendo as lágrimas e obrigando o rio a seguir
U N O entre um de cada lado
Embora revolto contra as margens de nossos lábios.



Nunca esqueças então que no dia em que nasceste
A terra fez anos e celebrou-te
Argila da festa de esperar-te
E repetir-te
E referir-te
Dia de todo ano
Dia de todo o mês
Dia de todo o dia

Que nem fosse a alegria de teu nome
A porta que se abre para a vida
Na festa do avental secreto das flores
Raparigas celtas dançando plenas em roda
Na clareira silvestre da beleza que te sobra.


E escorre e molha e me lava e me resume
Quanto se apresta



E me resta e edita
Do passado banhado por puro sonho e cresta
A gesta

A naufragar na latinidade de teus olhos.


É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.

É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.

Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.



Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.

É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.
“ What’s in a name? That we call a rose
By any other name would as sweet.”




Às vezes perguntamos ao nosso caminho
Quem somos nós
Ou a nós mesmos qual é o nosso caminho.
E não sabemos como sair da baralhação dos sentidos.
Fazemos dos sentimentos um escudo que nos ataca
E não ouvimos distintamente os segredos
Que a vida tem para nos contar.

Mas também às vezes, quando amanhece nebuloso
Ou o sol se nega a repetir que temos em nós tudo
Principalmente aquilo que ele mais ama
Com sua voz de violar-nos a alma pelos olhos
Uma rosa vermelha vem pousar-nos em frente,
E dizer-nos que ainda é possível a ousadia
Que ainda é possível o sonho
Que ainda é possível o sorriso
Que ainda é possível a ternura...


Porque mais do que a voz e a língua
Há o silêncio de um olhar que significa.




AS PESSOAS REESCREVEM-SE no improvável
Qual forma verbal de dizer o silêncio
De aspergir o futuro, a imensidão, o infinito
Tão contrária à força de iludir tranquilidades
Como as sebes de ciprestes dos talhões urbanos
Dos quadros variáveis nas janelas dos autocarros
Dos comboios, computadores portáteis inoportunos
Mas sempre presentes em cada pálpebra descaída
De quem não quer ver quem o acompanha, ter
É ser-se quem é, onde está, para onde vai, assim
Sem querer, ou sem saber de querer ir ainda
Bater às portas apenas pintadas nas paredes
Nos muros que Berlim ergueu em cada um
De nós, atados fazendo-nos dois pelo menos Pessoa
Que foi mais também não teve vida fácil
Nem compreender significa tornar as coisas simples
Dóceis, unas, definidas, homónimas ao ser
Estarem prontas e disponíveis ao pragmatismo
Exigente, cruel, verdadeiro, imoral, financeiro
Como cada poema escrito a pensar no amanhã.


Porque hoje é uma palavra que marca a fogo.

quarta-feira, outubro 28, 2009

“Gracias a la vida que me ha dado tanto/ Me ha dado la risa y me ha dado el llanto/ Así yo distingo dicha de quebranto/ Los dos materiales que forman mi canto/ Y el canto de ustedes que es el mismo canto/ Y el canto de todos que es mi propio canto”. (Mercedes Sosa)


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.

E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...

A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.


"Quem é essa que desponta a Aurora,

Bela como a Lua,

Fulgurante como o Sol,

Terrível como as coisas grandiosas?"

(Cântico dos Cânticos, 6,10)

sábado, outubro 24, 2009



PROMESSA


É quando o sulfuroso da alma
Se entrega ao desmaiado azul,

E as lacrimais águas se fundem
Num só rio em busca da voz

Que tu e eu, meu amor
Ganhamos sentido nesse futuro que caminha
E baloiça sob a pendular força da incerteza,
Mãos nos bolsos,
Cordel do pião a arrastar na areia...

Nunca o esqueças
Sobretudo se os nossos netos o desconhecerem
Quem são – quem foram.

SAUDADE


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.

E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...

A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.
(RE)ENCONTRO


Ninguém adivinha até onde pode chegar
A distância dobrada pela solidez
Do silêncio, pronto, finito à pequenez
Do verbo – amar é sempre ruptura
Ponto de entrelinhamento , sutura
De conjugação propensa ao ansiar
Ambíguo de escrever a sublime doçura
Dos olhares que se perdem em buscar.

Somos ínfimos, é certo, no sentido pleno
De nos dizermos grandiosos
Num mundo tão pequeno.
“ Onde foi que nos vimos pela última vez?!... “
Façamos de conta que foi na imensidão
Da planície ensolarada dos tempos talvez
Há mil anos junto aos rochosos
Desvãos do silêncio dado da mão.

Há mil anos... Quem diria!...
E ainda nos reconhecemos!... Como quando
Ao fim do trabalho de um longo dia
Nos vamos à beira de ser soletrando!

Tivesse sido ontem, ou já agora:
Há tanto, tanto tempo numa hora!!...


PODIA

Um homem e uma mulher sabem
Sempre quem são se os olhos mentem
O que a voz desdiz – e quedos
Murmuram serenos quadros
Dum imperioso desejo que se quis.

Que apagou pétreos medos
Ao corroído silêncio dos segredos
E fez do ser um campo de aventura,
Qual seara ondulante sob a brisa da ternura.

Podia até haver temporal! Podia
Até o sol cair a pique na planície!
Podia até o sonho revulsionado
Naufragar nas escarpas da crendice,
Que o dia seria de constante calmaria
A pairar no olhar apaixonado
Dum homem, duma mulher... Que se queria!



FINALMENTE


As horas passam diluídas
Na espera dum ocaso diferente.
São sinais de morse, pontos ..
Traços - -, .. pontos, a terçar encontros
Nos S O S da gente.


São fazeres de assim,
Olhares de dizer nas vidas:
Até que enfim!

MUSA


Olha desconhecida!... O acaso mexe-se
E surpreende-nos com seus tentáculos
Na orla do verbo dos verbos, e esquece-se
De ser o que nunca foi pelos oráculos
Da vida.

São coisas profundas essas!
As paixões carcomidas, as desditas
Com que pedimos meças
Às palavras esquecidas.
Hermafroditas
Pontos de referência na malquerença
Tida;
As bexigas da vida.

Sinais de somenos, asteriscos da diferença
A escorrer do rosto, cruéis, brutais
No acatar da sentença:
Tu és a causa – eu sou a consequência.

sábado, outubro 17, 2009

Vitral J ao Poente

Ao quebrar o ritmo da sombra a voz
Inquieta luz entre os rebentos frágeis
Equidistantes ao seio de Arina a seiva
Sagaz e doce e láctea de figos e mel
Humílimos laivos de âmbar e pétalas
De rosmaninho e violetas cristalizadas
Escorrendo veios de caramelo vertentes
Da muralha aquecida de teus ombros.

Ninguém adormecerá perante a lava,
Ninguém correrá por socorro no aflito ar,
Ninguém esconderá seu rosto no receio aceso,
Ninguém escutará teu choro ante a silente hora
Excepto esse estrelado olhar à porta do universo
Divisa e legenda que assinala a ternura no destino
A garantir que cada um, é sempre. "Bem-vindo ao Sonho",
Nosso perpétuo lar em cuja câmara escura eclode a rosa
A semente do século dos séculos dita verdadeira forma
Imagem gémea da perfeita insígnia do Sol que é norma
Regra absoluta de regar as violáceas vestes com crepúsculos.

sexta-feira, outubro 16, 2009

ESCULTURA PESSOANA


Põe os teus olhos sobre o mundo e deixa-o descansar
Como se ele fosse o móvel, a mesa em que repouso os óculos
Os mesmos que vincaram o enorme nariz da humanidade supérflua
Na execução técnica de todos os impérios do colectivo anónimo
Na invenção das navegações modernistas em redor do símbolo.


Eis a chávena; eis a cadeira; eis o cigarro fumegante
Ainda de repensar os lábios que o sustentaram.



São de bronze as pernas forjadas no cruzamento das linhas
Díspares do horizonte sem gaivotas nem navios a sair da bruma
Dum olhar que se solidifica inconfundível para a História.


Depois, como quem já não quer acreditar nem ousa
Desce ao tempo, afoga em azul todos os sonhos e alucinações
E permite que a voz abdique do verbo que a suprime
Em marioneta, modela e manieta, numa cadeia irrefutável.


Toda a solidão do mundo é de menos para consumir
Este grito de árvore perdida na imensidão do betume.
Sou nós quem se ouve dilacerado pelas mecas
Profanas ao gesto explosivo da semente do futuro.
Eis o meu caule de seiva imprópria engarrafada
À pressão dos dias que não chovem o sol que estoira
Na incerteza suculenta dos advérbios inorgânicos que abafam.
Crestados estão os solos dolentes de estio e de suão
Como a pele das mãos que não escrevem o pó, o giz, a ardósia
Nem a esperança, nem a solicitude apagada dos corpos.
Corpos que se dão inteiros na fímbria esculpida do tempo
Mãe: não fervas o meu pranto com couves e nabos e toucinho
Nem permitas à sopa das horas esfriar minha inocência
À deriva como folhas vogando tresloucadas no vento norte.


És a minha terra, que língua bastarda da sorte
Escorrendo dos rios inteiros como pedaços de céu
Abrasador, infernal, boca de expectativa contorcida
Sobreiro de Florbela na trombose do verbo esclerosado e
I m p e r f e i t o


"Mea culpa, mea culpa" e de quem parte e regressa sonhando
Que do Alqueva ao mar, da planície à montanha, atravessa a sageza
Dos heterónimos de quem se está pontualmente soletrando.

quarta-feira, julho 08, 2009

Seara Acesa nos Regatos da Alegria


Há segredos que ficarão sempre guardados entre nós dois
A sete chaves entre os murmúrios dos marmóreos muros
Não há só amanhã, nem ontem e muito menos até depois
Despedidas portas abertas escondem-se na transparência
Como eu e tu que a sentir pensamos, criando consciência.

Recordo. "Surpreendo-me" disseste, ao pestanejar do gesto
Suspenso só agora veio à fala a resposta do resto impresso
Teu falar próprio como palavra da palavra exacta ao texto
Significativo – se dirá: "acariciar-te exige demasiado tempo
Esforço, atenção, predicado fiel ao verbo, pretexto afectivo;
És rebelde em teus contornos", adiantaste porém, a conclusão
Como um til de breve meneio, odalisca a dançar no palato
Contorcido baile do corpo que se desfaz entre tules e tafetás
Eclodindo cliques na língua de gás oxigenante à fala, o tacto
Sob o tecto de nós, grito que se ouve aflito por estarmos sós.

Somos únicos no amor nada receamos nem a dor, desengano
Porque todos sabem que te amo, mas ninguém como e onde
Esconde o verbo, rola-o na ponta da língua, a láctea pérola
Enrola-a entre sílabas difíceis, segreda o nome se te chamo
Di-lo sentido, alvéloa saltitante caçando os insectos desta voz
É como seara que se acende a reinventar a aurora ao novo dia
E em regatos de oiro rega a ocidente foz num oceano de alegria!

quarta-feira, julho 01, 2009

Depois de Camões e Pessoa só tu sabes a cor esmeril
Só tu sabes sentir a dor da ausência e dizer que não é nada
A transformação tida enquanto o fruto da rubra flor separada
É coisa doce que dói e corrói o dançar da seara ensolarada
No choro que é rir, fazer sala, consentir, mostrar servil simpatia
Ainda que à imensidade do mar o pranto tinja a rosácea do dia
Lhe encrespe de solidão se ao cavado oceano é roubado anil.

Basta de dizer a voz ingrata quanto ao cruel intento da cruz
Da ida (e quem sabe?) e volta remando rumo no vazio a voz
Os pés na luz a boca soprando as velas do algoz quotidiano
Navegável numa fragata de cascas de nós, máscaras sem jus
Balouçando loucas espigas entre as escarpas da luta agreste
Às ordens dos mares em revolta na planície desmaiada ateste
Aberta ao silêncio da pedra do granito azedo, eis-me aceso
Fogo preso à intenção, amada, de sonhar-te a razão perde peso!

sexta-feira, junho 26, 2009

Onde ainda houver água irmã, poderemos sempre ser
Construir a cidade acarreta seus rigores e exigências
É preciso que se queira viver nela e não custe ser feliz
Não esteja somente ao alcance de alguns ou seja Utopia
Que essa de tão sonhada amargurou pendente entre ideais
Suspensa entre vivos nunca se consumiu, nunca se cumpriu
Nem nunca foi, só oásis na visão dos perdidos nos desertos
Que entretanto caminha entrapada, zombie político das Eras
Entre os escombros, as tumbas esventradas ao deus-dará.


Mas olha, faz de conta que ainda sou quem sou e tu também...
Faz de conta que ainda és Arina rainha do Sol a solfejar luz
Faz de conta que ainda sou o escriba do teu celeiro de amoras
Faz de conta que ainda sinto o edículo aperto de teus braços
Faz de conta que ainda sentes meus lábios sobre o teu colo
E peito faz de conta que ainda somos capazes e totais a eito
Faz de conta que és prenome e eu sujeito, dupla sem esporas
A saltar obstáculos no hipódromo da cultura aos socalcos
Labirintos de encosta, nas arribas do vento olhando o mar.
Que a fazer de conta há a História que ainda ninguém contou!


Sabes?, quando os olhos se levantam na ária dos corpos entoam
Quando o vento canta o sussurro da sombra morena na pele
Quando as horas passam rápidas em bando voam consigo os dias
Quando os lábios se encontram rés das estrelas e dos oceanos
A areia esguia se furta ao tempo e cristaliza vítrea a lente doce,
Quando a solidão pesa tanto que nos sentimos multidão anónima
Quando os ramos das árvores soltas soam e tilintam iridescentes
Quando nos escondemos e procuramos no silêncio dos templos
Quando nos cruzamos nas escadas e elevadores do Sul ocaso
Quando nos abatemos no leito como aves abatidas em pleno voo
Quando a nossa loucura ultrapassa os limites da loucura possível
Quando tudo nos acontece sempre pela primeira vez estamos
Preparados, definitivamente preparados prò que der e vier
Cais de chegada como de partida, portas do sonho como da vida
Nenhum impedimento existe quando deveras se é homem e mulher.

terça-feira, junho 16, 2009

Sob as Ameias Rúbeas as Águas do Bósforo

Junto às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos pubianos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.

Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?

Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.


Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!

sexta-feira, junho 12, 2009

Sentimento Vertical


Antes da palavra o nome, o verbo, o verso despido e nu
Não a intenção, sim primeiro ela, e só muito depois nós
Assim espontânea cerzida azul universo estrelado e cru


Aberto para o futuro e mirante, janela dos egrégios avós
Momento feito aqui, feito de agora, pleno de mim e de ti
Onde a saudade nos dói, explode, implora, racha, tritura
Tortura, e não mata, põe na cela a sela e sela, monta a sós
Doma a espera, pica, incita, espora, a incendeia ideia pura.

Antes da palavra, ecolalia, anagrama circundante, o afago
Nascido do princípio ao fim, em si de imaculada loucura
A eito de mim, fogo me arde e chama, aura no céu largo!

sábado, junho 06, 2009

Sábio, Abraão Revela a Alma

Na aldeia, consta que Abrãao tirava vantagem nos negócios...
Apresentava sua esposa por irmã, tamanha beleza a sua era
Que aqueles que consigo cambiavam ouviam sonhos e ócios
Esquecendo os contratados, trocando os lucros pela quimera.

Também Madalena outrora perdida por iguais equinócios
À sua filha, por tão bela a ver, enfim o mesmo nome dera
Princesa herdeira do trono de Deus na Terra entre os sócios
De uma irmandade por cujo cálice seu tinto sangue bebera.

Porém, tenho muito mais sorte que a mulher de Jesus Cristo
E que o Patriarca dos tempos ancestrais, que a amá-la existo
Além do nome a pessoa também: ela me domina e escraviza,

Porém, incandescente exerce a magia de simples pitonisa
Talvez musa, ninfa, se da fantasia Maia a tristeza suaviza
Só de vê-la troiana lucro ternura onde antes havia quisto!

sexta-feira, junho 05, 2009

Soneto a duas tartarugas (que eu conheço)

Desexilado sou agora que me nomeaste aqui
Entroncamento de sentidos alerta na esquina
Adorno andrino no dorso da cidade imo de si
Estatueta breve em marfim ao Sol de Arina.

Da água a seiva húmida de coligir a pele senti
Sede sob a concha o corpo aos membros ensina
Que no frio é casa ou no estio o meio que escolhi
De guardar a asa do lento voo pelos rios acima.

Até à nascente do inclinado sol, o raio, a luz, a seta
Que a estrela que busco entra pela janel@ abert@
E torna cada segundo contigo mais que a hora certa.

Porém, o melhor da desibernação é este asterisco
Por cuja mão cresce o astro ou se clarifica a meta
E sacia o vício dando-me na boca precioso marisco!
Secreto sussurro manso da helénica brisa

Breve mordisco o lóbulo e sopro teus cabelos de seda doce
Acendo a sede e cobro dízimo ancorar na curva do pescoço
Onde deponho murmúrios de sofreguidão vulcânico alvoroço
Baía fosse apagava o fosso do gesto ao som, da cor ao morse:

Descansa o olhar aqui na voz branca dos terraços sobre o mar
Tece a rede que nos impede a nós de vogar à deriva, naufragar
Entre a luz do silêncio diurno estrelado sob o peso do ser as mós
De soletrar os verbos acesos rolados na ponta da língua luminosa
Cruzada rosa entre operários sorrisos em turno os dentes da prosa
Trituram taciturnos tácitos fadários nos ermos as naus nós após nós
Milhas feitas sobre as fragas correntes entre as gentes estas ilhas
Cujas mulheres entretanto mães também são igualmente filhas.

E adorna quem te adora da ré à proa como uma labareda cristalina
Sonho e alma na marina onde aproa Arina que só a beijos abalroa!

sexta-feira, maio 22, 2009

Andrino Laço de Luz Lisa no Azul

Pois para lá das pequenas coisas controversas e risíveis
Tristeza de estar ou não presente e aquele livro na mesa
Às horas fúteis da sesta morna sob a sombra da incerteza
Há um querer que não ousamos por ângulos plausíveis
Escorregar, deixarmo-nos escorrer livremente, a natureza
Da entrega o salto áspero que antecede o voo, o rasgo vil
Dum diagnóstico envenenado cujo antídoto se chama Abril.

Mas fazemos mal, não por mal, antes o medo temos por bem
De sentir acorrentados a segurada esperança em poder cair
Só quando houver rede por baixo, embora feita por ninguém
Essa certeza perdida que nos impede de seguir a própria vida.

Que aos pormenores é dada consequência de modo primaveril...
Tu, essa luz isadelfa do feixe de estames que tece o firmamento
Entretece também ledo fio sin@l de enfeixar-me a cada momento
Que a lisa luz que ao azul rompe e tece a frecha da flor da voz
Ata a exacta quantidade dos dois feixes no feixe nascido de nós!

quarta-feira, maio 20, 2009

À Luz de Isis Acendem-se @lmas

O nome é a alma dos seres, das coisas, das gentes
Das flores, das aves, estrelas, árvores, rios e do luar
Dos seres luminescentes e presente de todos os ausentes
Risca o firmamento e apaga o incógnito algures ao lugar
Onde o infinito Xis se cansa de ser ruptura e se torna chão
Laje que piso, pegada sobre o lodo liso da velada imensidão.

O nome é a voz que soletrada ecoa a fugaz essência da luz
A chama que chama da cega iluminação em quão justa é a jus;
Que o nome é o gesto que se insurge ante a escuridão e breu

Traço fosforescente eléctrico da tangida fala nos minaretes do "eu"!

terça-feira, maio 12, 2009

Notícias a Dizer de Ponta e Mola

Falo da morte – desta morte acontecida sorte na gesta
Daquela morte, desde outra morte na entretecida corte
Atesta se nunca a morte da morte é consorte nesta vida
Doutra morte universal, absoluta, resoluta causa perdida.

Falo da morte, navalha afilada, e pontiaguda apontada
Cigana malvadez do corte na escarpada aresta desta malha
Cabo tumefacto profere o acto incesto sob o texto destapada
Pérola húmida tua boca de irmã rainha no sol alado anunciada
Esguias pernas de mulher doce em cuja junção a língua encalha
Nos seios com que cinges os cisnes do sonho no desejo da escrita
Rosa na cripta devota os dedos são segredos que o escriba atalha
Razões por que não tresmalha da lura aflita a mão sobre navalha.

Falo da morte, falo que fala como quem ao soletrar mais cala
Penetração contínua no medo do só que dedo a dedo traça o nó
Amuleto salvador na estrada de permanecer o silente enredo exala
Escala fiel linha entre forte, fraco, primo, segundo grão na mesma mó
Do moinho o vento sopra o pó que acalenta a sede e cobre a vala.

Falo da morte, na madrepérola do cabo a mão sagaz, veloz
Mão preciosa de luar em uivos descendentes sobre os ombros
Rentes caídos nos escarpados do ser, atados escombros da voz
Rolada pérola sobre o atroz temor sem dizer o albatroz no condor
Que a voar ergue a sombra que ilumina o amor que raia entre nós.

terça-feira, maio 05, 2009

Fala do Pescador à Linha


"Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos seus tomentos.
Porém, não busqueis poder no amor...
Que só quem da sua lei se sente escravo
É, de facto, finalmente livre."

Ibn 'Ammãr
(Silves, século XI)

É lógico, ó solitárias companhas pescadoras nas arribas silentes
Que não nos venhamos a compreender perfeitamente, em definitivo
Se vós quereis subir na vida, provisoriamente soletrada entredentes
Mas eu quero apenas descer ao que de mais íntimo nela há, dela cativo
Sou, que tão infinitamente voo, através das asas, que somente ela me dá.

Por conseguinte peço, sem qualquer retórica e eufémica relutância
Que não reprimam meu canto nem o resguardem das correntes de ar
Eloquentes adormecidas na substância ímpar do sufixo desta vida
E muito menos recalquem as palavras insurrectas, flechas directas
Dos poemas que te fiz, Arina a que dança na solidão das ervas e regatos
Envolta em tules e sedas, braceletes de prata e diademas de ouro e cristal,
Porque a Liberdade nunca esquece que existimos antes do bem e do mal.

No horizonte, quiçá o fio de prumo paralelo nível do olhar deslumbrado
Em que as ondas aprisionam a espuma nas correntes dos altos fundos
Onde o zelo condicionado da luz refractada pinta ternas ilusões coloridas
No azul celestial como se este apenas fora o signo avesso dos mundos
Enquanto o albatroz cruza as vagas aéreas na quadrícula margem boreal
Traçando vigas imaginárias com suas ícaras trajectórias a pentear o globo
Tracejados de união que sustêm a abóbada no xadrez das cumplicidades
Das regras inerentes às elipses na órbita das estações do clássico pórtico
Ancestral cais onde as duas colunas suportam todo o peso da eternidade,
Eis que nos conhecemos no anonimato dos @@ sob clave de Sol em pauta
Em tratamento de desintoxicação dos efluídos da espiritualidade ilusionista
Charlatã dos vendilhões de essências marginais andróginas nos concílios
De misóginas estirpes para esterilidade da espécie e destruição planetária,
Eis que esquecemos o tempo em que fomos olhos nos olhos sem o temor
O medo abrupto da reincidência o trauma da experiência falhada, soluto
Amargo, demorada resiliência em recuperar o fôlego para a folgada linha
Essa onde dançam os papelotes e lâmpadas pintadas no terreiro do baile
Romarias suis generis das preces missionárias e casamenteiras de acreditar
Sem ver na obscuridade pejorativa da perfeição divina és só capítulo nulo
Somos apenas púlpito para vociferações intestinas da morte acesa central
Diploma de enredo na satisfação do capricho da cruz que no nicho do medo
Acende a morte e a opressão e a mentira e o flagelo e a ira e a dor como luz.

Apagai os sorrisos, ó cínicos, que tensa a linha do horizonte na tez marinha
Arina se rende ao culto de seus adoradores ocultos e anónimos e sem capa
Nem a duplicidade equívoca dos verbos mal conjugados do vil impropério

Que a navegante das conchas alinha e marca as fronteiras do Novo Império!

Convite

Surpreendo-me a ver-me nu, despido de mim
Rasgo as entranhas deste animal clandestino
E soluço. Bebo-me sem rebuço e busco-me fim
Entre adulto ser pra também poder ser menino.

Que nisto de ser sério como no parecer assim
De com tudo brincar até perder o pé ou o tino,
Há mais de homem que de descarado querubim;
Mais de querer ser, do que de rendido ao destino!

Quem ainda se lembra do que afinal é ser criança?
Quem? Pois se saiba que esse sabe o que é estar além
A discernir entre o logro, o aval, o voto e a fiança...

E mais ainda sabe, se acaso o escuro da noite vem
Que fusão é despirmo-nos de tudo, não só lembrança
E ser capaz de dizer, sem dor nem medo:
VOO TAMBÉM.

quarta-feira, abril 29, 2009

terça-feira, abril 28, 2009

Secreta Soletração Para Arina em Flor

No jardim das azáleas negoceio-me entrega à divina pérola e-
Regateio. Regateio. Regateio a sombra, o eco de teus passos
E adormeço no centeio enquanto estremeço enleios e- laços
Baraços de jungir os caules decepados sob as áureas espigas
Posta entre as demais raparigas pareces ser apenas estandarte
Brisa dos sonhos apegados nas vigas de todas e qualquer arte
Eis-me reduto de secretos sinais cruzados na volúpia da voz
Babel em espiral de saber que não vives em vão faz-me nascer
Tal como renascem os faróis incandescentes do lodoso chão
Tal como da semente do ser brota o grito da dúvida e da razão
Tal como o «sim» em mim exige enfim até a própria exaustão
Anuência plena no afago da seara que ondeia ante as sombras
A nuvem do gesto segador de teus braços nus em meu redor
O arco poro a poro, dígito a dígito, flexível de desferir audácia
Em raios de infindáveis luminescências que aspergem a noite
O breu das ignaras portas nos socalcos empedernidos do medo
Escarpas da angústia ao azedo acre que aflora a glote no silêncio
Aglutinante se diz tão-só estilhaçado pelo teu sereno dizer a luz
Suas réstias como lâminas que cortam a penumbra das tardes
Raios laser branco incisivo trasbordantes das frinchas do soalho
Digo, deste chão onde adormeço de ventre colado à terra solta
Brava e esfarelada por meus dedos que tentam segurar-se nela
Fundir-te em mim, prender-te até doer na vocifera ardida posse:
Sega ceifeira o cego nó, que ser é abraçar até doer sem rede e dó.

Regateio. Regateio. De ti somente me satisfaz o demasiado dado
O quanto precioso cujo preço é sempre uma honra impagável
A exigência irremediável da entrega que afinal é só um princípio
Uno sem-fim que à vida implora sua pétala de rosto bravo, digo eu!

quinta-feira, abril 23, 2009

Disseste-me amor na papoila em flor de encarnado vestida
Que aspergida e matizada a pérola com a bruma de Tróia,
Entre o papiro das páginas meigas corolas abertas à História
Havia tanto de memória acesa breve quanto lúcido desejo
Nas ninfas do Tejo em cujas margens a sereia etrusca bóia
Nos enleia e entorpece na submissão que nunca se esquece,
Foste, dizes ainda, a entretecida sombra das cores da ousadia
Silvestres esgares nas aras com que a curiosidade me seduzia
E ditava guerras a raptos em segundo nome por hípicas vozes
Armadilhadas celebrações a helénicas sibilas no voo dos albatrozes.

terça-feira, abril 07, 2009

Aos Refrães Acodem Sonhos

Tive azar com os meus pintassilgos...
Parece que um deles me saiu escritor!
E para este, todos os dias são domingos
Que da semana, é aquele em que canta a dobrado fervor.

Ali fica, parado em qualquer galho
Horas a fio a contar, em árias mexidinhas
Trinados estridentes, e até Jazz ou Bossa Nova,
Se calhar comentando quanto foi o trabalho
Que entrementes, teriam feito as pintassilguinhas
Que seu canto enaltece num refrão que se renova.

Tive azar com estas duas crias:
É que uma delas, extraviou.
Canta que conta, traz-me arrelias
E obriga-me a ser quem apenas sou!

quinta-feira, março 26, 2009

Pio de Voo


Através da noite e neblina
Os gansos selvagens ao sul emigram
E com voz dolente guincham.


Sinto desejo de escrever uma
Triste história:
Que consigo eles levam
Sobre duas asas brancas,
Algo querido da minha alma
Não sei onde
E nem sei o quê.


(Aves de Arribação, de Desanka Maksimovic, em tradução de Asanovic Sonja)

No versátil rigor da esfaimada cratera a doce ferida aberta
Sôfrega nos voláteis suspiros em espirais de vénias soltas
Quanto nuvens áridas e poeirentas cinzas descem apagadas
Soprando as teias das crostas das mãos anteriormente ágeis
Sob os Invernos os gansos solitários em cunha no voo solar
Rasgam a sombra à procura das famílias abatidas pelos ecos
Pólvora sonora retumbante rasura de abafar os gestos à sede
Profícuos os sonhos candentes insistem-se vulcões de sangue
Como lava imperativa de renovadas esperanças acodem em nós
Eis que destingo os teus passos das batidas nas bigornas acesas
Iluminando o nevoeiro que à desfilada desemboca nas esquinas
E de freio nos dentes se recusa a obedecer ao silêncio fúnebre
Ouço os teus saltos altos sobre o soalho soalheiro dos tempos
Absoluta reportagem cifrada no FM sôfrego intenso da audácia
Porém enxaguado na seiva da serra o tafetá dos deuses dança
Sob a leda brisa suave dos soslaios incandescentes os lábios
Estremecem perante a dívida contraída por mim em teus seios
Cisterna láctea de onde bebo viciado o néctar de tuas pálpebras
Gota a gota me rendo até trôpego e ébrio naufragar aprisionado
Sucumbo na tenaz de tuas coxas o dorso revulsionado convulso
Amplexo centrípeto da vertigem que me suga prò fogo nuclear
E ardo e expludo e broto-me só em lava do teu entretecido dizer!

segunda-feira, março 09, 2009

@dorno(s) de Vénus

Creio haver enlevados mistérios de figos e mel em teu sorriso
Resina láctea de espuma sobre que navega a concha ancestral
Íman de vulcanizar o leito de fogo e acender o cadinho do céu
Súbdito teu sou e o azul ao crepuscular manto de tuas ordens
Tulha de Hefesto onde cintilam ainda faúlhas no pó das cinzas
Istmos de solidão que recusam apagar-se aos faróis navegantes
Naves silvestres balançados vaivéns das ondas nas clepsidras
Areias intemporais aspergidas de seiva oceânica se afirmam...

Chegaste sobre praia e tens a voz de Júpiter em tua meiga mão
Vinda do infinito das águas ao desconhecido mundo liquefazes;
Não obstante, entre as pérolas dos lustres das noites sem noite
"Che is my leader" canta outro Sinatra nas clareiras das florestas
Cimento entre cimento quase tudo e algumas janelas iluminadas
Filhas da revolução erguendo seu direito punho aperrado ao Sol!

sábado, janeiro 24, 2009

Da "Crise", a Mote de Ary (em Falsa Glosa)


"Foi esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que em 25 de Abril
Fez Portugal renascer!"


Esses dias, meu filho
Recordá-los-ei sempre, sempre
Pois que mudaram o trilho
A quem sonhou vida diferente,
Com vontade tenaz e coerente
Entre a força do povo e o poder
Nascia uma força viril
De antes quebrar que torcer,
Fazendo o 25 de Abril
Pra Portugal renascer!

Os soldados e povo de então
Criaram um novo estilo
De rimar esperança com pão
Acendo com suor fértil brilho,
Igualdade e razão, aquilo
Que com unidade e saber
Viria a ser força viril
De antes quebrar que torcer
Tida no 25 de Abril
Pra Portugal renascer!

Houve alegria nos campos
Em flor a Reforma Agrária
Colheu dos figos lampos
A semente da classe operária,
Cantada em maneira vária
Contra a fome de enriquecer
Com essa força viril
De antes quebrar que torcer
Feita 25 de Abril
Até Portugal renascer!

Onda de independência
A favor da causa humana
Dava aos povos a regência
De cá e lá da Taprobana
Consolidando o seu querer
Na grande força viril
De antes quebrar que torcer,
Fez um 25 de Abril,
Fez Portugal renascer!

Conquistou-se a liberdade
De falar, votar e exigir
Criando no suor da lealdade
A fórmula de os repartir,
Conta-corrente a não-esquecer
Como esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que há do 25 de Abril
E faz Portugal renascer!

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Sento-me à beira do teu verbo e dedilho pétalas cristalinas
E escorro entre as margens do sonho como lilases à deriva
Como luminescências do olhar que navega consentimento
Aberto ao sigilo angular no xadrez do silêncio aspergido
Onde o dito se desdobra denotando breve tranquilidade
Onde a fala se toca entrecruzada aos dedos as mãos dadas
Onde podemos ficar a ver crescer a praia que se espraia
Grão a grão, onda a onda, passo a passo, o vaivém marginal
Deste pluriaquiescido murmúrio no terno cicio dos afagos
Saber-me-ei sempre pouco face à tua urgência intenso ser
Madrigal de palavras evadidas ao seu significado sustenido
Soluto destemperado de mim nas escarpas da Ilha Tseu diz
Teu nome invoca a sombra das tardes ao sol mediterrânico
Sonâmbulo ensimesmado o enredo silente na saliva doce
Gesto de ameigar a voz no equino roer do freio soltas crinas
Sinal ao vento nas dunas relapsas das violetas as avenidas
Artérias pulsantes o ritmo sincopado do bombear sanguíneo
Cresces-me dentro cerzindo a cripta onde sacrifico as ânsias
Deduzo a sede e me ergo escorrente em teu seio o grito líquido
Liberdade soletrada a meia voz no sussurro do verbo me és cravada!

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Nos Nós Dos Limites

Sonhar é apenas um constante precisar do outro
Invejar o que lhe acontece, o que felicidade lhe dá
Correr à solta pelos vales e prados como um poldro
E estar sempre presente, mesmo quando ainda se não está.

Pode ser só um libelo de bronze em oásis morto
Ou o cinzento das nuvens de Bombaim a Calcutá,
Ou o frio glaciar do ensimesmado eu, olhar absorto
Em que esporadicamente o semblante se me queda e quedará.

Pode ser tudo, e também pode igualmente nada ser
Como uma simples ideia a que sem cessar nos damos;
Pode estar inscrita no próprio corpo e todavia esquecer
A prenda prò outro no nosso aniversário ou no seu dia de anos.

E isso, a qualquer um pode acontecer!
E isso, a-qual-quer-um-pode-acon-tecer!

Mas eu, eu que fui abandonado pela mulher que me pariu
Como afugenta uma teia, um limo o apressado nadador
Nunca minto,
Porque mesmo quando afirmo por verdadeiro
O fluxo de irrealidade que somente sinto,
Me é solicito ser esse ser primeiro
De entre a realidade que há muito me fugiu
O conjectural e urgente inventor
Daquilo que me falta por abundância – o amor.

Eu, que cruzo a multidão batalhando (n)a indiferença
Como se combatem as possessões perpétuas ou bruxarias,
Nunca escondo;
Sei subir a cada outeiro
Como se o mundo todo redondo
Escoasse adiando o momento derradeiro
Do nuclear selvagem e
pershings dos med(i)os-dias,
Ao ser homem sem licença das hierarquias,
Ou cão rafeiro, dono de incautas estrofes – as heresias!

E no fundo, que ou quem serei eu?
Nada! Filho da terra, amante da água,
Onda esbatida contra a quilha do progresso,
Parto de silêncio entre o mar e o céu,
Restos ressequidos da niquelada mágoa,
Ponto de partido para qualquer regresso
Ou chegada.

Tal e qual, como no fundo também sois vós...
Nada. Igualmente nada, meus irmãos. Regatos desaguantes
Talvez leitores, energia motivadora de vontades inquebrantáveis
Nos sonhos de solidariedade de pais e avós
Pequenos entorses do querer no crer renováveis
Memórias prontas para empratadas iguarias do esquecer
Que o único pronome que vem antes e depois nome
É o Homem – e esse, somos nós!

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Metáfora do Fruto Coroado

Foi no avelã maduro dos teus olhos que se me crestou o ser
E a alma, em ti de tanto procurá-los nela sem fundo me vi
E se alguma, agora calma, sinto neles, por eles sinto e subi
Ao ver quanto me vendo deles afinal desvendo só de mim,
Que sou teu, como não sendo outrem e ninguém será assim
Solidão aberta relha de arar o chão ardente num secreto ver
Asilo rendido ao anil silente do sol alquimia e récita antiga
Como no gral se mói o sal e desejo em romã doce e amiga!