A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

sexta-feira, junho 17, 2016

SOB O PESO DAS NUVENS




SOB O PESO DAS NUVENS

Rasga-me o choro pla voz ausente, 
Pranto dolente de quanto morro; 
Então imploro, e devoto crente
Sou a prece que em lágrimas corro
Nas faces da alma inconformada. 

O amor que nos diz bateu a porta
Assim que nos apanhou distraídos; 
E em vez da voz o silêncio corta
Pedaços de nós, já por si partidos. 

Aonde a vida traz o cunho da gente
Nada importa mas só tudo é nada, 
Sonhos derretidos, lava fulgente
Nuvem perpétua de cinza magoada.


Joaquim Castanho

quinta-feira, junho 16, 2016

ILUSÃO ÓTICA




ILUSÃO DE ÓTICA 

Há poemas compulsivos, retraídos 
Reféns do receio n'olhar; capazes
Mas que assim se manterão perdidos
Entre as brumas dos mais audazes. 
Creio que nasceram já consumidos 
Quase peregrinos (e contumazes), 
Prà alimentar o ego aos destemidos
Aguerridos com sentidos vorazes.
Imploram desculpa sem ter errado. 
Aspiram ao perdão apenas porque sim. 
E se os notam, põem-se de lado
Aind'assim não pensemos que estão afim. 
São poemas cuja rima nunca alude
A dizer quanto seu olhar ilude! 

Joaquim Castanho  

terça-feira, junho 14, 2016

A ESSÊNCIA NATURAL DO POEMA




A ESSÊNCIA NATURAL DO POEMA

Às vezes o poema está tão fundo
Que creio impossível vir à tona, 
A não ser que as vozes do mundo
Limpem área de sentido – zona
Semântica em que os conteúdos
Porfiam pela clareza singela 
De, sem ser pequenos nem graúdos, 
Se mostrarem flores à janela: 
Vitrina onde a transparência
É a virtude inigualável,
Que faz das palavras essência 
Do universo comunicável. 

Mas logo que se eleva a pulso
Subindo a trança da beleza, 
Traz sublimes verbos por avulso
Que são gritos d'alma... – e natureza! 

Joaquim Castanho 

domingo, junho 12, 2016

OMISSÃO INTENCIONAL




OMISSÃO INTENCIONAL 

A suprema felicidade
Carrega o grito consigo
Plo corropio da cidade, 
A ficar fora de perigo
Na pétala que osculo
Nesse cetim de ímpar flor, 
Se em devoção me anulo
Por uma prece - e fulgor
De ir para lá do lá sem fim
Até não haver mundo em mim - 
Só sonho sem fantasia: 
Qual querer sem ilusão
A respirar a cor ao dia
No silêncio da imensidão... 

E aí em voo me afadigo
(Contrapicado infinito), 
A ser o silêncio do grito
Dizendo... - o que não digo! 

Joaquim Castanho 

sábado, junho 11, 2016

EXPLICAR A LUZ PELA SOMBRA




EXPLICAR A LUZ PELA SOMBRA

Se tomado em pequenas porções 
nenhum tempo mata, 
a não ser que as condições
sejam afiadas lâminas de faca.

Algumas bem agrestes, por sinal
esclarecem com a obscuridade, 
que é a filha intemporal
do semelhante com a verdade. 

Casamento dúbio, já se vê
entre o adro e a caldeirinha, 
dando ao "como" razões de "porquê"
pra pintar o dia com a noitinha.

Joaquim Castanho

sexta-feira, junho 10, 2016

Pão, pão; queijo, queijo. b


PÃO, PÃO; QUEIJO, QUEIJO.




PÃO, PÃO; QUEIJO, QUEIJO. 

Se o modo encerra o jeito
E este é a atitude, 
Então, não vejo defeito
Em quem age com virtude 
- E estima plos demais, 
Sejam bonitos ou feios, 
De facto ou virtuais. 

A vida é de quem a sente
Sem pieguices nem freios: 
Se gosta, fica contente; 
Se não, foge aos enleios. 

Joaquim Castanho

A INVEJA DAS FLORES b




A INVEJA DAS FLORES b

Três pétalas encantadas 
E três sorrisos de magia 
São fortunas sublimadas 
Qual oásis e luz do dia
A dia brilhar, tão assim
Condão precioso de fadas
Para mil encantos sem fim 
- Até às noites estreladas... 

Exatamente essas mil 
Que serão mil senão mais,  
Tão ao jeito primaveril, 
Que as flores costumadas 
Já lhe querem ser iguais! 

Joaquim Castanho 

A INVEJA DAS FLORES




A INVEJA DAS FLORES 

Três pétalas encantadas 
E três sorrisos de magia 
São fortunas sublimadas 
Qual oásis e luz do dia
A dia brilhar, tão assim
Condão precioso de fadas
- Até às noites estreladas... 

Exatamente essas mil 
Que serão mil senão mais,  
Tão ao jeito primaveril, 
Que as flores costumadas 
Já lhe querem ser iguais! 

Joaquim Castanho 


terça-feira, junho 07, 2016

PONTO ASSENTE E FORMATADO




PONTO ASSENTE E FORMATADO 

Invento-te como se não existisses
E a realidade fica-te apertada, 
Mas se nunca te pedi que a despisses
Foi porque sem ela a nudez não vale nada. 
A diferença não acolhe esquisitices
Nem credos sem lei emancipada; 
Nem se enreda por essas malandrices
De quem mostra e depois fica chocada - 
Com o que vê. Com o que pensa. E o que sente. 
E é sempre essa coisa equilibrada
Entre o nascido e o perecido (jazente)- 
Outra forma disforme mas formatada
Para parecer o que jamais deixou de ser: 
Ponto assente entre gente tão amada
Que s'a invento é só prà não esquecer. 

Joaquim Castanho

MAR DE SEDA





MAR DE SEDA 

Nas olas do mar há uma estrela
Que baloiça e não naufraga, 
Como naufrago eu só de vê-la
E sobre outras ondas me traga
Assim, tão à toa, tão dolente
Tão confuso, tão inseguro
Que julgo não haver mais gente
Dentro deste castelo sem muro - 
Que a vida é -, tragando ainda
Luas e marés, cheias de carinho
Onde se aninha a estrela linda
Com esse mar doce e mansinho. 

Joaquim Castanho

NAUFRÁGIO ORIGINAL




NAUFRÁGIO ORIGINAL 

Escuto o movimento de teus jeitos
Precisos, compenetrados, rigorosos, 
Que exatos advogam novos pleitos
Entre idos feitos e ditos valorosos... 
A tua reserva descobre conceitos, 
Limpa do pó metáforas e aplausos, 
Empresta brilho e demais preceitos
Às imagens, analogias, e (des)casos. 
Que lado a lado se aferem comparadas
E se perfilam em contida expetativa, 
Já que livres de tão sujas dedadas
Renascem estrela nobre e ativa
Mãe da poesia, tua filha por contágio
Estrela-do-mar que também é ilha
- Única razão prò meu naufrágio. 

Joaquim Castanho

domingo, junho 05, 2016

SILHUETA PRIMAVERIL




SILHUETA PRIMAVERIL 

Se eu fosse perfeito
Como é a aurora das manhãs luminosas, 
Seria como tu... 

E bailaria entre luas e rosas
Qual hino eleito 
- Perfumado e nu! 

Joaquim Castanho

sexta-feira, junho 03, 2016

MOTIVAÇÃO UNIVERSAL




MOTIVAÇÃO UNIVERSAL 

Entraste no coração sem bater à porta
E marcaste o chão com pegadas frias, 
Comovendo-me a alma já quase morta
Plos desencontros, atropelos, arrelias... 
E ela, sensibilizada, o ideal exporta
Prà crua realidade de meus dias, 
Sabendo-se o sentido que mais importa
Se por humano é motivo de alegrias... 
Ou tristezas... Porém sempre inspirador. 
Sempre catapultando a nossa vontade
Para além do vil temor ou adversidade. 
Às vezes parece que é razão, outras amor; 
E até poesia, pelo tom arrebatador
Com que nos induz a propor a liberdade. 

Joaquim Castanho  

quarta-feira, junho 01, 2016

IMAGINAÇÃO E SENTIMENTO




IMAGINAÇÃO E SENTIMENTO 

Se apoderou da alma o inato -
Ficou refém do próprio instinto... 
A natureza por vestes, terno, fato
Cuja fatualidade 'tá no que sinto. 
Vergonha, é não amar, não ser exato
Nem fiel, e ver o comum por distinto; 
Esquecer ca vida é um contrato
Entre o querer e o real que pinto
Com palavras negras, ou da cor do giz. 
Que peço emprestadas ao sol, à lua
Para dizer o que quis e o que não quis. 
O que anseio, ou o que vejo na rua. 
E ter essas promessas que te não fiz
Como se fossem a querência tua! 

Joaquim Castanho 

terça-feira, maio 31, 2016

OVOS DE PEDRA FRIA




OVOS DE PEDRA FRIA 

Dia em que te não vejo
A poesia morre, 
E a palavra corre
No invés do desejo. 
É um rio sem leito, 
Um lago sem água, 
Débil pulsar, peito
Exangue de mágoa.
É um grito doído,
Na solidão suprema
Do granito polido
Dum seixo rolado 
– Qual ovo sem gema
Pelo verbo chocado.

Joaquim Castanho 

domingo, maio 29, 2016

COROA DE FLORES




COROA DE FLORES 

Como a sede inventa a fonte
Ou o desejo a alucinação, 
Assim eu invento quem conte
Entre as frondes da solidão; 
E que embora aí faça ninho
Não sendo ave, nem anjo também, 
É quem conta prò meu caminho
Pelos caminhos que a vida tem. 

Margem do ser, ledo horizonte, 
Aonde tenho as minhas cores, 
Esses diademas por cuja fronte
Anseiam filigranas às flores. 

Joaquim Castanho

COM A PÉROLA DA LÍNGUA




COM A PÉROLA DA LÍNGUA 

Quase sempre e sempre quase 
– Porque nesta alegria me digo –
O verbo nasce, cria e dá-se
Num poema de mim contigo, 
Tendo os teus olhos em mente
E o teu sorriso como destino, 
Que a poesia é quase gente
E o teu rosto sempre um hino. 

E luz no azul a cantar a vida
Com gestos meigos e serenos, 
Nesse brilho de lua contida
Se numa pérola nos dizemos. 

Joaquim Castanho

sábado, maio 28, 2016

VER QUE PERDURA




VER QUE PERDURA 

Esqueço não sei que parte
Deste verbo por conjugar, 
Que a vida tem a sua arte
Naquilo que só quer lembrar. 
E lembro o sorriso, o olhar, 
Voz, atenção – que o lembrar-te
É da arte tão-só uma parte, 
E a melhor se chama estar. 
E lembro qu'estaria agora
Se pudesse, ainda a ver-te
Sem outra razão que não essa; 
Que a arte é uma escora
Para suportar sem pressa 
O ver que fita com demora
– E fica até merecer-te.

Joaquim Castanho 

sexta-feira, maio 27, 2016

SOL INEQUÍVOCO E INTEMPORAL




SOL INEQUÍVOCO E INTEMPORAL 

Este vício que não quero perder
E me une à íntegra plenitude, 
Escreve poemas pròs não esquecer
Desinquieta-me com quietude; 
Abraça, aspira, exige-me ser
Cuidado exímio, e não ilude
Nem desespera, mas atrapalha-se
Às vezes, se sucumbindo à pressa 
Tem falhas inlúcidas e de impasse
Ante ti, se a timidez se atravessa
Ao caminho de pedras inseguras,
É o meu porto de abrigo, luz e lar
E farol pra essas noites escuras
Da vontade de viver a escorregar
Plas ladeiras e escarpas das alturas
Em que nos sentimos a naufragar... 

Porque dele nasce por que renasço
Cada vez mais teu, mais vassalo
Desse sorriso, sol de meu espaço
Onde refaço a ternura que exalo.    

Joaquim Castanho