A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quarta-feira, outubro 01, 2014

O ENGARRAFADOR DE LUZ



Respirou fundo e sem maneiras,
Encheu seu vidro de pura alva
Para consumir nos dias escuros
Onde a barriga, saúde e calva
Sejam intransponíveis muros…

Depois, arrolhou-o deveras
Feito preciosa conserva,
Como quem deposita quimeras
Em doses próprias, certeiras,
Pra combater a sorte adversa.


J Maria Castanho
EXPERIMENTAÇÃO NATURAL



A angústia que tiveste
E abalou a tua vida,
É apenas mais um teste
Dela, pra saber s’é querida…

Que os seus poderes são
Todos nascidos da prova,
E mal testa uma condição
De imediato a renova.

Repete, repete, bisa
Em espiral infinita,
Até que o erro improvisa
Novo formato ou matriz.

Então, como mãe expedita
Adota-o por fundamental,
E modelo que sempre quis,
Pondo a angústia na lista
De experiência animal.


J Maria Castanho
MARCAS IDENTITÁRIAS E PERSONALIDADE



Decido a decidida incerteza
Ato seguro da insegura voz,
Que além do ideal há a natureza
Pronta no decidir quem somos nós.

Circunstâncias, principalmente,
Acasos adotados e repetidos,
Registos de formatos de gente
Firmados em livros esquecidos.


J Maria Castanho 
ASSUMIDO E CONJUGADO



Pleno de verbo sentido
Nada escondo, portanto,
Que qualquer sonho tido
Rasga com luz todo manto.


J Maria Castanho
 FLASH



Aguardo em alta competição
Os músculos tensos, o coração concentrado
As batidas no compasso determinado do ser
Os ouvidos diretamente ligados ao cérebro
Ligados à central de todas as sinapses
Ponto fulcral onde o Enter funciona e detona
O clique intransigente, o tiro de partida…

Arriscarei tudo nesse gesto único e derradeiro
Verei cada letra, cada sílaba, num só soslaio
A exata medida da oração, as vírgulas incandescentes
A gramática exclusiva dum verso inaudito.
É um caso de vida ou de morte.
Afinal, é um poema que nasce…
E nunca a poesia acontece em vão!


J Maria Castanho

domingo, setembro 28, 2014



CANHOTO DE INGRESSO

Que há de tão breve na vida
Que faz dela uma passagem?
A certeza leve e assumida
De que após tê-la cumprida
Nos falta bilhete prà viagem…


J Maria Castanho

sábado, setembro 27, 2014



R)

Pedi-te, a favor de mim,
Algo que nem sequer sei;
Agora, és o meio e o fim,
Tanto alínea como Lei.


J Maria Castanho


Desacontecido dia se estreita
No cotão das horas impressistas,
Como quem se enleia na desfeita
Meada de lhe entretecer as vistas…


J Maria Castanho


Desacontecido dia se estreita
No cotão das horas quase mistas,
Como quem se enleia na desfeita
Meada de lhe entretecer as vistas…


J Maria Castanho


Desacontecido dia se estreita
No cotão das horas imprecistas,
Como quem se enleia na desfeita
Meada de lhe entretecer as vistas…


J Maria Castanho

sexta-feira, setembro 26, 2014

ESMERILADOR ANÍMICO



Nega quanto houver
E que já esteja dito,
Que se o amanhã vier
Lhe ditará veredicto
E fim, laço de remate,
Pois dito não ouvido
É só mórbido aparte
D’ecoar sonho perdido…

Então, ergue-te alerta
E sem dúvida alguma,
De quem assim desperta
Soprando névoa e espuma!


J Maria Castanho

quinta-feira, setembro 25, 2014



Teu olhar não me distrai
Desses lábios que me são,
Que onde a palavra vai
Logo o sentir junta razão.


J Maria Castanho
SEIVA



Do regato aceso num jorro
Decidido o gesto não para,
Que nascido ao cimo do morro
Toda a planície alagara.

Suas águas cassa fulgente
Espelho das almas que correm,
Trazem flocos na corrente
Brilhando mais do que podem.

A vid’os dará consumados
Pra explodirem depois nela,
Tal os humanos apaixonados
Que sendo pano, sopram a vela.


J Maria Castanho

sexta-feira, setembro 19, 2014


EU, LIVRO, ME CONFESSO

 
 
 

Nada me digo

Se tenho teus olhos em mim,

Que respirar é um respigo

De tua respiração, assim

Meiga e atenta, onde persigo

A doce ternura sem fim

 

Tripla viagem

Essa, a do tempo, a da corrida

Na moldura da paisagem

Que repete comigo

A carícia, a palavra, a voragem

Consumada do sonho, na vida

 

Aberta página, como vagem

De outra semente, outro trigo

Se me sigo, visão e postagem,

Testemunha aparecida

Na imagem de chegada e partida.

 

J Maria Castanho

quinta-feira, setembro 18, 2014


SILÊNCIO SÍDEREO

 



Reservo as noites estivais,

Cruéis salas caprichosas,

Para os encontros frugais

Entre as pétalas das rosas…

 

E esse breu polvilhado,

Cintilando aqui ou ali,

Ilude o coração calado

Com as palavras que não ouvi.

 

J Maria Castanho

quarta-feira, setembro 17, 2014


O ESTURJÃO DO POEMA

 
 
 

 
 
 
Restrito mas denso,

O sigilo integra

O input propenso

À inovada regra.

 

Giza odes e croquis,

Hinos de abreviar

As horas vãs, servis

Imagens (e caviar).

 

Tal manjar divino

E profanas riquezas,

Refletem o destino

Das ovas... Ilesas!

 

J Maria Castanho

domingo, setembro 14, 2014

SINA



    
Jogou comigo o destino
Só uma partida fatal;
Mas a vida, desde menino,
Nunca mais a tive normal…


J Maria Castanho 

sexta-feira, setembro 12, 2014

DEXFILE MATINAL



Nestas linhas me costuro
Qual ponto sem incógnita,
Plo azul celeste do futuro
Cruzada nuvem insólita,
De monóxido de carbono
Tod’ela de cinza vestida,
Quase lume e abandono,
Como se a própria vida
Fosse a véspera do sono…


J Maria Castanho
ILUMINADA CRENÇA



Esta luz que nos medita
E guarda o sonhar feliz,
Só aquece quem acredita
Ser d’amor o cálice, e raiz.


J Maria Castanho

terça-feira, setembro 09, 2014

LIGHTMOTIVE



As palavras estão ao corrente
De tudo, informadas dialogam
Entre si cultivam a semente,
Constroem pontes, leis, oscilam
E cintilam entre os universos…
Interações, sinapses, comunidades,
Enchem as ruas de caras e reversos;
Coroam reis, campeões, sumidades.

As palavras são tu e eu, somos nós
Alinhados de gente entre a gente,
Cujos passos ecoam com essa voz
De empurrar os dias prà frente.


J Maria Castanho
TREMIDO LUAR



Me chora a lua das manhãs
No crepitar azul d’aurora,
Que a luz ecoa as formas vãs
Ond’ela a si mesma se devora…


J Maria Castanho

segunda-feira, setembro 08, 2014

INVOCAÇÃO, OU O MILAGRE DA UBIQUIDADE



Ocorre-me a distância entre os verbos
Com os sujeitos propósitos de eu e tu,
Que o passado é uma sala de acervos…
E o futuro? A planície ante o azul nu.

Por isso me mastigo, conjugando-os, assim:
Tu, edificando, tecendo essa teia de nós
Onde ele e ela jamais se sentirão sós
Forjando o perto, tal como tu és em mim.


J Maria Castanho

quarta-feira, agosto 27, 2014

MAR INICIAL



Enlevo que nos enleva
Na lúdica vez de sentir,
É mel da flor de esteva
Que só coração pode medir…

Tem a graça d’alma num voo
E o sufixo enleado na voz,
Que este Mar com i a que me dou
É que faz do eu um doce nós.


J Maria Castanho
ÁGUA COSTEIRA



Pé ante pé desagua-me o olhar
Das ameias deste castelo,
Na esperança do teu encontrar
Também, ao momento, a vê-lo
Galopar de Elasippos febril,
Ganhando asas, nome e ventura,
Olisipo em Olissibona versátil
Até à Aschbouna mais moura…

E mourisca-me ele, pestaneja,
Das portas do ser numa visão
Em voo da sílaba que te beija
Desde a foz do Tejo a Portimão.


J Maria Castanho

sexta-feira, agosto 22, 2014

(O)CULTO VERBO



Despido e côncavo e penedio
Meu dorso doído respira o folhedo,
Alongando o ser até ao azul vazio,
Nascido berço, ante os sinais do segredo…

Porque secreto é esse verbo de quem se diz
Aberto e reto, e hirto tanto se inclina,
Sem qualquer vento, tocando pelo nome a raiz
Da devoção, a essa mulher, mãe e menina,
Que no imo da serra é rainha
E do mundo nosso império a imperatriz.


J Maria Castanho

sábado, agosto 09, 2014

EVOLUIR É MUDAR



Por mais fixo que seja o pensamento
Num ideal, ainda que realizado,
Se outro vires mais aperfeiçoado,
Então, entra nele sem constrangimento.
E se por causa desse procedimento
Te suceder vires a ser criticado,
Ou mesmo vira-casacas apodado,
Não ligues ao veneno do intento,
Pois a ideia é livre, e a difusão
Dela cada qual a deve promover
Sob a mais proveitosa direção.
Que nada o cérebro pode entorpecer,
Por perseguir o sonho de sua evolução,
Até ao fruto ótimo chegar – e colher!


J Maria Castanho
ÚLTIMA PARADA (ou ESTAÇÃO DE FIM DE LINHA)  



Pois aqui, as pessoas chegam
Dos mais diversos destinos…
E não raras até morreram
Passo a passo plos caminhos.

Trazem ainda as rusgas nos pés
(Diligências de que foram alvos!)
E nos bolsos, cordas e corcéis
Com que montaram carrocéis
De pouca-terra, e desagravos.

Ao nada que lhes deu a vida
Ao nada que a vida lhes deu 
O vão diluindo na memória,
Crendo que com essa partida
Arreiem piparote na História.

E aí, põem de parte o talão,
Capricham as datas na tarjeta,
Pendurando da guita, o cartão
Com a biografia, ou etiqueta.


J Maria Castanho

quinta-feira, agosto 07, 2014

AUTOCONVENCIMENTO






Digo silêncio e escrevo tarde.
Digo saudade e escrevo demora.
Digo desejo e nada me arde
Além desse estro que nos escora.

Digo abundância e escrevo luz.
Digo semente e escrevo fruto.
Digo serenidade e nada traduz
A tarde que arde resto e produto.

Digo que apenas digo e tudo
Sinto,
Que se na verdade me iludo
Com a verdade da verdade minto.


J Maria Castanho