Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras
terça-feira, setembro 09, 2014
segunda-feira, setembro 08, 2014
INVOCAÇÃO,
OU O MILAGRE DA UBIQUIDADE
Ocorre-me
a distância entre os verbos
Com
os sujeitos propósitos de eu e tu,
Que
o passado é uma sala de acervos…
E
o futuro? A planície ante o azul nu.
Por
isso me mastigo, conjugando-os, assim:
Tu,
edificando, tecendo essa teia de nós
Onde
ele e ela jamais se sentirão sós
Forjando
o perto, tal como tu és em mim.
J
Maria Castanho
quarta-feira, agosto 27, 2014
ÁGUA COSTEIRA
Pé ante pé desagua-me o olhar
Das ameias deste castelo,
Na esperança do teu encontrar
Também, ao momento, a vê-lo
Galopar de Elasippos febril,
Ganhando asas, nome e ventura,
Olisipo em Olissibona versátil
Até à Aschbouna mais moura…
E mourisca-me ele, pestaneja,
Das portas do ser numa visão
Em voo da sílaba que te beija
Desde a foz do Tejo a Portimão.
J Maria Castanho
sexta-feira, agosto 22, 2014
(O)CULTO VERBO
Despido e côncavo e penedio
Meu dorso doído respira o folhedo,
Alongando o ser até ao azul vazio,
Nascido berço, ante os sinais do segredo…
Porque secreto é esse verbo de quem se diz
Aberto e reto, e hirto tanto se inclina,
Sem qualquer vento, tocando pelo nome a raiz
Da devoção, a essa mulher, mãe e menina,
Que no imo da serra é rainha
E do mundo nosso império a imperatriz.
J Maria Castanho
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sábado, agosto 09, 2014
EVOLUIR É MUDAR
Por mais fixo que seja o
pensamento
Num ideal, ainda que realizado,
Se outro vires mais aperfeiçoado,
Então, entra nele sem
constrangimento.
E se por causa desse procedimento
Te suceder vires a ser criticado,
Ou mesmo vira-casacas apodado,
Não ligues ao veneno do intento,
Pois a ideia é livre, e a difusão
Dela cada qual a deve promover
Sob a mais proveitosa direção.
Que nada o cérebro pode
entorpecer,
Por perseguir o sonho de sua
evolução,
Até ao fruto ótimo chegar – e
colher!
J Maria Castanho
ÚLTIMA PARADA (ou ESTAÇÃO DE FIM
DE LINHA)
Pois aqui, as pessoas chegam
Dos mais diversos destinos…
E não raras até morreram
Passo a passo plos caminhos.
Trazem ainda as rusgas nos pés
(Diligências de que foram alvos!)
E nos bolsos, cordas e corcéis
Com que montaram carrocéis
De pouca-terra, e desagravos.
Ao nada que lhes deu a vida
Ao nada que a vida lhes deu
O vão diluindo na memória,
Crendo que com essa partida
Arreiem piparote na História.
E aí, põem de parte o talão,
Capricham as datas na tarjeta,
Pendurando da guita, o cartão
Com a biografia, ou etiqueta.
J Maria Castanho
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quinta-feira, agosto 07, 2014
AUTOCONVENCIMENTO
Digo silêncio e escrevo tarde.
Digo saudade e escrevo demora.
Digo desejo e nada me arde
Além desse estro que nos escora.
Digo abundância e escrevo luz.
Digo semente e escrevo fruto.
Digo serenidade e nada traduz
A tarde que arde resto e produto.
Digo que apenas digo e tudo
Sinto,
Que se na verdade me iludo
Com a verdade da verdade minto.
J Maria Castanho
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quarta-feira, julho 23, 2014
terça-feira, julho 22, 2014
VÍCIO DE SER BOM
Por que me assusta tanto viver
Se é de tudo quanto quero mais?
Porque há comigo a forma de ser
Sendo, como se fazem os cristais.
Mártir é assim que cresce, pois é
Cristalizando nos modos do parece
Água saturada de açúcar ou fé
Mal o ponto atinge, logo endurece.
E ao bem, tanto o quis, o
consegui
Em mim, por demais o fiz
acontecer;
Agora é muito, que de tanto bem o
vi
Em mal se tornar, e mal não deixa
viver.
J Maria Castanho
ESCARAMUÇA POÉTICA
Hoje estou disposto a naufragar
Na intrepidez do destino
arriscando
Verbo sobre verbo, em afoito
conjugar
Da própria voz desobediente ao
mando
Num desmando só por si própria
ouvida…
Tenho a sofreguidão da rima
E a bárbara educação da barbárie,
Mas ante a sílaba frouxa,
dessentida
Aperro-a no freio, salto-lhe pra
cima
Obrigando-a a atravessar a
intempérie
Como se esse fosse o único rio da
vida.
Ela mal me ouve, que eu bem o sei;
Porém, ao sentir-me a domá-la, e
vencida,
Nomeio-me a mim mesmo seu patrono
– e rei!
J Maria Castanho
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domingo, julho 20, 2014
DELITÉDIO PERFEITO
Quando o tédio morrer de tédio
Então, é que vão ser elas!...
Podemos até queixar-nos de
assédio
Ou de ter comprado gato por
lebre,
Sofrer de alzheimer, obstipação,
febre,
Solidão, desamor e demais
esparrelas
Que a vida tem nas bermas e
courelas.
Podemos fazer trinta por uma
linha,
Acender quezílias, autos e
querelas,
Como defender qualquer erva
daninha
Da arbitrariedade e outras
mazelas
Que à tinha ataquem com pior
tinha.
Sim, que se o tédio morrer de
tédio
Dificilmente teremos melhor
remédio
Senão mexer na língua às
apalpadelas,
Que quando o tédio anela o dedo
médio
Bem podem as estrelas ser doces e
belas,
Orientar leituras e guiar
cinderellas,
Inspirar ninfas de rio como de
prédio,
Sentar-se a gente em bicos de
sovelas,
Pois tédio morto, nem cheiro tem
Nem servirá nunca pra entediar
ninguém.
J Maria Castanho
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sábado, julho 19, 2014
ACTA DO AGORA EXTEMPORÂNEO
Com subscrição unânime e absoluta,
Os homens e mulheres de amanhã,
Decretam ser o hoje a ponte
diminuta
Entre tempos que nada têm entre
si,
Sob as telhas celestiais da
utopia vã,
Ou as íngremes rampas do salto em
esqui:
O incerto futuro e o ressentido
passado.
Por mim, dou-lhes anuência e
total razão
Pela singela aspereza crua do
decretado,
E mais adianto dever-se editá-lo
com ilusão,
E duas demãos firmes e espessas
sobr’o croqui,
Que é matéria que não sofre com erosão
Nem carece de qualquer outro
cuidado,
Além do tal senão
Que toda a bela traz consigo
acoplado.
Nada mais havendo a tratar no
agora
Num ato que às atas muito diz e
seduz,
Vou-me embora, sem a mínima
demora,
Ainda assim se não apague a luz.
J Maria Castanho
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sexta-feira, julho 11, 2014
O GUARDADOR DE VINHAS
É suposto haver medo
Na penumbra do receio…
Quem sabe, se tal enredo,
Não nos seduz, e nesse enleio,
Enamorados, guardamos segredo
Do quanto estamos amedrontados?
O que nos é dito, nem ouvimos;
E o que sentimos, logo apagamos,
Aind’assim alguém não o note,
Enleado no lodo e nos limos,
Controversos moinhos e panos,
De todos os Sanchos sem Quixote!
J Maria Castanho
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quarta-feira, julho 09, 2014
NO EITO DA SAFRA
Desse, que chão inacabado
Onde nos habita a vastidão,
Há outro mesmo de nenhum lado
Abrindo pétalas de gratidão,
Em ledas cidades e capitais
A florescer nas estepes e sertão,
Como nas várzeas e canaviais.
Que sendo uno é mais que mil,
Acesa chama da pluralidade,
Cujo verde é sempre um Brasil
No amarelo vivo da amizade.
Joaquim Maria Castanho
terça-feira, julho 08, 2014
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segunda-feira, julho 07, 2014
domingo, julho 06, 2014
FULGOR
IMPETUOSO
Por cada momento que passa
Outro há que nasce imediatamente,
Secundando-o, e logo disfarça
Os limites entre causa e consequente,
E que nenhum respeito à ordem diz
Perante o motivo que tal assim quis…
Mas a mim, o momento parou, absoluto
Nessoutro cuja presença indesmentível
Eras só tu, meiga e rigorosa, exigente e dócil,
Repetido eco feliz da felicidade fulgente,
Quais ondas de memória que agora escuto
Melhor se por elas foste ardente tumulto.
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quarta-feira, julho 02, 2014
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