A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, maio 24, 2018

CÍCLICO AGUACEIRO




CÍCLICO AGUACEIRO 

E me reergo das nuvens cinzentas
Qual gota transparente, vertical, 
Que lenta cai entr'as demais, lentas
Até ao grande oceano do plural... 

Porém, logo, de pronto, a impressão
Vincada, escorreita, vivaz, febril
Que há nessa água de águas mil
A líquida solidão desfeita
À espreita por se ver primaveril. 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

quarta-feira, maio 23, 2018

LAMENTO INCONFORMADO




159.
LAMENTO INCONFORMADO


Ela me castigou por algo que não fiz
E pedir-lhe perdão não adiantará, 
Pois até já o seu castigo eu quis 
Mais que às benesses que outrem me dá…
Que tudo na vida me falha por um triz, 
Nada contenta, nada luz, tudo é vão, 
E me arrasto plas horas escrevendo a giz
Nest’alma ardida, condoído coração.

Sofro, só a recordação me ampara.
Só a solidão me escuta, me entende;
Só nela é meu teu rosto, tua cara
Esta chama que só teu olhar acende.
E mais que astros, o céu, a lua
Só uma voz nela me brilha… a tua!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR  VOZ, página CCVII

terça-feira, maio 22, 2018

REDUNDANTES E RECORRENTES




(RE)CORRENTES E REDUNDANTES

Nesta redundância, sem ideais
Do querer ganhar o seu tostão, 
Há muitas pessoas, bem normais
Que não sabem a diferença que há
Entre o logo e o já, 
Entre o sim e o não!  

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

segunda-feira, maio 21, 2018

SOLUÇO I




SOLUÇO 

Viver é habitar num lago de escombros, 
Um emergir escorrendo água dos ombros; 
É um sacudir da aspereza e da fadiga
Ainda que me ande a Musa a monte
E não haja nada que diga, 
Não haja nada que conte... 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

sexta-feira, maio 18, 2018

TÁCTIL É O SONHO




157.
SONHO TÁCTIL


Quando passas a conduzir 
E, parece, nem sequer me ver, 
Vejo minha esperança a ruir
Sinto o meu coração a doer
No seu inesperado sentir
– Quase abalo ou sismo ser… – 
Onde o chão, a terra a fugir, 
Tem sulcos d’algodão a escorrer
Tem versos de paixão a contrair 
Plo bailado do teu cabelo
(Dlim-dlão, dlão-dlim), qual pêndulo 
Do compasso a marcar-me assim
Num fogo tal, e só por vê-lo, 
Que sonho por tocá-lo, enfim!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ

quarta-feira, maio 16, 2018

PASSEATA ORGULHOSA




PASSEATA ORGULHOSA

Mesmo que a esperança seja turva
E houver insegurança, estagnação, 
Ou se ziguezaguei curva ante curva
Para não patinar num oleoso chão,
Se disser as estrofes, sigo adiante... 
Se a poesia consentir, cuido de ti... 
E entre nós, o futuro, já radiante
Segue-te pelo presente que escolhi. 

Que este navegar sobre os escolhos
Bem para além do longe e do distante,
Traz a alegria escrita em nossos olhos
Quando a vida de confiante... sorri. 

Joaquim Maria Castanho
(Foto: ELIE ANDRADE)

domingo, maio 13, 2018

O ABRAÇO ESSENCIAL II





ABRAÇO ESSENCIAL II

Aposto-m'em cada passo
Na procura do teu olhar, 
Refletido nest'abraço
Que ninguém poderá julgar
Sem deturpar a imagem
Em que a água acredita, 
Exilando-a da margem
Onde bate extasiado,
– Porque em febril cuidado –
O coração que a edita. 

Joaquim Maria Castanho
(C/foto de Elie Andrade)

sexta-feira, maio 11, 2018

APÓS A FALA




DEPOIS DA FALA 



Ondula, baila, baloiça
Oscila um ósculo lunar 
– Digo-o pra que ninguém oiça… – 
Num brinco que me faz baloiçar. 


Qu’isso que a fala aprende
Mal a língua nos pronuncia, 
É um ósculo que nos defende 
Das agruras do dia-a-dia 
Mesmo que não seja tão real
Como o sonhámos tanta vez
É ideal que à vida prende
Quem oscila, balança, porfia; 
Quem baloiça assim todo o mês
Entre o menos bem e o menos-mal. 

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, maio 08, 2018

A FALA e o grito




153.
DO GRITO, A FALA



Inspiro o que me há de expelir
E anseio na sombra me soletro, 
Mas s’ouvir bater à porta, entro
E abro-a prò sol poder sair, 
Que a vida é fulcro, é centro
Que as pétalas mostram ao abrir, 
Qual grito que não querem calar
Pra erradicar desavença e dor. 


Então, já embevecido raiar 
Vejo-te sorrir num gesto de flor
Que não receia o querer falar… 

– E a língua inventou o amor!

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, maio 07, 2018

DEPOIS DO UIVO, o grito




DEPOIS DO UIVO, O GRITO   



Para discernir seguro e inteiro
Quem o coração elegeu primeiro
Não há receita já pronta e feita, 
Nem medida tirada com preceito
Que a margem do afeto é estreita
E a atração também cresce no peito… 

Porém, se o verbo jungir surgir, vier
E exigir pouco a pouco ser conjugado
Em todos os tempos e modos que tiver, 
Desço do poema como quem se apeia
Dum uivo, e de propósito se enleia 
Nele, pra poder gritar quanto quiser!

Joaquim Maria Castanho

sábado, maio 05, 2018

quarta-feira, abril 25, 2018

Abril, 25 de abril de 2018




A cultura não tem credo nem regime, não é de esquerda nem de direita, quer ser livre, inovadora e sustentável, diversa, emancipada, responsável, emancipada, harmoniosa e socialmente responsável. 

terça-feira, abril 24, 2018

COM A LINHA NOS DENTES...




A QUEBRA

Vejam: a próxima linha 
Não tem sentido nenhum... 
Ninguém sabe onde fica; 
Ninguém sabe pra onde vai. 

Não há sons que a digam
Nem palavras pra desenhá-la, 
Mas somente esse clique
De alinhavo que se esvai, 
Bater de dentes ao cortá-la. 

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, abril 23, 2018

MAIS AMA QUEM CRÊ AMAR




O MELHOR AMOR

Bebe água, a rolinha
Enquanto a ideia choca; 
Um dia será apenas minha
E o canto, de quem a sufoca
A desfoca
A desloca ao pronto observar. 

Se tem sede, não é de beber... 
Se aspira, não é pra respirar... 
Mas se vive é por crer viver...
Qu'o maior amor é crer amar. 

Joaquim Maria Castanho

sábado, abril 21, 2018

(IN)DISCRETO MIRAR




MIRAR (IN)DISCRETO 

Há, ao fundo, 
Uma cidade
A espreitar a flor... 

– Então, é verdade
Que todo o mundo
Tem o anseio profundo
De guardar o amor! 

Joaquim Maria Castanho
(Foto: Beluxa Gto.)

A CORRENTE INEVITÁVEL




CORRENTE INEVITÁVEL 

Esfrego o rosto, 
Sacudo a cabeça... 

Mas mesmo assim, aposto, 
Não é certo que te esqueça! 

Joaquim Maria Castanho
(Foto: Zélia Mendes)

A CONTRARIEDADE




CONTRARIEDADE

Chove, pinga, troveja... 

Então, fico em casa
O coração em brasa,
Mas cara d'ora-veja! 

Joaquim Maria Castanho

sexta-feira, abril 20, 2018

SOSLAIO FULMINANTE




XEQUE-MATE

Deste-me xeque-mate
Numa simples jogada, 
Pérola de quilate
Preciosa e dobrada. 

Foi um tiro preciso
Exato, limpo, sem dó,
Que me põe num sorriso
Pronto para dar o nó. 

Deste-me xeque-mate...
– E numa jogada só! 

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, abril 19, 2018

NOVA LUA




LUA NOVA 

Eu andava à deriva
Por falta de notícias
Daquela que é cativa
Em outras frias paragens
Onde não há delícias 
Onde não há estiagens... 

Ora sou preocupação: 
Não resta senão esperar
Que a Lua cresça e então
O Sol a ajude a brilhar. 

Joaquim Maria Castanho 

quarta-feira, abril 18, 2018

A FLOR DESCARADA




A FLOR DESCARADA

Procura devagar
Até encontrar
Entre sombras, ali
A residente flor.  
É a que escolhi.
E embora sem par
Seja, das do lugar
Símbolo de amor. 
De alva pureza,
Amistosa na cor... 

– Mas a sua beleza
'Tá em não ter pudor!

Joaquim Maria Castanho 
(Foto: Beluxa Gto)

terça-feira, abril 17, 2018

O NEGÓCIO DUM ZÉ-NINGUÉM





O NEGÓCIO DUM ZÉ-NINGUÉM    
        

Na tristeza e na revolta, 
Na grande solidão dos dias, 
Oh amor, és uma escolta
Pràs difíceis travessias! 
És essa prisão que nos solta. 
És a sisudez das alegrias. 
Imagens do que há em volta; 
Metáforas do medir verbal. 
Devendo-te incluir também 
Na destreza com que nos guias
Nessa circular que nos mantém 
Em órbita, mas não é astral… 
Antes terrena, comercial
Onde Ninguém vende poesias.

Joaquim Maria Castanho

QUASE VOO SOLAR




QUASE VOO DE LUZ SOLAR 

Há pessoas que nos descem pela alma
Como se flama de cabelos celestes. 
Cujo sorriso desenha beleza calma
E dança madrugadas de luz oriental
Aspergindo flores – estevas silvestres... 

Lídimas proezas em solução plural
Que cremos respirar, se já alvorece
Irradiando sonho, todavia tão real
Qu'o sentir nasce e voa, mas permanece. 

Joaquim Maria Castanho

domingo, abril 15, 2018




SONETO COM SABOR


Esticou-se o malandro na labuta
Que a refrega trazia obrigações, 
Qu’o mais nobre dos nobres também luta
Plo seu quinhão entre tantos comilões. 

Se foi carimbado prà dita conduta
Todas e todos conhecem suas razões, 
Pois nesse dia nem sequer comeu fruta
Por ter medo de se borrar nos calções. 

Muito se susteve, tanto se segurou
Que ainda hoje lê, pensa, e escreve
Com as letras tintas e brancas que ganhou –
Tudo gorduras puras, sãs e cristalinas
Tal qual demais meninos e meninas. 

Joaquim Maria Castanho
(Excerto de foto de Cesaltina Miranda)

sábado, abril 14, 2018

DO SUL, O AFLUENTE...




AFLUENTE DO SUL

Avanço entre tuas margens
Insaciável, inquieto
Que se abrem quase vagens
Onde germina a semente
Fulgente e pura do afeto...

Aí, rebelde, irreverente
Mergulhado na sofreguidão,
Voo liquefeito e urgente
A pulsar até ser vento suão. 
  
Joaquim Maria Castanho

sexta-feira, abril 13, 2018

CERTEZA ABSOLUTA




CERTEZA ABSOLUTA

Oh, meu quinhão de verdade… 
És o sol que sempre quisera! 
Que só me morr’esta saudade
Quando chego à primavera.  

Joaquim Maria Castanho

terça-feira, abril 10, 2018

À PRECARIEDADE FRANCISCANA...




633 ANOS DEPOIS... 
E À PRECARIEDADE FRANCISCANA   



E não há três sem quatro
Coisa que o povo não diz
Mas devia, por ser farto
No parco ajuizar sem juiz, 
Gizar sem giz nem quadro
Torcer o nariz, e franzir 
O sobrolho, sem confiança
Ou recear e ver traduzir
Seu pedir com’uma dança…


De ora vira para aqui
De ora vira para ali, 
De ora vai e ora leva
De ora leva e ora vai,
Duma gente que é serva
Mas logo que não servir – cai.


Cai dessas estatísticas
Das boas pessoas capazes 
Pra entrar pràs estatísticas
Das violetas e dos lilases,
Ou das flores tão malquistas 
Que não prestam prós fascistas
Empresários e doutores
Funcionários e senhores
Sejam patrões ou comunistas! 

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, abril 09, 2018

INSTANTÂNEO DOER




INSTANTÂNEO DOER  

Só a saudade me mantém… 
Só ela suporta meu ser…
Que bem a sinto e logo vem
Assim eu deixo de te ver. 

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, abril 05, 2018

ACERCA DO MITO...







DO MITO




Rotundo é o mito, circular
Como um grito a chegar, 
Onde rodopia na secreta via
Do rodar. 



E dessa chave, renascido enclave
Istmo consequente, 
Voa sempre outra nave
Que lhe promove o significado
Preciso e confluente, 
Dando-lhe aqui o sentido
Aceitado, pronto e assumido
Que ganhara noutro lado. 


Joaquim Maria Castanho

quarta-feira, abril 04, 2018

NA VIAGEM, COMO VÉSPERA




VIAGEM DE VÉSPERA


Obliterado plo óbvio ativo
De ser outro para além de si, 
Quem se busca fá-lo sem ter motivo
Mas por inquietude sentida aqui
E agora a que sucumbe e explora
Quando ri, como quando chora
E empresta seu desvalido estar… 


Podia ser o partir sem sequer sair
Todavia, prefere ser esse emergir
Que é ficar mas só há no imaginar. 

Joaquim Maria Castanho

segunda-feira, abril 02, 2018

FLORIDA É A PLANÍCIE DA LUSOFONIA




138.
SOBRE A FLORIDA PLANÍCIE, A LUSOFONIA 



Há um poema que não digo
Mas nunca esqueço; 
Há um poema onde soletro
Por que estremeço
Me persegue s’o persigo
Mudo, circunspeto
Até que ecluda, por fim
Polvilhando searas 
De prosas (em assíndeto)
Como faúlhas, aparas 
Que são estilhaços de mim. 



É mel vertical que transluz 
Ao diluir-se em cor, 
Portal d’anseio que transpus 
Em espigas d’amor,
Prà farinha dessoutro pão
Qu’é o nome de cada flor. 

Joaquim Maria Castanho



CAMINHANDO E COLHENDO





136.
A COLETORA 


As estações expiram sem ais.
Às vezes, ditam-me os caminhos; 
Outras, dizem-me por onde vais
Apenas, e só, pra te encontrar
E ver, que as manhãs, se serenas
Imitam o teu modo de andar, 
De pisar chão, apurar-lh’o tato
Que nem cada pé fosse outra mão
A aflorar pedras, flores e mato. 

Se são muralhas, sobem-nas, então
Se rosas, não evitam espinhos; 
Se alecrim, carqueja, ‘piricão
Silvas – usam-no para infusão!    

Joaquim Maria Castanho


EXÍLIO PEDIDO




135.
PEDIDO DE EXÍLIO



Sei que exilar-me de mim é urgente 
– Nada corrobora esta quietude:
Fico ensimesmado, se entre gente
Só a pensar-te, na mesma atitude 
De quando isolado, ou sozinho, 
Me perco entre as paredes da casa
Ou vagueio por qualquer caminho, 
Divagando com a cabeça em brasa. 


E se o constato, por tão evidente
Também lhe reconheço outra virtude: 
A de ficar a saber que o carinho
É uma pátria suprema, querida,
Onde os beijos edificam o ninho 
– E o pedir… Qualidade de vida!  

Joaquim Maria Castanho

sábado, março 31, 2018

HUMILDE BIPARTILHAÇÃO

  


HUMILDE BIPARTILHAÇÃO 

É neste poema que aposto
Todas as fichas que possuo... 
Se ganhar, só ganho um gosto; 
Se não ganhar, sequer amuo. 
O crédito fica pra depois
– Quando um dia eu precisar! –
Se não der para partir em dois, 
Tal a célula ao procriar. 

Então, vistos os poemas assim, 
Neste investir sem arriscar, 
Creio que trabalho só pra mim
– Sem a poesia nada ganhar.

Joaquim Maria Castanho

sexta-feira, março 30, 2018

DO PORQUE SIM AO PORQUE NÃO




DO PORQUE SIM AO PORQUE NÃO 


Põe os olhos no exato
Sentido da palavra, raiz 
Pois é ela quem de facto
A alicerça pra dizer – e diz. 
Mas deixa-os escorregar
Log’a seguir, prà valeta
Para a água a depurar
E a tornar escorreita. 


E então, nesse ínterim 
Escuta-a só dizendo não
Somente porque não é não 
– Apenas porque sim é sim.

Joaquim Maria Castanho

quinta-feira, março 29, 2018

DOCE, MEIGA E MACIA MÃO...




DOCE, MEIGA E MACIA MÃO…  


Caprichou por exagero,
Exagerou por defeito, 
Coisa qu’é só desespero
Quando nasce do peito. 

Pois nem sempre assim é
Já todo mundo bem sabe, 
Mesmo a começar por mim 
– Pouco atreito ao alarde... 

À promessa feita em vão
E os sinais pra iludir, 
Quem concede ao coração 
Mais que ele pode pedir. 

Ped’afeto, ped’atenção,
Pede silêncio, carinho, 
E às vezes, até a mão, 
De quem o traz plo beicinho.   

Joaquim Maria Castanho