A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

quinta-feira, dezembro 24, 2015

TODO O POEMA É FRUTO DO EMBARGO

 
 
 
 
TODO O POEMA É FRUTO DO EMBARGO

 

"A lei é a própria razão, tal como reside e opera na mente do homem"

(aedem ratio cum est in hominis mente confirmata et confecta est lex)


– in CICERO, De Legibus, I,IV

 

Por quem, e de que é feito o puro intento

Ou ainda, como se forma a razão segura,

Se cada, e também, a cada momento

Muda, e, ao mudar, logo amadura?

Assim mesmo é o verbo inconstante

Em seu dizer, para calar de seguida

Marcando, pois, a pausa e o instante

Pra nova ação, mas dentro da mesma vida...

Logo, regular a respiração d'evoluir

É tarefa que aos limites frequenta,

Já que para sermos, crescer é partir

Noutro ser que em nós próprios se senta.

E comanda e opera e dita por moral

E certo quanto for também honesto,

Que a poesia impera pelo racional

Que se exercita num íntimo arresto.

 

Joaquim Castanho

(Imagem:Princesas da Disney)

UMA ÓPERA MALCONTADA

 
 
 
 
UMA ÓPERA MAL CONTADA

 

"Agora estás distante certamente

Pois tua voz tem o inumerável tom

Do eco, e mal o ritmo lhe percebo.

Mas te vejo: tens violetas nas mãos

Cruzadas, tão pálidas, e tens líquenes

Junto aos olhos. Portanto, estás morta."

in SALVATORE QUASIMODO, A Balsa

 

 

Quasimodo tinha uma bela

Mas que não era tão bela assim,

Pois ao fazer o caminho dela

Apenas lhe antecipava o fim.

Queria da poesia o elogio,

Da vida o sonho e a magia,

Mas esquecia viver num rio

Onde a corrente é só água fria...

Quasimodo tinha uma bela

Tão bela que parecia Querubim

Que fugia, fugia, fugia, e fugia ela,

Porque uma mariposa assim

Só brilha apenas se mais ninguém

Lhe pinta a alma com esse desdém

Que além de brisa é assopradela.

Joaquim Castanho

(Imagem personagens Disney)

 

Salvatore QUASIMODO, poeta italiano, nascido em Siracusa, Sicília, em 20.08.1901, e falecido em Nápoles a 14.06.1968, funcionário do ministério das obras públicas, redator do semanário Il Tempo e professor de literatura no Conservatório Giuseppe Verdi, foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1959.

terça-feira, dezembro 22, 2015

GARANTIA CIVILÍSTICA




GARANTIA CIVILÍSTICA 

Quando a realidade é indistinta
E nada prevalece que a ilumine, 
Só a tua palavra à névoa finta
Só ela garante que a luz ensine,
A bem distinguir, a bem destrinçar 
Entre o que é interesse ou conceito
Plo qual a alma inocente tem lugar
Próprio, efetivo e único, por direito. 

Que quando a realidade é irreal, 
O chão treme, a esperança oscila; 
Mas o subjetivo é objetivo natural
Que dita a nova ordem e se perfila
Sem receio desse insight confundido 
Num interesse jurídico protegido. 

Joaquim Castanho
(Imagem: Princesas da Disney)

O TRADICIONALISMO É A MODERNIZAÇÃO





O TRADICIONALISMO É A MODERNIZAÇÃO 

Flexível e plural e identitária, 
Descentralizada e comunicativa, 
É mais justa a ordem se contrária
À rigidez abstrata e corporativa;  
Porque é contínua comunicação.
É verbo em simbiose de cultura.
É rasgar de mitos senis à tradição
E ser presente na iurisdictio futura.  

Assim te digo eu hoje como um amanhã
Pleno desde o primeiro dia em que te vi, 
Que há no quando um espaço de lã
A tecer sonhos ideais do sonho em si. 

Joaquim Castanho 
(Imagem: Princesas Disney)

QUE SEJAMOS COMO SOE SER-SE




QUE SEJAMOS COMO SOE SER-SE 


Pois, o dever-ser é um fim no meio, 
Consequência jurídica e ética
A cuja hipótese não fica alheio
O justo na justa escrita da métrica. 
Que a cidadania também tem suas normas
E todas as normas que são de regras feitas
São sempre outras tantas das tantas formas
De nas portas tortas, baixas e estreitas
Da vida, as gentes entrarem direitas. 

Assim é portanto a poesia, sobretudo
Quando atenta nos fazeres milenares, 
Se o nada feito de pequenos nadas é tudo 
Sã diferença prà primazia entre pares...   

Joaquim Castanho 
(Imagem: Princesas Disney)

TRAJA A IDEIA CONFORME O IDEÁRIO




TRAJA A IDEIA CONFORME O IDEÁRIO 


O que não é proibido é permitido
E não poderia ser doutro modo, 
Que quem serve também é servido
Garantida parte e de garantido todo. 
Porém, no relativo e igual aparte 
Tem parte cativa no positivo
Que assiste ao social da arte
E dita o natural normativo
Hipotético
Categórico, 
Tanto pelo plural ou ético, 
Simples ou gongórico, 
Qualquer verso do universo imperativo... 
Seja aqui, na Terra, como em Marte. 

Joaquim Castanho
(Imagem: Princesas Disney)

ESTRITO PULSAR EXTENSIVO




ESTRITO PULSAR EXTENSIVO 

Porque ver a lei à luz da Lei
Amor é tanto que nem eu sei
Como dar sentido a esta dor
Em ver-te assim tão distante, 
Num rompante de esgar em flor
Cuja cor é doído semblante
No rio dos sentidos do amor, 
Ou saudade de um instante
Já sentido, já sentimento,
Qual história do preceito
Com que o ritmo é momento
Abatido plo bater do peito.

Que conhecer esse conhecido
Sentido que é todo querer bem
(O sentimento compreendido...)
Tem, enfim, seu maior sentido 
Motivado e tido por alguém.

Joaquim Castanho 
(Imagem: Princesas Disney)

§ ÚNICO




§ ÚNICO 

Nada é dito por enquanto
Que a palavra já não saiba, 
Pois qualquer rima é canto
Desde que aí a alma caiba;
E se do toque o sonho fica
Para nos tatear o interior, 
Então vemos que modifica
Tudo o que nos toca por amor. 

Que a vida é um parágrafo
Plo epitáfio resumida, 
Tendo coração polígrafo
Se a verdade nos é querida. 

Joaquim Castanho  

quinta-feira, dezembro 03, 2015

O SONHO NÃO É SONHO




O SONHO NÃO É SONHO 

"Aquilo que a Glosa determinar deve ser mantido, pois nas decisões das glosas raramente se encontram erros" – Baldo, século XIII-XIV. 

Quando te digo o sonho
Aprendo-me contigo
A escapar ao medonho
E a fugir do perigo. 
Que a voz se liberta
Libertando-nos com ela; 
Logo-logo nos desperta
E acorda a "Cinderela" 
– Assim tão uma, tão de repente
Que o sonho, não é sonho... é gente! 

Que ao dizer-te primeiro
Bem antes de tudo o mais
Me faço teu aio escudeiro, 
Mentor de aedos e jograis; 
E que nunca esquecem gratos
De tanta felicidade ter,
Pela Senhora cujos atos
Lhe conferem são parecer
– Assim tão uma, tão de repente
Que o sonho, não é sonho... é gente! 

Primeira de primeira lei, 
Par mas de ímpar gesta; 
Que a ela devo quanto sei
E sem ela o saber não presta. 
Que meu dizer é por si só, 
Depois partilhado a eito; 
Moído grão a grão sob a mó
Por quem me bate o peito 
– Assim tão uma, tão de repente
Que o sonho, não é sonho... é gente! 

Joaquim Castanho
(Imagem:Princesas da Disney)

quarta-feira, dezembro 02, 2015

IUS EST IUSTUM




IUS EST IUSTUM 

O que é justo é direito, 
Que do direito se vê justo
Tudo quanto a muito custo
Vai ficando a nosso jeito.
E logo assim em igualdade
Sílaba a sílaba proposto,
Se também for essa a vontade
Das uvas que podem ser mosto. 

E mosto de elevado grau, 
Bem frutado e fino aroma; 
Que a justa liça não é pau
Mas razão que a todos doma. 

Joaquim Castanho 

TOGA DE CINZA




TOGA DE CINZA

Há grafites na pele do ser
Que o revestem de brocados
Sedas ou cetins a condizer
À garça por graça tatuados, 
Transparecidos por vocação
São dogmática, são cuidados
São conceitos em justa (razão) – 
São razão prà razão criados. 

É por eles, que à alma espelham
Como sombras de cinza e prata, 
Que estes versos se assemelham
A algodão numa negra nata.

Joaquim Castanho  

segunda-feira, novembro 30, 2015

FORMATO INTEMPORAL





Teu corpo cola-se ao meu
Num formato intemporal; 
São estrela que desceu
Pla luz do desejo astral, 
No cumprimento urgente
Da aspiração profunda
Que o sangue incandescente
Tem se a vida o inunda.



E a Terra para, estanca
Do universo em suspensão... 
É nosso grito que a tranca
No orgasmo da imensidão! 

Joaquim Castanho

ÍNTIMA IURISDICTIO




ÍNTIMA IURISDICTIO 


Pois, do uno vi versus em suspensão
Prestes e prontos ao naufrágio secular
Com que as vozes mergulham por paixão
Na vertigem do seu próprio mergulhar. 
E entretecidas assim na oratória
Da dialética duma juris romana, 
Fazem pespontos pr'acender a história
Com o presente que do passado emana.  

Que a dogmática é suporte de lei 
E a residir num duplex arrendado
Em ponto cruz entre a grei e o Estado,
Num poema ditado plo ser que me sei. 

Joaquim Castanho 

TEU OLHAR ME DITA O SENTIR





TEU OLHAR ME DITA O SENTIR


Me olha por dentro o teu olhar
Habitante entre neurónios
Único supervisor a julgar
Meus sentires mais profundos
Sonhos – ou anjos, ou demónios. 
Ou aspirações do puro querer, 
Estrelas nos céus vagabundos
Sobr'águas do Mondego a correr... 

E me olha por dentro a tua voz, 
Teu gritar em plena liberdade, 
Quando diz «eu» mas ouço «nós»
Repetindo-lhe o eco no dizer
Até ser, e soar, só a verdade. 

Joaquim Castanho

QUANDO SE NÃO PERCEBE UM TEXTO VOLTA-SE A LÊ-LO





Quando se não percebem os poemas
Quando se não percebem as pinturas
Quando se não percebem seus temas
Quando se não percebem as criaturas
Então, é porque foi chegada a hora
De voltar a lê-los e vê-las sem demora.

Joaquim Castanho 

DAR PARA RECEBER




DAR PARA RECEBER 


Pela pouca esperança com que o mundo é feito
Entre a aspereza da desilusão e contrariedade
Raros foram os que puseram a razão ao peito
Como uma rosa ainda c'os espinhos da igualdade... 
Mas estiveram lá todos aqueles e todas aquelas
Que do do ut des fizeram o ouro da lei e da regra
Que disseram o inominável como quem prega
Que tiveram bandeiras onde há portas e janelas
Que foram a casa o templo a família e a diferença
Duma humanidade toda sem exceção de pertença. 

Só perante eles e elas eu me inclino com respeito
Que a honra de nascer também nos nasce pelo dito
Desde que este seja mais do que um simples grito 
Aceso pelo veredito do que tivermos sido... e feito!   

Joaquim Castanho

quarta-feira, novembro 25, 2015

ONÍRICA ERUPÇÃO




ONÍRICA ERUPÇÃO 

Sem receios nem leme
Navego-te os veios
A púbis e os seios
E a areia da derme
Sob o vaivém do ser
Onde as ondas a bater
Nas pernas, nas coxas
Tintas do néctar íntimo
Tingem o sonho ínfimo
Com a grandeza da vida. 

Podia eu olvidá-lo
Neste curto intervalo
Da existência tida; 
Mas o abraço me acoita
Nossa casa minha moita
Por tua lava explodida. 

Joaquim Castanho

NAVEGAÇÃO NAS ALGAS DA LÍNGUA




NAVEGAÇÃO NAS ALGAS DA LÍNGUA
(para cá das Portas do Hades)


Pois arranco-te ao infinito
Como beijo que franqueia a morte, 
E os lábios colados criam o grito
Dos corpos inventores da sorte. 
Mas nesse instante fugaz,
Desse mar que ao oceano se faz,
Jungidos definitivamente
A roupa cai-nos aos pés
Em labaredas de sangue quente,
Pelo fulgir do luar que és.

Mar meu a mergulhar no teu oceano
Que no vaivém da pura luz e das marés,
Te envolve e penetra a todo o pano
Navegando-te por algas de lés a lés.  


Joaquim Castanho

CARTA MATINAL



CARTA MATINAL 


Te desejo como o vento alvoraçado
Na manhã agreste, ímpia e cinzenta, 
Penetrando cada poro descuidado
Com esta língua sôfrega e sedenta: 
Algumas vezes, apenas os fustigo; 
E noutras, degusto-lhes a textura. 
Mas é sempre e unicamente contigo
Que m'envolvo e rodopio de loucura.

Então, cruzo os verbos e conjugações
Pelas rotas do abraço bem apertado, 
E sinto-te a pulsar nas imensidões
Dum orgasmo às rajadas libertado!   
  
Joaquim Castanho

À FEIÇÃO DOS VENTOS




À FEIÇÃO DOS VENTOS

Tenho um adjetivo debaixo da língua
Como s'ele fosse sinónimo de perfeição;
Percorre-me a face, bem pouco à míngua!, 
Num sorriso desenhado pela tua mão. 
Risca de leve, num pintar tão mansinho, 
Que até parece que a brisa tem defeito, 
Quando borboleteia em sereno jeito
De ar – ou pluma – a murmurar carinho...

Então, falho de medo, abro-lhe o peito,
E ouço-me apenas exclamar: «Perfeito!» 

Joaquim Castanho  

HUMANIDADE SUICIDA




HUMANIDADE SUICIDA  


O medo dos outros criou inumanos 
Seres dentro desta humanidade, 
Tão apegados aos limites e seus danos,
Suas virtudes, narcisismos e vaidade,
Que geram a morte apenas prà gerar
Morrendo de seguida, e em seu lugar. 

Loucura ou avaria da espécie, se dirá
Pra esconder suma ignorância latente; 
Porque a brutalidade é a filha que há
Dos pais do país que não olha prà frente. 
Que só quis ser história, egrégio passado,
Dor da memória num futuro crucificado.

E assim, feito depósito fétido e nojento
De quanto esta vida tem na pior vileza, 
Onde cada qual se cozinha no tormento
Que o há de comer à sua própria mesa. 
O medo dos outros gerou gente insana, 
Qu'é o que sucede a quem a si se engana. 

Joaquim Castanho

_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_




_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_ 


Já que ninguém nasce ensinado
Dalguma forma tem que aprender, 
Seja a ser, como a estar ou fazer, 
Seja aqui ou em qualquer lado, 
O há de tentar descobrir; 
Que para o saber se abrir, 
Se queres o como e o porquê, 
Mesmo que não entendas, lê. 

De início a gente estranha
E até rejeita seja o que for, 
Mas a Lei não é fé, não é favor, 
É só transparência sem manha; 
Pois o saber clarifica
E o complicado explica
Como é o ser que se não vê... 
Mesmo que não entendas, lê. 

Há quem tema ou muito receie
Quanto a vida tem de profunda, 
E ao viver e não-viver confunda
Se a luz não lhe vier como lei; 
Qu'a chama da claridade
Nasce dessa liberdade
Que é escolher o que a dê
– Mesmo que não entendas, lê!

Joaquim Castanho 

CANTO DO SEGREL ENCANTADO




CANTO DO SEGREL ENCANTADO 
( ao jeito de D. Dinis)

Minha Senhora me é tudo... 
Às suas covinhas quero bem, 
Que as tem como mais ninguém; 
De cor as sei e não m'iludo
Com as comparáveis
Cópias viáveis
Das que são luz todo mês
Como só são as de Inês. 

Elas me inspiram e encantam
Mesmo havendo parecidas; 
E nunca serão esquecidas
Por muitas mais que existam
Neste Portugal fora, 
Futuro ou d'agora, 
Até do mundo, talvez, 
Como só são as de Inês. 

São irmãs da felicidade, 
Gémeas d'afeto profundo; 
Segredo à vista do mundo
Do ser jovem em tod'idade, 
E dignas de querer bem
Como por mais ninguém
D'hoje ao milénio três, 
Como só são as de Inês. 

Joaquim Castanho 

CANTO DO SEGREL ENCANTADO




CANTO DO SEGREL ENCANTADO 
( ao jeito de D. Dinis)

Minha Senhora me é tudo... 
Às suas covinhas quero bem, 
Que as tem como mais ninguém; 
De cor as sei e não m'iludo
Com as comparáveis
Cópias viáveis
Das que são luz todo mês
Como só são as de Inês. 

Elas me inspiram e encantam
Mesmo havendo parecidas; 
E nunca serão esquecidas
Por muitas mais que existam
Neste Portugal fora, 
Futuro ou d'agora, 
Até do mundo, talvez, 
Como só são as de Inês. 

São irmãs da felicidade, 
Gémeas d'afeto profundo; 
Segredo à vista do mundo
Do ser jovem em tod'idade, 
E dignas de querer bem
Como por mais ninguém
D'hoje ao milénio três, 
Como só são as de Inês. 

Joaquim Castanho 



domingo, novembro 15, 2015

IRMÃS DA ESPERANÇA de PAUL ÉLUARD




IRMÃS DA ESPERANÇA 

Irmãs da esperança ó mulheres corajosas
Que contra a morte tendes feito um pacto
O de unir as virtudes do amor

Irmãs sobreviventes
Que jogais a vossa vida
Pra que a vida triunfe

Aproxima-se o dia ó irmãs da grandeza
Para rir das palavras guerra dor e miséria

Cada rosto terá seu direito à carícia. 

POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 74)

DIÁLOGO por PAUL ÉLUARD




DIÁLOGO

Belo invento coberto de vergonha
Memória de ouro enrolada no chumbo
Amor glorioso posto fora do leito
Natureza nobre manchada por anões

VINDE VER O SANGUE NAS RUAS

Somos muitos a recusar
Que seja o sol uma faca
Que seja o mar um veneno
Somos muitos a querer viver

NADA NEM MESMO A VITÓRIA
ENCHERÁ O TERRÍVEL VAZIO DO SANGUE: 
NADA, NEM O MAR, NEM OS PASSOS
DO SAIBRO E DO TEMPO
NEM O GERÂNIO ARDENDO
POR SOBRE A SEPULTURA. 

Muitos de nós perderam a vida
Na esperança de um mundo melhor
Inocentes seguros dos seus direitos
Eu lhes sorrio e me sorriem

UM ROSTO DE OLHOS MORTOS VIGIA AS TREVAS
SUA ESPADA ESTÁ CHEIA DE ESPERANÇAS TERRESTRES

Gravidade de sentidos e sexo
Veleiro da matéria subtil
E nós somos uma só ramagem
Folhas e frutos para servir a árvore

Por único exercício a bondade
Por única manobra a razão
Com centenas e milhares de aves
Levadas de planeta em planeta

FILHOS DILETOS DA VITÓRIA, TANTAS VEZES CAÍDOS, 
DE MÃOS TANTAS VEZES SUPRIMIDAS

Sempre a palavra meu coração confio
Imagens das imagens a manhã que desperta
Mas que já despertou pois que falamos dela
O sonho sol da noite tem a força de sempre

Ó MÃES ATRAVESSADAS PELA ANGÚSTIA DA MORTE
VEDE A ALMA DO DIA NOBRE QUE VAI NASCER
SABEI QUE VOSSOS MORTOS VOS SORRIEM DA TERRA
SEUS PUNHOS LEVANTADOS TREMULAM SOBRE O TRIGO

Vou fazer florir o redondo carmim
Do céu por sobre a terra e do seu dominar

Ódio é nada amor escreve-se duplo
Se um enfraquece descolaram os dois

VI COM OS OLHOS QUE TENHO, COM ESTA ALMA QUE OLHA, 
VI CHEGAR OS CLAROS COMBATENTES, OS COMBATENTES QUE DOMINAM 
DA ESBELTA, DURA, AMADURECIDA, DA ARDENTE BRIGADA DA PEDRA. 

Que a coragem mais clara esclareça a linguagem
O homem perseguido vem a ser a perfeição futura. 

(NOTA: "As passagens em MAIÚSCULAS são extraídas de poemas de PABLO NERUDA.")

in PAUL ÉLUARD 
POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Págs. 66-67-68)

quarta-feira, novembro 11, 2015

RUA DO ABRAÇO




RUA DO ABRAÇO 

Como poderei dizer-te... A sombra
Veio raspar – unhas afiadas – rrrhhee-rrrhhee
E na parede do meu silêncio há agora
O dilacerado grafite de suas garras, rasgos
Fundos, abertos vincos onde nascem musgos
Líquenes alucinogéneos, algas viscerais
Habitats preferidos dos moluscos lânguidos 
Da ideia quase a desenrolar-se cobra-bicha 
Quase a desenhar-se na alma receosa
Quase a recear o seu próprio veneno 
Quase sangue em coágulos negros
Quase vulcão morto na ladeira do ser
Quase carvão pétreo do querer em forja. 

Porém, entre os escombros uma rua solar
Eclode abraçando a praça nua inundada de luz.

Joaquim Castanho  

BALADA PARA INÊS




BALADA PARA INÊS  


Serei tão egoísta contigo
Quanto destino na paixão, 
Que o amor é filho do perigo
Com'imperador da solidão.  

Com ele jamais somos sós, 
Mas cad'amizade é tormento, 
Tecida rede em fios de nós, 
Doces pontos – febril alento. 

E sofrer, apenas um teste 
Pra provar a resistência, 
Que melhor cresta o agreste
Do que toda a sapiência. 

Minha sina é ponte de rio
Sobre académicas águas, 
Que onde o calor produz frio
Até o prazer nos traz mágoas.  

Joaquim Castanho  

A TERRA DOS SONHOS FELIZES de John Brunner




JOHN BRUNNER 
A TERRA DOS SONHOS FELIZES
Trad. Eurico da Fonseca

"– Bem, será apenas durante algum tempo. Apertemos os cintos!
Depois tinham notado: 
– Os outros ainda estão piores do que nós. 
Mas agora gritavam: 
– Esses ladrões da ONU! 
«Qual é a alternativa? Legislar o canibalismo!»
Fora o que o secretário-geral Pafiq afirmara no seu último relatório sobre o estado do mundo, na sessão plenária da ONU, em Nova Iorque. E Greville, que o vira através do sistema de televisão interna do edifício, notara que, na expressão do seu rosto, não houvera qualquer traço de humor. 
Bem, sempre havia paliativos. Diretivas sobre o uso do combustível, da energia, das matérias-primas essenciais. Não se gastava no aquecimento central o gasóleo que podia ser consumido por uma locomotiva. Não se via televisão com a eletricidade que podia conduzir vigas de aço através de uma trefilaria. Nem se construía um teatro com o cimento que podia servir para outro bloco de apartamentos. 
E depois viera o inevitável: não se andava com um lugar vazio no carro se alguém mais seguia para o mesmo destino. Não se dormia com dois compartimentos vazios em casa, se havia na cidade quem não tivesse onde dormir. 
Nos meados do século XX, a população fora de dois mil e quinhentos milhões. No fim do século alcançara seis mil e quinhentos milhões. Agora era de mais de oito mil milhões! A todo o momento surgiam milhares de novas bocas, a gritar de fome! Milhares de novos corpos que precisavam de ser vestidos! Milhares de novos espíritos exigindo educação, informação, divertimentos! 
O trabalho que Lumberger estava a fazer ali – um homem, um laboratório, meia dúzia de culturas experimentais – podia ter sido feito antes de 1970. Os desertos, em todo o mundo, teriam sido reduzidos a metade. Mas cada vez eram maiores. Um programa devidamente orientado, nos anos 70, teria tornado uma realidade a cultura dos mares, conservando os recursos de peixe e de plâncton, em vez de se servir deles como de uma conta bancária infinita – e desastrosa. 
Que aconteceu em consequência de tudo isso? No fim do século tinham gritado pelo Doutor Nações Unidas para que viesse curar um doente cujo estado se tornara mais grave devido aos curandeiros do que aos verdadeiros males. 
Com a falta de papel, de energia e de artigos de luxo – como os sorvetes e refrescos – e a necessidade de fabricar charruas, ceifeiras-atadeiras e arrastões em vez de carros e giradiscos –, não era de admirar que as pessoas perdessem a esperança. Nem que procurassem SONHOS FELIZES."
(Págs. 31-32)

TROVA DO OLHAR PRIMEIRO




TROVA DO OLHAR PRIMEIRO 


Já caía sombra de sobra sobre ti
Sobre mim, e sobre o universo
Quando a luz nos interrompeu; 
E foi então que, e de súbito, vi  
O centro do mundo não sou eu... 
Porque, sem nada de perverso, 
O procuro, e só o encontro de vez
Quando olho nos olhos de Inês.   

São o refrão duma ária antiga; 
São a fórmula mágica e musical
Desse tempo que agora começa, 
Tão ritmado como uma cantiga 
Cavalheiresca ao jeito provençal; 
E que às lusas liras pede meça
Como quem desafia o português,
Quando olho nos olhos de Inês.

Pois o destino de cada trovador
Já há muito que lhe foi traçado... 
Foi o jogral das alquimias vivas;
Foi o garimpeiro do puro amor;
Foi lidador pelo ideal cuidado;
Foi são escravo de suas cativas;  
E o cantor que todos os cantos fez 
Quando olho nos olhos de Inês. 

E também foi quem apenas se quis ser,
Sem mais nada nesta vida almejar, 
Do que só aquele simples escritor
Que jamais desistiu de aprender, 
Ou de ler, ou de ouvir e pesquisar,   
E sentir exatamente o mesmo fervor,
Com que o fez dessa primeira vez
Em que ao olhar viu os olhos de Inês.  


Joaquim Castanho

GOETHE





"dar muito cifra a receita de agradar a todos"

in GOETHE 
Fausto
Trad. de Castilho
Barcelos, 1963

ECLIPSE TOTAL de John Brunner




In JOHN BRUNNER
ECLIPSE TOTAL
Trad. de Eurico da Fonseca


"Ouvidos naquele ambiente, que tanto recordava a Terra longínqua, os relatórios iniciais de cada departamento pareciam mais impressionantes. Em Peat, as pessoas sentiam-se dominadas pelo passado. Ali estava a oportunidade de descobrir uma crença no futuro. 
Ian meditou até que chegou o momento de fazer o seu próprio relatório e depois repetiu mais ou menos o que ele já dissera a Nadine e a Lucas. Não lhe soou melhor que antes; mesmo assim podia reconfortar-se com a ideia de que até o conhecimento negativo era útil. 
Quando toda a gente concluiu o que tinha a dizer, Rorscharch disse: 
– Há uma coisa que eu noto, depois de os ter ouvido a todos. 
Olharam-no, em expetativa. 
– Parece-me que estão a falar como se tivessem chegado a um beco sem saída em todos os últimos caminhos que vos restavam. Estou surpreendido. Para mim, parece-me que deram constantes passos em frente. 
– Valentine? – disse Igor, com um gesto. 
– Sim? 
– Quase tens razão no que disseste. – O velho arqueólogo-chefe inclinou-se para a frente, com um copo de vinho nas mãos. – Naturalmente, em resultado da descoberta dos nossos muito esplêndidos e idênticos edifícios... em atenção a Ian não lhes chamarei «templos»!... em resultado disso nós fizemos uns progressos tremendos. Mas!...
Bebeu um pouco de vinho antes de prosseguir. 
– Mas fomos apanhados num círculo vicioso. É verdade que sabemos muito mais dos nativos do que esperávamos há ano e meio; temos tido uma sorte tremenda, o que é outra maneira de dizer que temos mantido os nossos olhos e os nossos espíritos abertos e respondemos quando alguma coisa surge. No entanto, por outro lado, precisamente porque temos reunido tantos factos novos, temos muitas, muitas mais combinações possíveis. Cada um de nós, à sua maneira, pode ser olhado como tendo o mesmo problema que Ian: portanto enquanto estamos simplesmente a reunir dados, sem um quadro imaginário onde os colocar, sentir-nos-emos mais frustrados que agradados. Pelo que pretendo propor que ressuscitemos o plano de Ian para a construção de um Draconiano simulado, e vejamos se podemos desenvolver uma boa hipótese, partindo das recomendações dele, para comprovarmos aquilo que pensamos saber. 
– Apoiado! – disse imediatamente Cathy, do lugar onde estava, ao lado de Ian." 

(Págs. 130-131)   

PEQUENO ÉDEN




PEQUENO ÉDEN 

Tenho infinitos a mastigarem-me os olhos
E miríades estreladas a dançar na pupila, 
Que nada sucumbe, e perde entre escolhos,
Desde que moldado na pura e mágica argila
Qu'é a plástica dos sonhos concretos, reais. 

As horas sublimes existem! Viver é delicioso!  
E nas margens deste rio límpido e caudaloso
Nascem rosas de todos os pontos cardeais!

Joaquim Castanho

sábado, novembro 07, 2015

GLAMOUR ARÁBICO




GLAMOUR ARÁBICO 

Persigo o poema perfeito, 
Cujo pulsar, de implacável, 
Ninguém mais o tenha feito 
– Ainda que tão simples e provável...

Há de seguir sempre em frente, 
Sem esquecer o que pra trás ficou; 
E brotará flor e semente
Da areia que seus pés pisou. 

Terá na rosa um estandarte, 
Nas suas cores conhecidas; 
Que os poemas só são arte
Vestindo rimas coloridas. 

Joaquim Castanho

sábado, outubro 31, 2015

INSTANTE MORTÍFERO




INSTANTE MORTÍFERO 

Abro o tinir de cada pingo de goteira
E como-o como se fosse um figo seco; 
Seu mel escorre-me pela alma inteira
E só com a língua lhe toco... Só com ela peco
– Ansiosamente e de qualquer maneira. 

O gesto é rápido, pronto, imediato; 
E nesse zaspe me escondo e destapo
Frugal, fugaz, a sentir-te sem te ver
Com a doçura que uma passa me traz. 

À porta mais ninguém pode bater
Sem que o pingo se insurja acutilante, 
Qual adaga, punhal do céu a descer
Pra matar apenas com o instante! 

Joaquim Castanho

RAZÃO DE ME CRER VIVO




RAZÃO DE ME CRER VIVO

Quanto me morria
Renasceu
Sob um «Bom dia»
Breve mas (teu)
Se multiplica e dança
A luz que inebria
Na mudança, 
O clarear celeste
Que só tu dás, 
Só tu és, 
Só tu deste
Na íris que trás
Isis grega
Em luar de paz
E luz que não cega. 

Quanto me morria
Por ti findou, 
E assim nascia
(Iridiscente)
No novo dia
A luz a que me dou
Se teu olhar me diz
Na manhã fulgente,
Onde querer é raiz
Do ser que sou
Nesse puro voo
Em só crer 
Viver
Porque te quis. 

Joaquim Castanho