
No dia em que me morreste dentro não senti nada
Nem dor, nem mágoa; nem impotência, nem ira
Mas apenas o desencrostar da ferida seca e sarada
Depois da carne ter esquecido de todo por que se ferira.
Não senti receio nem insegurança, nem sequer algum tormento
Apenas o brilho daquela estrela que em nós periquita e dança
Que antecede os minutos das horas nos dias de contentamento.
Apenas aquele estertor da brisa nas folhas dos plátanos lá fora.
O perder do jogo na “apanhada” quando enfim alguém nos alcança
E segura num agarrar que não segura mas toca e assim se demora…
Que a felicidade é esse toca-e-foge de quando viver não nos cansa
A não ser por servir de escora da cabeça perdida que já não pensa.
No dia em me morreste refulgiu em mim mais que a doce alegria
O gesto de quem rasga o acaso súbito atento na rota da aurora…
Cujo Sol fere com sua luz pura e crua ao eclodir de outro novo dia.
E acende, no chão, a morta sombra do que negritude fora outrora!