Sejam as palavras ditas para além do mal e do bem As que o escriba ouve, o escriba dá, o escriba tem!
A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

São o chão em chamas onde as lavras
sexta-feira, janeiro 30, 2015
quinta-feira, janeiro 29, 2015
LUA MENSAGEIRA
Lúdica, a lua
cresce
E me ilude na
espera
Do rosto que não
esquece
Nunca, nem é coisa mera.
Já que primordial o
vejo
E tenho na vida
minha,
Lua leva-lhe este
beijo
Pela quinta à tardinha.
J Maria Castanho
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Solução SETE,
Solução Treze
segunda-feira, janeiro 26, 2015
O PANÓPTICO INCINFORMADO
𝓸 PANÓPTICO INCONFORMADO
Joaquim Maria Castanho
Ontem, na tentativa de
conviver de perto com aquilo a que comummente chamam “espécie humana”, fui até
ao Café. Após bebericar da típica e apenicada chavenazinha a água castanho-escura
com creme espumoso e dourado denominada “Bica”, deixei-me afundar na discreta
leitura de um dos jornais do dia que adquirira no Quiosque Jardim. E afundar é
a palavra exata. Precisa. Principalmente porque ainda não chegara às palavras
cruzadas, que são o suprassumo ou tiro-e-queda na matéria, já ninguém
estranhava ou notava a minha presença. Fora assimilado…
O dia acordara
assim-assim, que é o tal jeito provinciano de referir tudo quanto é sonso e
intragável mas não nos importamos de consumir, engolir, tragar, porquanto tem
tanto de saber a nada como de a coisa nenhuma. Todavia o céu estava azul,
daquele azul caraterístico dos desenhos animados, embora que polvilhado, aqui e
ali, de farrapos de esbranquiçadas nuvens, ao caso, e, por sinal ou influência
do modo vivente local, bem pouco apressadas.
Dei o meu melhor no
apagamento, estratégia aprendida pelo íntimo convívio, diário e constante, com
a minha aranha doméstica, que ocupa o canto inferior direito da janela do
quarto, e que depois de feita a teia se apaga nela não fazendo outra coisa
senão esperar que alguma mosca incauta ali se enleie. Então, salta-lhe em cima,
e injeta-lhe, numa ferroada rápida, eficaz, profissionalíssima e fatal, o
narcótico que há de adormecê-la a fim de a poder sugar paulatinamente,
degustá-la viciosa e demoradamente como a substancial iguaria que para ela, sem
dúvida, é.
“Há quem suba a descer”,
conforme referiu Florbela Espanca no conto A Paixão de Manuel Garcia, e é
inequivocamente esse afundar de mergulho no discreto areal do anonimato que o
impulsiona e motiva, pescando pequenas pérolas das conversas alheias,
desgarradas frases que o acaso vai plantando nas mais variadas pronúncias e
falantes, enunciados que entretecem a malha significativa do momento imediato,
inaudita até então, sentenças e expressões invisíveis e desnotadas antes ainda porque
já ouvidas, ou mesmo que anteriormente ditas e escutadas terão passado a leste
da acuidade, seguindo diretas para o esquecimento e apagadas para que outras
lhes sucedessem de igual calibre e quilate, garantindo o lugar e primazia às
atuais capturadas, presas e troféus dum veterano caçador de recompensas sempre
pronto a torná-las reféns da sua vontade de renovar, e reciclar, o conteúdo do
gavetão dos analíticos e lexicais discursivos, com exemplares
indesmentivelmente originais e inéditos.
Sobretudo porque nessa
entrega ao significado de cada uma das recém-captadas, enquanto frases comuns e
insuspeitas que alcançaram o Olimpo da particularidade incomum da genialidade
criativa, nesse trotar de sílabas gregárias na mecânica dos ouvidos pelos
paralelos molhados do calçadão dos enigmas e mistérios, nos adensamos na
semântica das horas breves e fúteis, tornando-as úteis e prazenteiras,
industriando a alquimia de tornar precioso o que antes fora vago, ordinário,
vulgar e medíocre, concedendo-lhe alforria e estatuto de insubstituíveis,
quando notoriamente corriqueiras e descartáveis anteriormente seriam, por mais
bem-ditas e pronunciadas que tivessem sido de acordo com os requintadíssimos
superlativos da dicção.
Portanto, entrincheirado
na leitura do diário matutino segui de soundbyte
em soundbyte, saltitando de
comentários para apartes, de confissões para desabafos, de apreciações para
argumentos, de conclusões para considerandos, de apelos para invetivas, em
velocidade de cruzeiro, em passeio, ladeando paralelo a vitrina e parede desse
longo e circular aquário que é o meio-ambiente, o nosso raio de ação e
visibilidade própria, varrendo a 360 graus a atividade da flora e fauna
fleumáticas da bolha observável, perscrutando a evolução das formas e sonidos,
os sublinhados e expressões com propósito de significação, involuntários uns,
intencionais outros, de natureza prefixa ou sufixa segundo o enraizado
espontaneamente estabelecido. Uns referir-se-iam ao universo da e das
políticas, das noticias do Jornal da Manhã como dos acontecimentos do passado
recente; outros, às atividades da urbe no fim de semana, às ocorrências da
vizinhança, aos pequenos escândalos e comezinhos atalhos nos privados da convivência,
às situações e atitudes de familiares, aos serviços e ofertas de cafetaria, e
reparos aos afetos e desafetos em geral, mas principalmente acerca dos ausentes
que costumavam estar presentes. Ou que ganham hegemonia no presente pela sua
ausência.
Porque na tentativa de
absorver a realidade até ao absurdo, o ser humano, como qualquer indivíduo que
se apraz pertencer a uma espécie que insiste em ser distinta das demais, mas
suficientemente numerosa para consignar às diferenças entre si essa mesma
distinção, por grupos, ficheiros, tipologias, conforme o cariz das avaliações,
quer elas sejam elaboradas por empatia como por estranheza, por compreensão e
semelhança, como por aversão à matriz, contraste ou intolerância, não se coíbe
de recorrer à clandestinidade, ao disfarce, à infiltração, ao subterfúgio, para
melhor conseguir a dita apropriação do real, quer social, como pessoal e
circundante, ainda que este seja exemplo incontestável de uma ficção ou
conglomerado de ficções, teorias e delírios místicos. E, com os olhos visivelmente ocupados na decifração
alfabética, os ouvidos ficavam-me totalmente livres e recetivos à absorção de
todo e qualquer estímulo sonoro passível de descodificação que ocorresse,
distinguisse, discernisse entre as mensagens flutuantes as que, por natureza,
relevância e consistência, eram propícias ao investimento analítico. Aliás,
fora na mira de tal operação que ingerira a cafeína depois do substancial e
nutritivo pequeno-almoço que tomara em casa, e que me concederia todo o tempo
do mundo para dedicar-me em exclusivo à tarefa da perscrutação, sem pressa, sem
ansiedade, sem sofreguidão, ou restantes causas que nos levam a entrar pelos
atalhos inimigos da lucidez: precipitações.
Por conseguinte, ali
estava eu como se sempre ali estivera, plantada peça de decoração ou móvel da
casa fosse, enraizado de pedra e cal, embaucado e de matutino em riste,
resguardado de congeminações e alusivas considerações adversas, recatado,
pronto e sadio prà função, recetível ao dito, disponível e atento prà frase que
soasse e viesse, viesse como viesse, misturada ou sem ruído, embrulhada ou
despida de qualquer ganga marginal, límpida ou obscura, com ou sem preâmbulo,
com ou sem epílogo, com ou sem rótulo, prestes a consumir com sucesso e
galhardia um oitavo da vida, que se resume sempre à terça parte dos 12 avos que
o carnaval é. À esquerda, à direita e em frente ninguém suspeitava das
intenções reais perante a coreografia do momento, acaso sobre acaso dispostos
sem ordem nem objetivo definido, tudo espontaneidade simples, pura e dura,
desprovida de intencionais arranjos, à flor do ar e fluida e plástica e
flexível e moldável como a primitiva argila da nossa essência gregária.
«Tenho que ir fazer
análises», afiançou a quase-idosa mesmo ao lado, da terceira mesa prà direita,
assim mesmo à babugem do orelhame, «pois o meu filho diz que quando nos doem os
pés, é porque temos o colesterol elevado… E a mim têm-me andado a doer
ultimamente; parece que vou sempre a pisar gravilha quente, Gracinda», que era
a companha que a escutava, embora aparentemente mais nova e bem-conservada, e
que, de frente para a falante, mexia-mexia-mexia-mexia o café como se temesse
que o dito coalhasse, talvez esquecida do que fazia, abstrata, e com aquele
semblante de quem viaja por outras paragens que não aquelas onde deveras está.
De gestos automáticos, mecânicos, tipo máquina de operações repetitivas a que
se esqueceram de desligar no interruptor, e que só pararia quando a pilha
descarregasse totalmente.
Mais adiante, e do mesmo
lado, entre os assíduos ou habitués e os fumadores, que
foram literalmente empurrados para os fundos, próximo da porta das traseiras,
marginalizados, qual retaguarda da direita conservadora do lugar, dum casal de
meia-idade que parecia ser igualmente de meias-posses e de aprumado mas já
percetivelmente usado vestuário, após pousar os sacos das compras no
supermercado vizinho, reparou ele que «nesta cidade nunca há nada. Mas quando
há, ninguém vai… Viste ontem quantos estavam a assistir à música no coreto? Eram
mais os tocadores da filarmónica, dos que a ouviam de fora», puxando uma
cadeira da mesa atrás para ajeitar melhor um saquinho. «Pois é», assentiu ela,
«e os que vão são sempre os mesmos. Só lá vi gente que esteve anteontem no
museu, a ouvir o coro.» «Se calhar são da mesma capelinha que promoveu a
gaitada» anotou o parceiro. «É sempre assim: promovem o evento, atiram os
foguetes, e ainda são os mesmos que vão apanhar as caninhas. Seja o que for»
garantia, e dando-me a oportunidade de confirmar como nas parcelas do
território onde imperou o latifúndio e o condado, o acerto senhorial e a grande
propriedade, a marcação do gado extravasou das unidades de produção pecuária
para a esfera social, para a mentalidade urbana, corporativa, mais ou menos
cosmopolita, efetuando essa transferência por meio da metonímia e da metáfora,
que são os tropos mais recorrentes do pensamento mágico, numa modalidade
simplista da regra dos três simples: se fulano tal frequenta o pasto da casa
tal, então tem a sua marca, o que lhe permite frequentar todo e qualquer pasto
da mesma casa. Precise ou não, goste ou abomine. A coisa não é grave, ainda que
primitiva e secular, e não é caraterística desta ou daquela terriola em
especial, antes está generalizada de alto a baixo do retângulozinho portuga,
nele constatável e visível, senão transmissível de geração para geração sem
qualquer esforço ou sacrifício.
À esquerda, não distante
nem revolucionária, mas também não imediata, dois idosos – inequivocamente
avançados na idade – e uma senhorita razoavelmente muito mais nova,
bem-conservada e sadia, porém visivelmente alheada da conversa, como quem já
conhece a cantiga de cor e salteado e lhe dispensa o remake, ou está cansada de
dar para tal peditório, e lengalenga, avaliavam as perspetivas de êxito da
Feira das Cebolas, efeito muito considerado e frequentado noutros tempos mas a
que os hipermercados estouraram com as habilidades, aventando um deles, o com
óculos castanhos de massa e lentes grossas, ainda muito bem encabelado, por
sinal, com pelos espessos e fortes, cerdosos, luzidios e prateados, que «se não
chover durante estes dias, vão-se vender aqui umas toneladas boas de cebola, lá
isso vão… sobretudo à noite, que é quando o pessoal que trabalha pode vir. Que
trabalha e pode comprar», e piscou o olho sabido para o compincha. «Isso,
sim!... Antigamente, era aqui que a minha gente comprava cebolas para todo o
ano, era. Mas agora, vai comprando conforme lhe vão fazendo falta. São mais
baratas, e não lhe apodrecem. Também são mais rijas, principalmente as
espanholas… Mas são cebolas na mesma, e ninguém lhe mete muito o dente em
cruas!»
Este último, careca mas
armado de óculos metálicos e lentes progressivas, que refletiam a claridade da
rua sempre que abanava a cabeça, que devia ter sido comerciante antes de se
aposentar, de frente para a janela, avaliando com preceito de negociante como
de político, adiantou ainda que «naquele tempo justificava-se, e dava um
jeitão. Mas agora, não. E fazer esta feira, é promover a fuga ao fisco, oh, se
é! Durante estes dias vão passar de mãos quilos e quilos de mercadorias, e
nenhuma vai pagar IVA nem averbar fatura!»
«Eh-eh-eh-eh! Bem
lembrado. É que nem ginjas!», redarguiu o primeiro. «O mais engraçado, é que é
um órgão público, uma autarquia, a câmara municipal a instigar à fuga ao fisco,
essa é que é essa!»
«Ou seja: a expensas do
erário público, organiza-se e promove-se um evento onde o capital circulante
vai todo parar à caixa 999999999999999. E tanto faz estarmos em crise, como
não: faturas viste-as! O IVA delas, das cebolas, batata. Vai lá IVA, lá vai!
Este ano o valor de contribuições estimáveis da atividade da economia paralela,
só ele, pagava a nossa dívida à TROIKA: 45 milhões de euros. E a câmara? Pois.»
«Isto é tudo a mesma
cambada… Carregar nos velhos, nisso estão todos de acordo. Agora, fazer o que
devem, só fazem se for decretado pelo partido deles. E nunca é, que a maioria
só tem partido, quando precisa dos favores de algum dirigente. Se precisa,
filia-se, e paga as quotas. Se não precisa, procura outro. E ele há tantos!
Depois no governo, só há gaiatos…»
«Gaiatos uma pinóia, que
gaiato fui eu e aos oito anos já trabalhava desde o nascer ao pôr-do-sol, com o
meu pai e os outros homens na padaria do meu tio, e mal pago, que ele era sovina
com’às cobras. Fazia cá falta era outro Salazar. Havias de ver como aprendiam a
marchar certo e direitinho!», sentenciou o bem encabelado, mostrando o branco
dos olhos para sublinhar o vaticínio. Mas a moçoila que os acompanhava nem
reparou no trejeito, e fez o ponto da situação, que, conforme esperava, foi
ratificado por ambos: «Eu já bebi o café, e vou ali ao supermercado aviar a
lista. Quando me despachar, venho aqui ter, ok? Não saiam daqui, senão faz-se
hora de almoço, e a gente não chega a tempo.»
Eles que «sim filha, vai
descansada». Mas, embora os dois tivessem anuído ao mesmo tempo, com a cabeça
para baixo e para cima, apenas a voz do segundo se ouviu, talvez a dar a
entender que era o mais civilizado e citadino de ambos. E notava-se, pela modernidade
dos acessórios, e pela falta de cabelo, a que o pentear quotidiano e lavagens
foi tirando força e número.
Nada há
que seja simples nesta vida, há é olhos rudes e espíritos tacanhos que não
conseguem enxergar a riqueza sútil e intrínseca dos pormenores dum detalhe, é a
premissa que supervisiona a atitude de quem se considera observador de
mão-cheia, quer dizer, de olho vivo e raciocínio sagaz, expedito, porém não nos
devemos esquecer que o perfeccionismo e a acutilância no detalhe também leva à
dispersão dos intentos, vendo ele tantos pormenores, muito facilmente esquece o
fim maior a que se propusera. E é lógico que assim seja, como o confirma a
prática, porquanto nesse ínterim eu já nem fazia o menor gesto de disfarce, entregando-me
de corpo e alma, por assim dizer, à única tarefa de escutar, talvez mesmo pondo
a cara à banda para melhor ouvir, descuidado, e nas tintas para que reparassem
na minha curiosidade ou não. Ser apanhado em flagrante não seria grave, uma vez
que todos e todas o fazem; mas chamaria a atenção dos clientes da casa,
pondo-os de pé atrás quanto ao cromo e suas intenções, o que diminuiria a
fidelidade e nutrientes das falas, como dos seus conteúdos. E eu queria algo
vivo e substancial, pelo que virei duas ou três páginas do jornal, destaquei o
suplemento, folheie-o, sublinhei dois itens da programação televisiva. Fui ao
balcão buscar mais uma garrafinha de água. Perguntei as horas ao barman. Tudo coisas normais, e que poria
quem quer que fosse a espantar a pulguinha de detrás da orelha, se acaso lá se tivesse
instalado.
As falas
são o que são, bastantes trazem ruídos e mais barulhos à volta, é certo e
sabido, e para as despirmos dessas gangas temos primeiro que concentrar-nos
neste ou naquele timbre, desligar dos demais, para lhe discernirmos a
suculência. E das bandas dos fumadores, três ou quatro raparigas faziam-se
notar pela vivacidade das expressões, bem como pelo rir descomplexado e
metálico, sem ser estridente todavia, que emitiam. «Eh-eh, põe lá isso onde
estava. Então não foste tu que disseste ontem que ias deixar de fumar?»
«Fui. E já
comecei: hoje já nem comprei. Vou fumar só à crava. Quando não tiver a quem
fazê-lo, fica cumprida a promessa!», esclareceu a interpelada, uma cachopa
cheia de carnes e cores, bem nutrida e sem-papas na língua.
«Espertinha…
Não tens piada nenhuma» glosou a primeira que falara, dando um safanão ao
cabelo castanho claro, quase louro, comprido, que espanejou o ar em redor como
uma crina de inquietude. «Hoje vemos o jogo, à noite, no sítio do costume?»
«Vemos»,
respondeu a terceira, fazendo um Yes com o braço direito, de punho
fechado, braço dobrado e de cima para baixo, com quem faz um afundanço de
cotovelo. «Nem podíamos faltar!»
Claro que
podiam, pensei. Se faltam às aulas para vir prò café, muito mais facilmente
podiam faltar a um jogo de futebol transmitido pelo canal desportivo, num
estaminé qualquer como aquele em estávamos, senão precisamente nele. As calças
de ganga, agarradinhas às pernas, e a saltar a ribeira, desenhavam-lhe as
formas, que suspeito serem só febra de saudável têmpera. Cabelos
castanho-escuros, face abonecada, olhos de sevilhana, amendoados, quase negros
e destemidos. Quis-me parecer que seria a mais calma das três, mas errei no
palpite redondamente. Porque, tendo tocado o seu telemóvel, ei-la que se
levantou num ápice, e atravessou o café para ir atender no exterior, como se
estivesse numa passerelle, dando à anca e fazendo trejeitos de quem desfila
perante seleta plateia, gingando sensual, o dedo indicador da mão esquerda nos
lábios a fazer biquinho, destilando coqueteria nos esgares à direita e à
esquerda como Lolita sabida. Tive pena de não poder ouvir a conversa ao
telemóvel, que prometia ter sido fogosa e folgada, sobretudo porque quando regressou,
passado algum tempo, trazia aquele brilhozinho nos olhos de que fala a canção
do Sérgio e o rubor nas faces de quem viu passarinho novo.
No lado
dos fumadores, mas na fila oposta à das cachopas, um trabalhador da coisa
mental, afanava-se com desembaraço e empenho, fazendo contas numa pequena
calculadora, cujo resultado anotava numa folha Excel. Deduzi que fosse
contabilista, mas depressa arredei a ideia. Creio que era antes professor de
gestão ou disciplina próxima, talvez da escola de hotelaria e turismo, ou mesmo
da de tecnologia e gestão, e que preparava alguma aula ou exercício para os
seus educandos. Fato aprumado, azul-escuro, camisa creme e gravata
verde-acinzentada, corte de cabelo à executivo e óculos dourados de aros
retangulares, parecia ter sido recortado de uma revista de marketing e relações
públicas. Impassível, sem a mínima expressão facial, consultou duas ou três
vezes os livros que tinha ao canto da mesa, bem arrumadinhos, um sobre o outro,
cantos com cantos em simetria perfeita, e, metodicamente também, anoto-os aqui
e ali, copiou algumas passagens para a margem da folha de cálculo, fez
sublinhados (que deviam ser retos e exemplarmente esgalhados, mas que não pude
ver pela distância que nos separava).
Entretanto
entrou uma sujeita que tinha tudo para ser uma dama das camélias, mas como os
tempos mudaram, ficara incompleta. Bem-vestida, mas sem coerência de conjunto,
rendas e folhos, saia travada, saltos altos, mala de mão, lenço rameado na
cabeça, e que foi direitinha ao lado dos fumadores. O maço era comprido, e os
cigarros, branquinhos com filtros cremes, miúdos e delgados. Fumou um com
ansiosa pressa, em aspirações prolongadas e expirações em picotado, expelindo
em duas ou três porções o fumo que engolira só duma vez, foi ao balcão buscar o
café, fumou outro com mais calma e, ainda mal o tinha terminado, acendeu um
terceiro que, esse sim, foi já não como quem ingere sofregamente algo que lhe
faz falta, mas como quem fuma somente para ver expirar o tempo, evoluindo numa
ténue espiral cinzento-azulada até ao teto.
Foi então
que olhei o relógio de pulso. Passavam dois minutos da hora do autocarro.
Havia-o perdido, e teria que esperar pelo seguinte, que passaria daí a três
horas. Além do café, da água e do jornal, que perfaziam uma soma de 2,50 €,
ainda ia ter que almoçar fora, coisa que nunca ficaria por menos de 8,00 €.
Despesa desnecessária. Inútil. Não programada, nem figurara no meu planeamento
inicial para o dia. E, tudo isso, porque caíra na expetativa de que as melhores
frases e tiradas literárias, não são as que inventamos com propósito explícito
e sobreaquecimento das celulazinhas cinzentas, mas as que vêm ter connosco por
acaso, enquanto estamos que nem esponjas ou plácidos batráquios a ver voar as
libelinhas. Pufff! Qual nada, a realidade só é frutífera quando queremos
reproduzir outra realidade inferior a ela, pois que, se pretendemos criar uma
ficção, só quando nos alimentamos também de ficção o resultado é rentável.
Não me
posso conformar… Gastei eu um dinheirão, perdi tempo que jamais recuperarei, e
o que consegui? Nada. Trinta parágrafos de ninharias que, se bem espremidos,
não valem a traição dum poeta num verso que capturou a um poema esquecido e
antigo que encontrou numa coletânea ou almanaque do século XVIII. Tenho que
deixar-me disto, ou ainda acabo por ser publicado por alguma editora de
best-sellers e títulos de autoajuda. Enfim, errar é humano, mas perder tempo
com saloiadas é desperdício de talento!
O DIABO DE BURRO
O DIABO DE BURRO
Por
JOAQUIM
CASTANHO
Quando cheguei a Casal Parado,
vindo de uma capital de distrito, não conhecia cá ninguém. Nem sequer aquela
que viria a ser a minha hospedeira.
Mas a tropa manda, e aconselha no
desenrasque!... E, mais ou menos porque à força de nos encontrarmos em
idênticos sítios pelo igual da hora, criamos parceiros para o jogo dos grupos
no parcelamento estrutural da sociedade – o que é um contrassenso –, ou nos damos como cúmplices uns
dos outros em pecados imaginários e futilidades menores, para que possamos
preencher a solidão pelo custo da sua hipoteca – a esperança. O certo é que,
sem sentirmos, nos vamos enraizando juntando-nos a outros desenraizados que
normalmente nos acolhem, mais por necessidade de sangue novo no seu antro, do
que por solidariedade. Que foi o caso.
Profanado por uma trindade que
nada prometia em troca de coisa nenhuma, e sujeito a esse abrigo que é o
(imaginário) chapéu de chuva como único recurso de defesa contra a tempestade
do “dum lado chove, do outro faz vento e o chão é um rio pegado”, que é a nossa
capacidade de adaptação a novas situações e meios, enquanto genuínos
portugueses, e querendo romper a indiferença pelo menos numa dessas três
frentes (e a saber: os casalenses, os não-casalenses e o grupo tertulino do
café), vi-me metido numa confusão que foi obra!... E de que saí ileso e sem
beliscadura de maior na moral e amor próprio, porque o acaso e inconsciente,
que são os únicos sábios que conheço (para além do tempo) e reverencio desde
que Atenas foi romanizada, vieram em meu auxílio e ditaram as sortes que nem
por encomenda e duma só assentada. Canja!, foi o que foi – ó larilas!...
Éramos, ao todo, naquela tarde
chuvosa de Outono a brincar ao Carnaval e disfarçada de Inverno, seis ou sete
em volta da comum mesa, no Tonel Bar, frente a insinuantes garrafas de sinuosas
bebidas (pelo cerealífero efeito). E inspirados em carpir a derrota de qualquer
dos clubes desportivos que tivesse perdido na jornada do fim-de-semana passado,
independentemente de ser ou não o das nossas preferências e simpatia. Que isso
de uma desgraça nunca vem sozinha, e já que o nosso perdeu, há também sempre
outro que lhe igualou o feito, que se bem lamentado e com ênfase, pode até
parecer que a derrota do nosso clube foi uma coisa de somenos se comparada com
a cabazada desse, além de inesperada, numa superstição pedagógica, e como que a
dizer-lhes (aos jogadores e técnicos) que se a intenção deles, em perderem tão
ostensivamente, era ferirem-nos e humilharem-nos, não conseguiram de maneira nenhuma,
pois que se querem alcançar algum êxito nessa direção e sentido, em
surpreenderem-nos!, o melhor que têm a fazer é inverter a tática: ganhando!...
O Vicente, motorista de
autocarros de passageiros; a Adélia, messalina do nosso contentamento, e
professora do ensino secundário; a Ana Teresa, funcionária pública e
namoradeira em rotatividade; o Augusto, agricultor e vinicultor, novo
empresário, e, por sinal, de entre os demais, o único residente e autóctone; o
Dinis, enfermeiro; a Almerinda, empregada de escritório num gabinete de
contabilidade; a Francisca, professora primária; e eu, este vosso e fiel
servidor. Aio e escudeiro nesta e outras cavalgadas. Eis os quantos, por rotina
ou falta de família na localidade, fizemos do café a salinha de estar que os
nossos frios e bolorentos quartos não conseguiam ser! E mais ainda: os que em
desespero de causa se forjaram numa companhia onde muito superiormente se
toleram do que se aceitam.
Pois, sendo eu a aquisição mais
recente, e recenseador do INE (Instituto Nacional de Estatísticas) por
excelência, com uma modernidade de dois meses e piques, e sobrecarregado por
uma volumosa bagagem de timidez acumulada, embatucava frequentemente e deixava
que a conversa corresse a expensas dos mais velhos e expeditos. Em resumo, a
minha participação no grupo pouco ia além duma futebolada aqui, umas
observações sobre o tempo acolá e umas quantas respostas empacotadas em tara
perdida, concisas e económicas, ao perguntarem-me o quer que fosse. Se
solicitado era lesto na réplica, não por boa vontade ou espírito prestativo,
mas sim porque quanto mais rápido respondesse, mais depressa me deixariam em
paz ou as atenções deixariam de recair sobre mim. Uma espécie de fuga para a
frente.
Aliás, ao grupo, essa minha
evidenciada tendência para bicho-do-mato, parecia não incomodar; antes pelo
contrário, agradava imenso. É que o comedimento, modéstia e discrição, facilitavam
sobremaneira que quem queria e gostava de brilhar, o pudesse fazer, e
brilhasse. O que é normal e naturalmente lógico, ou de plena
compreensibilidade: ocupar os espaços deixados vagos é uma forma tão
biologicamente saudável como qualquer outra para crescer e evoluir, conquistar
e vencer, conhecida até dos mais elementares seres do reino vegetal, quanto
mais dos do animal! E eles, ou a maioria deles, faziam-no, com prazer e
oportunidade, conforme lhes competia.
Simplesmente, como é pela
operação que melhor se conhece a natureza do operador, e pelo ato a do agente,
graças à minha inatividade e silêncio, pressentia causar-lhes grandes
dificuldades em definirem-me e rotularem-me, e que se o ousavam raramente
chegavam a consenso ou unanimidade. Para cada qual havia uma característica da
minha personalidade e conduta predominante, mas diferente. Uns que assim,
outros assado, aqueloutros cozido; no entanto, com muito pouca convicção. Do
que resultava nenhum resolver-se por veredicto certo e seguro.
Até que o inolvidável aconteceu.
Um dia, estando eles em amena cavaqueira, ao regressar dos meus afazeres
estatísticos, desemboquei na mesa razoavelmente eufórico e se não comunicativo.
Olharam, todos e à vez, para mim, com ar de caso e espessa interrogação a
pender-lhes dos narigões, que nem ranheta outonal de constipação mal curada, e,
sem mais nem aquelas, disparei-lhes à queima-tímpanos:
«Já não morro estúpido.»
«Hãn?! O quê?!» Admiraram-se uns
e outros, sem que se saiba ao certo quais fizeram “hãn” ou quais fizeram “o
quê”, para manifestarem a sua surpresa.
Então, para melhor gozar o prato,
insisti:
«Isso mesmo. Como eu exatamente
disse: estúpido é que já não vou morrer», e sentei-me entre o Vicente e a
Almerinda, que, como é óbvio, abriram a respetiva ala.
«E porquê?», inquiriu a última.
«Ora! Porque hoje vi, na estrada
de A-dos-Tansos, uma coisa que nunca pensei possível, e muito pouca gente há de
ver ou já viu!...»
«Mas o que foi?», quis saber o
Augusto, reforçando a questão posta pela curiosidade da Almerinda.
«Vi o diabo montado num burro a
galope», afirmei eu, sublinhando bem cada uma das letrinhas em causa.
E o dito caiu que nem aguaceiro
primaveril. Primeiramente, e pela globalidade, se calaram e recolheram em suas
conchas de abrigo à mudança; mas logo que passou, e se refizeram das nuvens da
estupefação, saíram a terreiro em chilreio tal de querem falar todos à uma, que
as vozes, não fosse o meu longo treino de silêncio tímido e à escuta, se
confundiriam e se tornariam indistintas, nos seus falares de mim como se eu ali
não estivesse, ou nunca ali houvesse estado.
«Estou em crer», tentava imperar
a Ana Teresa, à minha frente, «que estamos na exemplar presença da
esquizofrenia típica. Hoje viu o Diabo, amanhã vê Deus; se não o dois ao mesmo
tempo, e à bulha. Li em qualquer lado que é precisamente isso que caracteriza
tal moléstia da psique: o assistir à luta mortal entre seres supremos e
contrários, personificando-os e acreditando que lutam pelo espólio que
significa aquele que assiste. Que é por causa dele que se debatem. Da sua alma.
É uma distorção autista e fantasmagórica da realidade. E bastante evidente se
relacionarmos a sua tendência para ficar calado entre nós, num mundo só dele,
bloqueado e a funcionar por caprichos, dum modo artificial e amaneirado.»
Mas o Augusto, com aquele sentido
prático e de desconfiança, que lhe deu a vida da terra, considerava que não.
«Isso não pode ser», vociferava.
«Não me venham cá com lérias. É mas é uma grandecíssima mentira. E ele está mas
é a gozar connosco», adiantava retumbante e rotundo, a olhar-me de esguelha, e
exibindo gestos com as mãos, bastante indicativos do que tinha vontade de me
fazer, caso não fosse atender aos presentes e local onde nos encontrávamos.
«Cá pra mim, ou é droga, ou vinho
a mais», retrucava o Vicente. «Tive um vizinho que lhe aconteceu o mesmo. E
eram as duas coisas em simultâneo!... Tanto se encharcou e pedrou, que começou
a variar da moca e passou a ver coisas escaganifobéticas de alto lá com
elas!... Às vezes estava a conversar muito bem com a gente, e sem que ninguém
esperasse ou percebesse porquê, punha-se a dizer baixinho: Está quieto. Não te mexas... Nem digas nada. Que está o incrível Hulk
por detrás de ti. Deixa-o passar... Que nunca se sabe o que é que ele pode
fazer!... E depois voltava, num repente, à conversa que estávamos a ter.»
«Ná!... Essa não me convence»,
argumentava a Almerinda. «O que aqui está claramente visto é uma manifestação
de recalcamento inconsciente, uma realização simbólica e mascarada, a conversão
somática de desejos inaceitáveis pelo fulaninho, e de natureza edipiana. É
histeria pura. É neurose de elevado grau. Então não veem o comportamento dele?
Característico de uma crise de identidade em estado avançado e evidente, de
confusão verbal e mental, o desdobramento da personalidade, o histrionismo, a sugestibilidade,
a pobreza de afetos, o medo de se expor, de falar e de confiar em nós, a introversão
rígida e caraterialmente deformada?... Como podem dizer barbaridades de uma
pessoa que apenas está doente!...»
Eu queria atalhar e defender-me.
Dizer de minha justiça. Mas eles não mo consentiam. De tão preocupados que
estavam em resolver o busílis, nem queriam saber da minha existência, quanto
mais das minhas razões ou os pormenores da sucedância. Estavam na elaboração de
hipóteses, fabricação em pleno contínuo, e, se algo eu pudesse vir a dizer, certamente
lhes não seria útil àquele ponto da refrega. Talvez lá mais para o tarde isso
fosse possível, ou quando passassem às fases da experimentação e verificação me
quisessem ouvir!... O que para mim se apresentava como uma hipótese
esperançosa, embora que remota, de vir ainda a salvar a dignidade, a
integridade, a sanidade moral e psicológica, já então de rastos naquele vaivém
de gestos e contra-argumentações, qual festival de artifício a que acossado
assistia, com medo de mexer-me por mor de assim poder piorar as coisas, e em
que me limitava a tentar ver e ouvir o mais atentamente que me fosse dado, o
orador que ao momento fazia uso da tribuna, se afirmava, com redobrada
convicção e empenho.
Por outro lado, Dinis opinava:
«Esse gajo sempre funcionou a ritmo
delta, não foi?!... E daí que agora a falta no mexer-se se agravou: além de
funcionar mentalmente às três mudanças tradicionalmente lentas (devagar,
devagarinho e parado), tudo indica que também se deixou apanhar pelo síndroma
de Korsakoff. Tiro e queda. Se não, como definir o estádio de confusão mental,
a confabulação e os falsos reconhecimentos? É que nem ginjas!...»
Contudo, Francisca, não
radicalizava tão descaradamente. Ou porque o maternalismo latente se tornava
saliente; ou porque da profissão nos fica aquilo que à vida mais simplifica.
«Estou em crer» achava ela, «e
com bastas e fortes razões para essa crença, pois sei do que falo!, que aquilo
com que nos deparamos, mais não é que outro manifesto exemplo da muito premente
necessidade de atenção e afirmação, talvez com regressão infantil, acompanhada
e desmultiplicada por uma imaginação extraordinariamente fértil. Provavelmente
até delirosa, mas que ainda se não tinha revelado porque a nossa acuidade tem
andado dispersa e solicitada por outras atitudes e comportamentos, ou por
outras personagens extraordinariamente fantásticas e igualmente absorventes,
esquecendo-nos nós, e descurando, aquelas que nos estavam mais próximas. E isso
fez com que não notássemos a sua crónica tendência de alucinado para o delírio,
para um delírio porventura palingnóstico, que compreende elementos de fabulação
com falsos reconhecimentos e uma hiperexpansividade imaginativa, por um lado; e
para um delírio de imaginação, por outro. E que – não sei se se lembram da
maneira sobrevalorizadora com que há uma semana atrás nos falou da
grandiosidade e riqueza da sua família!... – é fundamentalmente caracterizado
pela predominância da imaginação na sua origem, permanentemente enriquecido e
com temas preferenciais que orlam a mitomania, a filiação, erotomania e a
megalomania. Além de outras taras, sem dúvida.»
Bem vistas as coisas a minha
sentença estava lida: no mínimo dos mínimos, davam-me o estatuto de maluco. Sem
retroativos nem ajudas de custo. O que, diga em abono da verdade, não era nada
que desse azo a profícuas gabações e orgulhos. Ou era?! A reputação que
calculava ter, e quisera criar à força de muita ponderação, teimosia e
discrição solícita e atenciosa, estava a ir por água abaixo, e, pior ainda, a
arrastar-me com ela. Porque a vida tem destas andanças, onde e quando nunca se
sabe no que elas poderão vir a dar!
Tentara interferir diversas vezes
para esclarecer o que se tinha passado em A-dos-Tansos terra em que avistara o
inominável dito cujo em cima de um burro a galope. Mas vai lá, vai!...
Compenetrados e empenhados que estavam na imposição de seus veredictos, assim
que abria a boca, logo outra voz mais sonante e timbrada apagava a minha,
fazendo-a passar, num golpe, de fala de gente a ruído de fundo. E, aquilo que a
princípio não era mais do que uma situação cómica, começou a ser drama com
sérias tendências de evoluir e transformar-se em tragédia. Sobretudo
para mim, que era quem estava a entrar em pânico, quase a raiar as fímbrias
duma aflição sem apelo.
O que não era de menosprezar. E
iniciava a levedar. Até porque a minha timidez e vergonha de falar em público
persistia em tomar conta do meu comportamento, e a imperar sobre a necessidade
salvar o meu amor-próprio duma derrocada derradeira, aí sim com muitas e fortes
probabilidades de lhes dar razão e cair numa de identidade deveras supérflua e
indesejada. Porque essas fatalidades não são como o totoloto ou lotaria, que
sempre e exclusivamente saem aos outros, mas pelo contrário, é infalivelmente
em nós que com superior força carregam, ainda que sejamos quem menos as merece.
Mas eis se não quando, em
desespero já, e pensando convictamente que o melhor seria levantar-me e sair
para nunca mais, enquanto vivo fosse, e deixar de frequentar tal bar e
convívio, ou voltar sequer a Casal Parado, entra oportunamente um indivíduo,
estudante num curso em regime noturno, que sabia a residir em A-dos-Tansos. Não
hesitei. Chamei-o alto e bom som, determinado e imperativo:
«Ó amigo: ouça cá!!»
E ele veio. Para ouvir. Cá. E que
era ali, na mesa a que nos encontrávamos.
Os demais, em redor, calaram-se.
Finalmente. E quedaram-se com aquela cara de cu à paisana que geralmente
antecipa a pergunta: “ O que sairá agora?!... “
«Não há, em A-dos-Tansos»
perguntei-lhe eu, «um burro cinzento, altote e magricela, cujo dono ainda o
utiliza para se transportar, amanho e trazer de espécimes da fazenda?»
«Há sim.» Respondeu o
interpelado, confiante, feliz por encontrar alguém que lhe dirigia a palavra e
o ajudasse a passar o tempo, no que a este faltava para o começar das aulas. «É
o do ti’ António Diabo. Aind’agora o vi nele, quando regressava dos talhos.»
Eu, respirei fundo e fixei olhos
nos olhos a cada um, e à vez, dos meus compinchas. Um olhar que era de
superioridade mais do que desafio, com a respetiva legenda de “ vejam, eu não vos tinha dito “. Estavam
arrumados e abatidos, e quase me pareceu ouvir ranger engrenado de
reajustamento dos seus processadores de justiça e moral, ao serviço da peculiar
lógica de quem vai de caminho. E aos tombos.
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DIZER A ETERNIDADE
DIZER A ETERNIDADE
Por
Joaquim Castanho
A maior e superiormente imediata (ou derradeira)
das aventuras começou sempre pela palavra. Incluindo a civilização ocidental e
judaico-cristã. Da qual é exemplo o antropocentrismo humanista, conforme o
registo bíblico, em que afirma categoricamente que ao princípio foi o verbo.
Mas o verbo de então, claro está, e não o de hoje, que era palavra, e atualmente
é ação. E nessa gramática, universal todavia, tudo o que é humano só se
conjuga, se inicia factualmente e se torna realidade quando, enfim, se nomeia,
verbaliza, define, invoca e convoca. Nunca antes. Pelo que nomear é, assim, e
indubitavelmente, o primeiro formato de existir de que tivemos e somos notícia.
E tivemo-la, quer por génese oriunda de nós mesmos no diálogo de nós mesmos
connosco, quer tenha vindo do exterior, por acaso ou estudo, partilha ou
apropriação indireta, passiva ou ativa, segundo a consideremos, ao
reconhecê-la, numa tomada de consciência que classifica a racionalidade da
espécie, ainda que não lhe identificando qualquer particularidade digna de
nota. As mais das vezes esse ter não foi além da confluência de ambas as vias,
que de paralelas em oblíquas transformaram suas rotas para um destino global –
o nosso. Ou seja, logo que a conhecemos, reconhecemo-la, e, ainda que nova já
não nos foi estranha, se assim se pode dizer.
Portanto, a minha aventura és tu, mas por
interposta condição. Penso «Mariana» e aconteço.
Há nomes que são verbos, são ação, ou agem sobre
nós com impacto e movimento, que nos podem deixar transidos, impávidos ou
arrebatados. Quando me sucedeu notá-lo, à influência de teu nome em mim, quero
eu dizer, nem sequer andava à procura de ninguém, dum sentimento e afetos
especiais, em desespero ou carência, nem de qualquer outra ocorrência que me
subtraísse o tédio de existir ou de estar, à solta se compreende, entre os
demais e emparelhados mortais familiares e vizinhança, a quem a neofilia
normalmente ataca manifestando-se em diversos graus de stress e ansiedade. Não. Limitava-me a sobreviver, sem expetativa
nem hipoteca de maior, providenciando o meu bem-estar e qualidade existencial
tranquilamente, com o savoir faire e
galhardia que carateriza quem sabe que a seguir a um dia vem logo novo dia, e
não vale de nada apressar o tempo nem assoprar o barco, pois nem o rio corre
mais depressa ou a embarcação ganha maior velocidade. Limitava-me a conviver
com a minha febre de existir, sem demandas nem achaques, exigências ou
concessões gratuitas à ânsia e excitação além daquelas que qualquer vivente tem
pelo simples motivo de respirar, e entende como a energia, se provoca
movimento, este também gera energia, nem vê nisso o menor paradoxo.
Mais tarde soube que «Mariana» não era um nome
qualquer, que tinha a sua dinâmica intrínseca e própria, resultante da
circunstância de aglutinar outros dois nomes: Maria – que significa «Jovem»; e
Ana – cuja tradução, desde os remotos e antigos ditames da onomástica, convencionámos
significar «Mãe». Jovem Mãe, ou nem menos que a descendente direta da Grande
Mãe, Inanna, a mãe primeira e primordial da humanidade. A filha da avó…
Porquê? Porque existir só é viver quando ganha
sentido. Quando estabelece uma inegável ligação entre os dois únicos lados do
tempo: o passado e o futuro. Essa é a religião do agora, do presente, o elo que
atribui continuidade à antifonia original e perfeita. Daí que te nomeie mal a
dúvida, a incerteza, o descrédito me aflore. Daí que o faça igualmente se o
júbilo, o entusiasmo, a felicidade me visite. Daí que te invoque por tudo e por
nada. Recorra ao nome sempre que tenho muito em que pensar ou fazer, como
quando me sobram tempo, disponibilidade e ânimo.
Não raro, ainda!, faço-o em silêncio, como uma
prece, amuleto, parte de mim em que toco, tanto por estímulo como por hábito.
Por tique como por comichão. Aliás, fi-lo silenciosamente quase sempre, em
exclusivo, e até há bem pouco tempo. Por temor. Suponho que, com elevado grau
de certeza, por superstição… Temia que, se ousasse pronunciá-lo, proferi-lo
amiúde, perdesse a magia semântica que lhe é inerente, o deixasse gasto pelo
uso, entrasse na esfera do banal. Como se lhe subtraísse a energia com que me
iluminava. Como se descarregasse sentido e arrebatamento por cada sílaba, e ao
dizê-la. Recordo que levei anos e anos para perder esse medo. Não totalmente, é
óbvio, porquanto ainda o tenho, embora racionalizado. Para isso, a denominada
racionalização, contaram as vezes que o disse inconscientemente, que é um
sector psíquico de vanguarda, e vai sempre à nossa frente desbravando o
desconhecido como carro de combate de piloto automático. Durante o sono. Por
outras palavras. Em aflições. Sem o reconhecer ou sem saber que o dizia.
Depois, quando passei a dizê-lo, não o fiz logo
de caras. Usei um bordão. Muitos bordões que o justificassem. Tia Mariana,
vizinha Mariana, prima Mariana, colega Mariana, e assim por diante… A tia era
irmã da minha mãe e que de facto tinha esse nome. A vizinha era realmente uma
vizinha minha, como a colega ou a prima, que é filha do filho da minha tia
Maria José. E, se tinha álibi, ficava desculpado, não entrava na esfera do
receio, do tabu.
Daí, seguidamente, passei a proferi-lo só e só
sempre se tivesse outro tipo de acompanhamento, como o apelido por exemplo, ou
a profissão, disfarçando-o assim, apagando a “pegada” com eles, espalhando,
dissolvendo o receio que a nomeação, a invocação, direta e a seco, me
inspiravam. Mariana Lino, Mariana Rodrigues, Mariana Cepa, Mariana Azevedo,
Mariana Pinheiro, Mariana Alves, que foram colegas de escola, amigas de café,
conhecidas de conhecidos, familiares deles ou simplesmente pessoas com quem me
cruzava no dia-a-dia.
Reconheço que não havia qualquer razão para tal
medo, e encontrei mil e uma razões para o não ter. Mas uma coisa é sabê-lo, e
outra, muito diferente, é perdê-lo… Tinha-o, continuo a senti-lo, era e é mais
forte do que eu, determina e condiciona a minha espontaneidade, faz-me tropeçar
frequentemente. Nenhum ateu acredita em Deus, certo? Então, se não crê na sua
existência, porque é que toma aquele ar compungido e acanhado sempre que entra
numa igreja? É deveras ilustrativa para o meu caso, esta imagem… Nada havia que
lhe desse tamanha carga de temor e compunção… Nada. Mas como evitá-lo sem
esforço suplementar? Pois é…
Podemos considerar a hipótese de ser respeito.
Não era. Não é. Respeitar um nome, uma pessoa, é amá-la. É desejá-la, não
receá-la. Então?
E até há bem pouco tempo que sempre assim agi.
Creio que não vai para mais de dois anos, se tanto!, que consegui dizê-lo –
mentalmente é claro – consciente de que estava a fazê-lo sem acompanhamento nem
bengala. E digo mentalmente, porque realmente, oralmente, apenas há dois ou
três dias.
Parece mariquice… Eu sei! Dispenso comentários.
E havia como contorná-lo, como fugir-lhe? Não. Nunca há. Podemos fingir que o
ultrapassámos, que o superámos, que o iludimos, que o enganámos. Podemos.
Todavia a superstição ficou. Ganhou outras roupagens. Camuflou-se. Do quê?
Desconheço. E se o conhecesse deixaria de ser camuflagem… E dominá-la, à
superstição, obriga-nos a usar forças igualmente poderosas, superlativas, cujo
efeito secundário também tememos. Emoções selvagens, estados primários,
motivações pouco esclarecidas, de que nem sempre dispomos ou nos são acessíveis
conforme delas precisamos. Podem aparecer ou não. Representá-las, mostrá-las,
expressá-las, é uma coisa, mas senti-las de facto não permite o mínimo
controlo, por maior que seja o autodomínio do sujeito. Enfim, devo confessá-lo,
talvez seja o próprio nome quem mas empresta e concede.
Nunca sinto a mesma coisa quando o digo, mas
sinto sempre algo que até aí nunca antes sentira. É o interruptor certo para
iluminar locais e sentidos díspares com luz nunca igual.
Portanto, escrevo o teu nome. Sem mais nada. Sem
prelúdio, nem epílogo. Apenas ele. Vira de imediato poema. É um vulcão de
polissemia.
Se o faço com a maiúscula bem desenhada,
vincada, no negritas de descolar os lábios um do outro sem objeção, pondo fim a
um silêncio que julguei infindável, ganha a sonoridade gráfica de um chamamento
de criança que ainda não consegue pronunciar «Mãe» dizendo «Ma» para chamá-la
ou dirigir-se-lhe. Foi um esforço hercúleo, não o nego, como o terá sido para a
espécie humana a invenção da linguagem, antes de ter podido recorrer à imitação
e ecolalia, antes de reconhecer que era possível não só fazê-lo como também
repeti-lo. E escrevi-o olhando céu… tateando o azul sem fim pela janela, de
vidraça límpida e plana contra o horizonte, num dia como o de hoje, mas mais
luminoso, solarengo, embora nele viajassem inúmeras nuvens, em movimento
aceleradamente visível, em direção ao sul. O sol brilhava esporadicamente entre
elas, tornando mais brancos os brancos fiapos, iluminando-os aqui e ali,
escondendo-se sob eles acolá.
Depois silabei «ri», o “rê” e o “i” com a mesma
tonalidade grave de hífen insignificante entre dois sons independentes mas
ligados, como convém a uma justaposição que traja a preceito, tipo par que se
quer bem mas não admite perder a soberania e individualidade própria, enquanto
passeiam pela rua do comércio a ver as montras. Ou botaréu de descanso entre o
dentro e o fora, pausa de paradinha antes do remate, antes do passo decisivo,
derradeiro que tocará irremediavelmente o destino, o objetivo a que se
consagrou. Um «ri» entre Ma e Ana. Entre a maneira infantil e a clareza adulta
de invocar o mesmo referente: mãe. Mãe vista pela boca da criança – Ma – e Ana,
que é forma adulta, madura e ancestral de dizer «mãe», somente conhecida por
quem muito estudou, muito aprofundou a origem e significado das palavras, dos
étimos, buscou continuamente o seu significado primordial e absoluto, ousou
discernir as originais do seu percurso e trajeto, de há dez mil anos para cá,
pelo menos, e de como sempre remanescem nas novas utilizações, quais vestígios
do DNA inconfundível no palimpsesto em que habitam. A simbiose da superfície e
da profundidade que o mesmo nome encerra mal se pronuncie…
Escrevi-o depois de muito o ter ensaiado mentalmente,
num número infinito de vezes, de repetições sempre diferentes, sempre novas,
sempre arco-íris de múltiplos sentidos, combinações cromáticas para estados de
alma e emoções também sempre diferentes embora que desejáveis e aprazíveis.
Para dizer o nome certo quanto não teremos todos e todas errado antes? E errar
é sinónimo de viajar sem destino determinado, preciso, definido, importa não
esquecer… Nestas coisas do dizer, do revelar íntimo, não há exceções, nem
sequer para confirmar as regras. Os nomes são a pele das almas. Sem eles todas
são a mesma alma. É ele, o nome, que liberta a alma do anonimato, do ser
ordinário, do vivente indiferenciado. E vi-o mentalmente escrito em som mudo e
interior, mas já exterior, íntimo mas alheio, anos e anos seguidos antes de o
ter realmente escrito na caligrafia do entendimento e da razão, de homem
calejado na pronúncia das letras destrinçáveis e audíveis, e lhe conhece a
pujança como nome e como sombra dele, reflexo em movimento nas profundas e
escuras paredes da caverna da alma e do conhecimento. Só depois é que peguei
num lápis e o desenhei demoradamente, com a borracha bem a jeito para poder
apagá-lo num ápice se entrasse em pânico ou alguém me surpreendesse na
operação. E mesmo assim não o escrevi todo duma vez, mas cada letra em
separado, sem qualquer ligação imediata entre si, não como grupo da mesma
família, mas como agrupamento que o acaso juntou na mesma linha. Na mesma
superfície liza e insignificante. No mesmo empedrado dum piso sem história nem
alinhamento discernível. Letras independentes que desconheciam a sintaxe que as
havia de unir um dia… Incluindo aquelas que se repetem, os aaa, num triplicado de contagem de partida para uma corrida de alta
competição. Um, dois, três – e zás, ei-las que disparam em direção à meta
determinada.
Após essa primeira grafia treinei diariamente.
Uns dias só em casa, outros também nos transportes públicos, nos hipermercados,
nos cafés, nas esplanadas, nas bibliotecas, nos jardins. Continuo a fazê-lo
invariavelmente. Creio que é essencial que o faça para o merecer. Pode ser
apenas uma horinha, como posso atingir duas ou três somando os pequenos
períodos de tempo em que o faço. Cheguei àquela destreza e habilidade que
unicamente conseguem os especialistas, que é dizê-lo (mentalmente) ainda que
fazendo outras coisas. Sobretudo se estou escutando alguém que não me suscita a
mínima atenção, ou suscitando-a me não empenho em dar-lhe tamanha
evidência.
Porque quando te escrevo mentalmente o nome no
recheio das horas mastigo os minutos com redobrado prazer, lenta e
demoradamente, saboreando a liquidez analógica do tempo como um néctar de
excelência. E defino-te sempre com a alma cheia de nós ainda mal despertados,
os corpos por desenrolar do enleado da noite, sílaba a sílaba e poro a poro, na
sofreguidão desacautelada da mútua dádiva/entrega que nos tornou irrefutáveis.
Foi o nosso naufrágio incontinente.
Agora, que já o digo de mim para comigo, se
houvesse como dizer-to, a eternidade seria apenas o dia seguinte. Assim,
escrevo-to, e ela é sempre a mesma noite, embora repetida dia após dia sem
cessar, confluindo inequívoca para cada segundo de ti.
É um tanto esquisito, ridículo, pouco asizado,
reconheço… Apaixonei-me por um nome! Felizmente era o teu.
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quinta-feira, janeiro 22, 2015
A CARTA ESQUECIDA
A
CARTA ESQUECIDA
“Mas as
crianças nascem de duas vozes que se encontram,
e não só de
dois corpos (...) ”– TEOLINDA GERSÃO, in O Silêncio
Se quando uma pessoa se levanta tarde, quer tomar
banho mas não tem água, sai à rua para beber café e não há luz, e na esquina
entre a residência e a pastelaria lhe cai, vinda das alturas agrestes do plúmbeo
céu, à louquérrima velocidade de um meteorito, a larada ocre e esbranquiçada de
uma ave em altos voos, sobre o braço de confirmar as horas, ao contorcê-lo
nesse gesto do cotovelo em riste a quilhar os flancos ao momento, e lhe
esborrata o pulso e o relógio, ou se instala ansioso num banco do passeio
público para anotar as desgraças que lhe aconteceram, em apontamento derradeiro
e testemunho duma biografia que roçagou as faldas da tragédia, incluindo nos
mais ínfimos pormenores, mas não o pode fazer porque se esqueceu da
esferográfica em casa, coisa que nunca antes lhe acontecera, reparando enfim
nesse instante, contristado, que a equipa de futebol da sua predilecção joga ao
fim da tarde com o time rival, derby local ainda por cima, na disputa dum modesto segundo
lugar na tabela classificativa, então o conveniente mesmo é este indivíduo
ingerir um calmante forte, daqueles que põem sem custo qualquer cavalgadura a
dormir, meter-se no quarto, fechado à chave e sem música, sob as mantas e com a
almofada sobre a cabeça, até que o clique do calendário retruque os 01 minutos
das 00 horas e dê entrada ao dia seguinte, e este lhe traga o consolador
esquecimento da data, para que ela jamais se repita, nem sequer na próxima
encarnação... Se!
E mais:
suponhamos igualmente, que ao preparar-se esse mártir para engolir as pílulas,
vai por elas à banca de cabeceira, esviscera as gavetas, em desespero atira ao
chão cada caixa vazia, depois de as esmagar, amarfanhar, espremer e espreitar
duvidoso o seu interior, ainda com a posologia dentro, mas sem encontrar uma
única drageia que tomar, acumulando em si a inaudita raiva da desesperança do
fim do mundo, a agonia do descrédito no futuro, sem encontrar absolutamente
nada parecido com comprimidos, tampouco uma pastilha para o mau hálito que
seja, então que fazer? Sim, que fazer? Sobretudo se esse gajo fosse eu?!...
Exactamente: que fazer? – digam-me!...
Portanto, fui. E meti-me, após a desdita
que acabei de contar, a dar volta aos papéis, à tralha acumulada nas
prateleiras e caixotes, separando uns dos outros sem qualquer critério, embora
que disposto a deitar ao lixo três quartas partes deles, e isto a somar por
defeito!
Ora, de entre os
ditos condenados que ia deitar fora, deparei com uma carta que te escrevi, mas
não chegara a enviar-te. Machucada, enrugada, amarrotada, manchada, ditava-te
uma infinita lista de queixumes, admoestações, menosprezos, além de evidenciar
aquele tradicional amarelecido que o tempo empresta aos escritos esquecidos, e
a quem as recordações incutem novo significado. Aquela tonalidade de nostalgia
que nos prende ao medo de esquecer. O receio de ficarmos abandonados pelos
sentimentos mais profundos.
E não sei como,
dei por mim a ver-me novamente contigo. A conversar. A trocar aforismos e
sorrisos cúmplices. A falar de livros e de música. A escorropichar jornalismos.
A teclar as insondáveis ousadias dos projectos sociais (e pessoais). Enfim, a
sentir que continuávamos do mesmo lado da barricada.
O pior, é que
também comecei a preocupar-me acerca de ti, quase a desejar a responsabilidade
de ter-te a cargo, de tomar conta de ti, cuidar-te, decidir o que te convinha,
o que seria o teu bem ou o teu mal... E, principalmente, a ansiar que este
nunca te acontecesse. O que é uma óbvia parvoíce, considerando que as
superstições, incluindo as de elevado teor de suspeição, raramente se confirmam
conforme os nossos desejos. Ou provavelmente outra forma proteccionista e
paternalista que encapotadamente assume o receio da solidão, a adestra, a
compensa do medo de não termos ninguém para brincar. Há até quem lhe chame
solidariedade... amizade, paixão. Outros, mariquice!
Embora nenhuma
ciência o justifique e subscreva, é um risco superior às nossas capacidades,
admitir que a ternura modifica as condutas. Aceitá-lo, acatar essa
possibilidade viciosa dos afectos, que simultaneamente nos torna adeptos e
dependentes, costuma ser a dilecta consequência que nos impõe ritmos novos,
pulsares inconstantes, estruturação de outras prioridades e motivações. Mas é
inclusive o corte profundo com hábitos e maneiras de estar precedentes. Isto é,
uma autêntica revolução nas nossas consciências, quotidiano e objectivos de
vida. Para nos reconfortarmos, é usual identificar esse sentimento por amor,
arrebatamento e atracção. Ou intimidade. Todavia, pessoalmente, não seria capaz
de o admitir sem reconhecer a característica simplista de tal recurso – ou tais
– que a definição acarreta. Porque essencialmente é um sentimento mais complexo
e intrincado, como que assim mo dita...
Quando
imaginamos que a vida emocional e afectiva se encontra estacionária, eis que o
acaso nos prega outra partida – precisamente aquela que faltava, e jamais
supusemos vir a acontecer-nos, do género totoloto que sai sempre e unicamente a
outrem –, colocando-nos frente a frente, determinando e demonstrando as nossas
comuns fragilidades como aos infantes da plebe, a quem o simples facto de terem
nascido é já de si uma controversa provocação ao destino, quiçá a primeira das
desgraças de entre as demais que a existência lhe reserva!... Ao pensarmos que
mais nada de peculiarmente péssimo (ou de mal) nos poderia vir a surpreender, eis
que o acaso nos volta a jogar um contra o outro, como se fôssemos suas
marionetas, quais seres indiferenciados sem vontade própria, submissos e
obedientes a uma ordem ancestral desconhecida, cuja útil obrigatoriedade em
coisa nenhuma nos beneficia e não vai além do fazer-nos cumprir os desígnios
estabelecidos pelo suserano e senhor das nossas vidas, quer nos caprichos
superficiais como nos fundamentos. E ao caso, unicamente como seus intérpretes
e actores!
Acreditar que
assim seja, em absoluto, pode inclusive não ser argumento válido para
justificar a nossa vontade, nem para subtraí-la, mas sim uma forma de nos
conformarmos com aquilo que a vida nos dá e proporciona. Nem atitude de defesa
quanto à nossa sanidade mental, ou minimamente empenhada e em prol de um futuro
assaz expectante e continuamente imaginado. Utópico. Ideal. Contudo, estabelece
uma urgência, uma imediatez, que nos convoca, estipulando novos graus de
tolerância e, em termos explícitos, de sociabilidade. Outro grau de exigência
na escolha das pessoas com quem nos damos, privamos, preferimos para conviver,
e que tem muito a ver com uma espécie de consanguinidade da alma. Ou, até
mesmo, com aquela determinada maneira de nos expressarmos, de nos vestirmos, de
nos comportarmos, de falarmos e de nos envolvermos – ou tratarmos – com os
demais, que se consubstancializa e traduz enquanto dialecto próprio de ser e
estar. Estilo. Glamour.
Quando digo que
há presenças que nos alteram os dias, obrigando-nos a reflectir acerca do nosso
relacionamento com elas de uma forma mais contínua e premente, não estou a
efectivar qualquer escala de positividade – ou negatividade – objectiva. Estou,
isso sim, a reforçar o pressentimento de que há pessoas que, quer pela atracção
e comunhão que exercem em nós, quer pelos sentimentos que em nós espoletam,
estão superiormente destinadas a preencher, em termos quase absolutos e totais,
a nossa capacidade de empatia, ou seja, de reconhecimento do Outro. Que ocupam
o nosso segredo, a nossa capacidade de criar e usufruir do quarto que é de mais
ninguém, aquele reduto privado a que negamos a entrada seja a quem for, do
quadro que jamais alguém ousou pintar senão nós, ou sequer olhar como nós o
olhamos e compreendemos, cuja existência todos desconhecem, excepto aquela
pessoa que conquistou o direito de lá entrar, sempre que quer e sem bater à
porta. Que tal se afigure bom ou mau, é indiferente, principalmente porque nos
obstrui a lucidez, ao alcançar uma impetuosa imperiosidade tal e tamanha, que a
urgência antes admitida apenas às nossas necessidades vitais, se translada, por
assim dizer, para a presença dela e descodificação dos comos e porquês com que
se apresenta.
Dito de outra
forma. Logo que senti que voltava a gostar de estar contigo, não por aquilo que
dizíamos ou faríamos, nem pela utilidade ocupacional da solidão, e tão pouco
pela mais-valia que a tua presença acrescentava no que aos outros de mim
pensariam, mas sim pelo conforto que o silêncio da tua presença, o simples
saber que estavas comigo e não em qualquer outro lugar, me transmitia – talvez
algo semelhante àquele reconhecido bem-estar pacificador que a noção de voltar a casa nos inspira, depois de uma
longa, desconfortável e cansativa ausência, por exemplo –, bem como pela
tranquilidade de estar com alguém para quem não precisava de justificar nada ou
representar qualquer papel, senão o da minha própria espontaneidade,
apercebi-me imediatamente que continuavas a ser para mim aquela que já houveras
sido, e, provavelmente, sempre foras: a imprescindível. A insubstituível.
Aquela com lugar marcado no nosso coração que ninguém mais pode ocupar –
embora, surpreendentemente, sejamos incapazes de dar nome ou definição exacta
ao sentimento que a ela nos liga!
É claro que
preferíamos que fosse amor, sentimento típico e comum, que normalmente toda a
gente entende saber o que é, muito para além das inúmeras nuances que o
conformam, sistematizam e instituem... Mas que tipo de amor? E porquê só amor e
não outra coisa qualquer?! Porque não preocupação desinteressada?... Ou amizade.
Companheirismo. Compreensão. Prevenção egoísta. Medo simples de nos perdemos um
do outro... Porque não?!...
Cometamos,
então, um pequeno crime, um insignificante delito de lógica... Uma rudimentar
anamnese. Proponho que retornemos ao tempo em que nos conhecemos, na Biblioteca
Municipal, isso, a quando da Comunidade de Leitores! Quem poderia supor que nos
voltaríamos a encontrar, no café, no jardim, na gare rodoviária, nas praças e
ruas da cidade, no cinema documental, nos circuitos quotidianos? E, contudo,
fizemo-lo... Nada havia entre nós, que o justificasse, além do mistério da
diferença! Mal sabíamos o nome das cartas, a cor do baralho, as cambiantes ou
matizes dos humores e motivos, com que nos iríamos jogar, e muito menos as
regras do jogo a que nos propúnhamos. Estávamos em branco quanto a nós e,
sobretudo, quanto aos nós que nos sustinham e ligavam, enleavam na trama do
espanta espíritos que parara de tinir. Mas, por impossível que possa parecer,
em vez de nos desenlearmos da enrascada em que nos metêramos, cada dia
enlaçávamos mais e mais o relacionamento que iniciáramos.
Podia ser
estranha a forma como nos estranhávamos no acelerado do quotidiano comum;
todavia, não o era – e sabíamo-lo. Tendia a assemelhar-se à tentativa de fugir
para a frente, provavelmente renunciando ao misterioso medo que nos causa a
sensação de estarmos condenados um ao outro. De não sermos capazes de aceitar o
nosso destino, simplesmente, pelo bom que ele tinha para nos dar e mostrar,
desacreditando nas facilidades oferecidas, e subscrevendo o pio aforismo
popular que induz as gentes rústicas a não sentir prazer em desfrutar daquilo
que abunda, é de borla, e ninguém forjou, como a natureza, a água cristalina
dos regatos, as matas silvestres, as paisagens coloridas da Primavera, o
chilrear dos pássaros nos trigais e outeiros, o espraiar das águas sobre os
areais dourados, as inúmeras cambiantes que o sol oferece entre o nascer e o
ocaso, a serenidade dos pequenos répteis sobre o penhasco escondido, o ar puro
dos bosques e serranias, o grito ondulante do melro no pomar, e que evidencia
as origens miserabilistas e medievais dum povo acomodado na irresponsabilidade
política, sumariamente reconhecido no quando
a esmola é grande o pobre desconfia. Porque, afinal, mesmo quando nos atirávamos
para o convívio dos desconhecidos, fazíamo-lo na tentativa de angariar
experiência que nos cimentasse, fortificasse, esclarecesse e apurasse, destilando
o soro essencial (e eficaz) para alimentar a relação encetada. Angariávamos
capital emocional que nos solidificasse a quota que ambos detínhamos na empresa
comum: a liberdade de nos sentirmos a viver um em função do outro, e
irremediavelmente. Prò que desse e viesse. E sem esperança absoluta nem recusa
totais... Pese, embora, a relatividade das circunstâncias!
É uma arte
exímia essa, a de nos socorrermos mutuamente desesperançados. Sobretudo, por
nunca termos buscado um no outro a (re)solução para os nossos problemas e
limites, mas estarmos sempre dispostos a contar connosco, eu contigo e tu comigo,
em facilitar-nos os compassos de espera que nos permitissem o novo salto, a
velocidade e balanço suficientes para atingir a altura necessária, pronta,
insuspeita, com que ultrapassar as caprichosas peripécias do ser e estar de
cada um.
Naquele tempo, a
vida não me compreendia minimamente, e eu pagava-lhe na mesma moeda. De pleno
direito e em pé de igualdade, tratava-a tal e qual ela me recebera: com
despropósito, sem um pingo de vergonha e menos de consideração. Até porque, se
ambos existíamos, por que havia de ser eu o obrigado a compreendê-la para nos
facilitarmos a convivência, e não ela também a procurar uma plataforma de
entendimento, que era muito mais velha e experimentada, han?!?... Aliás,
pensava eu, na época, que a reciprocidade era uma lei fundamental à
sustentabilidade, e não um modelo de diferenciação instigador de arritmias e
assimetrismos; o que ainda hoje professo, por sinal, em resultado do que
constantemente me debato com esse desequilíbrio estrutural, que é o de não
saber discernir entre uma lei da vida e uma estratégia dela. É que numa lei as
obrigações são mútuas, na generalidade e universais, enquanto na estratégia, é
somente ao outro que cabe toda a obrigatoriedade (objectiva e operacional). E
se na primeira a existência, a vida, é um réu igual a nós, na segunda, cada
estratega pode também ser juiz, medidor na realização de objectivos e avaliador
de resultados, aferindo da sua eficácia, em termos práticos e concretos.
Portanto, acontecia sentir-me no direito de modificar a vida conforme, tanto e
quanto, ela intentava modificar-me a mim; no que, por ela me torcer, eu a
distorcia!
Apesar de tal
conduta acarretar invariavelmente elevado número de dissabores... Desencontros.
Atropelos. Injustiçamentos. Multas. Manifestas e desvirtuosas idiossincrasias.
Acentuadas desagregações psicológicas. Idiotismos. Pois desconhecia que, se se
aposta, ou nos apostamos, acertar no pleno, exactamente quando nem sequer
estamos habituados a jogar, pode ter muito de sorte inicial, mas não é, nunca
será humano. E eu queria a grande
por cada vez que a tômbola girava... A taluda, logo que te via!
Tu foste a
esperada na sorte, confesso. Era intransigentemente o acaso a ditar-me põe-te a
pau, que desta é que é. Pelo menos, foi assim que o interpretei... na minha
santa ingenuidade. Impreparado para o dia-a-dia, para o consequente nascer,
crescer, criar e morrer da vida, era também incapaz de admitir que não estava
preparado para os outros. Preferia sentenciar que o erro de convívio, ou nas
negociações semânticas, lhes pertencia exclusivamente. Que a incapacidade era
unicamente deles. Ou que o defeito (o ruído) de comunicação estava, sem a
mínima dúvida e incondicionalmente, nas causas que lhe eram próprias,
personalidades, características temperamentais e motivação!
Ora, essa mágica
exalação narcisina, qual propensão neurótica, com que a imaturidade nos faz
acreditar numa inocência imaculada, cartão de crédito ilimitado no banco da
esperança, por tão falsa e absurda, não me deixava enxergar quão importante me
eras. Nem como cada uma das minhas células te pertencia sem qualquer direito de
voto ou opção. Porque ser é principalmente pertencer; e só o somos
verdadeiramente, quando caminhamos libertos e sem receios no cumprimento – e ao
comprimento – da nossa estrada, na execução das quantas passadas que rasgam a
nossa vereda, e a instituem como caminho diariamente conseguido.
Aqui não há deus
nem mandamentos. Há simplesmente o sortilégio de reconhecer o valor da ternura
e carinho. E se para os contrair tivermos que recorrer aos anteriores, então
que o façamos sem remorsos, limites, condicionalismos ou constrangimentos. Pois
nunca é tarde para partir à desfilada no dorso da aventura, e nenhuma há de
maior do que a felicidade de quem amamos. É esse o novo mundo que podemos dar
aos mundos, por quanto perto disto Os
Descobrimentos mais não foram que uma brincadeira infantil!
Porque será que
todas as pessoas que nos aconteceram se voltam a repetir?... Porque nos
conjugamos, a maioria das vezes, no imperfeito e inacabado pretérito da
primeira ocasião. Foi Sartre quem o caracterizou na hipérbole de Os Mortos Sem Sepultura, mas nem
precisava que aí o tivesse feito, para que agora o reconhecêssemos como
verosímil. A sensação de que a humanidade é algo ainda por acabar, sujeito a contínuos
aperfeiçoamentos, miscigenações, cruzamentos de DNA’s, é-nos mais ancestral que
a ideia da existência de sagrados e divinos. Está para lá de todos os lás que
imaginar possamos.
Ninguém pode
apagar o seu próprio percurso sem caminhar de marcha-atrás. E mesmo os que o
fazem pegada após pegada, aproximar-se-ão sempre como quem está de abalada.
Inconscientemente. Com inoportunidade e sem objectivo definido e convicto. Sem
querer, ou porque o não podem fazer de diferente forma, considerando que não
haverá, em seu perfeito juízo, quem opte por agir dificilmente quando pode
escolher a simplicidade. Pelo que se tornarão artigos à margem (da vida).
Alguém que nunca dará sentido e determinação aos nomes que liga, sustenta e
indica... quase gralhas de uma mancha falhada de significado na teia semântica
dos grafismos, acidentes de navegação duma espécie que raramente segurou o leme
de seus destinos, a quem o acaso e a necessidade decretaram os rumos a seguir.
Presentemente
reconheço que posso escrever o teu nome com o sangue da minha voz, sem
blasfemar nem invocar a intimidade do amor em vão. Porque
actualmente também sei quão doloroso pode ser o renegar-te. Quanto significa a
tentativa de esquecer-te, posto que apagar-te de mim é apagar-me contigo. E
sobejamente foi demonstrado já, de régua, compasso e esquadro, que na trigonometria
do ser só se não dá quem se não tem...
Se o tiveres ao
alcance, escuta Chopin no recato de me leres. Há pormenores, apontamentos
melódicos, ressonâncias, ecos, em cada nota que se dilui e extingue, que
pretendem dizer tudo aquilo quanto o calar não conseguiu. Inclusive o calar
gritado, que é essa forma distinta de atirarmos as palavras que não queremos
para fora de nós, as que nos sufocam e inauditas, ou simplesmente deturpadas se
aproveitam das vias de comunicação desimpedidas e preferem pecar eclodindo na
superficialidade física dos sons. Talvez nem valha a pena, mas quem sabe o que
perdeu sem o ter experimentado? Do outro lado da esquina está o resto de nós
que não vimos. É ela o Bojador que nos faltou dobrar, torcer, dar ao jeito de
preferir naufragar a não continuar à tona e uma liberdade interior por
liquefazer. Porque quando a criança é abandonada um dia, irá senti-lo para toda
a vida. Se nos propomos a fazer algo que não fazemos, a escrever uma carta que
não enviamos, a ter um sentimento que não dizemos, estaremos indubitavelmente a
influenciar o restante tempo da nossa existência com um momento incumprido.
Viver é uma
sentença que nos impusemos executar o mais exemplarmente possível. Nem que para
isso, para lavrar essa condenação, nos tivéssemos simultaneamente outorgado juízes
e carrascos, legisladores e meirinhos. Contudo, beleguins de nós mesmos, ao
notarmos como seria demasiado onerosa e árdua a tarefa, resolvemos abdicar da
burocracia interior a que ficáramos consequentemente obrigados, mandatando para
o efeito o tempo e a idade, num horário que o nosso relógio biológico se
indispôs a concretizar e medir. A satisfazer. Foi então que nos adiámos para
melhores dias, esquecendo que quem sobretudo os determina é uma primavera que
não pertence ao calendário das estações, e que nos está adstrita desde o minuto
em que fomos gerados, estipulando a duração e qualidade de cada um dos nossos
genes e células, garantias e salvo-condutos, limites e propensões. Daí que
despertar seja uma consequência dolorosa mas imediata, logo que o biomaquinismo
de precisão toca a rebate. Quer queiramos, quer não. Porque então, nesse exacto
momento, fomos obrigados a reconhecer que não há meridiano que nos propicie
consolo, reduto que nos acolha e acalente, quando vemos o que evitáramos ver, e
admitimos que nada daquilo que nos aconteceu teria acontecido, se tivéssemos feito
o que não fizemos. No meu caso particular, se te tivesse enviado uma carta que
te escrevi mas não meti no marco do correio, esquecendo-a com selo e
endereçada, apenas falha de pernas que a levassem onde ela por si só não podia
ir!...
O sino que soou
logo que te vi, dita-me ainda o alerta de assentar raça. É o instinto a
jurar-me fidelidade. É cada uma das minhas bactérias a assumir a postura de
comando, ou de felino em pose e manobras de caça. Mas é também o remanso
reconhecido de quem regressa finalmente ao seu quintal de ilusão. Ao seu jardim
de sentir-se a salvo. Àquele local onde tudo quanto nos pode fazer mal ou
envenenar possui a doçura, delicadeza, textura, maciez, arrebatamento e aroma
das mais sublimes flores e especiarias... Tudo coisas belas e magníficas que
nos matam por bem (querer).
Nesse claustro
perdido em que deambula e medita o eremita que nos arruma as preces, costumam
ainda florescer ervas das quais desconhecemos a utilidade e fragrância. Foi o
acaso ou a larada de qualquer pintarroxo que aí as plantou? Teremos portanto o
direito de as mondar? Seremos assim tão perfeitos, puros e suficientes, que nos
assista a vocação missionária de jardinar sem elas? Mas, não obstante,
insistimos em regular metódica e cientificamente as estações aos nossos
afectos. Estabelecer o pulsar dos nossos climas. Determinar o ritmo, frequência
e quantidade de cada rega. E esquecemos que não tem a mínima importância saber
o nome e estirpe das plantas a que nos seguramos quando caímos de borco! É por
isso que penso que não devemos apagar as sardas que nos eclodem no rosto e na
pele, pois que muito bem podem elas ser o sinal da nossa outra pele que está
por baixo, aquele que nos forra o íntimo, e que interiormente nos reveste e
protege... No que se iguala a mais uma das razões por que não consigo (nem
permito) esquecer-te, arrancar-te do meu coração adepto. Porque todos somos de
menos para fazer prevalecer a dignidade de cada um, e sabemos que apenas
conseguiremos a originalidade desejada, quando tivermos etiquetado todos os
porquês nas pessoas que os suscitaram.
Sei do pouco,
enfim, de quanto me acode em excesso, numa narrativa que travará as rotas do
indizível por desmentir. Mas não desconheço que dele, e dela, o carinho é
tão-só a ínfima parte. Um tão tudo de tampouco... Um delével toque, um sopro,
um murmúrio sobre a pálpebra cerrada no silêncio de quem adormece sonhando que
sonha, e a sonhar se translada para o coração de quem ama.
Como não
desconheço, ou reconheço igualmente, que não voltarei a esquecer que há brisas
que correm noutras correntes, insondáveis talvez mas assaz escrupulosas, ímpias,
capazes de se insurgirem no quotidiano, determinando-o, influenciando-o muito
para além do que é lógico, compreensível e normal. Tal e qual assim me
aconteceu, que por não ter metido uma carta tua, passei um sábado sem tomar
banho, fedendo, sujo e sem beber café, a cabeça a estoirar e o coração num
pântano, irritado, sorumbático, agoniado, neurótico, a servir de sanita às
malquistas aves que do céu me escarnecem, e não pude escrever uma linha sequer
acerca da catástrofe que me sucedeu, além de, ó desafortuna dos mal nascituros
e desgraçados, a minha equipa predilecta sofreu a pior das derrotas no
campeonato, precisamente com a sua rival no bairro metropolitano, a única cujos
adeptos sabem quem somos porta a porta, e nos vão perguntar com sorrisinho matreiro
a meia haste «então, gostou do joguinho, gostou?...» Esses; sim, esses!
E como se não
bastasse a afronta, eis o mais reles dos castigos mas também a pena
supremamente dolorosa para qualquer prevaricador: o medo. O receio de ser
descoberto. O stress da ameaça. O
ficar recluso em casa e não sair nunca, ou, fazendo-o, apenas furtivamente,
pelas artérias menos frequentadas, colado às paredes e o coração batucando de
meter dó, o vivo pressentimento de que a todo o momento se pode ser vítima e
alvo de emboscada, ataque selvagem e à socapa, investida vingativa dos meus
companheiros de clube, fãs e sofredores da mesma claque ou bancada, que foram
punidos, humilhados, derrotados, achincalhados, vilipendiados comigo e por uma
falta que somente eu cometera: o em tempos não te ter enviado uma carta que te
escrevera. Sim; porque neste mundo tudo está relacionado com tudo. E a minha
culpa com ele, numa rede infinita de nós e elos, onde caem as maiores maravilhas
como as piores tragédias, bastando para as provocar fazermos uma coisa que não
devíamos ter feito ou não fazer outra que devíamos ter feito, assim como me
sucedeu, e muito bem-feita foi, que é para abrir os olhos e jamais cometer a
asneira que cometi, em sonegar-te uma missiva, sequestrando-a inadmissivelmente,
que é como quem diz cometer um execrável e vil aborto, pois que ao furtar a
carta ao seu legítimo destinatário, eu não só evitei que ele conhecesse o que
era dele e devia saber, mas inclusive que duas vozes se encontrassem (a minha e
a tua) e delas nascesse a criança, o significado do futuro, a derradeira
mensagem de carinho no ventre da esperança de quem muito bem se quer.
Por conseguinte,
em nome desse sentimento conto-te isto mas peço-te encarecidamente que o não
divulgues, que não digas a ninguém que o meu clube perdeu por causa de mim, por
favor não digas, que não tenho corpo – sim, sou fraco e insignificante, e
aflige-me a dor... – para aguentar tudo quanto eles (os aficionados) dizem que
querem fazer ao árbitro, aos fiscais de linha, aos jogadores de um e outro
lados, à ministra das finanças, ao treinador e direcção do clube, bem como à
filha da vizinha, que é boa como o milho, mas não sei como é que a claque a
conheceu, pois ela nunca vai ao futebol! Por favor não digas, não digas que eu
sucumbiria certamente, morria sem a menor dúvida do que fora, e não iria parar
ao céu, pois não, ah isso não, que quem morre de um acto deste calibre não
consta que tenha sido escolhido para lá entrar.
Não digas que eu
prometo, sim prometo, nunca mais reter qualquer carta tua e, vê bem, se o
fizeres e eu falecer, então é que jamais terás cartas minhas... Compreendes-me,
não compreendes? Também eu, que aprendi a lição: calar aquilo que queremos
dizer pode transformar-nos a vida num inferno. E que é para não esquecer, a fim
de que outros sábados semelhantes se não repitam!
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