A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras

A aventura das palavras... das palavras... as palavras... as palavras
São o chão em chamas onde as lavras

sexta-feira, outubro 16, 2009

ESCULTURA PESSOANA


Põe os teus olhos sobre o mundo e deixa-o descansar
Como se ele fosse o móvel, a mesa em que repouso os óculos
Os mesmos que vincaram o enorme nariz da humanidade supérflua
Na execução técnica de todos os impérios do colectivo anónimo
Na invenção das navegações modernistas em redor do símbolo.


Eis a chávena; eis a cadeira; eis o cigarro fumegante
Ainda de repensar os lábios que o sustentaram.



São de bronze as pernas forjadas no cruzamento das linhas
Díspares do horizonte sem gaivotas nem navios a sair da bruma
Dum olhar que se solidifica inconfundível para a História.


Depois, como quem já não quer acreditar nem ousa
Desce ao tempo, afoga em azul todos os sonhos e alucinações
E permite que a voz abdique do verbo que a suprime
Em marioneta, modela e manieta, numa cadeia irrefutável.


Toda a solidão do mundo é de menos para consumir
Este grito de árvore perdida na imensidão do betume.
Sou nós quem se ouve dilacerado pelas mecas
Profanas ao gesto explosivo da semente do futuro.
Eis o meu caule de seiva imprópria engarrafada
À pressão dos dias que não chovem o sol que estoira
Na incerteza suculenta dos advérbios inorgânicos que abafam.
Crestados estão os solos dolentes de estio e de suão
Como a pele das mãos que não escrevem o pó, o giz, a ardósia
Nem a esperança, nem a solicitude apagada dos corpos.
Corpos que se dão inteiros na fímbria esculpida do tempo
Mãe: não fervas o meu pranto com couves e nabos e toucinho
Nem permitas à sopa das horas esfriar minha inocência
À deriva como folhas vogando tresloucadas no vento norte.


És a minha terra, que língua bastarda da sorte
Escorrendo dos rios inteiros como pedaços de céu
Abrasador, infernal, boca de expectativa contorcida
Sobreiro de Florbela na trombose do verbo esclerosado e
I m p e r f e i t o


"Mea culpa, mea culpa" e de quem parte e regressa sonhando
Que do Alqueva ao mar, da planície à montanha, atravessa a sageza
Dos heterónimos de quem se está pontualmente soletrando.
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